Inicio / Lobisomem / Rejeitada pelo Alfa da Lua Sombria / CAPÍTULO 2 — O RECONHECIMENTO DO MATE

Compartir

CAPÍTULO 2 — O RECONHECIMENTO DO MATE

Autor: Evilyn Sá
last update Fecha de publicación: 2026-02-09 23:24:08

O silêncio que se seguiu foi pior do que qualquer grito.

A clareira inteira parecia suspensa no tempo, como se até a floresta tivesse prendido a respiração. O círculo sagrado, antes cheio de cânticos e movimento, agora era um espaço de expectativa pesada, quase sufocante.

Eu ainda estava ali.

No centro.

Exposta.

Meu coração batia tão forte que doía. Cada pulsação ecoava no meu ouvido, misturada ao som distante do vento passando entre as árvores. A Lua Sombria brilhava acima de nós, imensa e cruel, iluminando cada rosto voltado para mim — alguns curiosos, outros desconfiados, muitos julgadores.

Eu quis recuar.

Quis correr.

Quis desaparecer.

Mas meus pés não se moviam.

O vínculo pulsava dentro de mim como uma ferida aberta. Não era completo, eu sentia isso. Faltava algo. Como se estivesse quebrado antes mesmo de nascer. Ainda assim, era forte o suficiente para me fazer tremer inteira.

Ergui o olhar devagar.

Kael Blackfang estava a poucos passos de mim.

Ele parecia uma estátua esculpida em pedra antiga. O rosto impassível, a postura rígida, os olhos dourados fixos em algum ponto acima da minha cabeça — em qualquer lugar que não fosse em mim.

Isso doeu mais do que se ele tivesse gritado.

— Anciãos — disse Kael, por fim, com a voz firme, controlada demais. — Não houve reconhecimento válido.

Um murmúrio percorreu a matilha como um arrepio coletivo.

Meu estômago se contraiu.

— Alfa — respondeu um dos anciãos mais velhos, aproximando-se com cautela. — A Lua reagiu. O laço foi sentido por ambos.

Por ambos.

Kael apertou o maxilar. Eu vi o músculo se contrair, vi o esforço que ele fazia para manter o controle. O vínculo o incomodava. Eu sentia isso. Cada vez que meu coração acelerava, algo se agitava no ar ao redor dele também.

Ele sentia.

Mesmo negando.

— A Lua pode testar — respondeu Kael. — Mas não decide sozinha.

Alguns lobos trocaram olhares. Outros franziram a testa. O clima começava a mudar, passando da curiosidade para a tensão aberta.

Meu rosto queimava.

Eu não queria estar ali. Não queria ser o centro de algo tão grande, tão errado. Eu era só Elira. Uma Ômega sem importância, criada para servir, não para desafiar o destino de um Alfa.

— Elira — chamou uma das anciãs, com a voz suave, porém firme. — Aproxime-se.

Minhas pernas tremiam quando dei mais um passo à frente. Senti dezenas de olhos me seguindo, avaliando cada detalhe meu como se tentassem encontrar a falha que justificasse aquele erro da Lua.

Porque era isso que todos pensavam.

Um erro.

A anciã estendeu a mão, tocando meu pulso. Um arrepio percorreu meu corpo quando ela fechou os olhos, concentrando-se. O ar ao nosso redor vibrou levemente, como se algo invisível estivesse sendo puxado à superfície.

Prendi a respiração.

Kael deu um passo involuntário à frente.

Foi rápido. Quase imperceptível. Mas eu vi.

E soube.

O vínculo respondeu.

Meu peito ardeu com mais intensidade, uma dor misturada a um calor estranho, quase desesperado. Levei a mão ao coração, sentindo as lágrimas ameaçarem cair.

— Há um laço — disse a anciã, abrindo os olhos devagar. — Incompleto, instável… mas verdadeiro.

O silêncio explodiu em murmúrios.

— Uma Ômega?

— Isso é impossível.

— O Alfa Supremo?

As palavras cortavam como lâminas.

Kael ergueu a mão, exigindo silêncio imediato. A matilha obedeceu, como sempre. O poder dele era absoluto.

— Olhem para ela — disse ele, a voz fria, ecoando pela clareira. — Olhem bem.

Senti meu corpo enrijecer.

— Ela não tem força — continuou. — Não tem posição. Não tem nada que a torne digna de carregar o título de Luna.

Cada palavra era um golpe.

Eu queria gritar que não tinha pedido aquilo. Que não escolhera ser ligada a ele. Que também sentia medo. Mas minha garganta estava fechada demais para qualquer som.

— O vínculo — Kael prosseguiu — é uma falha da Lua. E falhas precisam ser corrigidas.

Meu coração disparou.

— Alfa Kael — tentou intervir um dos Betas. — A tradição—

— Eu conheço a tradição — interrompeu ele, ríspido. — E conheço minhas responsabilidades.

Ele finalmente olhou para mim.

Diretamente.

