FAZER LOGINCapítulo 2
Alex Farias Mal abro os olhos e já os fecho novamente, gemendo de raiva. O sol invade o quarto sem piedade, batendo direto na minha retina como um ferro em brasa. A ressaca lateja forte na minha cabeça, cada batida do coração parece uma martelada atrás dos olhos. Rolo para o lado e vejo Loke ainda apagado, o braço jogado sobre o travesseiro. É então que sinto a ausência. O espaço vazio entre nós na cama grande. Sento-me bruscamente. — Lara? — chamo, a voz rouca. Silêncio. Levanto-me rápido demais e o quarto gira. Sento-me de novo, esperando tudo voltar ao normal, para só então me levantar outra vez. Vou até o banheiro. As roupas dela não estão mais lá. Nem o vestido curto, nem a calcinha rendada que eu tinha tirado com os dentes na noite anterior. — Porra... — Uma gatinha ligeira, hein? — A voz de Loke soa atrás de mim, preguiçosa, mas com um tom de surpresa. Ele se senta na cama, o cabelo bagunçado, os olhos semicerrados. Eu me viro para ele. — E eu pensando que a gente ia ter mais uma rodada antes daquele circo de casamento. Loke solta uma risada baixa, quase amarga, enquanto se levanta e começa a se vestir. — Você ainda está pensando em ir mesmo? — Você não? — pergunto, erguendo uma sobrancelha. Ele dá de ombros, aquele sorriso torto de sempre, o sorriso de quem não liga pra nada e pra ninguém. — Ver aquele moleque mimado arrastando uma coitada pro altar não tá exatamente no topo da minha lista de diversões. Eu rio, porque penso exatamente a mesma coisa. — Acha que o Max mandaria nos matar se a gente furasse? — Se procurar direito, já deve ter um atirador de elite posicionado no telhado de algum prédio, só esperando a gente dar mole. — Loke pega a garrafa de uísque e serve dois dedos num copo, mesmo sendo oito da manhã. O barulho do líquido me faz apertar os olhos. — Mas me fala... o que você achou dela? — pergunto, observando-o. Ele para com o copo a meio caminho da boca, pensativo. — Ela era diferente. Parecia... quebrada. Sabe quando a pessoa tá sorrindo, mas os olhos parecem mortos? — Ele vira a dose de uma vez. — A gente deu atenção suficiente pra ela, eu acho. — Se tivesse sido suficiente, ela não teria fugido antes de a gente acordar. Loke me encara por um segundo e depois ri, balançando a cabeça. — É. Você tem um pontos Ele b**e o copo no aparador com força. — Vamos nos arrumar. Quanto antes chegarmos naquele circo, mais cedo podemos voltar pra nossa vida. Nos arrumamos sem muito esforço. Ternos escuros, camisas bem cortadas.O filho mimado de Max não merece nosso respeito, mas meu irmão mais velho sim, e o evento estava cheio de empresários que nos interessavam. E nem eu nem meu Loke perdíamos um bom negócio. Quando estaciono em frente à igreja, o ar já parece mais pesado. Loke está tenso ao meu lado, os dedos tamborilando na perna. Fazia anos que ele não pisava em uma igreja. — Pronto? — pergunto. — Não tenho opção — responde, seco. Descemos. O cheiro doce das flores invade tudo assim que entramos: jasmins, rosas e lírios em arranjos exagerados. Velas demais. Luzes demais. Risadas altas demais para um lugar sagrado. Parecia mesmo um circo, como Loke tinha dito. Fomos direcionados pela recepcionista na fileira reservada para “familiares”. Loke resmunga ao meu lado: — Será que vai demorar? Já tô louco pra cair fora. Mal ele termina a frase e uma música suave começa a tocar. Todos se levantam. André entra com a mãe, peito estufado, sorriso arrogante. Quando passa por nós, ele nos dá uma piscadela. Loke bufa atrás de mim. Então a marcha nupcial começa. Todos os olhares se voltam para o fundo da igreja. As portas duplas se abrem lentamente. E o mundo para. É ela. Lara. A mesma garota que gemeu nossos nomes poucas horas antes. A mesma boca que nos beijará com desespero. O mesmo corpo que se contorcera entre nós dois. Ela caminha devagar, linda demais no vestido branco, mas com os olhos vazios. Exatamente como Loke havia descrito: quebrada. Sinto o ar fugir dos meus pulmões. Ao meu lado, Loke fica rígido como pedra.Capítulo 81 – Máquina Violeta Matos Eu acordei com a sensação de que os seios estavam em brasa. A luz da manhã entrava macia pela fresta da cortina. Julieta ainda dormia de lado, a mão protegendo a cicatriz. Os bebês estavam nos berços, quietos por um milagre temporário. Pietro estava sentado na poltrona, o celular na mão, a expressão concentrada. Quando percebeu que eu tinha aberto os olhos, veio até a cama na hora. — Bom dia — ele falou baixo, já ajeitando o travesseiro atrás das minhas costas. — Como estão os seios? Eu nem consegui mentir. — Parece que alguém passou fogo neles. Ele fez uma careta de dor alheia e mostrou a caixa que estava em cima da cômoda. Nova, ainda lacrada. — Eu pedi de madrugada. Chegou agora pouco. É a melhor bomba tira-leite que existe. Elétrica, silenciosa, com diferentes potências. A consultora recomendou. Vocês vão conseguir descansar os peitos um pouco sem deixar os meninos sem leite. Eu olhei a caixa e senti os olhos arderem. Não era só pelo pr
