INICIAR SESIÓNHelena Assunção
Boulogne-Billancourt | França Algum tempo atrás — Senhora Helena, sinto muito, mas o senhor Edgar Assunção sofreu um grave acidente de moto e não resistiu aos ferimentos. Sinto o meu corpo estremecer e na hora perco o comando das minhas pernas ao ouvir a pior notícia que eu poderia receber por telefone. Era uma enfermeira do Hôpital Bicêtre, localizado em Boulogne-Billancourt, na França, local onde resido há menos de um ano com o meu marido, Edgar Assunção. — O que houve, Helena? — pergunta Josy, uma amiga do Brasil, que conversava comigo atrás de uma vídeo chamada. — Jo... Jo... Eu não consigo falar nada. Deixo o telefone cair da minha mão e desabo a chorar. O chão parece sumir sob meus pés. Tento me agarrar à mesa, mas minhas mãos tremem demais. A realidade ainda não entra na minha cabeça. Edgar... morto? Como assim? Isso não é possível. Não pode ser possível. Ele estava aqui a poucas horas sentado tomando café e comendo croissant, rindo de algo bobo, com vários planos para o nosso futuro e agora... — Helena! — ouço distante a voz de Josy aflita atravessando o meu choro que não parava. Ela volta a falar desesperada — Helena! Por Deus! Me fala! O que aconteceu? Automaticamente abro a minha boca, e tento dizer algo, mas tudo o que sai é algo desconexo seguido apenas de um soluço abafado. — Ele... — minha voz falha, estava quebrada — Edgar sofreu um acidente... não... ele... Meu Deus! As lágrimas não param. Caio sentada no chão frio da cozinha com o telefone caído ao meu lado com a tela ainda aberta. As palavras da enfermeira ecoam na minha cabeça: “não resistiu aos ferimentos”, "sinto muito". As mesmas frases que ouvi anos atrás com a morte repentina de meus pais, também em um acidente, mas aéreo. Edgar havia se tornado a minha âncora e o meu porto seguro desde então. E agora o que será de mim sem o homem que me ensinou ama-lo e respeitá-lo a cada dia? Como é possível que eu nunca mais vá ouvir a risada do Edgar, sentir o seu abraço e olhar nos olhos dele? — Não, não pode ser... — murmuro para mim mesma, tentando negar a dor que me consome. — Isso não pode estar acontecendo. Não comigo. Por que todos que amo de repente desaparecem? Primeiro foi o meu amigo de infância que jurou sempre me proteger, mas simplesmente desapareceu sem deixar vestígios. Anos depois foram os meus pais, e agora, o Edgar. "Meu Deus, por quê?" Volto a chorar copiosamente. Enquanto a minha amiga Josy continua do outro lado da tela do computador, desesperadamente tentando me acalmar. — Helena, respira! Pelo amor de Deus, você precisa se acalmar. Eu sei que é impossível, amiga, mas você precisa respirar. Me conta exatamente o que aconteceu. O que te disseram nesse telefone? Naquele momento eu não consigo pronunciar nenhuma palavra. Cada tentativa de falar é cortada pelo nó na minha garganta e pelo peso esmagador no peito. Só consigo sentir o vazio, a falta que ele já está me fazendo antes mesmo de eu me acostumar com essa ausência definitiva. Olho para a janela e vejo a luz cinza de fim de tarde, indiferente à minha dor. A vida e o mundo inteiro continuava vivendo, mas para mim, tudo parece ter parado, exceto o meu coração, que insiste em se despedaçar em silêncio. — Eu... eu não sei se consigo viver sem ele, Josy... Edgar é muito importante pra mim — sussurro, mais para mim do que para Josy, que agora apenas respira do outro lado da tela, tentando me dar força que eu tanto precisava. Eu não queria palavras, porque nesses momentos de luto, eu sabia, que nenhuma palavra dita seria capaz de diminuir a dor da perda, principalmente da maneira como tudo aconteceu. Quando algum familiar está doente, acamado, aí sim, nós vamos dia após dia nos preparando para o momento da perda, não