INICIAR SESIÓN(Narrado por Sergio)
Alguns dias se passaram e confesso que aquela coisinha linda e deliciosa vestida de jaleco não me saía da mente. Sou casado, mas o que poucos sabem é que meu casamento é só de fachada. Tentamos manter as aparências em nome de nossa parceria nos negócios e para evitar escândalos na mídia. Por causa disso, sempre mantive todos os meus casos muito bem escondidos. Bem, isso tudo eu fazia antes, quando ainda tinha algum respeito por ela como pessoa. Mas, de um tempo para cá... muitas coisas mudaram. E depois do que aconteceu, até mesmo minha antiga amizade por ela ficou totalmente abalada. Hoje depois de mais um dia pensado na doutorinha, percebi que meu interesse por ela também é diferente, é algo bem maior do que pensei, ela não sai dos meus pensamentos. Não que acredite em amor, mas acredito piamente no que o corpo e a necessidade podem nos fazer. E eu necessito ter aquela mulher na minha cama. Preciso provar cada pedaço dela, desvendar cada centímetro dessa aparente pureza que ela exala. Quero Hellen Bennett como minha amante, agora mais do que nunca. Porém, primeiro, preciso descobrir como conquistá-la, visto que já ficou mais do que óbvio que ela não se impressiona com poder ou dinheiro. Hoje, descobri uma oportunidade de ouro. Maurizio Salvatore, o dono do Hospital Memorial Parkland, onde ela trabalha, está desesperado por investidores para ampliar a ala de oncologia e está pedindo colaboração aos sócios. Achei a desculpa perfeita. Vou aproveitar essa pequena oportunidade para falar de negócios, mas meu único objetivo real era só ver ela. — Tenho uma reunião rápida com a diretoria do Hospital Memorial Parkland — menti para minha secretária, num tom que não admitia questionamentos. Percebi a confusão no seu olhar. Com razão. Eu jamais ia a essas reuniões pessoalmente; sempre a mandava no meu lugar para me representar. A presença do CEO da Vance Holdings em uma reunião de rotina era algo sem precedentes. A reunião foi um mero trâmite. Assenti, investi uma quantia irrisória para meus padrões e mal consegui me concentrar nas palavras de Salvatore. Minha mente estava em outro lugar. Mal terminou, dirigi-me à ala pediátrica. Meus passos ecoavam no corredor silencioso do hospital, mas meus olhos só procuravam uma pessoa. E a encontrei. Exatamente como a imaginei: encostada na mesa de enfermagem, a testa franzida em concentração enquanto preenchia um prontuário. Como um bom caçador que volta à toca da presa, me aproximei. Interceptei seu caminho. — Doutora Bennett — disse, minha voz soando mais suave do que o habitual. — Só queria agradecer novamente pelo Liam. Liguei para Mary, e ela disse que ele melhorou rapidamente em dois dias. Atribuo toda a recuperação aos seus cuidados. Ela olhou para mim, e pude ver nos seus olhos verdes que ela percebeu perfeitamente que meu objetivo ali não era apenas agradecer. No entanto, sendo a profissional que é, ela apenas sorriu educadamente. — Fico feliz em saber, senhor Vance. O Liam é um guerreirinho. Não precisa agradecer; só estou fazendo o meu trabalho. E antes que eu pudesse formular outra frase, ela fez um pequeno aceno com a cabeça e se virou, continuando seu caminho. Deixou-me ali, no corredor, mais obcecado do que nunca. A caçada, definitivamente, tinha começado. Pensei aborrecido. E enquanto a vi se afastar, na curva do corredor, uma fúria fria e uma frustração aguda se misturaram dentro de mim. Eu não estava acostumado a ser ignorado. E aquela negativa silenciosa, aquele desvio educado, era um desafio direto à minha autoridade. Foi então que uma ideia surgiu na minha mente. Uma ideia que, até mesmo para um homem como eu, acostumado a cruzar linhas éticas em nome do lucro, parecia se arrastar por um território perigosamente sombrio. Era uma violação de privacidade, um passo além do limite aceitável mesmo para os meus padrões. Mas o desejo por aquela mulher estava sob a pele, uma obsessão que já havia raízes profundas. E quando estou disposto a ter algo, nada me para. Nem a moral, nem a ética, muito menos remorsos insignificantes. Pegando o celular, liguei para um número que não era salvo, mas que eu conhecia de cor. De longas datas. — Edward Calvin? — disse, assim que a linha atendeu. — Senhor Vance. Pois não? — a voz do outro lado era neutra, profissional, quase robótica. Era o que eu pagava para ouvir. — Esteja na minha sala em trinta minutos. — Sim, senhor. Estarei lá. Nem precisei me preocupar em dar detalhes. Edward Calvin era o melhor investigador particular que o dinheiro podia comprar. Discreto, eficiente