FAZER LOGINNo mesmo dia, Sebastian pediu para o advogado redigir um contrato pré-nupcial.
Richard Chen chegou à mansão antes do meio-dia, uma pasta de couro sob o braço e aquela expressão cuidadosamente neutra que usava quando iria fazer algo desonesto.
Karen estava sentada no sofá da sala, com a expressão tensa.
"Senhorita Karen," Richard disse, abrindo a pasta sobre a mesa de centro. Sua voz era profissional, cortês, mas havia uma suavidade ali que Sebastian não reconhecia.
"Gostaria de ler as cláusulas do contrato pré-nupcial antes de assinar?"
Karen olhou para os papéis como se fossem uma cobra prestes a dar o bote. Suas mãos tremeram levemente quando pegou o documento, e Sebastian observou cada micro-expressão que passava pelo rosto dela enquanto lia.
Confusão primeiro. Depois choque. Então, algo próximo do pânico.
"Você está me dando cinquenta por cento de todo o seu dinheiro?" Ela levantou os olhos, aqueles olhos escuros arregalados de descrença. "Não posso aceitar isso."
Sebastian estava apoiado contra a parede, braços cruzados, observando. Ele tinha preparado esse momento cuidadosamente. O contrato parecia absurdamente generoso. Metade de sua fortuna para uma garota que ele conheceu há menos de vinte e quatro horas.
Mas era isca. E Karen, ingênua como era, estava prestes a morder.
Ele deixou um sorriso lento se formar em seus lábios. "Mas você também me dará a metade do seu."
Karen piscou, processando. "Mas... eu não tenho nada."
"Isso já é o suficiente."
A mentira saiu suave. Agora, não era suficiente. Mas em alguns meses, quando ela reclamasse os bilhões dos Salvatores, aquele contrato garantiria que Sebastian tivesse acesso à metade. Ou pelo menos, seria a porta de entrada para fazê-la assinar procurações, transferências.
Karen olhou novamente para o papel, mordendo o lábio inferior. Sebastian notou o gesto — ela fazia isso quando estava nervosa. Guardou a informação.
"Por favor, retire essa cláusula," ela disse finalmente, empurrando o papel na direção de Richard. "Eu não quero o seu dinheiro."
Sebastian se afastou da parede, aproximando-se devagar. "Tem certeza?"
Ele parou na frente dela, forçando Karen a levantar o rosto para encará-lo. A diferença de altura, de poder, de controle; tudo intencional. Ela se encolheu levemente, mas manteve o olhar firme.
"Tenho," ela disse, a voz mais baixa mas determinada. "Eu não estou fazendo isso por dinheiro. Estou fazendo porque... porque quero sobreviver."
Algo doeu no peito de Sebastian. Culpa, talvez. Ou apenas o reconhecimento de que isso seria fácil demais.
Ela confia em mim.
Claro que confiava. Ele tinha planejado exatamente isso.
O advogado entregou a caneta para que ela assinasse, lançando um olhar rápido para Sebastian, uma uma última chance de recuar. Sebastian ignorou.
"Assine," ele disse suavemente.
Karen pegou a caneta. Sua mão hesitou sobre o papel por um momento, e Sebastian se perguntou se algum instinto de sobrevivência iria alertá-la. Se alguma voz interior gritaria não faça isso.
Mas então ela assinou. Nome completo em letras trêmulas: Karen Malcolm.
Karen não tinha sobrenome. Os órfãos raramente tinham, então a senhora Malcolm emprestava o seu para as crianças.
Richard recolheu os papéis, guardando-os na pasta sem comentários. "Vou registrar hoje mesmo. O casamento está marcado para às quatro da tarde."
Sebastian se serviu de outra dose de uísque. Era cedo para beber — nem meio-dia ainda — mas ele precisava de algo para amenizar a sensação estranha que crescia no peito.
Ela confia em você.
Ele tomou o uísque de um gole só, sentindo a queimação descer pela garganta.
"Karen," ele disse sem olhar para ela, concentrado em servir outra dose. "Daqui a duas horas o juiz de paz virá para oficializar o nosso casamento. Pode ir para o seu quarto se arrumar. Eu mandarei um empregado para te chamar."
"Tudo bem," ela disse baixinho.
Ela deu alguns passos em direção ao corredor, mas parou na porta. Sebastian ainda não olhava para ela.
"Sebastian?"
"Sim."
"Obrigada. Por tudo por tudo."
A gratidão na voz dela era como uma faca.
Sebastian esperou até ouvir os passos dela desaparecendo pelo corredor, a porta do quarto se fechando suavemente. Só então ele se virou para o advogado.