que isso diminua a nossa dor, mas o impacto da partida é menor. Mas perder alguém inesperadamente como perdi meus pais e agora o Edgar, estraçalha o nosso coração em mil pedaços. A cidade de Boulogne-Billancourt continuava lá fora, barulhenta e viva, e eu aqui, paralisada, tentando encontrar algum sentido em um mundo que perdeu sua cor desde que Edgar se foi. Após longos e sufocantes minutos, enfim, consigo parar de chorar. E com calma, começo contar a Josy o que aconteceu. Ela me diz palavras reconfortantes, mas nada naquele momento de dor diminuiria o que eu estava sentindo. Perdi a única pessoa que era importante na minha vida, e agora, me sentia vazia. — Amiga, você pode contar comigo para o que precisar. Mesmo distante farei o que tiver ao meu alcance para amenizar a sua dor. — Josy dizia com os olhos encharcados de lágrimas. — Muito obrigada, Josy. Sinceramente eu nem sei por onde começar. — respiro fundo tentando assimilar o que estava acontecendo — Talvez o reitor da universidade onde Edgar lecionava me ajude com a burocracia para o traslado do corpo dele. — Pretende fazer o sepultamento aqui no Brasil? — Sim, Josy. Acredito que essa seria a vontade de Edgar, está próximo a família e amigos — dizia cada palavra fungando. — Vou conversar com Denise, ela entende muito sobre documentação e essas burocracias que o governo inventa para atrapalhar a nossa vida. Tenho certeza que te ajudará muito. — Novamente obrigada por tudo Josy. Creio que em breve nos reencontraremos no Brasil. A chamada de vídeo é concluída. E eu começo a reunir forças para tomar as providências necessárias para voltar ao Brasil, mas dessa vez, sozinha. Os dias foram passando, e com a ajuda da Denise, companheira da Josy, e do reitor da universidade Pôle Supérieur d'Enseignement Paris Boulogne-Billancourt, onde Edgar lecionava, consegui despachar todos os documentos necessários para o traslado do corpo de Edgar para o Brasil. Uma semana depois eu já havia conseguido dar o meu último adeus para o homem que me ensinou muito mais do que palavras pudessem expressar: amar de verdade. 🍁 Dias atuais... São Paulo | Brasil O tempo passou e a minha vida continuava na mesma. Eu não tinha expectativa ou ânimo para mudanças. Até que num dia ensolarado ouço algo que mudaria a minha vida completamente. — O que pretende fazer agora, Helena? — Josy pergunta enquanto tomávamos um café em seu apartamento. — Seguir em frente. E... Procurar um emprego. Já está mais do que na hora de reagir. Mas não sei nem por onde começar. — falo desanimada — Eu sei onde você pode trabalhar e recomeçar. — Denise que estava de costas cozinhando disse com um sorriso maroto no rosto. — Onde? — pergunto, sem suspeitar do que ouviria a seguir — Amanhã vou me demitir da empresa onde trabalho. — Sério? Mas, por que? — pergunto Denise se afasta do fogão por alguns instantes, e abraçada a Josy que sorria, disse: — Porque vamos nos casar, e nos mudaremos para Londres. Bato palmas e corro para abraçar as duas. Tanto Josy quanto Denise se tornaram grandes amigas, e se não fosse por elas, eu não saberia o que seria de mim. — Fico muito feliz por vocês. A felicidade de vocês sempre será a minha. — falo emocionada. Denise volta a atenção para o fogão e fala: — Então, voltando ao assunto do emprego, eu vou sair e vai surgir uma vaga. Se você quiser pode ser a minha substituta. Sei que concluiu o seu bacharelado com louvor em administração de empresa, e que é fluente em vários idiomas. Então, sem sombra de dúvida, você é a melhor candidata para o cargo, além de ser a minha amiga. — E seu chefe, sabe disso? Denise dá de ombros. Pelo visto ela não tem um bom relacionamento com o chefe. Será que ele é um velho ranzinza? Deus é mais. — Aquele babaca