INICIAR SESIÓNMADISSON
A segunda-feira chegou mais rápido do que eu gostaria. E com ela, o frio na barriga.
Eu me olhava no espelho do meu quarto, penteando o cabelo pela terceira vez, algo entre um coque alto e um rabo de cavalo bagunçado, mas nada parecia certo. Gwen passou por mim no corredor com uma caneca de café e me lançou um olhar cúmplice.
— Vai arrasar, Maddy.
— Fala isso só porque é minha irmã.
— E porque sou esperta. Agora anda, ou vão te deixar para trás.
Me vesti com a farda da escola com menos birra do que na semana passada, talvez porque sabia que, à tarde, eu usaria algo que me fazia sentir mais... eu. O teste de torcida aconteceria logo depois das aulas, e só se falava disso pelos corredores. Disso e do bendito noivado de Kael Thorne.
Desde o jogo, era como se o ar da escola tivesse mudado. Todo mundo cochichava, especulava, criava teorias sobre o vestido de Harper, sobre o anel, sobre a festa que, claro, seria “só para os íntimos”. Ninguém mencionava Kael como se ele fosse um aluno, ou sequer humano, ele era quase um mito, um nome sagrado. Honestamente, muito estranho.
Revirei os olhos quando passei por um grupo de meninas perto dos armários. Elas seguravam revistas e celulares, babando por fotos antigas do casal. Uma delas, que usava gloss marrom com glitter e tiara brilhante, virou para a amiga e sorriu.
— Acho que ele só ainda não pediu oficialmente porque está esperando o momento perfeito. Imagina, tipo um helicóptero e pétalas de rosas?
— Ou algo com o símbolo da empresa! Aquele “V” de Thorne em fogo no céu — disse outra, rindo.
Dei meia-volta antes de ouvir mais. Meu cérebro já estava saturado do nome Thorne por um semestre inteiro.
Quando o último sinal tocou, meu coração deu um pulo. Peguei minha mochila e caminhei direto até o banheiro do bloco B. Estava relativamente vazio, graças aos clubes e atividades que começavam agora. Ótimo. Eu não queria plateia para o meu momento pré-nervoso.
Abri a mochila e tirei com cuidado o shortinho azul-escuro de torcida e o top justo combinando. O tecido brilhava levemente, refletindo a luz do teto. Por cima, coloquei uma blusa branca grande, para não parecer uma louca andando seminua pela escola. Ainda assim, me olhei no espelho e senti o estômago se contrair.
“Você já fez isso antes, Maddy”, pensei. “Era boa. Foi capitã. Consegue de novo.”
Mas aquilo era diferente. Eu era nova, uma forasteira. A única do último ano que chegou no meio do semestre, sem histórico, sem amigas na equipe para me apadrinhar. Sabia que o favoritismo correria solto, e que a técnica era durona.
E ainda assim... eu queria tentar.
Fechei a mochila, respirei fundo e saí do banheiro.
O ginásio ficava a poucos prédios dali, e o caminho até lá estava mais cheio do que imaginei. Algumas garotas do primeiro ano estavam sentadas no banco de concreto, assistindo às candidatas passarem como se fosse um desfile. Algumas estavam maquiadas como para um ensaio fotográfico; outras usavam uniformes de treino personalizados com seus nomes nas costas. Eu me senti invisível.
Ao entrar no vestiário feminino ao lado do ginásio, encontrei outras meninas aquecendo, esticando as pernas, treinando giros e saltos. Algumas me olharam com curiosidade, outras com aquele desprezo disfarçado de sorriso.
— Você é a novata, né? — uma delas disse, mascando chiclete.
Assenti, sorrindo de leve.
— Madisson.
— Hm. A técnica não curte muito surpresas. Boa sorte.
“Obrigada...?”
Ela virou-se e voltou a aquecer, claramente encerrando a conversa.
Enquanto me alongava em um canto, deixei os olhos vagarem pelas paredes do ginásio. Os banners com o logo da escola estavam pendurados no alto, e ali, entre os troféus, fotos de antigas equipes brilhavam sob molduras douradas. Em quase todas, Harper estava no centro.
É claro.
