FAZER LOGINOwen
Aperto as têmporas, olhando para os prédios iluminados dentro do carro em movimento, minha cabeça está começando a doer já que minha mãe tagarelou durante todo o jantar e ainda me obrigou a deixá-la em casa antes de seguir com o motorista, não ousei argumentar, já que não estou em uma posição favorável com ela.
Dei uma passada rápida no meu apartamento, tempo suficiente para tomar um banho e fugir de alguns urubus da imprensa, procurando alguma coisa para ferrar ainda mais com minha imagem.
Recebi vários directs no meu i*******m, perfis de fofoca querendo apurar os fatos com relação à famigerada foto e alguns xingamentos vindos de adolescentes, o que me fez rir. Eu estava decidido a não lidar com isso, deixaria com Silvya e Evelyn a contratação de uma empresa de Relações Públicas, uma que pudesse gerenciar toda essa crise e abafar o caso.
Não me importava com o que falavam a meu respeito, lido bem com o rótulo de cafajeste e até gosto disso, mas também sei que isso pode me prejudicar nos negócios, então a melhor solução é empurrar toda essa sujeira para debaixo do tapete.
Nolan deve estar se vangloriando e rindo agora, só por eu estar enfiado nessa merda.
M*****a hora que fui me envolver com essa mulher.
Meus músculos estão tensionados a ponto de doerem, nem as mudanças de treino na academia os deixam assim., talvez eu precise usar essa merda de exposição para aprender a ser mais discreto e diminuir um pouco da bebida ao sair para me divertir.
O ponto positivo da Fallout é ela ser uma casa discreta, nada de bairro de luxo e muito menos uma fachada chamativa, pelo contrário, o lugar fica em um bairro industrial, cheio de becos e longe do centro da cidade, qualquer um que passe em frente ao clube jamais imaginaria o tipo de orgia que rola ali.
Eu gosto de lugares onde ninguém pertence a ninguém, e os fetiches mais absurdos podem ser realizados sem nenhum julgamento. No começo, eu tinha um certo receio, mas depois de conhecer bem esse mundo, passei a gostar mais do que deveria.
E tudo o que eu preciso para hoje é foder o máximo de bocetas que eu conseguir, só para tirar toda a tensão desse dia bosta.
Passo os dedos pelos fios de cabelo enquanto observo meu reflexo no vidro traseiro do carro. Talvez eu seja um pouco exagerado em relação à minha aparência, até um pouco narcisista, mas qualquer um que visse uma foto minha na infância entenderia meus motivos.
Eu era um garoto gordinho, bochechas muito grandes, óculos de grau bem grossos por causa da miopia, eu andava sempre de cabeça baixa e tinha pavor de me olhar no espelho. Não tinha amigos na escola e, na maioria das vezes, era chamado por apelidos cruéis, como: chupeta de baleia, elefante quatro-olhos, hipopótamo nerd, e outros que nem me lembro.
Sem falar das vezes em que me batiam gratuitamente, me trancavam nos armários e não perdiam a oportunidade de estragar minhas coisas.
Depois de um certo tempo, passei a ficar todo o recreio trancado em um dos banheiros, chorando e torcendo para que eu não fosse encontrando. Não tinha ninguém ali para me defender e quando meu pai descobriu tudo, depois de eu levar uma surra e ter meus óculos quebrados, ele somente disse “Você não passa de um moleque gordo e covarde!”.
Ouço sua voz na minha mente como se ele estivesse dizendo nesse exato momento. Nenhum soco ou xingamento dos garotos do colégio doeu tanto quanto ouvir isso do meu pai.
Mudar de escola e conhecer Chris, Petter e Wesley foi a melhor coisa que me aconteceu, pela primeira vez eu tive amigos, amigos de verdade, que não se importavam de ter um menino gordo e que mal sabia praticar algum esporte por perto, eles foram peça-chave para o meu despertar.
Sinto falta de nós quatro juntos...