"O que você descobriu?"
Richard Chen fechou a pasta e suspirou, como se as informações que estava prestes a compartilhar pesassem fisicamente.
"A fortuna dela é de dois bilhões. Mas ela só pode reivindicar até os dezenove anos. Depois disso, uma comissão de acionistas assume o controle do dinheiro permanentemente."
Sebastian tomou outro gole de uísque. "Vou fazer ela reclamar a herança. Conseguir acesso através do casamento. Consolidar os ativos."
"E depois?"
"Depois?" Sebastian deu de ombros, a indiferença estudada. "Depois do divórcio, cada um segue seu caminho."
"Você não respondeu minha pergunta." Richard deu um passo à frente, a voz mais baixa, mais séria. "O que fará com ela depois? Quando você tiver o que quer?"
Sebastian girou o copo entre os dedos, observando como o líquido âmbar capturava a luz. Uma parte sombria dele que tinha sobrevivido ao orfanato, que tinha aprendido que sentimentos eram luxos perigosos — considerou as opções.
"Não sei," ele disse finalmente, e havia uma crueldade casual nas palavras. "Talvez eu a entregue ao meu irmão."
O silêncio que se seguiu era pesado de julgamento.
"Você sabe o que ele quer fazer com ela." A voz de Richard estava fria agora, com raiva controlada. "Ele quer o rim dela. Você estaria basicamente assinando a sentença de morte dela."
"Isso não é problema meu."
"Não é?" Richard deu um passo à frente. "Porque parece muito que você está fazendo dela um problema seu. Se casará com ela em duas horas."
"É só papel."
"É uma pessoa, Sebastian!" A máscara de profissionalismo de Richard caiu por completo. "Uma garota que acabou de sair do orfanato, que não tem ninguém, que confia em você porque vocês compartilham um maldito passado." Ele apontou o dedo para Sebastian. "Eu não me importo de tirar dinheiro de homens ambiciosos. Deus sabe que eu ajudei você a fazer exatamente isso dezenas de vezes. Mas ela é uma menina, Sebastian. Uma criança, praticamente."
Sebastian riu sem humor. Caminhou até a janela, olhando para Vegas lá embaixo. Daqui a duas horas, Karen seria sua esposa. Legalmente ligada a ele. E quando ela reclamasse os bilhões Salvatore, ele estaria perfeitamente posicionado para tomar sua parte.
“Homens bons morrem pobres. Agora saia."
"Sebastian—"
"Eu disse, saia." A voz era baixa, perigosa. "Volte às quatro para o casamento. E deixe seus julgamentos morais na porta. Eu não te pago para ter consciência."
Dois Anos DepoisA manhã chegou suave pela janela do quarto, luz fraca entrando pelas cortinas brancas. Karen acordou com o som de risadinhas vindas do quarto ao lado.Ao seu lado, Sebastian ainda dormia, o braço jogado sobre o travesseiro, o rosto relaxado de uma forma que ela nunca vira nos primeiros meses de casamento. A paz lhe caía bem.Karen se levantou com cuidado, vestindo o roupão, e caminhou descalça até o quarto ao lado. Empurrou a porta gentilmente. E o seu pequeno milagre está lá.Natan Salvatore Sterling, um lindo bebe de dezoito meses de pura alegria, cabelos castanhos encaracolados, olhos cinzentos como os do pai, sorriso que iluminava qualquer ambiente.O garotinho estava de pé no berço, segurando a grade, pulando levemente enquanto balbuciava algo incompreensível mas absolutamente encantador."Mamãe!" exclamou ao ver Karen, estendendo os bracinhos."Bom dia, meu amor," Karen a pegou no colo, enchendo o rostinho de beijos. Ele riu — aquele riso
Karen ficou apavorada, mas não por ela, mas pelo filho que carregava na barriga. Instintivamente, sua mão livre foi para o ventre em gesto protetor."Peter, fique calmo," disse ela, forçando a voz a sair firme apesar do terror.Ele riu, mas sem humor, o som era carregado de desespero e raiva."Meu pai está preso. Minha mãe foi embora. E eu estou sem dinheiro, sem casa, sem nada." Apertou a arma com mais força contra as costas dela. "Como posso ficar calmo?""Vamos conversar," Karen tentou, o cérebro trabalhando freneticamente. Os seguranças estavam lá embaixo. O mordomo poderia voltar a qualquer momento. Só precisava ganhar tempo."Não quero conversar," Peter cuspiu. "Eu quero dinheiro.""Eu te dou," Karen respondeu imediatamente. "Quanto você precisar. Só... só abaixa a arma."Peter a estudou com olhos injetados, avaliando se era mentira."Agora você é uma mulher soberba, né?" disse ele com desdém. "Bem diferente daquela órfã boba que eu conheci. Dona de cassinos, bilionária, casada