O tempo passou voando. Quando a técnica chegou, uma mulher de quarenta e poucos anos, de expressão firme e olhos escuros afiados, todas se alinharam em silêncio. O teste começou com alongamentos em grupo, seguido de uma sequência de coreografias rápidas que tivemos que aprender na hora.
A música ecoava pelos alto-falantes, e o som das palmas e pisadas preenchia o ar. Meu coração batia como um tambor.
E então chegou a parte solo.
Uma a uma, as meninas iam ao centro da quadra mostrar o que sabiam fazer. Saltos, giros, acrobacias. Algumas erravam, outras exageravam. Quando meu nome foi chamado, senti o suor escorrer pela coluna.
“Você já fez isso antes, Maddy”, repeti para mim mesma.
Dei um passo à frente, respirei fundo... e comecei.
Me movi como se cada gesto queimasse. Preciso, firme, como uma faísca que ganhava força a cada segundo. As palmas ecoaram ao final, e a técnica anotou algo em sua prancheta sem esboçar reação.
Saí da quadra tentando controlar a adrenalina.
— Isso foi... ótimo. — ouvi uma voz atrás de mim.
Me virei.
Era a mesma menina do chiclete.
— Sério. Você é boa.
Sorri, surpresa.
— Obrigada.
— Ainda não quer dizer nada. Mas... boa sorte. De verdade.
E então ela foi embora.
Enquanto as demais se apresentavam, eu me sentei ao fundo e deixei o olhar subir novamente para as fotos antigas. Algo em mim dizia que, por mais que aquele teste fosse importante, ele era apenas o começo.
A técnica caminhou até o centro da quadra, com a prancheta pressionada contra o peito e aquele olhar que fazia todo mundo prender a respiração.
— Obrigada a todas. Vocês foram bem... algumas mais do que outras — ela começou, seca.
— Mas infelizmente, só temos três vagas. E elas vão para...
O silêncio se espalhou como uma corrente elétrica.
— Luna Kingsley.
A menina do chiclete deu um gritinho abafado, tentando parecer contida, mas mal conseguia esconder o sorriso.
— Claire Mendez.
A segunda, uma morena pequena e ágil, soltou um suspiro de alívio.
E então a técnica levantou os olhos da prancheta.
— Madisson Allen.
Por um segundo, achei que tinha ouvido errado.
Meu nome. Ela disse meu nome.
— Você passou, garota! — Luna sussurrou animada, me cutucando com o cotovelo. — Eu sabia que ia passar!
Um calor estranho subiu pelo meu rosto, e eu nem percebi que estava sorrindo como boba, até as outras meninas começarem a cochichar.
“Quem é ela?”, “Ela nem é daqui”, “Só porque é bonita”, “Acho que foi sorte.”
Mas nada daquilo importava. Eu tinha conseguido. Eu tinha entrado.
A euforia me invadiu como um vendaval e eu quase saí pulando pela quadra. Comecei a me afastar para pegar minha mochila, já sentindo meu celular vibrar com mensagens da Gwen e da minha mãe, elas estavam torcendo por mim do lado de fora. Eu não via a hora de contar.
Mas então, ouvi o som de saltos ecoando no piso encerado do ginásio.
Toque. Toque. Toque.
Não prestei atenção de imediato, até que um perfume doce e sofisticado me envolveu. Aquele cheiro... pêssego e baunilha.
Me virei devagar.
E lá estava ela.
Harper Liney.
Loira, perfeita, usando um vestido rosa claro justo ao corpo, e saltos que provavelmente custavam mais do que a minha bicicleta inteira. Os cabelos caíam em ondas sobre os ombros, e os lábios brilhavam com um gloss cintilante.
Ela parou a poucos passos de mim, e seus olhos me analisaram de cima a baixo.
— Olá. — ela disse, com um sorriso que não alcançava os olhos.
— Oi... — respondi, tentando manter a voz firme.
— Madisson, certo?
Assenti, hesitante.
— Parabéns pela vaga. Não é fácil impressionar a técnica. Ela odeia mudanças.
— Obrigada — falei, simples, mas meu estômago já estava se revirando.
