FAZER LOGINValentina
A mão que me agarrou não era de Giovanni.
Esse foi o primeiro pensamento que atravessou minha mente enquanto meu corpo era puxado para trás com força suficiente para arrancar o ar dos meus pulmões. Não havia cheiro conhecido, não havia voz doce sussurrando desculpas. Só um aperto firme no meu braço e o peso de alguém que sabia exatamente o que estava fazendo. — Solta! — tentei gritar, mas a voz saiu quebrada, engolida pela noite. O homem não respondeu. Não precisou. Ele me virou com um movimento seco, rápido, e por um segundo eu vi apenas sombras e o brilho frio de olhos atentos demais para alguém que estivesse improvisando. — Quietinha, garota. — disse, baixo. Controlado. — Se gritar, piora. Eu congelei. Não por obediência. Por cálculo. O jardim dos Moretti era grande, escuro, cheio de caminhos que se cruzavam como um labirinto bonito demais para alguém pedir socorro. As luzes da casa principal estavam acesas. Havia carros chegando. Homens circulando. E ninguém… ninguém estava olhando para mim. — Por favor… — escapou, sem que eu tivesse planejado. O orgulho vacila quando a sobrevivência b**e na porta. — Eu não fiz nada. Eu só quero ir embora. O homem me observou por um segundo a mais. Um segundo perigoso, silencioso. Ele parecia avaliar algo além do meu rosto como se estivesse medindo não o meu medo, mas o quanto eu valia. — Não depende de mim. — respondeu, por fim. A frase caiu como uma sentença. Ele me soltou de repente, e por um instante meu corpo reagiu antes da mente. Dei dois passos para trás. Me virei. Corri. Corri sem direção, sem fôlego, sem saber se havia saída ou só mais muros. Meus pés escorregaram na grama úmida. O coração batia tão alto que parecia querer saltar do peito. O mundo se reduziu a duas coisas: fugir e respirar. Passei por uma lateral da casa, por uma área mal iluminada onde havia uma pequena porta de serviço. Forcei a maçaneta. Trancada. — Merda… — murmurei, sentindo o pânico começar a subir como maré. Continuei correndo. Pulei um pequeno canteiro, arranhei a perna num arbusto, senti a dor arder, mas não parei. Dor ainda era vida. Alcancei o portão lateral do terreno. Alto. Fechado. Câmeras girando lentamente, como olhos mecânicos que nunca piscam. Eu estava cercada. Encostei as costas no ferro frio e deslizei até o chão, ofegante. Minhas mãos tremiam. Minha cabeça girava. Foi ali, sentada na terra de uma família que eu achei que fosse minha, que a verdade se instalou de vez: Eu estava sozinha. Não havia número para ligar. Nenhum nome para gritar. Nenhuma porta amiga para bater no meio da noite. Meus pais morreram quando eu tinha três anos. Não havia memórias suficientes para doer só fotos antigas e histórias contadas por outros. Meu tio… ele tentou. Deus sabe que tentou. Me deu teto, carinho, limites. Me ensinou a não baixar a cabeça fácil. Mas o câncer levou ele rápido demais, como se o mundo tivesse pressa em me lembrar que nada dura. Depois disso, eu virei boa em sobreviver. Boa em não depender. Boa em não criar raízes. Até Giovanni. Até eu acreditar que amor também podia ser abrigo. Soltei uma risada curta, quase histérica. — Que idiota… — sussurrei para mim mesma. Acreditei em promessas. Em jantares de domingo. Em “futuro”. Acreditei quando ele disse que eu era diferente. Quando disse que jamais permitiria que alguém me machucasse. E foi ele quem me entregou. Levantei com dificuldade. Não podia ficar ali. Mesmo sem plano, mesmo sem saber para onde ir, ficar parada era aceitar. Passei pelo portão menor, que dava para a rua lateral. Não estava trancado. Saí. O ar da cidade bateu no meu rosto como um tapa. O som distante de carros, uma sirene longe demais, um casal discutindo na calçada oposta. A vida seguia. Menos a minha. Caminhei rápido, tentando parecer normal. Uma mulher andando sozinha à noite não chama atenção se finge que sabe exatamente para onde vai. Meus passos doíam. Meu corpo inteiro doía. Parei numa esquina iluminada. Vi uma pequena igreja aberta, luz acesa, porta entreaberta. Entrei. O cheiro de incenso e madeira antiga me envolveu. Havia uma senhora sentada nos primeiros bancos, rezando em silêncio. Um homem mais velho organizava papéis perto do altar. Por um segundo, eu quase chorei. — Com licença… — minha voz saiu baixa, quebrada. — Eu… eu preciso de ajuda. O homem levantou os olhos. Me avaliou. Rápido demais. Como se já tivesse aprendido a reconhecer problemas. — Está tudo bem, filha? Eu abri a boca. E fechei. Como explicar que eu tinha sido vendida? Que homens armados me procuravam? Que eu não tinha documento comigo, nem dinheiro, nem casa para voltar? — Eu… preciso