Karen sentiu o corpo de Sebastian enrijecer ao seu lado, mas se manteve calma."Por que ele está aqui?" Sebastian perguntou ao policial mais próximo, a voz tensa.O delegado Harris apareceu, segurando uma prancheta."Senhor Sterling, senhora Sterling," ele cumprimentou-os profissionalmente. Olhou para Marcus, depois de volta para eles. "Vamos confrontar o depoimento de vocês.""O quê?" Karen sentiu o estômago revirar. "Eu pensei que ele já tinha confessado tudo.""Confessou," Harris confirmou. "Mas a defesa dele está alegando coerção, instabilidade mental no momento da confissão. Querem uma chance de confrontar as versões." Fez uma pausa. "É procedimento padrão em casos assim."Sebastian deu um passo à frente, colocando-se entre Karen e Marcus instintivamente."Ele atirou em mim," disse ele, a voz baixa mas carregada de raiva contida. "Confessou encobrir um assassinato por vinte anos. O que mais vocês precisam?""Precisamos garantir que o caso seja hermético quando for a julgamento,"
Depois de uma semana, Sebastian finalmente recebeu alta médica. Voltou para casa ao lado de Karen, movendo-se devagar, ainda sentindo dor a cada respiração, mas vivo e determinado a se recuperar em seu próprio espaço.O mordomo abriu a porta antes mesmo que chegassem à entrada, como se estivesse esperando ali o dia inteiro. Havia lágrimas nos olhos do homem mais velho, mas ele manteve a postura séria e profissional que décadas de serviço haviam ensinado."É bom te ver, senhor Sterling," disse ele, a voz ligeiramente embargada."É bom estar em casa," Sebastian respondeu com um sorriso cansado, colocando a mão no ombro do mordomo num gesto de afeto raro."Gostaria de um chá?" o mordomo perguntou, já se movendo em direção à cozinha. "Ou talvez algo mais substancial? A cozinheira preparou sopa—""Prefiro um whisky," Sebastian o interrompeu, começando a caminhar em direção à sala."Sebastian!" Karen o repreendeu imediatamente, segurando seu braço e parando-o no meio do hall. "Você acabou d
Richard entrou no quarto com sua eficiência característica, carregando uma pasta cheia de documentos."Estou atrapalhando?""Está sim," Sebastian respondeu sem rodeios, mas com um sorriso no canto dos lábios.Richard ignorou completamente a resposta, puxando uma cadeira e sentando-se como se tivesse sido convidado."Os repórteres não param de ligar. Está um caos lá fora e você aí deitado nessa cama," disse ele, abrindo a pasta com um suspiro dramático."Fui baleado, Richard," Sebastian apontou, divertido. "Pelo meu próprio pai. Acho que tenho direito a ficar deitado.""Detalhes," Richard respondeu, mas havia preocupação genuína em seus olhos quando olhou para o amigo. "Como você está? De verdade?""Dolorido. Cansado. Mas vivo." Sebastian apertou a mão de Karen. "E grato."Richard assentiu, satisfeito, então voltou ao modo profissional."Bom. Porque precisamos discutir estratégia. A mídia está em frenesi. Temos que fazer uma declaração oficial, controlar a narrativa antes que ela nos e
Sebastian não corria mais risco de vida, mas os médicos foram claros: precisava ficar no hospital por pelo menos mais uma semana. A recuperação seria longa; fisioterapia respiratória, monitoramento constante e repouso absoluto.Karen praticamente se mudou para o quarto dele, recusando-se a sair por mais do que algumas horas.No dia seguinte ao despertar, quando Sebastian finalmente conseguia ficar sentado na cama sem tonturas, a polícia apareceu. O delegado Harris e outro detetive entraram discretamente no quarto.."Senhor Sterling," Harris começou, "sei que está se recuperando, mas precisamos colher o seu depoimento. Seremos breves."Sebastian assentiu, ajeitando-se melhor na cama. Karen segurou sua mão, posicionando-se ao lado dele como proteção silenciosa."Eu quero ajudar," Sebastian disse, a voz ainda rouca mas firme. "Quero contar tudo que sei."Harris ligou o gravador, puxando uma cadeira."Vamos começar pelo momento em que foi baleado. O que aconteceu na mansão Sterling?"Seb