Petter foi laçado e hoje mora no Sul do Brasil com sua amada, Wes está viajando pela Europa, em um ano sabático, mas por sorte tenho Chris grudado a mim, ele e eu sempre fomos mais próximos, mas agora ele é quase um homem casado e estou sem companhias confiáveis para me divertir.
Percebo que estamos nos aproximando do clube, então tiro o cinto de segurança e confiro as mangas dobradas da minha camisa enquanto Hugo estaciona o carro e sai antes que eu abra a boca para dizer que não preciso que ele abra a porta para mim.
— Não precisava — digo ao descer e ele dá um sorrisinho fechado.
Olho ao redor, conferindo se não tem ninguém por perto, a quantidade de repórteres em frente ao meu prédio me deixou apreensivo. Tenho a sensação estranha de estar sendo observado, então olho para os lados novamente, não há ninguém na rua além do único segurança com cara de poucos amigos na entrada da Fallout
— Não precisa estacionar lá dentro, não que tenha problemas com Linda, mesmo sem ela imaginar o lugar para onde teve que me trazer — Dou um tapinha em seu ombro e ele dá uma risadinha.
— Melhor não correr o risco, sabe como minha mulher é. — Volta a rir.
Hugo e a esposa trabalham para minha família há um bom tempo, Linda é governanta e Hugo é o chefe de segurança da mansão, vez ou outra me ajuda sendo meu motorista, e conhecendo minha mãe, ele fez questão de me trazer hoje só para me espionar.
Hugo é discreto, mas em compensação, Linda é uma bela de uma fofoqueira.
— Obrigado, Hugo, não posso prometer que não irei demorar.
— Fique tranquilo, senhor Owen, divirta-se — diz com um sorriso amistoso nos lábios.
Assinto, indo em direção à entrada do lugar e dando boa noite para o segurança, pronto para algumas horas do que o clube tem melhor, sexo sem pudor.
Depois de foder uma loira gostosa enquanto o marido dela olhava, senti boa parte da tensão se esvair, mas depois fui incomodado por uma sensação estranha, algo inexplicável, um sentimento de vazio.
Disposto a ignorar isso, diminui o intervalo entre as doses de whisky, mas tive a impressão de que o álcool fez essa coisa estranha dentro de mim se intensificar. O que me preocupa é que não é a primeira vez que esse sentimento me invade e eu não gosto disso, odeio me sentir assim.
Olho para o redor e percebo que sou o único que não está aproveitando como deveria.
— Acho que já deu por hoje — digo, virando a bebida de uma vez.
Pego meu cartão, me aproximando da saída, dormir seria o melhor que eu poderia fazer por mim, então passo pela porta que entrei, sentindo alguns pingos de chuva me acertarem. Paro por alguns segundos, olhando para o céu coberto e vejo apenas escuridão.
Ouço um latido e olho para o lado, vendo um homem — não um homem, está mais para um garoto. Mesmo de longe, consigo ver de relance seu rosto, seu corpo é magro e franzino — segurando um cachorro de porte médio, no que parece ser uma coleira.
A ausência do segurança faz com que eu acelere meu passo até o carro, então vejo a porta da frente ser aberta e Hugo se apressa em vir abrir a porta traseira para que eu entre. Balanço a cabeça, rindo de sua teimosia.
Antes que eu chegue até o carro, sinto o corpo magro do garoto chocar contra o meu e o cheiro forte que vem dele me incomoda. Ele não pede desculpas e o vira-lata, que segue o seu dono fielmente, me mostra os dentes, dando um rosnado.
— Owen, é melhor verificar seus bolsos, isso pareceu algo proposital — Hugo diz, se aproximando. Pisco rapidamente, passando as mãos pelos bolsos.
— O filho da puta roubou minha carteira...— falo, arregalando os olhos e vendo o garoto correr, entrando em um beco e sendo seguido pelo cachorro.
Não me preocupo com o dinheiro que tem na carteira ou com os cartões de crédito, o cartão magnético de acesso do meu prédio e apartamento é o que me preocupa, só quero ir para casa e dormir, e não resolver problemas com a segurança do prédio ou ter que ir até a polícia.
