FAZER LOGINA manhã seguinte chegou carregada por uma estranha inquietação, por uma dor que percorria o meu corpo. Eu havia dormido mal, acordando várias vezes com a lembrança dos olhos de Danilo e das palavras que ele deixou escapar antes de desaparecer na noite.
“Se eu disser, não haverá volta.”
Essa frase martelava na minha mente como um aviso, como se ele carregasse um segredo que não podia me revelar.
Como se tivesse virado tatuagem na minha alma.
Levantei cedo e tentei ocupar a cabeça ajudando minha mãe com as tarefas. Mas até a forma como ela me olhou parecia diferente. Como se estivesse escondendo algo também.
— Dormiu bem, filha? — perguntou em tom neutro, colocando uma cesta de lenha perto do fogão.
— Mais ou menos. — Suspirei, puxando uma cadeira para me sentar. — Mãe… você já percebeu como todo mundo espera que algo aconteça comigo quando eu fizer dezoito? Eu não entendo.
Ela parou por um instante, os ombros ficando tensos. Fingiu continuar mexendo nas panelas, mas eu percebi.
— É só ansiedade da idade. Todos passam por isso, Rebecca. É a novidade.
— Não é isso. — Minha voz saiu mais firme do que eu planejava. — Você sabe de alguma coisa. E não me venha dizer que é só impressão. Ontem, no baile, senti como se… como se todos me olhassem esperando algo que nem eu sei o que é. Até ele…
— Ele? — O olhar dela veio afiado, como uma flecha. — Quem é ele, minha filha?
— Danilo — admiti, baixando os olhos. — Não sei explicar. É como se tivesse algo entre nós, mas ao mesmo tempo… como se ele me rejeitasse antes mesmo de eu entender o porquê.
— Danilo — mamãe falou alto. — Não o chame assim, ele é o alfa minha filha.
O silêncio preencheu a cozinha. O barulho da panela borbulhando era o único som, até que minha mãe largou a colher de madeira sobre a mesa e se sentou diante de mim.
— Há coisas que você ainda não está pronta para ouvir — disse ela, do nada, e sua voz carregava um peso que me fez arrepiar.
— Eu tenho o direito de saber.
Ela passou a mão pelos cabelos, os olhos cinzentos refletindo a luz da chama do fogão. Eu nunca tinha visto minha mãe tão dividida entre falar e calar.
Perdida.
Machucada.
— Seu pai… — começou, mas a voz falhou. — Ele morreu antes que pudesse lhe contar.
Meu coração acelerou.
— Tudo. — Ela me encarou com seriedade. — A família Silva carrega uma linhagem antiga. Não somos como os outros. O sangue que corre em suas veias é diferente, Rebecca.
Senti a respiração prender no peito.
Ela hesitou, olhando para as próprias mãos como se procurasse coragem ali.
Aquelas palavras ficaram suspensas entre nós como uma sentença.
Meu corpo inteiro se arrepiou, e pela primeira vez percebi que o futuro que me esperava não era apenas sobre Danilo ou sobre a matilha. Era sobre algo muito maior. Algo que minha mãe temia revelar.
E, de alguma forma, eu sabia que quando a lua cheia chegasse, nada seria como antes.
Mas na verdade, eu ate que estava muito ansiosa para isso.
A lua cheia se erguia por trás das montanhas como uma velha amiga, iluminando a clareira onde a nova geração corria entre árvores e risadas. O canto dos lobos ecoava ao longe — não como chamado de guerra, mas como celebração. Era um som leve, um ritual de paz que eu ajudara a construir vinte e cinco anos atrás.Sentei-me sobre uma pedra plana, sentindo o vento brincar com meus cabelos loiros, agora marcados por fios prateados que brilhavam sempre que a lua me tocava. Às vezes eu achava que ela me reconhecia — filha, escolhida, Luna ancestral. E eu sorria com isso.Senti quando um peso familiar encostou nas minhas costas.Danilo.Mesmo depois de tantos anos, o tempo parecia ter medo de tocá-lo. O corpo dele continuava forte, as cicatrizes ainda falavam histórias que só eu sabia ler, e seus olhos verdes… aqueles olhos ainda incendiavam tudo que miravam. Mas agora havia paz neles.
