FAZER LOGINRavenmoor tinha esse jeito de te engolir.
Não de repente, não com alardes. Mas devagar, como névoa entrando por baixo da porta enquanto você dormia. Você acordava e simplesmente estava envolta nela, e nem sabia mais quando tinha começado.
Eu vivia aqui desde que tinha memória. Antes disso, também. Mas os "antes" da minha vida começavam com um incêndio, uma cama de hospital e o rosto da Sra. Hargrove, que me acolheu sem muita cerimônia e menos ainda afeto. Sete anos de idade, sem família, sem explicações. Só um arquivo no cartório com o nome Ayla Morgan e um endereço que não existia mais.
Com o tempo aprendi que Ravenmoor era o tipo de cidade onde as perguntas custavam caro. Então eu parei de fazer.
— Você está encarando o nada de novo — disse Kai, jogando o mochilão no banco ao meu lado e deslizando para o assento em frente com a familiaridade de quem fazia aquilo há anos. Porque fazia. — Aconteceu alguma coisa ou você está só sendo você mesma?
— Sendo eu mesma — respondi, empurrando o copo de suco na direção dele. — Pode tomar, não estou com fome.
Ele aceitou sem protestar. Kai Blackwood era assim: nunca desperdiçava comida, nunca perdia uma oportunidade de te chamar de idiota com carinho, e nunca — em dezoito anos de amizade — tinha me deixado sozinha quando importava. Tinha cabelos escuros sempre levemente bagunçados, ombros largos demais para um cara de dezessete anos, e um sorriso que chegava antes de qualquer palavra.
Era meu melhor amigo. Meu único amigo de verdade, se eu fosse honesta comigo mesma.
— Os Hargrove estão te enchendo o saco de novo? — ele perguntou, com a boca já no copo.
— Os Hargrove vivem me enchendo o saco. Isso é o estado natural das coisas.
— Ayla.
— Kai.
Ele me olhou por um segundo a mais do que o necessário. Aquela olhada dele que eu nunca sabia bem como interpretar — séria demais para ser só amizade, leve demais pra ser outra coisa. No final, ele desistiu, como geralmente fazia.
— Tudo bem — cedeu, pousando o copo na mesa. — Mas se quiser dormir no sofá lá de casa essa semana, você sabe que pode.
A família Blackwood era um capítulo à parte. Numerosa, calorosa e barulhenta de um jeito que eu nunca tive em lugar nenhum. O pai de Kai, Reid, era o tipo de homem que preenchia qualquer cômodo onde entrava, não pela altura nem pelo volume, mas por alguma presença intangível que fazia as pessoas recuarem um passo sem perceber. Os irmãos de Kai eram parecidos. Todos eles eram parecidos.
Eu sempre achei curioso. Nunca perguntei por quê.
Saímos da lanchonete por volta das cinco. O sol baixava sobre os telhados de pedra de Ravenmoor com aquela luz dourada e preguiçosa que tornava tudo mais bonito do que realmente era, como maquiagem sobre um rosto cansado. As ruas do centro eram estreitas, calçadas irregulares, e as árvores que cresciam nas calçadas tinham raízes tão antigas que levantavam o asfalto em ondas. Ninguém consertava. As raízes faziam parte da paisagem, e a cidade parecia ter aceito isso há muito tempo.
Foi quando Kai parou.
Fiz dois passos além dele antes de perceber, e me virei para ver o que tinha chamado a atenção. Ele estava com os olhos fixos na rua paralela, a mandíbula levemente tensa, o corpo imóvel da forma que ficava quando estava em alerta. Eu reconhecia esse estado nele desde criança, mesmo sem nunca ter sabido nomear.
— O quê? — perguntei.
— Nada — ele disse. Mas não era nada.
Segui a direção do olhar dele. Uma caminhonete preta e alta estava estacionada na frente da mansão Vael, aquela construção grande e escura que ficava vazia há pelo menos três anos no limite da rua mais antiga da cidade. Homens descarregavam caixas em silêncio enquanto a luz do fim de tarde batia nas janelas da casa como uma espécie de advertência.
— Alguém comprou a mansão? — perguntei.
— Aparentemente.
Havia algo no tom dele que me fez olhar de volta para o rosto de Kai. Não era surpresa. Era reconhecimento.
— Você sabe quem é?
Ele virou para mim e esboçou um sorriso que não chegou aos olhos.
— Não faço ideia — disse. — Vamos embora, está ficando frio.
Era mentira. Eu sabia que era mentira.
Segui assim mesmo.