Quando faço menção de correr atrás do trombadinha, Hugo me impede.
— Pode ser perigoso, deixe que eu vou — fala, correndo na direção em que o garoto foi, mas sem pensar duas vezes, o sigo, indo um pouco mais devagar.
Antes que eu dobre a esquina e entre no beco, Hugo surge, agarrado ao garoto.
— Me solta, me solta, eu não fiz nada — a voz é fina demais, mas seu rosto está parcialmente coberto pelo capuz do moletom.
Um rosnado me faz olhar para baixo, vendo o cachorro agarrado ao tecido da calça de Hugo.
— Não vou soltá-lo, devolva a carteira que posso pensar em não chamar a polícia — Hugo fala, sacudindo a perna onde o animalzinho segue irredutível.
— Seu desgraçado, filho da puta — grita, balançando o corpo para se soltar.
Em um movimento abrupto, na intenção de mostrar que está no controle, Hugo arranca o capuz e, junto com ele, uma toca de lã, revelando cabelos castanhos longos, que caem sobre os ombros...
Então ele ergue o rosto e dou um passo para trás, surpreso.
Não é ele, é ela. Uma mulher...
Seu rosto, mesmo sujo, tem traços delicados e talvez eu possa dizer que ela é bonita.
— É... é uma mulher — digo embasbacado e Hugo arregala os olhos, então vejo o rosto dela empalidecer, seus olhos fecharem e seu corpo desfalecer.
Hugo percebe e a segura, impedindo-a de cair no chão.
Ouço um rosnado mais alto e olho para baixo, vendo o cachorro marrom grudado na barra minha calça.
EstelaSabe quando você sente que algo horrível acabou? É como me sinto agora.Acabou. George está preso e Mary está foragida, e eu não preciso responder por acusação alguma.A ficha ainda não caiu, porque eu sei que atirei em um homem, um que poderia ter me matado, que poderia ter me impedido de conhecer meu filho.Aconchego meu rosto no peito de Owen, ouvindo-o dizer que me ama enquanto as lágrimas escorrem pelo meu rosto.Eu tive medo de nunca mais vê-lo, de não poder dizer mais uma vez que o amo.— Eu estou bem — digo, me afastando e limpando as lágrimas, então Evelyn corre em minha direção, me abraçando apertado.— Meu Deus, Estela! Você está bem? Olha o seu pescoço! Aquele desgraçado, devia ter atirado em algum órgão vital — bufa.— Evelyn — Owen a repreende —, estamos em uma delegacia — fala entredentes.— Meu bebê está bem? — pergunta, fazendo bico. Assinto, vendo-a se afastar quando Edward se aproxima.— Está tudo certo aqui, Estela, já podemos ir — Edward diz atrás de mim.
OwenA solidão se tornou um fardo pesado demais para eu carregar. Cada canto dessa casa parece ecoar com o vazio deixado pela ausência de Estela e Ares. O silêncio é ensurdecedor e cada objeto ao meu redor só serve para me lembrar do que perdi.Não consigo mais suportar a visão da cama vazia, onde costumávamos nos abraçar todas as noites, ou a cozinha, onde compartilhávamos risadas enquanto cozinhávamos juntos.Tento ocupar minha mente com qualquer distração, mas nada parece ser suficiente para preencher o vazio que ela deixou.Meus passos ecoam pelos corredores vazios e a solidão se agarra a mim como uma sombra persistente.Sinto falta dela a cada momento, cada segundo que passo longe de Estela é uma eternidade de dor e arrependimento.Sei que cometi erros, mas estou disposto a fazer o que for necessário para consertar o seu coração quebrado.Preciso que Estela me perdoe, que volte para minha vida.É por isso que decidi ficar na casa de Evelyn, mesmo com ela fazendo da minha vida um
