INICIAR SESIÓNScarlet Hayes
O quarto era lindo. Mas havia algo nele que me sufocava. Talvez as paredes altas, o silêncio, ou o peso de tudo o que tinha acontecido nas últimas horas. Fui até o espelho. O reflexo que me encarava parecia o meu… mas também não parecia. Meus olhos estavam diferentes. Mais escuros. Mais atentos. Como se outra parte de mim, uma parte escondida, observasse tudo em silêncio. Toquei meu rosto, lembrando das palavras daquele homem de terno que tentou me comprar no leilão: "Ela é igual. É ela. É a Luna." E agora Dimitri me trazia para cá. Me chamava de “noiva”, mas não me tocava com desejo. Ele me olhava como se estivesse vendo um fantasma, eu podia sentir isso, apesar de não entender nada. Um arrepio percorreu minha espinha. Fui até a janela e abri. A noite estava clara, e no céu, a Lua começava a subir… ainda não cheia, mas perto. Muito perto. Meu peito apertou. Meu corpo inteiro começou a formigar, como se algo sob minha pele estivesse se mexendo, tentando sair. —O que está acontecendo comigo? — sussurrei. Cai de joelhos, ofegante. Meus sentidos ficaram mais aguçados. O cheiro da madeira, o som de passos distantes, até o bater do meu próprio coração… tudo parecia mais alto, mais forte. Fechei os olhos e vi uma floresta. Vi meus pés descalços sobre a terra, e ouvi uivos ao longe. E então, a imagem de um homem. Dimitri. Mais jovem. Com sangue nas mãos. Chorando. —Pare — murmurei. — Isso não é real. Mas era. Uma voz sussurrou dentro da minha mente. Não era minha. Era rouca, selvagem. E dizia apenas: “Você está voltando para casa.” Ofeguei e me levantei com dificuldade. Fui até o espelho de novo… e por um segundo, juro por tudo que vi os olhos de outra mulher no meu reflexo. Olhos dourados. Olhos de loba. Alguém bateu na porta. —Scarlet? Era Dimitri. —Estou bem — menti. Ele hesitou. —Amanhã… quero que caminhe comigo pelos arredores da mansão. Há coisas que você precisa ver. Assenti, ainda trêmula. —Tudo bem. Ele foi embora, e eu continuei ali, olhando para a Lua que subia no céu. E no fundo… algo dentro de mim uivava. Dimitri Blackthorn A reunião com os anciões havia terminado, mas as perguntas deles ecoavam na minha mente. "Você encontrou sua Luna?" "Seria ela… a mesma?" Nada fazia sentido. Scarlet tinha o rosto, o cheiro, a essência… mas não se lembrava de nada. Não podia ser ela. E ainda assim, cada fibra do meu ser dizia que era. Subi as escadas com pressa. O meu lobo gritava para ir até ela. Algo estava errado. Abri a porta do quarto antes mesmo de bater. —Scarlet? Ela estava de pé, diante do espelho, pálida como a neve. Suando. Tremendo. Os olhos fixos no reflexo como se visse um fantasma. —Scarlet! Ela se virou devagar, cambaleando. —Dimitri… eu… — seus joelhos cederam. Corri e a segurei antes que ela caísse. Seus olhos giravam, como se ela estivesse lutando contra algo dentro dela. —Estou aqui. Você está segura. Ela apertou meus braços com força surpreendente, como se meu toque fosse a única âncora que ainda a ligava ao mundo. —Está… doendo aqui dentro — ela levou a mão ao peito, e lágrimas escorreram pelo rosto. — Eu escuto, ela está gritando dentro de mim,ela quer sair! Meu coração disparou. —Você precisa descansar. Seu corpo está despertando. Scarlet… você não é humana. Não totalmente. Ela me olhou com um misto de medo e certeza. —Você sabia? —Sempre soube. Ela tentou dizer algo, mas seus olhos se reviraram e o corpo amoleceu nos meus braços. —Scarlet! Segurei-a com firmeza e a deitei na cama, afastando os fios de cabelo colados à sua testa. —Você vai ficar bem. Me sentei ao seu lado, segurando sua mão. Podia sentir a energia da loba nela… pulsando. A Lua ainda não estava cheia, mas o chamado já a tocava. E dessa vez, eu não a perderia. Scarlet Hayes A escuridão parecia me engolir, mas então… veio o som. Uivos. Passos sobre a terra