Seus olhos dourados encontraram os meus, e por um instante — apenas um instante — vi algo diferente ali. Conflito. Raiva. Algo que se parecia perigosamente com dor.

O vínculo pulsou com força.

Eu dei um passo para trás, instintivamente.

— Não — ele disse, baixo, como se falasse mais para si mesmo do que para mim. — Isso não vai acontecer.

A anciã retirou a mão do meu pulso.

— Alfa, a Lua Sombria não se manifesta sem razão — disse ela. — Rejeitar um laço, mesmo incompleto, pode ter consequências.

Kael endireitou os ombros.

— Eu assumo as consequências.

As palavras ecoaram pelo círculo.

Meu mundo começou a girar.

— Elira — chamou a anciã, com um olhar quase piedoso. — Você entende o que está sendo dito?

Entender?

Como eu poderia não entender?

Assenti lentamente, sentindo as lágrimas finalmente escorrerem, quentes e silenciosas.

— Sim — consegui responder, com a voz fraca. — Eu entendo.

Eu não era desejada.

Nunca fui.

O vínculo ainda pulsava, insistente, como se implorasse para não ser destruído. Era isso que doía mais. Saber que algo tão profundo podia ser descartado com tanta facilidade.

Kael deu um passo à frente.

O círculo pareceu se fechar ainda mais.

— Diante da matilha — começou ele, com a voz clara, poderosa — e sob a luz da Lua Sombria…

Meu coração quase parou.

Eu quis fechar os olhos. Não consegui.

— Eu, Kael Blackfang, Alfa Supremo, rejeito este vínculo.

O impacto foi imediato.

Uma dor lancinante atravessou meu peito, como se algo tivesse sido rasgado dentro de mim. Arquejei, perdendo o equilíbrio por um segundo. O vínculo gritou — não em som, mas em sensação — antes de se partir ainda mais, deixando um vazio cruel no lugar.

Ouvi exclamações.

Senti olhares.

Senti vergonha.

Kael permaneceu imóvel.

— Não a reconheço como minha companheira — concluiu ele. — E nunca a reconhecerei como Luna.

O silêncio que se seguiu foi absoluto.

E então, meu mundo desabou.

Continúa leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la App

Último capítulo

  • Rejeitada pelo Alfa da Lua Sombria   EPÍLOGO: O QUE PERMANECE

    (ELIRA)O tempo não apagou.Ele… acomodou.Aurora voltou a respirar primeiro.Depois, Obsidiana.Depois… nós.Não houve um dia exato em que tudo ficou bem.A cura não veio como uma onda — veio em pequenos instantes, quase imperceptíveis.Um lobo que voltou a correr.Uma árvore que floresceu fora de época.Uma noite em que consegui dormir sem sentir o peso esmagando meu peito.E, ainda assim…Havia coisas que o tempo não levou.Orion.Eu ainda penso nele.Não com a dor crua de antes.Mas com uma ausência que se transformou em algo mais… silencioso.Mais profundo.Ele não voltou para Aurora.Não ficou em Obsidiana.Orion partiu.Não por fraqueza.Mas porque precisava.Porque permanecer… teria destruído o que restava dele.E talvez… o que restava de nós.Ninguém sabe exatamente para onde ele foi.Alguns dizem que ele está ao norte, reconstruindo uma alcateia própria.Outros dizem que ele caminha sozinho, ajudando territórios menores a se manterem estáveis.Kael não fala sobre ele.Mas eu

  • Rejeitada pelo Alfa da Lua Sombria   CAPÍTULO 102 - CAPÍTULO FINAL: ETERNO

    (ELIRA) Obsidiana nunca pareceu tão… viva.Não como antes.Antes, o território pulsava com poder, com hierarquia, com força bruta. Era imponente. Intocável. Dominado.Agora—Ele respirava.Havia algo diferente no ar.Mais leve.Mais… humano.Eu parei no alto da escadaria de pedra, olhando tudo à minha frente.A matilha estava reunida.Lobos em forma humana e animal, espalhados pelo pátio central, formando um círculo amplo ao redor do altar de pedra negra — o mesmo onde decisões eram tomadas, onde destinos eram selados.Onde, uma vez…Eu fui rejeitada.Meu peito apertou levemente com a lembrança.Mas não doeu.Não mais.Porque agora—Eu não era a mesma.E aquele lugar…Também não.— Está com medo?A voz veio ao meu lado.Baixa.Grave.Familiar.Kael.Eu não precisei olhar para saber que ele estava ali.Eu senti.Sempre sentia.Mas agora não como uma força que me puxava.Como uma escolha que me ancorava.Eu soltei um pequeno suspiro.— Não.Minha resposta saiu sincera.E isso me surpre