egocêntrico não precisa saber de nada, porque eu sempre resolvo os pepinos dele. — todas sorrimos juntas com a espontaneidade de Denise —Amanhã vamos juntas para a empresa, e assim que eu me demitir já te apresento para ele, assim o filhote de Mufasa não vai ter tempo para perguntas. — Filhote de Mufasa? — gargalhei alto — Tudo bem. Já tenho tudo preparado. Mas, como é o nome da empresa onde você trabalha? — Ah! Se chama Diniz Cosmetics. E o nome do meu ex-chefe e seu futuro carrasco é Felipe Diniz. O meu corpo inteiro estremece. Não pode ser. — Felipe Diniz? — pergunto, assustada e sentindo um nó se formar na minha garganta. — Sim. Esse é o nome dele. Por que? Você o conhece? — Denise pergunta curiosa — Não. Se ouvi não me lembro. — a minha voz soou fraca, tamanho o impacto que senti ao ouvir justamente o nome dele. — Vou te dar apenas um conselho: fique longe dele o máximo que puder. Porque ele não é o ser inofensivo que parece ser. — Denise tem razão. Ele é conhecido como devorador de mulheres. Tem a fama de seduzir, usar e depois as descartar como se fossem um nada. — Josy confirma Eu permaneço quieta, segurando a xícara de café nas mãos e pensando o porquê do destino gostar de brincar comigo. Porque a vida tinha que colocar no meu caminho, e como o meu novo chefe, justamente o meu amigo e grande amor de infância Felipe Diniz? Isso só pode ser uma brincadeira. E algo me diz que não será uma diversão inocente que me espera, mas algo perigoso, e que talvez mude a minha vida para sempre.Helena Assunção DinizAlguns amores nascem como incêndio. Outros, como abrigo. O nosso foi os dois. Aprendi isso com o tempo. Com os silêncios. Com as cicatrizes que não aparecem em fotografias. Com os dias comuns — que, ironicamente, são os mais difíceis de conquistar quando tudo começa em guerra.Hoje, enquanto observo Miguel e Clara correndo pelo quintal da casa que escolhemos depois que tudo desabou e se refez, penso em quantas versões de mim mesma morreram para que essa sobrevivesse. A mulher que tremeu. A que duvidou. A que acreditou que amar um homem como Felipe Diniz significava desaparecer. Nenhuma delas existe mais. Todas foram necessárias.O quintal está molhado da chuva da madrugada. Clara corre descalça, o vestido sujo de grama, rindo de algo que só ela entende. Miguel tenta acompanhar, tropeça, levanta, ri também. Eles têm o riso fácil. O tipo de riso que não conhece medo. Ainda.Felipe observa da varanda, uma xícara de café na mão, o rosto tranquilo de quem finalmente a
Meses depoisHelenaSão Paulo amanheceu cinza naquele dia. Não o cinza poético dos cartões-postais, mas o cinza pesado, baixo, que parece escorrer do céu e se infiltrar nos ossos. A chuva começou cedo, insistente, grossa, transformando ruas em espelhos trêmulos e o trânsito em um organismo caótico, nervoso, impaciente. Eu observei tudo pela janela do quarto enquanto respirava fundo, sentindo aquela pressão estranha na lombar que vinha e ia desde a madrugada.— É hoje — murmurei, mais para mim do que para Felipe.Ele abriu os olhos imediatamente. Não houve pânico. Não houve correria. Apenas aquele segundo absoluto em que nossos olhares se encontraram e tudo ficou silencioso.— Tem certeza? — ele perguntou, a voz baixa, mas o corpo já em alerta.— Tenho — respondi. — E não é um “talvez”.A próxima hora foi uma coreografia apressada e mal coordenada. Bolsa sendo conferida três vezes. Documentos. Chaves. Felipe andando de um lado para o outro, falando sozinho, enquanto tentava parecer cal
