FAZER LOGINColoquei o capacete e acelerei a moto testando o motor. Aquele era o último treino antes da grande corrida na semana seguinte no Rio de Janeiro e eu precisa de toda concentração. Ali tinham alguns pilotos que também participariam da competição mas os principais adversários vinham de outros estados. Pilotos experientes e vencedores de grandes competições, mas aquilo não me intimidava. Estava acostumado a competir com os melhores e vencer e eu estava disposto a dar o melhor de mim para fechar aquela temporada com mais uma vitória.
A pista de corrida era como uma válvula de escape para mim. Quando eu acelerava a moto e rasgava do lugar em alta velocidade era como deixar para trás tudo de ruim que acontecera na minha vida. Ali eu sentia meu coração acelerado e toda minha atenção se voltava para a pista em minha frente e a cada volta eu impunha mais força e determinação nos saltos. Eu não me permitia perder. Precisava daquela sensação de me sentir capaz, ali eu era o vencedor.
No entanto ao voltar para o mundo real, a tristeza se abatia de novo sobre mim ao imaginar que chegaria em casa sozinho e teria que conviver com o que restou da minha vida, então eu ia para o bar e afogava minha tristeza no álcool.
E assim naquela noite, após a corrida, os pilotos se reuniram como sempre no Roger Bar. Ali era nosso ponto de encontro para tomar uma cervejinha e colocar os assunto em dias. Eu me sentia em casa ali, principalmente porque Roger era meu amigo pessoal e muitas vezes foi meu confidente em momentos de solidão. Naquela noite o bar estava lotado e tinha uma banda de música sertaneja animando a clientela. Como sempre, escolhemos as mesas do fundo. Nosso grupo era barulhento e sempre chamava a atenção, por isso Roger brincava dizendo que deveríamos ficar escondidos para não assustar os clientes. As mulheres sempre ficavam animadas quando viam o grupo de motoqueiros ali. Éramos homens jovens e bonitos e não tinha como não chamar a atenção das mulheres.
As garçonetes eram as primeiras a se insinuarem e cada uma escolhia um alvo. Carla era uma moça bonita que trabalhava ali a bastante tempo. Era negra, alta, de cabelos curtinhos e cacheados. Ela não disfarçava o interesse que tinha por mim, mas infelizmente eu não conseguia corresponder. Não sentia nada mais profundo, nem por ela e nem por mulher alguma. Para que ela não alimentasse esperanças, um dia em que ela se dirigiu a mim e deixou bem claro que queria ficar comigo fui obrigado a ser sincero e dizer que não tinha nenhuma chance de haver nada mais entre não que não fosse amizade. Ela entendeu, mas desse dia em diante me tratava friamente. Eu não podia culpá-la, eu que era um fodido que não conseguia nem corresponder ao interesse de uma mulher bonita. Só me restava beber e tentar esquecer a vida de merda que eu tinha. Como se avinhasse meus pensamentos, Carla não deixava meu copo vazio e fazia questão de me servir com um sorriso debochado no rosto. Acho que a forma dela me punir, por ter dado o fora nela era me vendo bêbado e sofrendo.
Roger no entanto, se preocupava comigo e quando percebeu que já passava das duas horas da madrugada e meus amigos já tinham ido embora ele se aproximou e tomou o copo da minha mão.
- Não acha que já está bom, Alex?
Eu peguei o copo de volta.
- Qual é, Roger? Me deixa aqui.
Ele suspirou e sentou em minha frente.
- Meu amigo, não faça isso! Não precisa beber tanto.
Ele tinha razão, mas naquela hora eu não queria ouvir sermão.
- Me deixa aqui, Roger e pede aquela gostosa da Carla pra me trazer mais uma cerveja.
Roger riu.
- Gostosa que você dispensou, tá lembrado?
- Terminou o discurso, Roger? Tchau. Quando for fechar me avisa.
Ele sabia que não adiantava discutir.
- Ficarei de olho em você.
E assim, foi naquela noite como tantas outras nos últimos tempos. Eu só sair do bar quase amanhecendo quando Roger proibiu que me servissem mais bebida, tomou a chave da minha moto e chamou um táxi para me levar para casa.