  • Rejeitada pelo Alfa da Lua Sombria   CAPÍTULO 101 - ESCOLHA FINAL

    (ELIRA)A lua estava alta quando eu finalmente parei de fugir.Não dos outros.De mim.Aurora ainda respirava devagar, como se cada parte do território estivesse reaprendendo a existir depois do colapso. O silêncio já não era tão pesado quanto antes… mas também não era leve.Era… honesto.Como tudo dentro de mim agora.Eu caminhei sem destino até parar no limite da clareira central. O mesmo lugar onde tudo começou a ruir… e onde tudo terminou.Ou quase.O vento tocou meu rosto suavemente.Frio.Mas não incômodo.Eu fechei os olhos.E senti.A lua ainda estava ali.Constante.Presente.Mas silenciosa.Como se, pela primeira vez… estivesse me deixando escolher sozinha.Meu peito apertou.Orion.A ausência dele ainda estava ali.Não como ferida aberta… mas como cicatriz recente.Eu ainda sentia.A falta.O eco.A marca.E aquilo nunca iria desaparecer completamente.Eu sabia.E aceitei.— Obrigada… — sussurrei para o vazio, sem saber se ele poderia ouvir.Talvez não.Mas eu precisava diz

  • Rejeitada pelo Alfa da Lua Sombria   CAPÍTULO 100 - AUSÊNCIA

    (ELIRA)O silêncio não foi embora.Ele se instalou.Entrou nas paredes de Aurora, se acomodou entre as árvores, se deitou ao lado dos corpos feridos… e ficou.Mas dentro de mim—Ele gritou.Eu não dormi.Não de verdade.Meu corpo até cedeu em algum momento, vencido pelo cansaço, mas minha mente… não parou.Porque toda vez que eu fechava os olhos—Eu sentia.Não presença.Ausência.Orion.Meu peito apertou antes mesmo que eu me movesse.Acordar doía.Não como ferimento.Mas como consciência.Eu sabia, no instante em que abria os olhos, que algo não estava ali.E não voltaria.Eu levei a mão ao peito, ainda deitada, os dedos pressionando com força, como se… talvez… se eu insistisse o suficiente…Eu pudesse sentir de novo.Qualquer coisa.Um eco.Um resquício.Mas o que encontrei foi pior.Nada.Um vazio limpo.Frio.Definitivo.Minha respiração falhou por um segundo.— …Nem o nome saiu.Porque dizer “Orion” agora… parecia errado.Como chamar alguém que não podia mais responder.Mas não

  • Rejeitada pelo Alfa da Lua Sombria   CAPÍTULO 99 - SILÊNCIO

    (ELIRA)O mundo não voltou.Ele… parou.Não houve um momento de alívio, nem um suspiro coletivo, nem celebração.Aurora simplesmente… cessou.Como um coração que bateu rápido demais por tempo demais… e agora não sabe mais em que ritmo continuar.O ar estava limpo.Mas pesado.As árvores estavam de pé.Mas imóveis.Os sons… quase inexistentes.Sem gritos.Sem rosnados.Sem guerra.Só silêncio.Um silêncio tão profundo que parecia pressionar meus ouvidos, como se o próprio território estivesse… tentando entender o que ainda restava.Eu ainda estava de pé.Não sabia exatamente como.Minhas pernas tremiam levemente, o corpo inteiro pesado, como se cada parte de mim tivesse sido esticada além do limite… e agora estivesse tentando voltar ao lugar.Mas algo não voltava.Eu sentia.Por dentro.Diferente.Vazio… e cheio ao mesmo tempo.Minha respiração saiu lenta.Controlada.Mas não natural.Nada parecia natural.Meus olhos percorreram o que restava.Lobos espalhados pelo chão.Alguns conscie

  • Rejeitada pelo Alfa da Lua Sombria   CAPÍTULO 98 - ÚLTIMO SUSPIRO

    (LYRA) O silêncio… doeu mais que o grito.Porque o grito era luta.O silêncio… era o fim.Eu não senti o momento exato em que o poder me deixou.Eu senti… a ausência.Como se algo que sempre esteve queimando dentro de mim simplesmente… apagasse.Frio.Vazio.Errado.Minhas mãos tremiam.Eu tentei fechá-las… mas não havia mais força.— N-não… — minha voz saiu fraca, quebrada… irreconhecível até para mim.Isso não podia estar acontecendo.Eu era a Noite.Eu a carregava.Eu a controlei.Eu—Uma dor atravessou meu peito.Eu arqueei, o ar falhando completamente.Não era dor de ataque.Era… ruptura.Como se algo estivesse sendo arrancado de dentro de mim.Não.Não arrancado.Rejeitado.A Noite não me pertencia mais.Ela estava… indo embora.E sem ela—Eu não sabia quem eu era.O chão parecia distante.Ou talvez eu estivesse caindo.Eu não sabia.Tudo estava… lento.Distorcido.Apagando.Então—Braços.Fortes.Firmes.Desesperados.Eron.O nome veio como um eco.Ele me segurou antes que eu

Más capítulos
Explora y lee buenas novelas gratis
Acceso gratuito a una gran cantidad de buenas novelas en la app GoodNovel. Descarga los libros que te gusten y léelos donde y cuando quieras.
Lee libros gratis en la app
ESCANEA EL CÓDIGO PARA LEER EN LA APP
DMCA.com Protection Status