e, o mais importante, completamente amoral. Ele não fazia perguntas; apenas entregava resultados. Trinta minutos depois, ele estava sentado à minha frente na minha sala de reuniões, com vista para o skyline de Dallas. — Preciso de informações — comecei, dispensando qualquer preâmbulo. — Hellen Bennett. Médica pediatra do Memorial Parkland. Vinte e poucos anos. Quero saber tudo. Gostos, hobbies, rotina, amigos, relacionamentos passados. Tudo. Ele nem pestanejou. Apenas anotou em um bloco de notas antiquado. — Alguma preocupação específica, senhor Vance? — Ela não é... impressionada pelo óbvio — expliquei, minha voz carregada de um misto de irritação e fascinação. — Dinheiro, poder... parece ser irrelevante. Preciso encontrar a chave para ela. A fraqueza. Edward acenou com a cabeça, entendendo perfeitamente a caça. — Entendido. Relatório preliminar em 48 horas. Em menos de dois dias, um arquivo P*F chegou ao meu email pessoal. Abri-o com uma certa ansiedade ridícula quase adolescente que não sentia desde minha primeira aquisição hostil.Eram meticulosos sobre ela: Lendo apenaa o suficiente sobe ela, senti um triunfo perverso. Então percebi. Não era sobre presentear. Era sobre entender. Era sobre provar que eu era diferente, que eu via além do jaleco. Era sobre invadir sua mente antes de invadir seu corpo. No dia seguinte, uma entrega discreta chegou ao setor de pediatria do hospital. Não foi uma encomenda grande ou chamativa. Apenas uma cesta singela de gérberas amarelas — sua cor favorita, segundo o relatório – e um livro. Não era qualquer livro. Era uma edição de capa dura, em português, das poesias completas de Adélia Prado, importada diretamente do Brasil. Nada exagerado. Nada que gritasse "sou um magnata". Apenas algo genuíno. Ou, pelo menos, a ilusão perfeita de genuinidade. Junto, um cartão simples. Nele, escrevi à mão: “Para a poesia que você lê, e a que você pratica todos os dias. Espero que goste. S.V.” E abaixo, discretamente, meu número de celular pessoal. Poucas horas depois meu celular pessoal, que quase nunca toca, vibrou com uma mensagem de um número desconhecido. “Obrigada, Senhor Vance. Como o senhor sabia? Adélia é minha paixão secreta. Isso foi... inesperado.” Segundos depois, uma foto chegou. Era um meme de um gatinho abraçando um livro, com a legenda “My heart is full” (Estou comovida). Quase pode sentir o gosto da vitória. Era ácido e doce. Eu havia invadido sua privacidade, violado seus limites, e usado informações roubadas para manipular seus sentimentos. E funcionou perfeitamente. Respondi, meu dedo deslizando sobre a tela com a precisão de quem fecha um negócio de milhões: “Fico feliz que tenha gostado, Doutora. Mas, por favor, me chame de Sergio. Um café, então?” A resposta não veio imediatamente. No entanto, mordi os lábios enquanto olhava para tela, pois já tinha certeza da resposta. Quando o celular vibrou novamente, dei um sorriso de vitória, era a confirmação que eu buscava. “Ok, Sergio. Aceito o café” Deixei o celular sobre a mesa e olhei para a cidade através do vidro da minha janela. Um sorriso frio e vitorioso cruzou meus lábios. Como pensei a caçada estava só começando. E eu nunca, jamais, perdia.Narrado por Anya Dezembro… Três dias para o Natal. E eu acabava de perder mais um dos meus pequenos. As pessoas dizem que médicos “se acostumam”, mas isso simplesmente não é verdade. Não importa quantos anos eu trabalhe na oncologia infantil — nunca vou me acostumar com o som dos pais desabando, com a sensação de fracasso, com o vazio que a morte deixa na nossa ala. Eu estava destruída. A primeira coisa que fiz foi ligar para Hellen. Só ela conseguia me tirar daquele buraco escuro onde eu sempre caía quando perdia um dos meus anjinhos. Quando desliguei, me senti um pouco menos pesada. Com o coração doendo, fui entregar os presentinhos de Natal para as outras crianças. Ganhei beijos, abraços, risadinhas… e, por alguns minutos, o hospital pareceu um lugar mais leve. Saí da ala infantil respirando fundo e fui em direção à saída, passando pela urgência. A movimentação estava caótica. Enfermeiros, cirurgiões e paramédicos corriam. — Tiroteio em uma boate — ouvi alguém dize
