Compartir

Perdi o chão

last update Fecha de publicación: 2025-09-01 01:00:49

Parte 3...

Valentina

Carlo manteve a postura firme.

— O mundo em que você nasceu não é um lugar como os outros, não foi feito para sonhos e ilusões inocentes, Valentina. Agora chegou a hora de você cumprir seu destino.

— Destino uma ova! – bati o pé — Eu fui presa em um acordo que nem deveria ter acontecido. Eu era só uma menina – me virei para eles não verem que eu queria chorar. Esfreguei os olhos com força.

O silêncio depois disso foi quase sufocante pra mim. Minha garganta estava até ardendo. Olhei para a janela. Cada floco que caía era como um lembrete da prisão dourada em que eu vivia e nem sabia o que me aguardava.

— Você só tem a ganhar com isso. Esse casamento é desejado por várias mulheres.

— Pois ele que se case com todas elas – me virei, quase gritando, meu peito pesado — Eu não fiz nenhum acordo.

— Mas seu pai fez – foi a resposta seca dele. — Matteo Romano é o próximo na linha de sucessão. O pai dele está velho e logo Matteo irá assumir seu lugar, como esperado.

— Eu não me importo com isso.

— Valentina, por favor...

— Eu que peço por favor, diretora – segurei o rosto entre as mãos — Como a senhora me escondeu isso todo esse tempo?

— Eu não podia contar – ela juntou as mãos como em prece — Seu pai deixou tudo acertado. Nós cuidamos bem de você todos esses anos.

— Mas mentiu pra mim.

— Não foi uma mentira, eu apenas evitei falar.

— Pra mim é a mesma coisa – engoli em seco, está difícil pra mim.

— Seu casamento com Matteo vai selar a paz real entre as famílias. Desde que o acordo foi feito, as brigas e conflitos estão diminuindo. Com o casamento isso vai parar de vez. Essa rivalidade de décadas vai finalmente acabar.

— Paz? Que paz? – soltei um riso nervoso.

— Vai ser bom pra você, filha – a diretora ainda tentava justificar.

— Não, não vai – cobri a boca com a mão, olhando de um para outro — O que vai me fazer bem é continuar com meus planos.

— Você vai se formar, vamos adiantar isso. A paz vai ser selada e tudo vai seguir bem.

— A paz em cima de minha prisão? É isso?

— Isso é sobrevivência, menina.

Ele se inclinou levemente, sua voz saiu baixa e até ameaçadora pra mim.

— Eu não precisava sobreviver – respondi entre dentes — Minha vida estava seguindo normalmente.

— E ainda pode, só depende de você.

Nesse momento eu percebi pelo olhar dele, que eu não tinha escolha. A expressão de Madame Collier também mostrava isso. Eu estava presa ao destino de um mafioso que nem mesmo conheço.

*** *** ***

Depois de alguns minutos mais de conversa, eu pedi licença e saí da sala da diretoria, quase correndo de volta para meu quarto. Estou com fome, mas não tenho como ir ao refeitório agora, vou começar a chorar na frente de todos.

Eu não queria encontrar ninguém pelo corredor. Fechei a porta rápido e me sentei na cama, abraçando os joelhos e só aí percebi que deixei os livros na sala da diretora Collier.

Estava pensando no que fazer, quando a porta se abriu e Kira entrou, seguida por Bianca e logo depois veio Silas.

— O que houve? Por que não foi comer com a gente? – Bianca sentou ao meu lado — Que cara é essa? Fala logo – empurrou minhas pernas.

— Você está branca como uma folha de papel – Silas declarou — Ai... Não me diga que foi alguma coisa ruim com o seu pai.

Eu não consegui responder de imediato, minha garganta travou e as lágrimas começaram a cair. Kira sentou do outro lado e passou um braço em volta de meus ombros.

— Fala logo o que foi, Val... Estou preocupada com você agora. Por que está chorando, amiga?

— Foi com meu pai sim... – funguei e Silas puxou um lencinho de papel da caixinha ao lado da cama — Mas nada com ele mesmo... Ele está bem.

— Então...

— É comigo – minha voz deu uma falhada.

— Você está doente? – Bianca franziu os olhos.

— Não... – apoiei a cabeça na mão — Meu pai decidiu que... Que eu tenho que voltar pra casa logo.

— Mas e a nossa formatura? – Silas se abaixou em minha frente, segurando em minhas pernas.

— Eu vou me formar – assoei o nariz no lenço — Mas depois eu tenho que voltar para casa... E me casar... – outras lágrimas fugiram.

Os três se olharam sem entender nada.

— Casar? – Silas repetiu — Casar como?

— Casar, casar... – gesticulei para o alto, nervosa — Meu pai fez a merda de um acordo quando eu era pequena e agora chegou a hora de cumprir isso.

— Gente, eu tô passado – Silas caiu sentado.

— Isso é brincadeira, amiga? – Kira questionou me encarando, observando de perto.

— Como assim casar? Você nem tem um namorado, criatura.