EstelaJá passou uma semana desde que Owen apareceu, implorando perdão e jurando que me ama.Por mais que eu desejasse acreditar nele, que eu quisesse expressar meus próprios sentimentos, sabia que ceder significaria abaixar minha guarda e permitir que ele me ferisse novamente.Ele prometeu não desistir, decidido a provar a veracidade de suas palavras.Owen demonstrou seu esforço enviando flores diariamente, acompanhadas de bilhetes de desculpas, além de todas as minhas refeições, e mesmo que eu recusasse, os entregadores persistiam, deixando os itens na minha porta.Agora, suas táticas tornaram-se mais intensas, até Evelyn, em sua visita de ontem, defendeu Owen e mencionou o quanto ele estava sofrendo sem mim.Além disso, Edward começou a insistir que estou sendo dura demais com ele, com o apoio de Nikolai. Sem falar que Ares está em um mau humor terrível, com saudades daquele idiota.Seria tão mais fácil se eu não o amasse como amo e, mesmo me esforçando para ignorar o que sinto, é
OwenMinha cabeça dói e minhas pálpebras parecem pesar uma tonelada. Parece que fui atropelado por um trator, tamanha é a dor no meu corpo.Abro os olhos, vendo um teto emoldurado, então me sento na cama, olhando ao redor e percebendo que estou no meu antigo quarto, o que fica na casa dos meus pais.Como vim parar aqui? Então flashs começam a invadir minha mente.Estela me contando que estava grávida...Eu ficando apavorado...Eu a deixando sozinha e saindo do apartamento, parando no primeiro bar que encontrei e bebendo uma garrafa de whisky sozinho.Estela está grávida... Eu vou ser pai.Meu coração está acelerado e um frio percorre minha espinha desde que recebi a notícia.Eu, pai? A ideia me apavora mais do que consigo expressar. Nunca quis um filho, nunca me vi capaz de ser o pai que uma criança merece.Os fantasmas do passado me assombram, os mesmos erros que meu próprio pai cometeu ecoam em minha mente, me fazendo tremer de medo.Não posso ser como ele, não posso repetir os me
Owen Já tem quase dois meses que só sei dormir dividindo a cama com Estela, e o pior é que isso não está me enlouquecendo, muito menos quero que ela vá embora.E, mesmo sendo um cafajeste, nunca mais consegui olhar para outra mulher.É como se só Estela existisse, ela é a única que eu desejo.Isso foi alguma praga que Chris jogou em mim, ele falava que uma hora ou outra isso aconteceria, e foi da maneira mais improvável possível.Sinto como se estivesse perdendo o controle, como se tivesse caído em um abismo sem fundo.Prometi a mim mesmo que nunca me permitiria cair nesse jogo perigoso do amor, mas então Estela apareceu e tudo mudou.Seu sorriso, sua voz, seus olhos... Ela virou meu mundo de cabeça para baixo. Agora me vejo mergulhado em um oceano de sentimentos que sempre rejeitei, e é assustador, eu admito, sinto o medo do que isso significa para mim, para nós, mesmo assim, não consigo negar a intensidade do que cresce dentro de mim, apesar de todos os meus esforços para resistir
EstelaAndo de um lado para o outro, mas tenho a sensação de que não estou saindo do lugar. Os corredores parecem ficar cada vez mais estreitos, então o ar foge dos meus pulmões e sinto minha boca seca, mas continuo andando, sem saber para onde estou indo. Começo a me desesperar, sendo sufocada pelo medo, olhando para todos os lados enquanto as paredes se fecham mais e mais ao meu redor.Então ouço uma voz me chamando, é quase um sussurro, mas quando olho ao redor, não vejo ninguém.É quando eu paro, bem em frente a uma porta escura, viro o rosto para trás e vejo as paredes dos corredores se encontrarem, fazendo um barulho assustador. Eu não posso voltar.Minha mão encontra a maçaneta, girando e abrindo a porta pesada.Quando me acostumo com a iluminação do outro lado, o pavor me invade.Estou parada e olhando para o que está do outro lado da porta, ou melhor, quem está.É George, e ele sorri com os dentes absurdamente brancos enquanto me encara com sangue escorrendo de sua orelha.