Narrado por Hellen Sérgio voltou a me beijar com ardor enquanto Paloma se distraia com flores e borboleta no jardim eu então tive um pequeno flashback. Três anos antes... Ao que tudo indica, minha vida finalmente encontrou um ritmo novo — e pela primeira vez esse ritmo não veio carregado de medo, vingança ou disfarces. Três anos podem parecer pouco para qualquer um, mas para mim… representaram um renascimento completo. E esse renascimento começou exatamente no dia em que me casei com Sérgio. Não fizemos nada grandioso. Não combinava comigo, e muito menos com ele. A cerimônia foi pequena, íntima, aquecida por poucos rostos verdadeiramente importantes. A madre Geneviève atravessou meio mundo para estar ali, segurando minhas mãos com aquele olhar que sempre viu quem eu era por trás de qualquer máscara. A tia de Anya sorriu o tempo todo como se fosse minha própria família. Meus colegas do hospital preencheram os bancos da pequena capela com uma alegria tranquila, como se tivessem
Narrado por SérgioTrês anos se passaram.E, ao que tudo indica, a vida decidiu ser generosa comigo — muito mais do que um dia imaginei merecer.Hellen está grávida novamente. Dois meses. E mais linda do que nunca.Ela se tornou uma das melhores especialistas em cirurgia cardiológica infantil dos Estados Unidos. Não só em Dallas — dentro e fora do país o nome dela corre como fogo. Na Inglaterra, então… é quase lenda. Volta e meia é convidada para dar aulas na universidade onde Alistair agora é dono. Ironias do destino. Ou talvez seja apenas o universo colocando cada peça exatamente onde deveria estar.Quanto a mim… Eu finalmente fiz algo que deveria ter feito há muito tempo.Comprei de volta o pequeno rancho que pertenceu à minha mãe, Amélia Vince. A casa simples, a terra, o cheiro de mato, tudo aquilo que, por muitos anos, tentei esquecer. Passei metade da vida achando que abandonar o rancho era sinônimo de superar a pobreza. Mas, ao vê-lo outra vez, percebi a verdade: naquele lugar,
Narrado por HellenO primeiro ano depois de tudo que passou, foi como quem atravessa uma névoa densa: a gente vai, respira, sobrevive… mas não esquece. E, naquela madrugada silenciosa, percebi que Sérgio ainda vivia preso às sombras que tentou deixar para trás. Acordei com o sobressalto dele, o corpo quente de suor, a respiração pesada como se tivesse corrido quilômetros dentro de um pesadelo.Sentei-me devagar e toquei seu ombro.— Sérgio… amor… — sussurrei.Ele abriu os olhos, arregalados, perdidos, como se não soubesse em que mundo estava. Por alguns segundos, foi só silêncio. Depois, a culpa voltou a tomar forma nos olhos dele.— De novo — murmurou, passando a mão pelo rosto. — Esses sonhos… não consigo impedir, Hellen. Parece que Peter está sempre ali… me olhando… como se eu tivesse falhado com ele. E falhei.Meu coração apertou. Para ele, aquela dor nunca tinha deixado de ser um corte aberto.— Você não falhou, Sérgio — falei com firmeza, mesmo que minha voz tremesse. — Você per
Narrado por Sérgio Meses depois eu finalmente convenci a minha deusa teimosa a casar comigo. Sim porque esse era o certo e eu não aceitaria seu não como resposta, por isso a venci pelo cansaço e insistência. O casamento aconteceu em uma cerimônia pequena, exatamente como queríamos. Apenas pessoas que realmente faziam parte da nossa história estavam lá: a própria Madre Geneviève, a tia de Anya — aquela que sempre tratou Hellen como família —, alguns colegas do hospital onde ela trabalhava e poucos amigos meus, aqueles que sobraram depois que a vida me ensinou quem realmente ficava. Não havia luxo exagerado, nem flashes, não queríamos nada grandioso, nada que chamasse atenção demais — apenas nós, alguns poucos amigos e familiares, um altar simples, flores brancas e a presença silenciosa de Deus observando nosso primeiro passo no recomeço. E a certeza absoluta de que estávamos começando do jeito certo. Hellen, estava linda, uma verdadeira deusa entre os mortais. A imprensa tent
Narrado por Sérgio Quando Hellen foi empurrada para dentro da sala de cirurgia, senti como se uma parte do meu peito tivesse sido arrancada junto. Ela apertou minha mão, encostou a testa na minha e sussurrou para eu orar. “Orar? Logo eu, que sempre fui cético? Eu, que nunca acreditei em nada além de fatos, força e controle?” Mas quando a porta fechou atrás dela… Eu percebi que não tinha nada disso naquele momento. O que eu tinha era medo, e amor. Um amor tão grande que beirava a loucura. Eu comecei a andar de um lado para o outro no corredor, a mão no rosto, o coração como se tivesse no estômago. E pela primeira vez na minha vida… eu falei com Deus. "Se… se estiver me ouvindo… cuida delas. Só isso. Deixa minha mulher e minha filha bem. Eu não sei como orar, não sei o que dizer. Mas se correr tudo bem, eu prometo que… que vou tentar ser um homem melhor. Não religioso — eu não sei ser isso. Mas… mais voltado para as coisas que importam. Para a fé que ela tem. Para a paz que eu







