FAZER LOGINAprendi o nome dele antes que ele me dissesse.
Dorian Valecliff. Dezessete anos no papel, transferido com a família de algum lugar na Europa. Era o que o cadastro da escola dizia, e era o que as meninas repetiam pelos corredores com aquela entonação específica reservada a coisas que consideram impossíveis de alcançar.
Eu não precisava ouvir o nome delas para saber o que sentiam. Bastava olhar.
O problema era que ele não olhava para elas.
Na primeira aula do dia seguinte, percebi que ele havia escolhido uma carteira de onde podia me ver sem precisar se virar. Poderia ter sido coincidência — dei o benefício da dúvida na primeira, na segunda vez. Mas quando aconteceu pela terceira vez, em turmas diferentes, parei de me enganar.
Dorian Valecliff me observava como se eu fosse um problema que ele havia decidido resolver.
Na aula de inglês, o professor Marsh pediu duplas para uma atividade de leitura. Eu mal tinha terminado de olhar para o lado quando a cadeira ao meu lado raspou no chão.
— Você se importa? — Dorian disse, já sentado, voz baixa e levemente rouca, como de quem não usava muito. Não era exatamente uma pergunta.
— Parece que não — respondi, sem olhar para ele.
Ele não disse mais nada por um tempo. Abriu o livro na página certa antes de mim, o que me irritou por uma razão que eu preferia não examinar.
— Seu nome é Ayla — disse, eventualmente.
— Você teve um dia inteiro para descobrir isso.
— Sim — concordou, sem nenhum constrangimento. — Mas estou mais interessado em outras coisas que não consigo descobrir tão facilmente.
Levantei os olhos do livro.
De perto, ele era ainda mais desconcertante. A pele tinha aquela palidez específica de quem raramente toma sol — não doentia, mas fria, como mármore bem iluminado. Os olhos eram de um cinza esverdeado, o tipo de cor que muda dependendo da luz, e naquele momento estavam fixos em mim com uma intensidade tranquila que me fez querer me mexer na cadeira.
Não me mexi.
— Que tipo de coisas? — perguntei.
Uma sobrancelha levantou. Apenas uma, milímetros.
— O que você está pensando, por exemplo.
Franzi a testa. — Isso é uma linha de cantada muito ruim.
Algo passou pelo rosto dele — um relance rápido que poderia ter sido diversão, se tivesse durado um segundo a mais.
— Não é — disse. — É literalmente o que estou tentando descobrir.
A aula acabou antes que eu entendesse o que ele quis dizer com aquilo.
* * *
Kai me esperava na saída, encostado no muro com os braços cruzados e um humor que eu reconhecia de longe como péssimo.
— Ele ficou do seu lado a aula toda — disse, sem preâmbulo.
— Bom dia para você também.
— Ayla.
— Kai. — Parei na frente dele, cruzando os próprios braços. — Você vai me dizer o que está acontecendo ou vai continuar com essa de guardião misterioso?
Ele descruzou os braços. Os músculos do maxilar se moveram como se estivesse engolindo alguma coisa.
— Essas pessoas não são o que parecem.
— Que pessoas? Só a família nova ou estamos falando de algo maior?
— Nenhuma — ele disse, e havia algo naquele "nenhuma" que era maior do que os Valecliff. Maior, talvez, do que ele queria que eu percebesse.
Estudei o rosto dele por um longo segundo.
— Você está me escondendo alguma coisa — disse, devagar.
— Estou tentando te proteger.
— Isso não é uma negativa, Kai.
Ele fechou os olhos por um instante. Quando os abriu, havia uma decisão neles que parecia ter custado.
— Me dá um tempo — disse. — Só um pouco mais de tempo. Depois te conto tudo, juro.
Nunca o tinha visto assim — com essa mistura específica de medo e culpa que fazia o rosto dele parecer mais velho do que era. Engoli a insistência.
— Tudo bem — disse, por fim.
Mas naquela noite, deitada no quarto olhando para o teto enquanto a chuva batia na janela com aquele ritmo irregular de Ravenmoor, pensei nas palavras de Dorian.
O que você está pensando, por exemplo.
Como se normalmente soubesse. Como se, comigo, não soubesse.
Adormeci com esse pensamento. E sonhei com floresta escura, e dois pares de olhos — um de mel quente, o outro de cinza frio — olhando para mim do escuro com expressões que não consegui decifrar.