Dias DepoisSão Paulo HelenaVoltar para São Paulo depois de Fernando de Noronha foi como atravessar dois mundos que não se reconhecem. O aeroporto nos recebeu com o concreto frio, o burburinho apressado, anúncios metálicos e pessoas correndo como se o tempo fosse um inimigo a ser vencido. Ainda assim, eu não senti o peso antigo. Não senti medo. Não senti a sombra. Eu tinha aprendido algo essencial naquele pedaço de paraíso: a vida pode ser suave mesmo quando o mundo insiste em ser duro.Felipe segura minha mão desde o desembarque. Um gesto simples, constante, quase silencioso — mas carregado de promessa. Ele não olha o celular. Não apressa o passo. Caminha comigo no ritmo que meu corpo pede agora, com a delicadeza de quem entende que tudo mudou. Que eu mudei. Que nós mudamos.— Se cansar, a gente para — ele diz pela terceira vez.— Eu estou bem, amor — sorrio. — De verdade.Mas ele continua atento. Sempre.Nos primeiros dias de volta, ficamos no apartamento. Aquele mesmo que testemu
Dia seguinteFernando de Noronha — Lua de Mel HelenaFernando de Noronha não parece real quando se chega pela primeira vez. É como se alguém tivesse pintado o mundo com excesso de cuidado, exagerado nos tons de azul, verde e dourado, e depois tivesse decidido esconder tudo no meio do oceano só para quem estivesse disposto a atravessar. Assim que o avião pousa, eu sinto como se o corpo inteiro diminuísse o ritmo — não por cansaço, mas por rendição. É impossível chegar ali e continuar em guerra.Felipe segura minha mão enquanto caminhamos pela pista curta, o vento salgado tocando meu rosto, o sol abraçando a pele como um convite silencioso para existir sem pressa. Ele está diferente. Não é o terno trocado por roupa leve, nem o celular desligado no bolso. É algo mais fundo. Algo no jeito como ele respira. Como se, pela primeira vez em muito tempo, o mundo não estivesse tentando arrancar algo dele.— Parece um sonho — eu digo.— Parece um recomeço — ele responde, olhando ao redor como se
FelipeO silêncio depois de uma grande batalha nunca é realmente silêncio. Ele carrega ecos. Fragmentos. Fantasmas que ainda não sabem que perderam o direito de existir. Foi isso que eu senti quando a festa do meu casamento começou a se dissipar e sobraram apenas algumas risadas distantes, música baixa demais para competir com os pensamentos e quatro pessoas sentadas em um espaço que não tinha nada de protocolar.Eu, Helena, Denise e Josy.Se alguém tivesse me dito, anos atrás, que eu estaria ali — não como CEO, não como homem intocável, mas como alguém exposto, humano, falho — eu teria rido. Ou ignorado. Ou mandado investigar quem ousava imaginar isso. Mas ali estava eu. Sem gravata. Sem escudo. Sem poder. Só eu.Helena foi a primeira a relaxar. Tirou os sapatos como quem finalmente permite ao corpo lembrar que sobreviveu. Quando ela riu, daquele jeito leve que só aparece quando não existe mais necessidade de vigilância, algo dentro de mim afrouxou.— Eu ainda estou tentando entender
FelipeO dia amanheceu claro demais para um homem que já viveu tempo suficiente na sombra. A luz entrava pelas janelas altas do hotel como se tivesse sido ensaiada — limpa, precisa, quase cerimonial. São Paulo parecia suspensa num raro acordo de paz com o céu. Nenhuma sirene. Nenhuma ameaça. Nenhum ruído que lembrasse guerra. Só aquele silêncio elegante de uma manhã importante. De um dia irreversível. O dia do meu casamento.Fiquei parado por alguns segundos diante do espelho, ajustando os punhos da camisa branca, observando o reflexo de um homem que eu quase não reconhecia. Não porque estivesse diferente por fora — o terno sob medida, o cabelo alinhado, o rosto barbeado com precisão — mas porque algo dentro de mim havia finalmente desacelerado.Eu sobrevivi.Sobrevivi ao Adrian. À herança podre do meu sobrenome. À culpa que carreguei por anos sem saber exatamente de quem era. Sobrevivi ao homem que eu fui quando confundi poder com silêncio. Controle com indiferença. Liderança com ceg







