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A Forasteira e o Riquinho

Author: Darlla Vi
last update publish date: 2026-05-29 01:58:58

Arabella Sinclair: 

Ele continuou:

— Seria muito intrusivo perguntar de onde você é? Caso seja, não precisa responder.

— Não é, não. Sou de Riverton, no Arkansas. Tem cerca de trinta e cinco mil habitantes, também é uma cidade pequena.

— Bem maior do que aqui. E sei que fica bem perto da capital Little Rock, não é? Parece um lugar com muito mais oportunidades do que Silverwood.

— Acho que sim. Vou começar a faculdade depois do verão.

— Sério? O que pretende fazer?

— TI.

Ele pareceu realmente interessado.

— Jura?

— É, mas não é nada demais. É uma universidade comunitária, na verdade. Nada nem perto de uma NYU.

— Também trabalho na área da tecnologia. Faço programação, e minha empresa tem foco em criação de softwares e aplicativos.

— Caramba... que máximo! — Ok, eu também estava muito interessada.

Já fazia um bom tempo desde a última vez que conheci alguém com quem tivesse assuntos e interesses em comum. As pessoas do meu convívio só achavam a área em que eu pretendia atuar como meio confusa ou "coisa de nerd".

— Bem, então eu presumo que você também veio passar apenas o verão por aqui. — Ele tomou mais um longo gole da cerveja.

— A princípio, sim. Tudo vai depender de como vão ficar as coisas por aqui.

Fiz uma pausa e percebi o olhar curioso dele sobre mim. Nós éramos praticamente dois desconhecidos, mas senti que não havia nada demais em contar um pouco da minha vida.

Especialmente porque eu não vinha tendo com quem conversar há algum tempo.

— Minha avó mora aqui em Silverwood. Ela é viúva, vive sozinha, e recentemente sofreu um AVC. Basicamente precisei largar tudo para vir cuidar dela.

— Nossa. Eu sinto muito.

— Tudo bem, acabou sendo apenas um grande susto. Ela ficou com sequelas na mobilidade, mas as perspectivas médicas são boas. Em poucos meses ela deve estar bem, e vou poder voltar em tempo de começar a faculdade. Mas, como tive que largar meu emprego, não posso ficar sem dinheiro pelo tempo que vou passar aqui. Foi muita sorte ter conseguido esse trabalho justamente em um horário em que minha avó está dormindo.

— Não tem nenhum outro parente que possa dividir isso com você?

— Ela é minha avó materna, e minha mãe, que era sua única filha, já faleceu há alguns anos. Meu pai nunca se deu bem com a sogra, então... Bem, ele não se importa. E, ainda que se importasse, também tem seus próprios problemas de saúde para cuidar. Ele tem diabetes e, mesmo à distância, fico sempre monitorando ele. Digamos que uma universidade comunitária no interior do Arkansas não era exatamente o sonho da minha vida, mas não tenho como ir para longe e deixar o meu pai sozinho.

— Caramba... Eu sinto muito.

Balancei a cabeça em negativa e respirei fundo, tentando impedir que todos aqueles pensamentos me desanimassem.

— Desculpe por isso. Nossa, quanto assunto pesado, não é?

— Não tem o que se desculpar. Eu só fiquei curioso com um detalhe. Sua avó é Eleanor Sinclair, não é?

— Como sabe?

— Estamos no bar do Harold, em Silverwood. — Não pude evitar uma risada.

— Tem razão. Todo mundo se conhece e todas as informações correm rápido. Conhece a minha avó?

— É, eu conheço. Mas... Meu primo Alexander Harrington e a esposa dele são médicos aqui na cidade. Acho que eles comentariam a respeito de Eleanor Sinclair ter sofrido um AVC.

— Bem, quando eu recebi a notícia, minha avó estava em um hospital de Houston. Ela me contou que começou a se sentir mal, ligou para o seguro de saúde e pediu uma ambulância direto para lá, então nem chegou a passar pelo hospital daqui.

— É uma distância um pouco arriscada para uma pessoa em uma situação de emergência.

Eu não havia, ainda, pensado a respeito daquilo.

— Tem razão. Não sei por que ela pediu para que a levassem para tão longe, se existe um hospital na cidade.

— Na verdade, eu sei, mas... foi meio imprudente da parte dela, de qualquer forma.

— Você sabe?

— É, eu sei.

— Então me conte.

Ele me encarou por alguns instantes, como se me analisasse ou tentasse ler minha mente por desconfiar que eu escondesse algo.

— Meu primo médico é Alexander Harrington.

— Sim, você já me disse.

— Meu nome é Vincent Harrington. Vincent... Este era o seu primeiro nome. Combinava com ele.

— Ah... Que cabeça a minha. Muito prazer. Sou Arabella Sinclair.

Apesar da minha resposta, eu tinha a impressão de que ele não havia me dito o seu nome como uma mera forma de se apresentar.

— Você não sabe mesmo? — ele indagou.

— Do que eu deveria saber?

— Que sua avó tem alguns... problemas... com a minha família.

— Problemas? De que tipo?

— Do tipo que atravessa gerações, eu acho. Apesar de até hoje não saber quais foram os motivos disso. Tudo o que eu sei é que meus falecidos avós e ela se odiavam. Meu pai e seus irmãos nunca entenderam também, mas cresceram sendo ensinados a se manterem sempre longe de Eleanor Sinclair. A minha geração apenas foi instruída da mesma forma. É sério que você não sabe nada a respeito disso?

— Não. Juro que estou até um pouco chocada em saber.

— Sua mãe nunca contou nada a você?

— Minha mãe foi embora da casa da minha avó antes mesmo de completar dezoito anos. E já tem dez anos que ela morreu, eu tinha nove na época. Tudo o que eu sei é que minha avó é uma pessoa meio difícil.

"Meio" era bondade da minha parte.

Não era à toa que meu padrasto, a quem eu considerava como o meu pai, não suportasse a minha avó.

Mas... para ser bem sincera, para mim ela sempre tinha sido uma boa avó. Viajava para o Arkansas apenas para me ver (e geralmente ficava hospedada em algum hotel, porque meus pais, apesar de não se oporem a ela ter uma relação de avó e neta comigo, não a queriam na nossa casa), era carinhosa comigo, e, bem... eu aprendi a amá-la, porque também era nítido que ela me amava.

Eu não podia fazer ideia de que ela também tivesse seus inimigos na cidade onde morava praticamente desde que nasceu.

Vincent terminou sua cerveja e começou a pegar a carteira no bolso, enquanto falava:

— Então, isso quer dizer que você não foi instruída a ficar bem longe de todo e qualquer descendente da família Harrington?

— Não. Eu nunca tinha nem ouvido nada sobre essa rixa familiar. Mas entendo que você queira ficar longe de mim.

Abrindo a carteira, ele me lançou um leve (e sexy) sorriso, que talvez (só talvez) tenha deixado minhas pernas meio bambas.

— Por que eu ia querer algo assim? — Tirou algumas notas da carteira, aparentemente bem mais do que o valor de uma cerveja, e as deixou sobre o balcão. — Espero ainda te ver algumas vezes antes que o verão chegue ao fim.

Ele se virou e começou a caminhar até a porta, onde parou por um instante, virando o rosto para trás e me lançando mais um olhar antes de ir embora.

Apoiei as mãos sobre o balcão, sentindo aquele estremecimento em minhas pernas aumentar um pouquinho mais.

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