FAZER LOGINO escritório sempre foi o único lugar da fazenda onde o silêncio parecia pesado de verdade.
Não era o silêncio confortável do estábulo, nem aquele cheio de vida contida do jardim ao amanhecer. Era um silêncio carregado de decisões, números, papéis e erros que nunca deixavam de existir, mesmo depois de anos.
Eu estava sentado atrás da mesa antiga do meu avô, os dedos apoiados sobre uma pilha de documentos que eu já tinha lido três vezes sem realmente enxergar nada. Do lado direito, a pasta aberta com o nome dela parecia me encarar de volta.
Alice. Soltei o ar devagar, passando a mão pelo rosto. Aquilo era ideia da minha avó. Rosa sempre teve essa mania de acreditar nas pessoas como se o mundo não tivesse passado por cima da gente tantas vezes. Como se confiar ainda fosse uma escolha simples, e não um risco calculado.
— “Alguém de fora pode ajudar, Marco.” — a voz dela ecoou na minha cabeça, suave e teimosa como sempre.
Balancei a cabeça, encarando a janela. Foi exatamente isso que meu avô pensou ee foi exatamente assim que o rancho começou a afundar. Gente de fora, “qualificada”, que prometia crescimento, modernização, lucro. E no final? Dívidas, contratos mal feitos, decisões que não respeitavam o que esse lugar era de verdade.
Eles não entendiam a fazenda.
Não entendiam a família.
E, no fim, não ficaram para consertar o estragp, nós ficamos. Me inclinei para frente, apoiando os cotovelos na mesa, olhando de novo para o contrato aberto. Eu não queria fazer aquilo de novo. Trazer alguém que não conhecia a nossa terra para tentar salvá-la, ao mesmo tempo que não queria ver os anos de trabalho de gerações da minha família ruir.
Contratar Alice como gerente de marketing era uma das últimas concessões que eu faria, mesmo sendo contra.
Era sobre deixar alguém entrar, e eu não fazia mais isso. Na fazenda ou no meu coração.
A batida leve na porta me tirou dos pensamentos.
— Pode entrar — falei, a voz mais dura do que eu pretendia.
A porta se abriu devagar, e ela entrou.
Alice parecia menor ali dentro do escritório, talvez porque aquele lugar carregasse mais peso do que qualquer outro da fazenda. Ainda assim, havia algo nela que ocupava espaço de um jeito irritante, pois seus olhos pareceram analisar cada espaço da sala antiga, como se buscasse algum erro.
Ela era metódica, isso dava para perceber.
— Você me chamou — disse, fechando a porta atrás de si.
Assenti, indicando a cadeira à frente da mesa.
— Senta.
Ela se aproximou, mas não sem antes lançar um olhar curioso ao redor, como se estivesse absorvendo cada detalhe. Como se já estivesse tentando entender algo que não era dela, se sentou, cruzando as pernas com cuidado.
— Então… — disse, inclinando levemente a cabeça — isso é a parte em que você decide se vai me expulsar ou me contratar?
— Ainda estou decidindo. — Soltei um riso curto, sem humor.
— Justo.
Empurrei o contrato na direção dela.
— É um vínculo temporário — comecei, direto. — Você ajuda com a parte de marketing, organização administrativa e o que mais for necessário nesse período. Sem promessas além disso.
Ela abaixou o olhar para os papéis, passando os olhos com atenção real, não só por educação.
— Certo — murmurou. — Parece justo.
— Tem outra coisa — acrescentei, antes que ela pegasse a caneta. — O rancho oferece um plano de saúde básico para funcionários fixos. No seu caso, eu incluí na proposta.
Ela parou e levantou o olhar para mim e, pela primeira vez desde que entrou ali, algo mudou na expressão dela. Não era ironia. Nem provocação.
— Eu… não esperava isso — disse, mais baixo.
— Você está trabalhando pra gente. É o mínimo.
Ela assentiu, passando a mão de leve pela barriga num gesto automático, quase inconsciente.
— Obrigada. Eu estava mesmo planejando começar meu pré-natal em breve.