Harper inclinou levemente a cabeça, como quem observa algo curioso, ou um objeto fora do lugar.
— Não é comum novatas passarem. E ainda por cima, no último ano.
— Eu já era líder de torcida na minha antiga escola. Talvez tenha ajudado.
— Ah, claro. Claro. — Ela sorriu de novo, mas havia um veneno suave naquele sorriso. Como se as palavras fossem doces, mas escondessem uma ponta afiada. — Bem-vinda a equipe.
Ela se aproximou mais um passo.
— Só um conselho, novata. Aproveite seu momento. Eles sempre passam... especialmente quando não se entende bem como as coisas funcionam por aqui.
Antes que eu pudesse responder, ela virou nos calcanhares e saiu caminhando como se o mundo fosse sua passarela pessoal. A cada passo, seus cabelos balançavam com graça e segurança, e eu fiquei ali, imóvel, sentindo o peso das entrelinhas.
O que exatamente ela quis dizer com aquilo?
Será que Harper se sentia... ameaçada?
Balancei a cabeça, tentando afastar o nó de incerteza que se formava no meu peito. Não importava. Eu tinha conseguido a vaga. E isso ninguém podia tirar de mim.
Saí do ginásio com as pernas ainda trêmulas e os pensamentos embaralhados. Gwen estava me esperando no carro, sorrindo de orelha a orelha assim que me viu.
— E aí? Me diz que você passou!
— Passei! — gritei, deixando finalmente a felicidade me dominar.
Ela deu uma batidinha animada no volante e me abraçou por cima do banco.
— Sabia! Sabia!
EPÍLOGO — 4 ANOS DEPOISMADISSONQuatro anos.Às vezes, acordo no meio da noite, ainda sentindo o cheiro de fumaça e violência, o peso de escolhas que ninguém da minha idade deveria ter precisado fazer. Então sinto a respiração suave ao meu lado, o braço quente me puxando de volta, e lembro que sobrevivemos.Que construímos algo novo.Que ainda estamos construindo.Gwen nunca voltou para Lunarys.Depois que a deixei naquele carro, com a chave tremendo na mão dela, ela dirigiu até o hospital humano mais próximo e nunca mais parou. Criou uma nova vida entre os humanos, longe de todo o resto.Casou-se com um médico, um homem gentil que a trata como algo precioso. Eles têm um filhinho, Kieran, um homenzinho loiro que sorri com todo o rosto.Ela me manda fotos.Vídeos.Mensagens.Mas nunca visita.E nunca, jamais, fala sobre Oliver, o nosso pai.Ou sobre o que aconteceu quando estava presa.Eu não pergunto.Kael virou o líder de Lunarys.O nosso Alfa.Ele comandou a reconstrução com mãos f
MADISSONAs janelas de vidro explodem assim que entro na sala.ael e Dorian já estão lutando.E o mundo inteiro parece pequeno demais para os dois.Kael é um borrão de força e fúria, seus golpes precisos, brutais, alimentados pelo vínculo, pelo poder que agora corre livre dentro dele.Dorian, porém, não é mais como ele mesmo.As veias negras subiram por seu pescoço, pelos braços, pulsando como raízes envenenadas.A pele dele cintila com energia sombria.E quando ele sorri ao ver Kael caído por um segundo, a boca dele está manchada do próprio veneno.Ele está empurrando o veneno para dentro de Kael de novo.De novo.Como da outra vez.Como naquela noite em que quase o perdi.— NÃO! — a palavra sai de mim como um grito arrancado pela alma.Kael tenta se levantar.Mas o veneno o enfraquece, queimando sua pele por dentro.Dorian se vira para mim.— Olha só… — ele respira, extasiado, um brilho doentio acende nos olhos dele. — Você chegou bem a tempo.Ele ergue a mão, as veias negras pulsan