O confronto na passarela suspensa durou apenas alguns segundos, mas cada movimento carregava o peso gótico de uma era que se encerrava. Aldric avançou com um golpe linear, visando o peito de Dorian, mas o vampiro absorveu o impacto desviando a lâmina inimiga com o metal escuro de sua adaga, provocando uma chuva de faíscas que iluminou os rostos pálidos dos dois imortais.Ayla moveu-se no milésimo de segundo em que as lâminas se travaram. Ela deslizou por baixo do braço ferido de Aldric e cravou o punhal de prata de Vera diretamente na lateral do peito do Velthar, rompendo a última barreira de proteção mística que cercava o coração do arquiteto.Aldric soltou um suspiro sufocado, os olhos escuros arregalando-se diante do reflexo do metal sagrado em seu peito. O poder da linhagem dos Guardiões correu por suas veias como fogo purificador, transformando os fios cinzentos de sua magia em fumaça inerte. Ele cambaleou para trás, os pés perdendo o contato com as tábuas úmidas da passarela, e
A noite desceu sobre o distrito leste com uma névoa densa que vinha do rio, engolindo a estrutura dos moinhos abandonados em uma penumbra gótica. O som das engrenagens velhas e enferrujadas batendo contra a correnteza parecia o batimento cardíaco de um monstro agonizante. As facções de Ravenmoor moveram-se como sombras coordenadas; os lobos cobriam as Docas, os bruxos de Cael erguiam barreiras de silêncio para que os gritos não alertassem os humanos da cidade alta, e os vampiros de Selene limpavam as sentinelas do perímetro externo com a rapidez de um sopro de inverno.Dorian e Ayla lideravam a incursão pelo moinho central. O vampiro movia-se com uma precisão impecável, o ombro esquerdo completamente curado e operando em perfeita sincronia com seus movimentos. Ele não se afastava de Ayla por mais de um palmo; a presença dele era uma constante reconfortante, o frio de sua pele agindo como um contraste perfeito para o calor combativo que a proximidade com o inimigo acendia no sangue de
O retorno para o coração de Ravenmoor foi feito sob o manto cinzento de um amanhecer que insistia em não iluminar os caminhos de pedra. A tempestade finalmente se transformara em uma garoa fina e persistente, lavando o sangue e a lama dos corpos dos sobreviventes. A matilha caminhava em silêncio, flanqueando as duas figuras centrais que carregavam o peso do futuro da cidade: Kai, amparado pela solidez paternal de Reid, e Dorian, cujo ombro direito já se movia com a rigidez típica de uma regeneração acelerada, mantendo o braço esquerdo firmemente enlaçado ao redor de Ayla.A mansão dos Valecliff os recebeu com os portões escancarados. Selene e Cael aguardavam na soleira da porta de carvalho, as expressões mudando do alerta militar para o choque absoluto no segundo em que os olhos da vampira pousaram na silhueta maciça de Kai Blackwood. Cael deu dois passos à frente, as mãos já tateando os bolsos do sobretudo em busca de runas de diagnóstico, mas um aceno curto de cabeça de Ayla sinaliz
Ao comando de Aldric, os guerreiros Velthar sobreviventes começaram a recuar de forma coordenada, movendo-se de costas em direção à vegetação densa que cercava a colina. Eles não mostravam o pânico de uma facção derrotada; os movimentos eram precisos, mecânicos, como se a perda do receptáculo principal fizesse parte de uma ramificação secundária do plano do arquiteto.Reid Blackwood ergueu-se, o corpo imenso voltando a adotar a postura de um alfa caçador, as garras crescendo milimetricamente sob a pele dos dedos.— Eles não vão sair daqui vivos! — rugiu Reid, voltando-se para os lobos sobreviventes da matilha. — Matem todos! Não deixem que cheguem ao rio!— Não, Reid! Espere! — Ayla desvencilhou-se do aperto de Dorian com delicadeza, dando dois passos à frente no lamaçal. A queimação em seu peito havia mudado de frequência; a retirada de Aldric não era uma fuga por fraqueza, era uma isca. Ela conseguia sentir o solo sob suas botas tremer de forma irregular, como se a quebra do selo na
O metal sagrado da linhagem dos Guardiões encontrou a feitiçaria Velthar em uma explosão de luz acinzentada que iluminou a clareira inteira, ofuscando temporariamente os relâmpagos do céu. Um estalo agudo, parecido com o de um cabo de aço se rompendo sob tensão extrema, reverberou pelas catacumbas abertas e pela floresta ao norte.Kai arqueou as costas violentamente, desvencilhando-se do aperto de Dorian e arremessando Ayla para o lado na lama. O híbrido caiu de joelhos, as duas mãos grandes pressionando o pescoço de onde agora brotava uma fumaça escura e fétida. A escuridão total que dominava seus olhos começou a retroceder de forma irregular, revelando fragmentos do âmbar puro dos Blackwood, enquanto suas cicatrizes rúnicas perdiam o brilho, tornando-se marcas opacas e inertes na pele.Dorian desabou logo atrás, o ombro esquerdo desalinhado e a respiração pesada. Antes mesmo de verificar a extensão de seus próprios ferimentos, o vampiro rastejou pela lama até alcançar o corpo de Ayl
O impacto entre Kai e Dorian fez o ar da clareira se deslocar em uma lufada de vento frio e lama. O híbrido desceu seus braços rúnicos com o peso de uma avalanche, mas a agilidade sobrenatural de Dorian operou no limite do impossível. O vampiro inclinou o corpo para trás em um ângulo milimétrico, permitindo que as garras de Kai rasgassem apenas o ar a um palmo de seu peito, e contra-atacou desferindo um golpe com o pomo da adaga de metal escuro diretamente na mandíbula do oponente.O som do impacto foi seco, mineral. Kai sequer vacilou; a modificação Velthar em seu sangue eliminara qualquer receptor de dor em seu sistema. Com um movimento de rotação violento, o híbrido usou o próprio impulso para desferir uma patada lateral que atingiu as costelas de Dorian. O vampiro foi arremessado contra o solo lamacento, deslizando por vários metros até fincar as botas na terra para frear o movimento. Um fio de sangue escuro e denso escorreu pelo canto dos lábios perfeitos de Dorian, mas seus olho