— Quanto tempo? — Meu corpo ficou rígido sem que eu percebesse.
Ela levantou o olhar de novo, direta.
— Quase quatro meses.
Fiz um cálculo rápido demais na cabeça, antes de conseguir evitar.
— O pai… — comecei, mas parei.
Ela arqueou a sobrancelha.
— Meu ex-noivo — respondeu, sem rodeios. — Ou melhor… ex-noivo que estava mais interessado em transar com a própria secretária do que em manter um casamento.
Eu não consegui evitar o aperto na mandíbula.
— Idiota — murmurei, mais para mim mesmo do que para ela.
Ela soltou um riso leve, sem alegria.
— É uma forma educada de dizer.
Por um instante, o escritório pareceu menor. Como se aquela conversa tivesse puxado algo que nenhum dos dois estava exatamente pronto para encarar.
Desviei o olhar primeiro.
— Isso não muda o trabalho — falei, retomando o tom firme. — Mas você precisa entender que aqui não é… fácil.
— Eu estou acostumada a lidar com os figurões de grandes empresas, acredite, Marco, eu estou preparada e sou qualificada.
Aquilo me atingiu mais do que deveria e eu odiei isso.
Assenti uma única vez.
— Então leia o resto e, se concordar… assina.
Ela pegou a caneta. O som da ponta tocando o papel pareceu alto demais para um gesto tão simples. Ela assinou com firmeza, sem hesitar, como se aquela decisão já estivesse tomada muito antes de chegar ali.
Empurrou o contrato de volta para mim.
— Pronto.
Fiquei alguns segundos olhando para a assinatura. Peguei a caneta e assinei também, sentindo um peso estranho se instalar no peito no exato momento em que terminei.
— Bem, depois Rosa vai te mostrar nosso escritório. Há uma sala reservada para você, porém também pode ficar livre para trabalhar do seu chalé desde que me apresente o seu progresso.
— Entendi, mais alguma coisa?
— No momento é só, pode começar amanhã.
Ela assentiu, passou as mãos no agasalho cinza e se levantou sem se dar o trabalho de me contestar.
— Alice? — chamei quando ela abriu a porta.
A loira me olhou por cima do ombro.
— Não faça eu desistir disso.
— Talvez eu faça você desistir primeiro, Marco Hill. — ela j**a o cabelo por cima do ombro. — Fui contratada pela sua avó e não por você, e a não ser que ela me coloque para fora, eu não vou sair.
— É um desafio? — me levanto apoiando as mãos na mesa.
— Está com medo?
Sorrio de canto.
— É melhor não desfazer suas malas.
— Veremos.
Ela b**e à porta ao sair e eu me sento pensando em como vou fazer aquela garota ir embora do meu rancho.
Os dias que se seguiram ao primeiro encontro de Miguel com Luna foram como um sonho do qual eu não sabia se queria acordar, um sonho onde as cores pareciam mais vibrantes, onde o ar parecia mais leve, onde o silêncio do apartamento era preenchido pela voz dele e pelos risos da nossa filha, como se o mundo tivesse finalmente encontrado o equilíbrio que eu tinha perdido quando fugi de Paris.Miguel começou a aparecer no apartamento todas as manhãs, pontualmente às oito horas, como se tivesse um compromisso sagrado que ele não podia, não queria, não ia quebrar. Ele trazia café, pão fresco e um sorriso que iluminava o ambiente mais do que qualquer luz, mais do que qualquer sol, como se ele tivesse guardado toda a alegria dos meses de separação para derramar sobre nós.— Bom dia, Luna. — ele dizia, a voz suave como se estivesse falando com um anjo, como se as palavras fossem uma oração. — O papai está aqui.Luna abria os olhos, os olhos azuis brilhando como duas estrelas, e um sorriso se f