molhada. E um sussurro ao meu ouvido: “Corra, minha Luna… eles a querem morta.” Vi o lobo. Aquele dos meus sonhos desde a infância. Mas ele não estava sozinho dessa vez. Eu também era um lobo. Sentia meu corpo mais leve, minhas patas cravando a terra. Corria por entre árvores, e atrás de mim, sombras me perseguiam. E então, a voz dele. A mesma voz de Dimitri. —Luna, não! Vi a mim mesma… em outro tempo. Outro corpo. Mesma alma. Me jogando em frente a um lobo machucado para protegê-lo. Meu lobo. Dimitri. “Se me matar… nunca mais verá a luz da Alcatéia.” As palavras saíam dos meus lábios. A antiga versão de mim, encarando os anciões. “Eu sou a Luna por escolha da Lua. E a morte não me impedirá de encontrá-lo de novo.” Um clarão tomou conta da floresta. E então… tudo ficou em silêncio. Dimitri Blackthorn Ela se mexeu. Pela primeira vez em horas, Scarlet franziu a testa e respirou fundo, como se tivesse acabado de mergulhar em um oceano profundo e voltasse à superfície. Me inclinei. —Scarlet? Ela abriu os olhos lentamente. Estavam mais escuros, intensos, quase prateados. O mesmo brilho da minha Luna. —Você… — ela sussurrou. — Eu me lembro… Minha respiração falhou. —Do quê? Ela segurou meu rosto com as duas mãos, ainda trêmulas. —Eu fui sua Luna. As palavras dela vieram como uma rajada de vento em meio ao caos. —Eu morri… por você. E agora… estou de volta. Meu coração, que havia sido arrancado há anos, voltou a bater com fúria. —Você se lembra… de mim? Ela assentiu. Uma lágrima escorreu de seus olhos. —Você nunca deixou de me procurar. —Nunca! A puxei para meus braços, sentindo finalmente o elo se reacender. Mas algo ainda estava errado. Eu sabia. Se ela voltou, os inimigos também estavam por perto. continua...Dimitri Ela assentiu, as lágrimas deslizando lentamente por seu rosto.— Houve uma guerra… uma antiga, e pessoal, não essa que levou Lucian. Eu fui ferida, e para que ele vivesse, precisei me desfazer de mim. Parti, deixei para trás o que fui. Lunael foi o que restou, a parte de mim que esqueceu, que dormiu.Fiquei imóvel.O fogo estalava, o vento gemia nas frestas da janela, e eu me sentia pequeno diante do que via.Scarlett.O nome ecoava como uma prece antiga.Ela era a origem. A chama que começou tudo.E agora estava ali, viva, diante de mim.— Então Lunael era você o tempo todo? — perguntei, ainda sem acreditar.Ela aproximou-se mais, e pude sentir o calor de sua pele, o mesmo calor que um dia Lucian descrevera com reverência.— Era eu, e não era. — respondeu. — Eu fui parte de Lunael ele ela era a parte de mim que o mundo poupou da dor. Scarlett, era a que o mundo esqueceu.Passei as mãos pelos cabelos, tentando entender.— Por que agora? Por que voltar?Ela respirou fundo, e s
Lunael Voss Ele passou a mão pelo rosto, o olhar sombrio. — Eu também não pedi por isso, Dimitri. — Então por que veio? — gritei. — Por que não me deixou sofrer em paz? Por que precisava me envenenar com essa promessa absurda? Ele me fitou, os olhos cheios de uma dor silenciosa. — Porque eu fiz uma promessa ao homem que amei como um irmão. E vou cumpri-la, mesmo que isso me destrua. O silêncio voltou a cair entre nós. Eu tremia. O coração latejava como se tentasse escapar do peito. Tudo que eu queria era acordar daquele pesadelo, abrir os olhos e encontrá-lo novamente no jardim, com as flores brancas e o sorriso que me salvava do mundo. Mas não havia mais volta. Afastei-me alguns passos, tentando respirar. — Você acha que casar comigo vai honrar a memória dele? — perguntei, com amargura. — Lucian não me amaria menos se eu escolhesse viver sozinha. Ele jamais pediria algo que me ferisse. — Mas ele pediu — disse Dimitri, com a voz embargada. — Pediu porque sabia que, de algum
