FAZER LOGINEle apenas me observava, analisando cada uma das minhas reações. Eu estava sendo sincera, embora por dentro tudo doesse intensamente. Levantei-me e disse que precisava me trocar e ir até a casa do meu irmão para contar sobre a gravidez.
Entrei no meu quarto e fui direto para o banheiro. Mais uma vez, aquele nó na garganta me sufocava, e eu precisava extravasar antes de sair de casa. Tirei a roupa e entrei no chuveiro. As lágrimas escorriam silenciosas, misturando-se à água que caía sobre mim.
Tudo o que eu mais queria naquele momento era o apoio do Julian, mas ele sempre havia sido claro comigo — e não seria justo, agora, pedir que ele permanecesse. Quando saí do banho, sentia-me mais leve, embora meus olhos inchados entregassem o quanto eu havia chorado.
Não havia como sair daquele jeito. Vesti uma roupa confortável e me deitei na cama, adormecendo em um sono reconfortante. Quando acordei, já era noite. Evitei sair do quarto — não queria encontrar o Julian naquele momento. Sabia que, ao vê-lo, toda a tristeza voltaria com força total, e eu não estava pronta para enfrentar isso de novo.
Quando a fome apertou, tive que sair do meu esconderijo, mas o Julian não estava no apartamento. Enquanto preparava um sanduíche, ouvi a porta da sala se abrir. Meu coração disparou, mas decidi que não me comportaria como uma criança, correndo de volta para o quarto. Para meu completo alívio, era apenas a Manu.
— Oi, Amanda! Como você está? Esses plantões andam tão malucos que mal tenho conseguido te ver! E aí, como está seu irmão? E o processo da gravidez? — disparou ela, me enchendo de perguntas de uma vez só.
— Calma, amiga, é muita pergunta de uma vez só — respondi com um sorriso cansado. — Estou bem… e ligeiramente grávida. Quanto ao meu irmão, ele está cada dia mais debilitado. De vez em quando, passa muito mal, com dores intensas, mas continua se recusando a voltar para o hospital.
— Caramba! Sinto muito pelo seu irmão… Espera aí, você disse que está grávida? Quer dizer que deu tudo certo?
— Sim, amiga! Estou grávida — respondi com um sorriso, passando a mão na barriga.
— Nossa... nem sei o que dizer numa situação dessas. Parabéns? Ou só fico feliz porque deu tudo certo, mesmo o bebê não sendo seu de fato?
Comecei a sorrir enquanto ela me envolvia num abraço. Nossa amizade sempre foi assim — mesmo sem nos vermos com frequência, uma se alegrava com as conquistas da outra. Depois, ela me olhou com calma, analisando-me.
— Você estava chorando? — perguntou, olhando com mais atenção para mim.
— Você sempre consegue ver o que eu tento esconder. É complicado...
— O que é complicado, amiga? Você queria tanto que tudo desse certo e, quando aconteceu, eu te vejo chorando e triste.
— No processo, pedi o Julian, Manu. Ele vai trabalhar em outro hospital no exterior, em Toronto.
— Não é verdade que ele está indo embora por causa disso, né? — ela perguntou, estupefata.
— Ele recebeu uma proposta, amiga. Quantos de nós não torceríamos para que algo assim acontecesse com a gente? A chance de se destacar no exterior, especialmente na área dele, com a oportunidade de participar de uma excelente pesquisa em neurocirurgia.
— Mas… — ela tentou argumentar.
— Sem mais, Manu. Não seria justo pedir para ele ficar. Ele até me convidou para ir com ele, mas eu teria que desistir do procedimento, e não concordei com isso. Fiz minha escolha, e ele fez a dele.
— A gravidez dura cerca de nove meses, não a vida toda. Você não está pedindo para ele criar um filho de outro homem, Amanda. Você está apenas pedindo a chance de realizar o sonho do seu irmão. Depois disso, a vida segue.
— Em nove meses podem acontecer muitas coisas, inclusive nada, Manu. Fui a primeira a incentivar que ele fosse; é uma grande oportunidade, e não sabemos se daqui a nove meses haverá outra igual. Eu o amo, e é por isso que estou sofrendo, mas também estou feliz pela conquista dele e pela chance que recebeu.