— Eu sei... – dei uma soluçada — Eu fiquei tão espantada quanto vocês, mas é isso. Eu vou ter que me casar.

— Tá... – Bianca levantou — E casar com quem? A gente conhece esse cara? Você conhece?

— Mais ou menos – estiquei as pernas — Ele me viu quando eu tinha dez anos e...

— Misericórdia! – Silas bateu as mãos — Seu pai vendeu você para um pedófilo.

— Ai, credo... – Kira deu um tapa nele — Que horror! Deixa ela falar.

— Ué! Mas se ela tinha dez anos.

— Não sei se é bem pedofilia isso... – torci a boca — É estranho, com certeza, mas aí já é demais. – esfreguei os olhos — Eu tinha dez e ele era onze anos mais velho, aí nossos pais fizeram um acordo para encerrar com a rivalidade.

— Que rivalidade? – Bianca cruzou os braços.

— Meu pai é um mafioso – soltei um suspiro desanimado — Eu nunca falei antes porque achei que vocês não iriam querer ser meus amigos.

— Ah, tá! – Silas riu e abanou a mão — E eu que sou filho de um ator fracassado que finge que ainda tem alguma importância?

— Não é a mesma coisa – balancei a cabeça.

— Mas é tão feio quanto – ele comentou.

— Meu pai é político... – Bianca fez um bico, apertando as unhas — Corrupto... Ele desvia dinheiro público.

— É pra gente contar as vergonhas? – Kira ergueu a mão — Eu sou filha bastarda. Minha mãe era amante e ainda é, até hoje... De outro homem. Não sei quem é o meu pai de verdade.

— Acho que estamos todos na mesma lama, só que com cheiros diferentes - Silas comentou rindo.

— Essa é a família tradicional brasileira - Bianca suspirou, revirando os olhos. — Uma amante, um ator fracassado e um mafioso. Perfeito! Drama é nosso tempero.

— Ah, vocês não sabem o que é drama - Kira deitou e encolheu as pernas. — Crescer em Paris é sobreviver a tudo de mais maluco que se possa imaginar. As ruas de Paris são uma loucura total.

— Em Roma - Silas ergueu um dedo — Você precisa convencer a família inteira antes de namorar alguém. E “inteira” significa até o padeiro da esquina. Quando você se envolve com uma pessoa, não é só com ela – bateu as mãos — Sua vida vira um inferno. A fofoca corre solta.

— Ótimo - falei, rindo. — Então somos oficialmente um desastre internacional.

— Viva a Organização das Nações Infelizes - Bianca brindou com uma taça imaginária.

— E que a amizade sobreviva a todas essas loucuras - Kira completou, tocando a taça imaginária.

Continúa leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la App

Último capítulo

  • Presa ao Destino do Mafioso   Vou pensar

    Parte 147...Matteo— É só o que eu espero. Pense com calma. Ela não quer entrar na vida de vocês à força. Só quer… Tentar reparar o que estragou.Meu pai nunca se separou dela, mas vive mais aqui do que na casa onde ela foi enviada. Sei que no final, a punição também o afetou.Antes que eu diga qualquer coisa, escuto passos conhecidos. Tizziano chega, segurando um copo de limonada e com a expressão curiosa.— O que vocês dois estão tramando aí? - ele pergunta.Meu pai me olha, então faço eu mesmo o resumo.— A mãe tá querendo aproximar de novo – digo sem ânimo. — Pede desculpas, diz que mudou. Quer ver as crianças. E o pai acha que eu deveria considerar.Tizziano ergue as sobrancelhas.— E você? O que pensa?Dou de ombros.— Estou pensando.Ele dá um gole na limonada, depois passa o braço pelo meu ombro como fazia quando éramos adolescentes.— Matteo… Pensa com carinho. — Ele fala baixo. — Já se passaram muitos anos. E se ela realmente mudou, talvez dê pra dar uma segunda chance. Não

  • Presa ao Destino do Mafioso   Emocionado demais

    Parte 146...ValentinaA médica desligou o aparelho, nos deu uma toalha e um tempo a sós, dizendo que voltaria com o resultado impresso. Fechou a porta.Matteo se virou para mim devagar. O rosto dele estava vermelho, emocionado, meio assustado, meio feliz. Realmente, outro homem do que eu pensei.— Você está emocionado demais pra um mafioso - eu disse, rindo enquanto limpava o gel da barriga.Ele riu também.— Eu só sou mafioso fora de casa. Aqui… - ele passou a mão no meu rosto — Com você, eu sou outra coisa.— O quê?Ele se inclinou e beijou minha testa.— O pai de três bebês que vão virar a minha vida de cabeça pra baixo.— Então vamos virar juntos – respondi, apertando a mão dele.Ele me beijou, um beijo calmo, quente, profundo. Cheio de uma emoção silenciosa que só esse momento especial tinha.A porta se abriu devagar e a médica voltou, sorrindo.— Aqui estão os resultados. E algumas fotos, se quiserem já mostrar pra família.Matteo pegou o envelope como se fosse algo sagrado.—