Jade Era final de tarde de sexta feira e eu tinha acabado de atender meu último paciente. Respirei cansada e encostei a cabeça no espaldar alto da cadeira. Mas o dia ainda não tinha terminado. Precisava ir ao hospital e verificar como estava um paciente que eu acompanho há seis meses. Ele tinha infartado e fora submetido a uma cirurgia emergencial de ponte de safena e mesmo eu confiando no médico que tinha feito à cirurgia, eu queria acompanhar de perto. A porta da minha sala foi aberta e Betânia se aproximou com um copo de agua na mão. - Olá, Dra. Jade, até que enfim terminamos. Peguei o copo das mãos da minha fiel secretária. Betânia era uma moça sorridente e alegre que eu tinha contratado assim que abri minha clínica de cardiologia. Ela era super eficiente e comandava tudo com olhos de águia. - Você terminou, Beta, eu ainda vou passar no hospital. - Não sei como você aguenta trabalhar tanto! Eu também me pergu
JadeEu tentava me manter calma.Fazia mais ou menos meia hora que eu tinha sentido uma pontada no pé da barriga e agora outra. Virei a cabeça devagar e olhei as horas no mostrador do relógio de cabeceira; 00:20h. Alex dormia profundamente com o travesseiro sobre a cabeça como fazia sempre quando estava muito cansado. Naquela tarde, ele tinha treinado por várias horas para uma competição importante no mês seguinte e quando chegara em casa tinha tomado banho, comido um sanduiche e caído na cama. Pelo menos ele tinha descansado um pouco porque eu teria que acordá-lo.Levantei lentamente da cama e fui até a poltrona do outro lado do quarto conferir se tudo estava devidamente arrumado. Já fazia mais de uma semana que todos os dias eu olhava uma por uma as peças de roupas e utensílios que seriam necessários naquela hora. Ap
AlexanderO mundo parecia sorrir de novo para mim.Depois de tudo de ruim que eu tinha vivido nos últimos cinco anos, agora eu podia dizer que era um homem feliz.As coisas estavam se ajeitando pouco a pouco e eu me permiti tirar uns dias de folga com a Jade antes que ficasse muito perto do parto e ela não pudesse viajar. E não tinha lugar melhor para curtir o fim de semana do que a casa de praia que ela tinha herdado do pai em Porto Seguro. Eu tinha encarregado meu advogado de regularizar toda a papelada e procurar uma empresa de reforma para deixar a casa pelo menos em condições habitáveis. Futuramente pretendíamos reformar e manter aquela casa como o refúgio da família para férias e lazer.Aquele fim de semana era nosso para descansar e namorar. Sim, namorar. Porque estar grávida não significava que não podíamos no
JadeAlexander estacionou o jipe na garagem de casa e desceu.Ele estava estranho.Veio até mim e me ajudou a descer do carro e segurou meu braço enquanto me conduzia para dentro de casa. Estar ali de volta mexia muito comigo. Tínhamos vividos momentos tão felizes naquela casa. Ali tinha sido meu lar em São Paulo e por mais que eu soubesse que não era minha casa, a sensação de estar voltando para meu lar era muito forte.- Eu... preciso ir ao banheiro...Eu já estava subindo as escadas quando ele se colocou em minha frente- Não!Eu olhei para ele confusa. Realmente ele não estava bem!- Como assim? Eu quero ir ao banheiro, Alex!- Quero dizer... vai devagar. Você pode ficar tonta de novo!- Você está bem?- Eu... acho que sim- Acha?! Espera aqui, eu v
AlexanderTentei não pensar no que aquele dia significava para mim. Era o dia da audiência de conciliação com Jade. Fazia quase dois meses que eu não a via e estava ansioso e com o coração acelerado. Era minha última cartada. Ela não sabia que aquela audiência não foi exatamente convocada pelo juiz, eu tinha instruído meu advogado a provocar aquele encontro. Precisava ouvir da boca dela que ela realmente queria aquela separação porque eu não via sentido nenhum naquilo. Por mim estaríamos juntos e felizes. Eu a amava demais e tudo que eu queria era trazê-la de volta para minha casa. Suportei aqueles dias sem ela na esperança que ela me procurasse e que pudéssemos conversar, mas não. Ela estava em silêncio desde o dia que tinha comunicado a ela sobre a audiência. Aquilo estava me deixando apreensivo. Ped
JadeNunca pensei que sair da casa de Alexander fosse doer tanto em mim. Pensei e repensei mil vezes, mas quando percebi que ele não voltaria para casa naquela noite tomei a difícil decisão de arrumar minhas coisas e sair de lá.Agora eu me encontrava num quarto de hotel a poucas quadras da casa dele e já tinha digitado uma centena de mensagens explicando o motivo da minha saída e apaguei todas antes de enviar. O que eu ia dizer? Que agradecia o que ele tinha feito por mim, mas que não queria que ele se sentisse obrigado a manter aquele casamento? Que eu tinha me apaixonado por ele e tinha medo de não ser correspondida? Que agora eu não tinha mais motivos para continuar na casa dele, mas que eu não queria ir embora? Toda aquelas perguntas tinham respostas positivas, mas diante da forma como ele tinha saído na noite anterior, como se não quisesse