Lucian Voss A noite caiu devagar, e o céu parecia chorar junto comigo, pequenas gotas de chuva começaram a cair sobre o jardim, como se o próprio céu lamentasse o que estava por vir. Lunael ficou parada sob a chuva, as flores brancas agora encharcadas, presas entre seus dedos trêmulos. Eu quis correr até ela, arrancá-la dali, escondê-la do que eu já sabia que poderia acontecer, mas sabia que não podia. O tempo tinha suas próprias leis e eu, por mais que quisesse, não podia quebrá-las. — Lucian… — ela chamou meu nome com um sussurro que me feriu mais do que qualquer espada. — Se você se for, quem eu serei? Aproximei-me lentamente, cada passo mais pesado que o anterior. Toquei seu rosto e deixei que ela sentisse meu calor uma última vez. — Você será tudo o que eu vi em você, Lunael. A luz que o escuro não conseguiu apagar. Ela fechou os olhos, e uma lágrima escorreu por sua pele fria. — E se o amor não for o bastante? — O amor é o bastante — respondi. — Só não é justo. Ficamo
Lucian Voss O tempo tem um jeito curioso de nos testar. Há dez anos, eu vivia à sombra das minhas tristezas, carregando o peso de lembranças que não sabia se eram sonhos ou vidas antigas. E então ela voltou, Lunael. Desde a noite em que o passado se rasgou diante de nós e o nome dela ecoou como um chamado esquecido, nada mais foi o mesmo. Vivíamos juntos agora. Não como fugitivos de uma vida que parecia diferente, mas como sobreviventes dela. Havia dias em que ela me olhava e eu via séculos nos olhos dela, o reflexo de um amor que o tempo tentou apagar e falhou. Outros dias, eu apenas a observava caminhar pelo jardim, e me perguntava se realmente merecia aquela paz. Mas a paz é um disfarce traiçoeiro quando se vive à beira de uma guerra. As fronteiras estavam se movendo de novo. O conselho da alcateia, como a vingança do sobrinho do Dimitri, reunia em sigilo. Ele havia me convocado. E quando Dimitri chama, é porque o mundo está prestes a ruir, eu que havia me tornado
Lunael VossO silêncio entre nós parecia antigo, como se tivesse atravessado séculos para chegar ali. A brisa fria trouxe o cheiro das flores do jardim, e o tempo, por um instante, parou. — Eu esperei tanto por isso. — Séfora sussurrou, a voz embargada. — Por entender o porquê de tudo. Por saber que não era loucura lembrar de uma promessa que eu nem sabia se realmente existiu. Aproximei-me devagar, e quando nossas mãos se tocaram, um calor percorreu minha pele. Foi como se o universo respirasse conosco. — Talvez nunca fosse para entendermos — murmurei. — Talvez só precisássemos sentir. Ela assentiu, enxugando as lágrimas, mas ainda tremia. — E Dante? — perguntou. — Ele também lembra? Meu coração se apertou. — Ainda não. Mas o corpo dele, o olhar dele, às vezes parece lembrar antes que a mente consiga aceitar. Há dias em que ele me olha e o tempo se dobra. Como se soubesse quem eu fui, mas ele não parece estar pensando nisso, já que ele agora tem uma pessoa.Também não posso alime
Lunael VossA pergunta me pegou desprevenida. — Não sei se posso chamar de estar juntos, já que somos casados a um bom tempo — respondi. — É complicado. Ele me protege, me domina, mas há momentos em que sinto que ele teme algo que nem eu entendo.— Ele teme perder de novo — disse ela, com firmeza.Virei o rosto, surpresa. — Como assim?— Ele me contou sobre você — murmurou, a voz quase um sussurro. — Sobre o quanto a amou… e o quanto a perdeu e sempre a esperou.Fiquei olhando para o chão, tentando lidar com o nó na garganta.— Eu também o amei — confessou ela, de repente.A frase veio como um trovão.Olhei para ela, e por um instante, achei que tinha ouvido errado. — O quê?Ela sorriu com tristeza. — Sim. Eu amei Lucian. Mais do que devia.Meu coração acelerou, e um estranho calor percorreu minhas veias.— Mas você não é casada? — perguntei, sem conseguir disfarçar o espanto.Ela balançou a cabeça devagar. — Fui. Perdi meu marido pouco depois que Scarlett morreu. Ele não suportou a