A luz da lua continuava descendo sobre nós, como se o próprio céu tivesse se inclinado para tocar Danilo. O feixe branco envolvia o corpo dele e atravessava o meu, como se eu fosse um canal vivo, um fio, um recipiente da magia antiga capaz de devolver vida onde só havia silêncio.Eu tremia. Não de medo. Mas de algo maior — algo que atravessava minha carne, minha alma, minha luz.Eu sentia. A lua não estava salvando Danilo diretamente.Ela estava salvando Danilo através de mim.A prata na minha pele cintilava. A luz roxa explodia sob a carne. Minha alma queimava como se estivesse sendo aberta e costurada ao mesmo tempo.A vida dele voltava… porque a minha estava sendo dada em troca.Era um milagre que custava caro. Mas eu não hesitei nem por um segundo.Segurei o rosto de Danilo com a
O mundo estava desfocado. Ou talvez fosse eu que não conseguia mais distinguir o que era céu, o que era terra, o que era sangue — e o que era Danilo morrendo nos meus braços.O beta traidor, ainda tentando se levantar após ser arremessado pela minha explosão de luz roxa, cambaleou entre folhas quebradas e pedras. A lâmina amaldiçoada ainda coberta com o sangue de Danilo tremia na mão dele.Eu não olhei para ele. Eu não precisava.A luz dentro de mim viu antes mesmo de eu decidir.Um estalo no ar. Um clarão violeta.E o corpo do traidor simplesmente… desapareceu. Dissolveu-se em pó. Num segundo. Sem grito. Sem glória. Sem cerimônia.Ele estava morto.Mas eu nem percebi.Porque Danilo estava morrendo.A luz roxa que antes explodia dele agora mal vibrava — uma brasa sufocada. A pele dele estava fria demais. O sangue quente escorria depressa demais. Cada batida do coração piorava a hemorragia.E a lâmina… a lâmina tinha atingido perto demais.Perto demais do coração.Um Alfa n
A noite parecia finalmente ter encontrado descanso. Pela primeira vez desde o início da guerra, as matilhas não rosnavam, não disputavam espaço, não se encaravam com medo ou ódio. Havia apenas um silêncio tenso e reverente, quebrado por uivos de honra, saudação e reconhecimento.A vitória tinha chegado. A lua tinha escolhido sua Luna. As sombras tinham sido destruídas.E eu, mesmo com o coração dividido, permaneci de pé ao lado de Danilo, aceitando saudações, reverências e votos de lealdade.As matilhas começaram a se aproximar, oferecendo suas bandeiras, suas cores, seus guerreiros feridos. Pequenas fogueiras surgiram para tratar feridos, distribuir água. Alguns iniciaram cantos antigos, agradecendo à lua pela sobrevivência.Parecia um começo. Parecia paz. Parecia… perigoso demais para ser real.Eu senti isso primeiro. Uma vibração estranha. Um sussurro que a luz não reconhecia. Um desvio na energia do círculo.O poder recém-desperto dentro de mim ficou tenso, como se algo es
A luz da lua ainda pulsava sobre a clareira, mas algo em mim tinha começado a silenciar.Como se, depois da ascensão, viesse um vazio.Um espaço onde a alma finalmente conseguia ouvir tudo o que sempre esteve escondido.Danilo, ainda ajoelhado diante de mim, respirava com dificuldade.O poder do Alfa original diminuía aos poucos, permitindo que sua forma humana voltasse.A pele dele estava marcada por cortes, o peito arfava, e os olhos verdes me procuravam com um misto de adoração… e medo.Medo do que eu me tornara.Medo do que ele era diante de mim agora.Medo… do que vinha a seguir.A clareira estava silenciosa.Todas as matilhas aguardavam.Todas as cabeças inclinadas.Mas eu não via mais ninguém.Só via Danilo.E via a pergunta que queimava em mim desde a guerra… desde o sacrifício… desde muito antes.A rejeição.A cicatriz que nunca fechou.Agora, com o poder recém-despertado correndo pelas minhas veias, a verdade estava tão próxima da superfície que ardia.Incômoda.Inevitável.
A lua estava pálida depois do eclipse, mas não fraca.Pálida como uma lâmina recém-afiada.Pálida como um olho atento, abrindo-se lentamente sobre um mundo rachado pela guerra.Eu mal tinha tempo de respirar depois da derrota do último sacerdote.Meu corpo ainda tremia.O sangue ainda secava na minha pele.Minha alma… ainda carregava o peso do sacrifício.Danilo, exausto, parcialmente humano outra vez, se apoiava em mim, os olhos verdes ainda ardendo com o brilho do Alfa original.Mas ele não era o foco daquela noite.A lua era.E a lua… me queria.A primeira luz caiu como um feixe suave, atravessando as nuvens.Depois outro.E outro.Até que toda a clareira, o altar, as pedras, as árvores partidas, se encheu de um brilho prateado que parecia respirar.As matilhas chegaram aos poucos.Feridas.Sujas de sangue.Quebradas.Mas vivas.Elas se aproximaram em silêncio, formando um círculo ao nosso redor.Ninguém ousou falar.Ninguém ousou se mexer.Até Danilo ficou imóvel, sentindo a energ







