FAZER LOGINAntonella
Tudo o que eu queria era um sinal. Um gesto. Uma chance de mostrar que eu existo para além do contrato. Passei a tarde na cozinha com a empregada, insistindo em fazer pessoalmente a lasanha à bolonhesa. Era o prato preferido dele. A receita da avó dele, com toques de vinho tinto, queijo parmesão fresco e camadas grossas de molho de carne moída refogado lentamente. Fiz com carinho, quase como um feitiço, se ele provar, talvez me veja. Talvez me sinta. Arrumei a mesa na sala de jantar com mais cuidado que nunca. Usei uma toalha branca com detalhes dourados, dobrei os guardanapos em forma de flor e acendi uma vela pequena no centro, mesmo tendo eletricidade naquela mansão, eu queria o simples e romântico. Mas precisava de calor. De alguma centelha no meio daquele gelo todo. Tomei banho, sequei os cabelos e vesti um vestido azul-marinho simples, mas que marcava minha cintura. Ajeitei os cabelos e desci com o coração aos pulos. O relógio marcou 19h42 quando ouvi a porta da frente se abrir. O som dos passos dele ecoando no piso frio sempre mexia comigo. Abaixei as mãos para disfarçar o nervosismo, respirei fundo e fui até a sala de jantar, tentando sorrir. Alonzo entrou com o blazer jogado por cima do ombro, a gravata frouxa e os olhos cansados. Ele parou na entrada, observando a mesa. Depois, me olhou com a expressão neutra de sempre. — Preparei algo especial… você tem um minuto? — perguntei, com a voz quase trêmula, mas firme o suficiente para não parecer desesperada. Ele demorou a responder. Avaliou o ambiente como se eu tivesse feito algo fora de lugar. Por um segundo, achei que ele fosse sentar. Mas então disse: — Não tenho fome. Jante sem mim. E subiu as escadas. Simples assim. Nem um “obrigado”. Nem uma explicação. Só o som dos passos se afastando. E mais uma porta que se fecha entre nós. Fiquei ali parada, sentindo meu rosto arder. Não pela vergonha, mas pelo esforço em não desabar ali mesmo. Sentei sozinha, encarei o prato montado com perfeição, as camadas da lasanha ainda soltando fumaça. E não consegui tocar em nada. As lágrimas caíram antes que eu pudesse impedi-las. Subi correndo para o quarto, tirei o vestido e me joguei na cama. Enfiei o rosto no travesseiro, gritando contra o tecido. — Até quando eu vou aguentar isso? Abri o notebook e escrevi um rascunho de e-mail para o advogado da família: — "Senhor Gagliardi, gostaria de saber se há alguma cláusula no contrato que permita o encerramento antes do prazo de três anos, considerando… desgaste emocional irreparável." Li, reli… e apaguei. Não. Ainda não. Ele vai me olhar. Vai me enxergar como mulher, como esposa… como alguém além de um nome numa certidão empresarial. Fechei o notebook. Me levantei e fui até o espelho. Meu rosto ainda vermelho, os olhos marejados. Mas havia algo na forma como encarei meu reflexo. Um fio de orgulho que teimava em não morrer. Desci novamente. A vela ainda acesa. A lasanha intocada. Peguei o prato dele e coloquei em um pote de vidro. Guardei na geladeira. Amanhã, quem sabe, ele tenha fome. Antes de subir de novo, parei na varanda. Toronto estava fria como sempre à noite. A vista era linda, os prédios acesos pareciam constelações invertidas. E ali, naquele frio que mordia os ossos, me peguei sussurrando baixinho: — Você ainda vai me olhar como mulher… nem que seja no último dia desse contrato. Voltei para o quarto, troquei o pijama, peguei meu diário e sentei na poltrona de canto. Comecei a escrever com as mãos trêmulas, mas o que saiu foi direto: — “Querido diário, hoje tentei mais uma vez. Tentei fazer com que ele me enxergasse. Cozinhei, arrumei a mesa, sorri. E ele disse que não tinha fome. Ele nunca tem fome de mim. Às vezes penso que há algo errado comigo. Mas não. Eu sei que ele tem medo. Ele acha que se me tocar, algo dentro dele vai quebrar. E talvez eu quebre junto. Mas eu vou continuar. Porque meu coração é burro. É teimoso. É dele. E eu vou lutar. Nem que seja por um olhar. Nem que seja por uma noite. Nem que seja só para ele se lembrar que existo.” Fechei o diário. Encostei na poltrona e deixei os olhos se fecharem devagar. Não vou desistir. Ainda não. Amanhã é mais um dia… e se ele não tem fome agora, talvez sinta falta depois. Na manhã seguinte, vesti uma roupa elegante, mas discreta, calça preta de alfaiataria, blusa creme de