MADISSONGwen emite um som fraco, um gemido tão pequeno, tão doído, que corta qualquer raciocínio.Eu me viro para ela imediatamente, me ajoelhando.— Gwen… Gwen, olha para mim. — Minha voz falha quando passo o braço por trás dela, apoiando seu corpo frágil. — Sou eu. Você tá bem agora. Você tá comigo.Ela chora sem som, o rosto escondido no meu ombro.Ela está leve demais.Gelada demais.E eu vou matar Harper.Eu realmente vou.Harper dá um passo, mínimo, quase imperceptível, mas eu vejo.Eu sinto.Antes que eu reaja, a voz de Kael corta o ar como um chicote.— Não se mova.A ordem é tão poderosa que eu sinto meu corpo querer obedecer, mesmo sem ser dirigida a mim.Harper congela.Congela de verdade, como se tivesse sido transformada em pedra.Os olhos dela arregalam, a respiração fica presa no peito, e um tremor pequeno percorre sua clavícula.Ela tenta desobedecer.O corpo dela tenta… mas não consegue.Nenhum músculo reage.Kael só a observa, os olhos tão escuros que parecem vazar
MADISSONUm som seco ecoa pelo corredor.É um arrastar de passos… depois um gemido sufocado.Harper surge na porta como uma sombra afiada e arrastando Gwen pelo cabelo.Minha irmã tropeça, quase cai, mas Harper a puxa de volta como se fosse um animal sendo exibido. A lâmina está colada ao pescoço dela, tão firme que uma gota de sangue escorre, fina como um arranhão. Mas eu reconheço o olhar de Gwen.Pânico real.Ela está mais magra. As maçãs do rosto saltam, o cabelo desgrenhado em mechas presas pelo suor, a pele acinzentada. A camisa larga esconde, mas eu vejo os tremores. Os joelhos dela falham.E eu paro de respirar.— Surpresa — Harper canta, com aquele sorriso de víbora. — Olha só quem eu achei tentando fugir.Gwen tenta erguer o rosto, os olhos buscando alguma coisa, qualquer coisa, até que…— Maddy… — sai da boca dela, num fio de voz.Meu coração rasga.Eu dou um passo à frente antes de perceber que estou mexendo.O aperto de Kael no meu braço se fecha como uma trava.Ele está
MADISSONDorian ergueu o dedo, apontando diretamente para mim.— Você é a última delas, Elara Giokarna. A última feiticeira lunar. A herdeira do poder ancestral que controla o tempo, a vida, o destino. Meus joelhos quase cederam.Kael colocou a mão no meu ombro, firme, ancorando-me.Dorian riu.Uma risada baixa, satisfeita, que me deu vontade de arrancar aquele sorriso com as próprias mãos.Os olhos dele escureceram.Por um segundo, ninguém se mexeu.Mas algo estava errado naquele sorriso de Dorian.Ele parecia orgulhoso demais.— Você era só um estorvo que eu precisava tirar do caminho do Kael.Minha respiração travou.Era verdade.Eu sabia que era.Aquela noite…O fogo.A fumaça invadindo meu quarto.— Mas então — ele continuou — Oliver encontrou o diário da sua mãe. E percebeu que havia algo… valioso em você.Oliver sorriu, discreto, orgulhoso da própria descoberta.— O avô de Kael estava investigando você, Madisson — ele disse. — Seu nome aparecia em rituais antigos, notas, mapas
MADISSONA despedida foi rápida, rápida demais para o peso do que estávamos prestes a fazer.Logan, Lina e Luna saíram primeiro, levando consigo o plano quase suicida de frear Harper e impedir que o ataque fosse transmitido. Eles desapareceram pela saída norte da propriedade, armados e com um pequeno grupo de apoiadores betas.Eu e Kael seguimos para o outro lado.Para baixo.Para os túneis.Segundo Logan, a cidade tinha sido construída sobre túneis que só apareciam em mapas esquecidos. Era a única forma de sair sem levantar suspeitas, sem esbarrar nos homens de Dorian espalhados por cada esquina.O ar era úmido e gelado. O som dos nossos passos reverberava pelas paredes como se não estivéssemos sozinhos, como se sombras nos seguissem, observando cada movimento.— Tem certeza que isso é seguro? — perguntei, caminhando atrás de Kael.Ele não respondeu de imediato. Só olhou por cima do ombro, os olhos brilhando no escuro de um jeito quase animal.— Não — ele finalmente disse. — Mas é o