— Só penso que ele está sendo um tolo por perder a mulher que ama por medo. Ele teve essa mesma oportunidade assim que nos formamos, mas recusou o convite. Decidiu ficar por sua causa, e agora, justamente quando você mais precisa dele, resolveu partir? Ele está sendo um escroto — afirmou ela. E foi exatamente nesse momento que o Julian chegou, ouvindo o final da nossa conversa.
— Quem foi o cara que te deixou tão chateada a ponto de você chamá-lo de escroto, Manu? — perguntou Julian, sem perceber que ele próprio era o protagonista da nossa conversa. Eu sabia que aquilo não terminaria bem.
A Duda era uma amiga maravilhosa, mas muito sincera, e sinceridade demais nem sempre era a melhor solução, podendo acabar machucando as pessoas.
— Você, Julian! Está se revelando um cara totalmente escroto — afirmou Manuela.
Julian me lançou um olhar confuso, depois voltou a encará-la, como esperando que ela explicasse o motivo daquele comentário. A expressão descontraída dele rapidamente mudou, tornando-se séria, enquanto nos encarava fixamente.
— Julian, você já tinha recebido essa proposta de trabalho em Toronto meses atrás? — perguntei, decidida a confirmar o que minha amiga havia dito.
— Sim, Amanda!
— E por que você não aceitou? — perguntei, sem conseguir entender.
— Porque eu queria construir uma família com você! Mas agora tudo mudou, então decidi aceitar o convite que havia deixado em suspenso antes.
Olhei para a Manu, e ela simplesmente deu de ombros, como quem diz: “Eu te avisei.” Voltei o olhar para Julian, mas já não conseguia mais enxergar o homem que eu pensava que ele fosse.
Será que o fato de eu ter engravidado para realizar o sonho do meu irmão, que poderia morrer a qualquer momento, interferiu no sonho que ele tinha para nós?
Eu carregava no ventre um filho que não seria meu, com a esperança de realizar o sonho de vida do Felipe, meu irmão. Não me deitei com outro homem, nem estava pedindo para ele assumir a criança.
Seriam apenas nove meses, não uma vida inteira. Ali, vi um homem diferente daquele que eu conhecera antes, e notei, pela primeira vez, um olhar carregado de preconceito — não era só medo que havia ali. Então, simplesmente deixei a cozinha sem provar meu sanduíche. Minha fome desapareceu, dando lugar à decepção que eu sentia.
Um mês havia se passado desde a data do evento beneficente. Conseguimos finalmente equilibrar nossas agendas e aproveitar uma semana de férias que Théo transformou em nossa lua de mel.Ele me levou ao Marulhos Resort, em Pernambuco, Brasil, onde possuía um flat.O lugar era simplesmente incrível, a poucos minutos da famosa Praia de Muro Alto, com suas águas calmas que, na maré baixa, formavam piscinas naturais.As piscinas do hotel eram maravilhosas, com serviço de bar molhado, enquanto as acomodações cinco estrelas e a gastronomia de dar água na boca deixavam a experiência ainda mais especial — principalmente para mim, grávida e ávida por sabores.No entanto, preciso confessar — o local que mais aproveitamos durante toda a estadia foi, sem dúvidas, o quarto.Sei que algumas pessoas podem me criticar por isso, mas estar com um homem como Théo e não aproveitar cada instante ao lado dele seria um desperdício.Claro que aproveitamos um pouco de tudo durante a viagem, e nosso último dia f
Estava nervosa e com medo de falar em público para tantas pessoas, especialmente em um momento tão especial como aquele, e ainda mais assumindo o papel importante de esposa do diretor do Hospital Northbrook.No entanto, nunca me acovardei diante de nada na vida — e não seria agora que isso aconteceria.— Boa noite, pessoal! Tenho uma pequena noção do que essas famílias enfrentam todos os dias. Há dois anos, perdi meu irmão para essa doença. Não é fácil, muito pelo contrário: ela é devastadora. E não atinge apenas o paciente — destrói também todos que estão ao seu redor.Naquele momento, lembrei do Felipe, de sua luta, da nossa batalha juntos e de todos os momentos que compartilhamos.— Diante disso, posso afirmar que a noite de hoje é uma verdadeira celebração de esperança para essas crianças. Não poderia deixar de agradecer a confiança que depositaram em nós e a grandiosidade dos gestos anônimos, feitos sem alarde, sem esperar nada em troca…Cada gesto, por menor que pareça, tem o po