O corredor do prédio onde Rosa morava era estreito e silencioso, com paredes de um branco desbotado pelo tempo e uma luz amarelada que piscava fracamente no teto, e eu fiquei ali por um longo momento, parado em frente à porta do apartamento dela, os olhos fixos na madeira pintada de branco, o coração batendo tão forte que parecia que ia sair do peito, as mãos suando, a respiração curta e irregular como se eu tivesse corrido uma maratona.Nunca tinha estado tão nervoso na vida. Nem na primeira vez que cozinhei para um restaurante famoso, nem quando abri o meu próprio negócio, nem quando enfrentei a minha mãe pela primeira vez, nem quando decidi recusar a proposta em Londres para procurar Rosa. Nada se comparava àquele momento, àquele instante em que eu estava prestes a conhecer a minha filha, a pequena vida que eu tinha imaginado tantas vezes, a menina que eu tinha sonhado em segurar nos braços durante todos aqueles meses de busca.Respirei fundo, sentindo o ar encher os meus pulmões c
O silêncio que se seguiu às minhas palavras foi tão profundo que eu podia ouvir o próprio coração batendo, podia sentir o peso da verdade que eu tinha acabado de revelar se instalando no ar entre nós como uma presença invisível, como uma parede que tinha sido erguida e derrubada ao mesmo tempo, e eu fiquei ali, os olhos fixos nos de Miguel, esperando, sem saber o que viria a seguir, sem saber se eu tinha feito a coisa certa ao abrir aquela porta.— Luna. — ele repetiu, o nome escapando dos lábios dele como uma oração, como se ele estivesse provando cada sílaba, cada letra, cada som, como se o nome da nossa filha fosse a coisa mais preciosa que ele já tinha ouvido. — Ela se chama Luna.— Sim. &
O restaurante da praça era pequeno e charmoso, com mesas de madeira na calçada e luzes amareladas que criavam uma atmosfera íntima, e eu cheguei mais cedo do que o combinado, tão nervoso que minhas mãos suavam enquanto eu escolhia uma mesa no canto, longe dos olhares curiosos, longe do movimento, longe de qualquer coisa que pudesse interromper o que eu sabia que ia ser a conversa mais importante da minha vida.Pedi um café que não bebi, mexi na xícara sem parar, olhei para a porta a cada dois segundos, como se pudesse fazer Rosa aparecer mais cedo com a força do meu desejo. O tempo se arrastava, cada minuto uma eternidade, e eu sentia o coração bater tão forte que parecia que ia sair do peito, como se o mundo estivesse prestes a desabar ou se reconstruir, dependendo do que acontecesse nos pr
O silêncio entre nós era tão pesado que parecia ter se tornado sólido, uma parede invisível que separava o espaço entre o meu corpo e o dele, e eu fiquei ali, parada no meio da cafeteria, os olhos fixos nos olhos dele, sentindo o coração bater tão forte que eu tinha certeza de que todos os clientes podiam ouvir, que a dona da cafeteria podia sentir a tensão no ar, que o mundo inteiro estava observando aquele momento.Miguel estava ali. Na minha frente. Depois de mais de um ano. O homem que eu tinha deixado para trás, o homem que eu tinha amado com todas as minhas forças, o homem que eu tinha fugido para proteger, estava parado diante de mim, olhando para mim como se eu fosse a única pessoa no mundo, como se o tempo não tivesse passado.
A luz da manhã entrava pela janela do quarto de hotel quando acordei, e eu fiquei ali por um momento, os olhos fixos no teto, sentindo o peso daquele dia se instalar no meu peito como uma pedra, como se o mundo estivesse prestes a mudar para sempre, e eu não sabia se estava pronto para o que viria, se estava pronto para encarar o que eu tinha procurado por mais de um ano.Levantei-me, tomei um banho rápido e me vesti com a roupa mais simples que tinha — uma camisa clara, calça jeans escura, uma jaqueta de couro que eu tinha trazido de Paris. Não queria parecer que estava tentando impressionar ninguém. Não queria que ela pensasse que eu estava ali para exigir algo, para cobrar alguma coisa. Só queria ser eu mesmo. O mesmo Miguel que tinha se apaixonado por ela há mais de um ano, o mesmo Miguel que tinha pro