gola alta e um blazer xadrez em tons suaves. Prendi o cabelo em um coque baixo e fui até a empresa dele. Mesmo como esposa de Alonzo, eu fazia questão de cumprir minha parte no contrato, que incluía presença em eventos da família e participações sociais na empresa. O elevador até o décimo andar parecia mais lento que o normal. Eu sabia que ele estaria lá em alguma sala de reuniões, imponente como sempre. Assim que cheguei à recepção do andar executivo, fui surpreendida por um dos gerentes de marketing, Matteo, um homem simpático e sorridente, que sempre me tratava com gentileza. — Senhora Karvell — disse ele com um sorriso genuíno. — Está radiante hoje. Essa cor combina perfeitamente com você. Sorri, educada, mas um pouco sem jeito. — Obrigada, Matteo. Você é sempre gentil. — Só falo verdades. Se eu fosse o seu marido, cancelaria todas as reuniões só pra almoçar com você. Antes que eu pudesse responder, senti um olhar atravessar a minha pele. Virei levemente o rosto e vi Alonzo no final do corredor, parado, observando. O maxilar travado, as mãos fechadas. Ele ficou ali por alguns segundos, depois entrou na sala de reuniões sem dizer uma palavra. Fingi que nada tinha acontecido, mas confesso que minhas mãos suaram um pouco. Minutos depois, desci até a cafeteria da esquina para encontrar minha prima Emily. Ela era o oposto de mim… extrovertida, falante, dona de uma risada contagiante e de uma mente afiada. Assim que me viu, levantou os braços: — Olha ela aí, a esposa mais linda do Canadá! — Emily, para com isso — ri, sentando à sua frente. — Eu vi no site da empresa que você esteve lá hoje. Quase coloquei um outdoor dizendo: “Ela está viva, senhoras e senhores!” — Boba — sorri, mas suspirei em seguida. — Almoço e janto sozinha quase todos os dias, você sabe. — E hoje? Nenhuma migalha de atenção do bonitão? — Na verdade… algo estranho aconteceu. Um dos gerentes me elogiou, coisa leve, sabe? E o Alonzo viu. — E? — E o jeito como ele olhou… foi estranho. Ele ficou sério. Tenso. Parecia… incomodado. Emily ergueu as sobrancelhas com um sorriso. — Isso se chama ciúmes, minha querida. E dos grandes. — Não, não… ele não sente nada por mim, já deixamos isso claro desde o começo. — Antonella, até um poste teria sentido aquele olhar. Você mexe com ele, mesmo que ele tente esconder. E sabe por quê? Porque ninguém consegue ser de gelo pra sempre. Uma hora, o fogo que você tem vai derreter aquilo tudo ali. As palavras dela ficaram ecoando em mim mesmo depois que voltamos a conversar sobre outros assuntos. Talvez fosse exagero. Talvez fosse só coisa da minha cabeça. Mas talvez… fosse o começo de alguma rachadura no gelo. E meu coração, teimoso como sempre, acelerou.AlonzoO jardim está florido. A luz da manhã abraça a terra. As gêmeas dormem no carrinho, balançadas por Eliza, que toma chá sorrindo. Os trigêmeos correm pelo gramado, disputando quem chega primeiro até a árvore favorita.Fico alguns segundos parado, só olhando. Se alguém me dissesse anos atrás que esse seria o meu final, eu teria dado risada. Eu, Alonzo Karvell, bilionário arrogante, sentado num jardim, com o coração em paz e cinco filhos fazendo bagunça.No centro de tudo, ela.Antonella está sentada numa cadeira branca, com o cabelo preso de forma simples e algumas mechas soltas. O olhar dela está diferente. Mais maduro, mais firme, mais dela. Não é mais a mulher que entrou na minha casa tremendo, com medo de tudo e de mim. É a dona da própria história, da própria empresa… e do meu coração.Caminho até ela devagar, como se quisesse gravar cada passo. Quando chego perto, encosto a mão em seu ombro. Ela levanta o rosto e sorri daquele jeito que me desmonta.— Está me olhando assim
AxelA felicidade também bateu na minha porta.Dizem que o amor chega quando a gente está distraído. Eu discordo. No meu caso, o amor chegou gritando, quebrando minha porta, me chamando de tarado e me acusando de traição por conta de umas roupas da minha mãe no meu closet. Pois é, meu romance começou como um desastre. E agora estou aqui, de terno, com suor escorrendo na nuca, prestes a dizer “sim” no meu próprio casamento.A igreja não é exagerada, mas também não é simples. Tem flores brancas, luz dourada, e um cheiro que mistura perfume caro com nervosismo. Antonella e Alonzo estão aqui ao meu lado, lado a lado como um lindo casal, os dois padrinhos. Antonella sorri como se fosse minha irmã, e Alonzo está com cara de quem quer chorar, mas não pode porque tem uma reputação a manter.Dou uma olhada para Antonella. Ela faz sinal de “respira”. Eu respiro. Dou uma olhada para Alonzo. Ele faz sinal de “não desmaia”. Eu ajusto a gravata.Então, a música começa.Emily entra.Eu já vi essa m