Capítulo 80 – Primeira Noite Pietro Farias A casa finalmente ficou silenciosa perto das onze da noite. A família grande tinha se despedido aos poucos. Loke e Alex foram os últimos a sair, depois de me olharem nos olhos e repetirem “qualquer coisa, a gente volta”.minha mãe ficou no quarto de hóspedes. A vó Clara se acomodou no quarto ao lado do nosso, a porta entreaberta “só por precaução”. Ana e a cozinheira já tinham se retirado. Sobrou só o essencial. Eu fechei a porta do quarto principal com cuidado. Violeta estava na poltrona de amamentação, o pequeno Pietro no colo, tentando fazer o encaixe de novo. Julieta estava na cama, Pietra contra o peito, o rosto franzido de dor. As duas estavam pálidas, os cabelos presos de qualquer jeito, as camisolas de botões abertas. O cheiro de leite, sabonete e cansaço impregnava o ar. Eu me ajoelhei entre as duas. — Fala a verdade. Tá doendo muito? Julieta soltou um riso curto e sem humor. — Parece que alguém esfregou lixa nos me
Capítulo 79 – Alta Julieta Matos A alta veio no final da manhã do terceiro dia. O médico assinou os papéis com calma, explicou os cuidados da cesárea pela terceira vez e olhou para Pietro com seriedade. — Qualquer sinal de febre, sangramento excessivo ou dor forte demais, volta imediatamente. E as meninas precisam de repouso absoluto. Pietro apenas balançou a cabeça, o maxilar travado. Ele já tinha decorado cada instrução. Eu estava sentada na beira da cama, o corpo ainda pesado e dolorido, enquanto a enfermeira ajudava Violeta a se vestir do outro lado. Os dois bebês dormiam nos berços, alheios ao movimento. A família Farias inteira esperava no corredor. Quando a porta se abriu, Loke e Alex se aproximaram primeiro. Lara já segurava uma bolsa térmica. Sofia, Murilo e Miguel carregavam as sacolas de presente que ainda não tinham sido abertas. Naty, Israel e Rafael vinham logo atrás. Camille e a vó Clara ficaram mais perto, prontas para qualquer coisa. — Devagar — Pietro mandou
Capítulo 78 – Família louca Julieta Matos A dor da cesárea latejava baixo e constante quando eu abri os olhos no dia seguinte. O quarto duplo do hospital estava silencioso, só o som suave dos monitores e a respiração calma de Violeta na cama ao lado. Eu virei a cabeça com cuidado. Pietro estava sentado na cadeira entre as duas camas, o corpo inclinado para a frente, os cotovelos apoiados nos joelhos. Os dois berços pequenos ficavam logo ao lado dele. Pietra dormia no berço da direita, enroladinha no paninho rosa. O pequeno Pietro dormia no da esquerda, o rostinho sereno. Ele não tinha saído dali a noite inteira. Os cabelos estavam bagunçados, a camisa amassada, as olheiras profundas, mas o olhar… o olhar era o de um homem que tinha encontrado o sentido de tudo. Quando ele percebeu que eu estava acordada, sorriu de um jeito cansado e luminoso. — Bom dia, minha fera. A voz saiu rouca de quem quase não dormiu. Eu estendi a mão e ele a segurou na hora, apertando com cuidado.
Capítulo 77 – Pietra e Pietro Pietro Farias A porta da sala de recuperação se abriu com um clique suave. Eu entrei com as pernas ainda trêmulas. O coração batia tão forte que eu sentia o pulso no pescoço, nos dedos, atrás dos olhos. O cheiro de antisséptico misturado com algo mais suave, sabonete, pele quente, vida, me atingiu de uma vez. A primeira coisa que eu vi foi Violeta. Ela estava deitada, a cabeceira da cama levemente elevada, o rosto pálido, os cabelos pegos num coque frouxo. Os olhos se abriram quando me ouviu. Um sorriso cansado, mas verdadeiro, apareceu nos lábios dela. — Pietro… A voz saiu fraca. Eu fui até ela em três passos e me abaixei, segurando o rosto dela com as duas mãos. Beijei a testa, as pálpebras, a boca com um cuidado quase desesperado. O gosto de lágrimas,minhas e dela, se misturou. — Eu estava com tanto medo — confessei contra a pele dela. — Tanto medo, meu amor. — Eu também — ela sussurrou. — Mas a gente conseguiu. Do outro lado da sa
Capítulo 76 – Cesariana Pietro Farias Seis meses depois. O grito de Julieta cortou a madrugada como uma lâmina. Eu acordei num segundo. O corpo já estava fora da cama antes mesmo da mente processar. Violeta estava sentada, as duas mãos agarradas a barriga enorme, o rosto pálido e suado. Julieta se curvava para a frente, um gemido longo e rouco saindo da garganta. — Pietro… — a voz de Violeta saiu quebrada. — Está doendo. Está doendo demais. Eu liguei a luz. O relógio marcava três e dezessete da manhã. Em menos de um minuto eu já tinha o telefone na mão e ligava para o hospital. — É o Sr. Pietro Farias. Minhas esposas entraram em trabalho de parto. Quero a equipe completa pronta. Agora. A vó Clara apareceu na porta do quarto com o roupão amassado, os cabelos brancos bagunçados. Fazia dois meses que ela morava conosco. Tinha fechado o sítio, deixado aos cuidados de uma senhora de confiança que eu mesmo paguei, vó Clara veio para cuidar do resguardo das meninas. ela olha