O confronto na passarela suspensa durou apenas alguns segundos, mas cada movimento carregava o peso gótico de uma era que se encerrava. Aldric avançou com um golpe linear, visando o peito de Dorian, mas o vampiro absorveu o impacto desviando a lâmina inimiga com o metal escuro de sua adaga, provocando uma chuva de faíscas que iluminou os rostos pálidos dos dois imortais.Ayla moveu-se no milésimo de segundo em que as lâminas se travaram. Ela deslizou por baixo do braço ferido de Aldric e cravou o punhal de prata de Vera diretamente na lateral do peito do Velthar, rompendo a última barreira de proteção mística que cercava o coração do arquiteto.Aldric soltou um suspiro sufocado, os olhos escuros arregalando-se diante do reflexo do metal sagrado em seu peito. O poder da linhagem dos Guardiões correu por suas veias como fogo purificador, transformando os fios cinzentos de sua magia em fumaça inerte. Ele cambaleou para trás, os pés perdendo o contato com as tábuas úmidas da passarela, e
A noite desceu sobre o distrito leste com uma névoa densa que vinha do rio, engolindo a estrutura dos moinhos abandonados em uma penumbra gótica. O som das engrenagens velhas e enferrujadas batendo contra a correnteza parecia o batimento cardíaco de um monstro agonizante. As facções de Ravenmoor moveram-se como sombras coordenadas; os lobos cobriam as Docas, os bruxos de Cael erguiam barreiras de silêncio para que os gritos não alertassem os humanos da cidade alta, e os vampiros de Selene limpavam as sentinelas do perímetro externo com a rapidez de um sopro de inverno.Dorian e Ayla lideravam a incursão pelo moinho central. O vampiro movia-se com uma precisão impecável, o ombro esquerdo completamente curado e operando em perfeita sincronia com seus movimentos. Ele não se afastava de Ayla por mais de um palmo; a presença dele era uma constante reconfortante, o frio de sua pele agindo como um contraste perfeito para o calor combativo que a proximidade com o inimigo acendia no sangue de
O retorno para o coração de Ravenmoor foi feito sob o manto cinzento de um amanhecer que insistia em não iluminar os caminhos de pedra. A tempestade finalmente se transformara em uma garoa fina e persistente, lavando o sangue e a lama dos corpos dos sobreviventes. A matilha caminhava em silêncio, flanqueando as duas figuras centrais que carregavam o peso do futuro da cidade: Kai, amparado pela solidez paternal de Reid, e Dorian, cujo ombro direito já se movia com a rigidez típica de uma regeneração acelerada, mantendo o braço esquerdo firmemente enlaçado ao redor de Ayla.A mansão dos Valecliff os recebeu com os portões escancarados. Selene e Cael aguardavam na soleira da porta de carvalho, as expressões mudando do alerta militar para o choque absoluto no segundo em que os olhos da vampira pousaram na silhueta maciça de Kai Blackwood. Cael deu dois passos à frente, as mãos já tateando os bolsos do sobretudo em busca de runas de diagnóstico, mas um aceno curto de cabeça de Ayla sinaliz
Ao comando de Aldric, os guerreiros Velthar sobreviventes começaram a recuar de forma coordenada, movendo-se de costas em direção à vegetação densa que cercava a colina. Eles não mostravam o pânico de uma facção derrotada; os movimentos eram precisos, mecânicos, como se a perda do receptáculo principal fizesse parte de uma ramificação secundária do plano do arquiteto.Reid Blackwood ergueu-se, o corpo imenso voltando a adotar a postura de um alfa caçador, as garras crescendo milimetricamente sob a pele dos dedos.— Eles não vão sair daqui vivos! — rugiu Reid, voltando-se para os lobos sobreviventes da matilha. — Matem todos! Não deixem que cheguem ao rio!— Não, Reid! Espere! — Ayla desvencilhou-se do aperto de Dorian com delicadeza, dando dois passos à frente no lamaçal. A queimação em seu peito havia mudado de frequência; a retirada de Aldric não era uma fuga por fraqueza, era uma isca. Ela conseguia sentir o solo sob suas botas tremer de forma irregular, como se a quebra do selo na
O metal sagrado da linhagem dos Guardiões encontrou a feitiçaria Velthar em uma explosão de luz acinzentada que iluminou a clareira inteira, ofuscando temporariamente os relâmpagos do céu. Um estalo agudo, parecido com o de um cabo de aço se rompendo sob tensão extrema, reverberou pelas catacumbas abertas e pela floresta ao norte.Kai arqueou as costas violentamente, desvencilhando-se do aperto de Dorian e arremessando Ayla para o lado na lama. O híbrido caiu de joelhos, as duas mãos grandes pressionando o pescoço de onde agora brotava uma fumaça escura e fétida. A escuridão total que dominava seus olhos começou a retroceder de forma irregular, revelando fragmentos do âmbar puro dos Blackwood, enquanto suas cicatrizes rúnicas perdiam o brilho, tornando-se marcas opacas e inertes na pele.Dorian desabou logo atrás, o ombro esquerdo desalinhado e a respiração pesada. Antes mesmo de verificar a extensão de seus próprios ferimentos, o vampiro rastejou pela lama até alcançar o corpo de Ayl
O impacto entre Kai e Dorian fez o ar da clareira se deslocar em uma lufada de vento frio e lama. O híbrido desceu seus braços rúnicos com o peso de uma avalanche, mas a agilidade sobrenatural de Dorian operou no limite do impossível. O vampiro inclinou o corpo para trás em um ângulo milimétrico, permitindo que as garras de Kai rasgassem apenas o ar a um palmo de seu peito, e contra-atacou desferindo um golpe com o pomo da adaga de metal escuro diretamente na mandíbula do oponente.O som do impacto foi seco, mineral. Kai sequer vacilou; a modificação Velthar em seu sangue eliminara qualquer receptor de dor em seu sistema. Com um movimento de rotação violento, o híbrido usou o próprio impulso para desferir uma patada lateral que atingiu as costelas de Dorian. O vampiro foi arremessado contra o solo lamacento, deslizando por vários metros até fincar as botas na terra para frear o movimento. Um fio de sangue escuro e denso escorreu pelo canto dos lábios perfeitos de Dorian, mas seus olho