AntonellaA vida finalmente se reorganizou. Não em perfeição, mas em felicidade. Os dias começaram a ficar mais leves depois da prisão de James. Eu ainda acordava assustada às vezes, com a sensação do cativeiro grudada na pele, mas bastava olhar para o lado e ver Alonzo dormindo agarrado em mim, uma mão na minha barriga, que eu lembrava: acabou. Ele estava preso. Longe de mim. Longe da minha família.Em contrapartida, Letícia saiu do país graças ao acordo, sem cumprir pena. Quando Alonzo me contou, eu senti um gosto amargo na boca. Parecia injusto. Parecia errado.Naquela noite, eu estava sentada na cama, alisando a barriga, quando Alonzo se aproximou com duas canecas de chocolate quente.— Está com essa cara desde que te contei sobre Letícia — ele comentou, sentando ao meu lado. — Fala comigo, coelhinha.Eu respirei fundo.— Não vou dizer que perdoo… mas se não fosse ela, talvez eu não tivesse sido encontrada. Não é perdão. É aceitação.Ele ficou em silêncio por alguns segundos, me
AlonzoChegou o dia da audiência de James. O tribunal está quieto. Não é comum, é aquele momento que pesa, que prende o ar no peito, que parece ecoar entre as paredes. Nem mesmo os jornalistas ousam cochichar. As câmeras estão posicionadas, mas ninguém se atreve a disparar um flash. Todos observam a porta de ferro sendo aberta. O homem algemado entra.James McAllister.O terno escuro, o cabelo penteado como se ainda fosse um homem de negócios, e o sorriso debochado que sempre me irritou. Mas, dessa vez, o olhar dele entrega… ele sabe. Sabe que está diante do fim.Eu estou na primeira fila. As mãos suadas, as pernas tensas, o coração batendo mais rápido do que deveria. Do meu lado, Antonella. Ela segura minha mão com força. A barriga dela está protegida por mim. Ela respira fundo, olha para mim, e eu vejo nos olhos dela, coragem. Mesmo grávida, mesmo frágil, ela está aqui. Para encarar o homem que tentou destruir tudo.Quando os policiais colocam James no banco dos réus, ele olha para
Alonzo Levei Antonella para casa dois dias depois. A médica só a liberou porque eu prometi que ela iria comer bem, tomar as vitaminas no horário e descansar. Ela disse ainda que o corpo dela está frágil, ainda mais com duas bebês crescendo ali dentro. Eu prometi que cuidaria dela como nunca cuidei de ninguém na vida.Na verdade, eu apenas disse a verdade.Segurei sua mão durante o caminho inteiro. Ela olhava pela janela, quieta demais. Não era tristeza. Era cansaço. Era trauma. Era a necessidade de silêncio depois de tanto medo.— Quer parar para comer alguma coisa, coelhinha? — perguntei.Ela negou com a cabeça. Apenas entrelaçou os dedos nos meus, como se por agora isso fosse suficiente.Chegamos em casa já no fim da tarde. A mansão parecia mais viva. As luzes estavam acesas, a avó dela nos esperava na porta. Quando Antonella desceu do carro, a avó a abraçou tão forte que eu pensei que ela fosse quebrar.A voz dela saiu chorando, mas firme:— Você está em casa, minha menina. Agora
Alonzo O tempo parou. Três dias. Setenta e duas horas. Quatro mil trezentos e vinte minutos.E eu não faço a menor ideia de onde ela está. Nenhuma pista. Nenhuma ligação. A cada vez que meu telefone toca, meu coração dispara. E quando percebo que não é ela, o peso volta e eu fico mais perto de enlouquecer.A polícia diz que está fazendo o possível. Axel tenta me manter respirando, controlado, mas não consegue. Nem eu consigo.— Você precisa comer alguma coisa, Alonzo — Axel diz, colocando um prato sobre a mesa.— Eu não vou comer enquanto não souber se ela está comendo. — Eu falo sem olhar.Ele suspira, arrasta a cadeira e se senta ao meu lado. Ele conhece bem minha teimosia.— Você acha que ela quer te ver desse jeito quando voltar?— Primeiro eu preciso saber se ela vai voltar. Merda, ela precisa voltar.Ele fecha os olhos, e eu vejo meu melhor amigo com medo. Não posso fingir que está tudo bem, não consigo ser frio a esse ponto. De qualquer jeito não tenho fome, tenho saudades e t