Nesse momento, ela retribuía o beijo dele, e eu me peguei emocionada com a cena. Menos de um minuto atrás estava sorrindo, e agora as lágrimas já rolavam pelo meu rosto.Só podiam ser os hormônios. Saí do quarto, deixando os dois se entenderem. Assim que cheguei à sala, Olívia me olhou com atenção.— Você também tá dodói, mamãe? Não chola, eu cuido de você! — disse, antes de me envolver em um abraço apertado. Eu correspondi, sorrindo diante de tanto carinho.Depois de quase uma hora, meus amigos finalmente saíram do quarto.Eu estava na sala, distraída no celular, quando Manu se jogou no outro sofá, os olhos visivelmente inchados. Logo em seguida, Lucas sentou-se ao lado dela com um sorriso enorme no rosto.— Você está péssima, amiga! — falei, rindo da situação.— Tenho certeza de que vou precisar de uma máscara de pepino mais tarde. Não posso aparecer no evento amanhã com os olhos assim — respondeu, e eu apenas assenti em concordância.— Já decidiram o que vão fazer? — perguntei. Ela
Após me examinar novamente e confirmar que eu estava bem, a médica me deu alta. Julian, ao meu lado, permanecia em silêncio, enquanto eu ainda estava em choque. Quando chegamos à recepção do hospital, ele me fitou.— Quer que eu chame o Dr. Almeida? — perguntou Julian, sem saber exatamente o que fazer.— Não, Julian, não precisa — respondi. — Estou bem, apenas um pouco em choque, mas vai passar. Vou até o consultório da Dra. Ella, preciso falar com ela.— Então vou te acompanhar — insistiu. — Você ainda não parece bem. Tem certeza de que não quer que eu chame o Dr. Almeida?— Não precisa, Julian — afirmei, mais uma vez.— Pelo que parece, essa gravidez não foi planejada, mas tenho certeza de que ele ficará feliz com isso. Eu, pelo menos, ficaria — disse, enquanto percebia o olhar dele fixo em mim.— Realmente não foi, mas não tenho dúvidas de que o Théo ficará feliz com a notícia. Minha vida andou muito agitada nos últimos meses… eu só preciso de um tempo para processar tudo isso — ex
Na verdade, era um vestido de noiva, completamente branco. Nada de volumoso ou cheio de camadas como os vestidos tradicionais de capa de resvista.O vestido era elegante e exuberante, embora claramente de noiva. O busto era todo em renda sofisticada, enquanto a saia caía solta e fluida, com um caimento perfeito. Precisei admitir — era realmente lindo.— Filha, esse vestido é para quem vai se casar. Mamãe vai apenas a uma festa, então não pode ser esse.— Opa, opa, opa. Nada disso, Amanda Bernardes. Você não vai apenas a uma festa — disse Manu, balançando a cabeça enquanto notava a troca de olhares entre minha mãe e a tia Samara. — Você está indo para A festa. E tenho que confessar: minha afilhada tem muito bom gosto. Você vai provar esse vestido, ponto final.— Manu, não inventa — protestei. — Esse é um vestido de noiva. Não faz sentido eu prová-lo.— E se este for o vestido que ficará perfeito em você? — Manu perguntou, insistindo. — Você não paga nada para experimentá-lo, e tenho ce
Com Manu já melhor, voltamos para a sala e retomamos nossa noite em família, entre risadas e conversas animadas. A atmosfera estava leve e acolhedora, e por um momento pude simplesmente aproveitar aquela sensação de pertencimento.Em dado momento, minha mãe se aproximou de mim, com um sorriso suave, mas seus olhos estavam um pouco apreensivos, como se quisesse compartilhar algo importante naquele instante.— Filha, preciso lhe contar uma coisa, mas não quero que se chateie com a notícia — disse minha mãe, e todos nós nos voltamos para ela, atentos e curiosos.— O que aconteceu, mamãe? — perguntei, preocupada e curiosa ao mesmo tempo.— É sobre a Lara — ela começou, hesitante. — Encontrei-a no mercado. Para minha surpresa, estava casada e grávida. Sua barriga bastante saliente.— A notícia não me pegou de surpresa, mamãe, afinal, sempre desconfiei que o problema entre a Lara e o Felipe, na época, estava justamente no fato de ela não querer engravidar.— Mas me diga, filha, por que deci