  • Presa ao Destino do Mafioso   Tem um bebê vindo

    Parte 145...Valentina— Você falou como se fosse brigar com ele no dia seguinte.— E eu quase briguei - Matteo admite. — Não quero que ele fique ligando para dizer como você tem que agir – suspirou — Mas agora ele vai ficar feliz porque você vai dar o neto que ele quer.Eu franzi o nariz.— Não é bem o neto... O que ele quer mesmo é poder ter a certeza de que agora não tem mais volta nesse acordo.— É, eu sei, mas não queria te magoar dizendo isso – mexe em meu cabelo.— Eu sei - digo, ainda sorrindo. — Foi naquele dia que eu entendi. Que você se importava comigo de verdade… E que talvez eu pudesse… - respiro fundo — Amar você... Ao invés de ficar me prendendo. Já basta os anos de prisão no colégio.Ele me puxa mais perto.— Viu só, que eu não era esse monstro que você imaginava?— Eu sei, mas não pode reclamar, diante das circunstâncias desse casamento.— E você acha pouco o modo como eu trato seus amigos? - pergunta, com aquele sorriso que destrói minhas defesas.— Acho bonito - d

  • Presa ao Destino do Mafioso   Nosso tempo

    Parte 144...ValentinaSeis meses depoisA casa já tinha jeito e cheiro de lar, mas ainda não estava toda de acordo com o que a gente queria. Era engraçado pensar que, meio ano atrás, eu mal conseguia ouvir a voz do Matteo sem sentir o peito apertar de medo, e agora eu dividia tudo com ele. Até os pequenos silêncios.No começo foi estranho começar uma vida onde a casa fosse toda para nós dois, sem mais nenhum parente. Era um espaço só pra gente.Estávamos no quarto que seria o novo escritório dele. Matteo decidiu trabalhar mais de casa, como fazia antes, e isso me dava uma sensação boa. De proximidade. De que ele queria ficar aqui comigo, mais do que em qualquer outro lugar.Só faltava essa parte da casa, que tinha três cômodos ainda vazios. Ele estava em pé, segurando uma fita métrica e analisando a parede como se fosse escolher o lugar onde derrubaria um império inteiro. Eu até fiz piada disso.— Acho que a mesa fica melhor desse lado - Matteo disse, tocando a parede com a palma da

  • Presa ao Destino do Mafioso   Novo acordo só nosso

    Parte 143...ValentinaQuando escuto a porta se abrir, já sei que é ele. Eu estou sentada no sofá da sala nova, abraçada aos joelhos, tentando entender tudo o que aconteceu naquele dia.Quando ele aparece no corredor, percebo o quanto ele parece cansado. Exausto. Como se tivesse carregado o peso de um prédio nas costas.— Valentina - ele diz, a voz baixa, quase áspera de tanto segurar sentimentos.— Oi… - respondo, tentando não parecer preocupada, mas falho miseravelmente. — Você demorou.Ele tira o casaco, joga sobre a poltrona e se aproxima. Os olhos dele… Deus. Sempre tão fortes, agora estão vermelhos nas bordas. Não de choro, mas de raiva contida. De cansaço. De tudo.— Eu precisava resolver esse assunto - ele diz. — E resolvi.Eu endireito a postura, esperando. Ele senta ao meu lado, não muito perto, não muito longe. Como se estivéssemos pisando num território novo, cheio de armadilhas sentimentais.— O que você fez? - pergunto.Ele respira fundo.— Eu mandei minha mãe e a Mira e

  • Presa ao Destino do Mafioso   Vão embora de vez

    Parte 142...MatteoQuando deixo Valentina na casa nova, ainda atordoada e vulnerável, sinto o sangue ferver enquanto dirijo até a casa dos meus pais. A fachada iluminada, perfeita, organizada… Tudo me dá náusea. É incrível como um lugar tão bonito pode abrigar tanta podridão.Entro sem fazer barulho, mas não importa. Eles sempre sabem quando eu chego e dessa vez, eu quero que saibam. Tranco a porta da frente, porque isso não é conversa pra ter com ninguém entrando e saindo.— Mãe. Mira. No escritório. Agora!As duas surgem quase ao mesmo tempo. Minha mãe com aquela postura controlada, de senhora da sociedade intocável. Mira com a cara inchada de choro ou de culpa. Tanto faz.Elas entram no escritório. Fecho a porta. O clima pesa de imediato.— O que aconteceu? - minha mãe pergunta, com aquela voz fingida de doce, que só me irrita mais. — Valentina melhorou, não foi?— Eu vou ser bem direto – digo de cara fechada. — As duas vão embora daqui. Longe da família. Amanhã.— O quê? - Mira a

Más capítulos
Explora y lee buenas novelas gratis
Acceso gratuito a una gran cantidad de buenas novelas en la app GoodNovel. Descarga los libros que te gusten y léelos donde y cuando quieras.
Lee libros gratis en la app
ESCANEA EL CÓDIGO PARA LEER EN LA APP
DMCA.com Protection Status