usar o telefone. — foi o que consegui dizer. Ele hesitou. Olhou para a senhora. Olhou para a porta. — Não é uma boa hora. — respondeu, gentil, mas firme. — Estamos fechando. Fechando. Tudo estava sempre fechando. Assenti, engolindo o nó na garganta. — Desculpa. — murmurei, antes de sair. Do lado de fora, a noite parecia mais fria. Caminhei mais algumas quadras. Tentei entrar num hospital. Segurança na porta. Perguntas demais. Olhares desconfiados. Eu parecia exatamente o que era: uma garota sem nada. Passei por um ponto de táxi. O motorista me olhou de cima a baixo. — Tem dinheiro? Balancei a cabeça. Ele virou o rosto. Continuei andando até as pernas ameaçarem falhar. Parei perto de um pequeno parque vazio, sentei num banco de concreto e abracei os próprios joelhos. Foi ali que a ficha caiu de vez. Não importava o quanto eu fosse forte. Não importava o quanto eu quisesse sobreviver. Quando alguém decide que você é mercadoria… o mundo inteiro colabora. Fechei os olhos por um segundo. Só um segundo. Para respirar. Para organizar a cabeça. Para pensar no próximo passo. Quando abri, o carro preto estava estacionado do outro lado da rua. Meu coração afundou. A porta se abriu devagar. O mesmo homem do jardim desceu. Paletó escuro. Postura calma. Olhar atento. Ele caminhou até mim sem pressa. — Eu disse que não dependia de mim. — falou, parando a poucos passos. — Agora depende menos ainda. Levantei devagar. Endireitei os ombros. — Eu não vou gritar. — avisei. — Não adianta. Um canto da boca dele se ergueu, quase imperceptível. — Inteligente. — Posso saber pra onde está me levando? Ele abriu a porta traseira do carro. — Pode. Esperei. — Mas não vai mudar nada. Entrei sozinha. A porta se fechou com um som pesado, definitivo. E enquanto o carro arrancava, eu entendi, com uma clareza dolorosa: Ninguém vinha me salvar. E eu estava oficialmente fora do mundo que conhecia.EpílogoDanteDois anos depois.A casa cheirava a cera de madeira antiga e biscoitos de canela. Parei na porta da biblioteca, apoiando o ombro no batente, sem fazer barulho. Eu tinha acabado de chegar de uma viagem de três dias a Milão e estava exausto, com o cheiro de aeroporto e reuniões entediantes impregnado na roupa.Mas aquela cena... aquela cena limpou minha alma instantaneamente. A luz dourada do fim de tarde entrava pelas janelas altas. Valentina estava sentada ao piano de cauda. Ela tocava algo suave, uma melodia que parecia flutuar no ar, os dedos dançando sobre as teclas com uma leveza que contrastava com a força que eu sabia que aquelas mãos tinham.No sofá de veludo, Sofia estava esparramada, com os pés apoiados numa pilha de almofadas, massageando o tornozelo inchado. A barriga de sete meses de gravidez era uma curva proeminente sob o vestido florido.- Eu juro, Tina... - Sofia resmungava, interrompendo a música. - Se o Mario me disser mais uma vez para "ficar calma", e
Dante Eu enfrentei exércitos. Negociei com terroristas. Sobrevivi a torturas e enterrei inimigos com as minhas próprias mãos. Mas nunca, em trinta e dois anos de vida, minhas mãos suaram tanto quanto agora. Ajeitei a gravata pela décima vez na frente do espelho do hall. O nó estava perfeito, mas parecia apertar minha garganta. - Se você mexer nessa gravata de novo, eu vou chamar a Teresa para te dar uma colherada na mão. Virei-me. Mario estava encostado na porta, um copo de uísque na mão e um sorriso debochado no rosto. O Sottocapo parecia irritantemente calmo. - A segurança? - perguntei, ignorando a piada. - O perímetro está fechado, Dante. - Mario revirou os olhos, desencostando da porta. - Temos atiradores nos telhados, drones no ar e mais homens armados disfarçados de garçons do que garçons de verdade. Nem uma mosca entra aqui sem autorização. Relaxe. Hoje é dia de paz. Ele me estendeu o copo. - Beba. Você parece que vai vomitar. Peguei o copo e virei o líquido âmbar de u
ValentinaTrês meses.Noventa dias de fisioterapia, exercícios respiratórios para fortalecer meu pulmão remendado e sessões de fonoaudiologia para que minha voz voltasse a ser mais do que um sussurro rouco.A recuperação foi uma escalada lenta, mas a vista do topo valia a pena. A mansão Vitale nunca esteve tão viva. O silêncio solene dos corredores tinha sido substituído pelo som de joelhos pequenos batendo no chão de madeira e balbucios que soavam como ordens ditatoriais.Nicolau e Vittoria estavam com oito meses. E eram o caos encarnado. Nico engatinhava como um tanque de guerra, derrubando tudo o que via pela frente, com a força bruta do pai. Vittoria era rápida, estratégica; ela esperava o irmão derrubar a barreira de almofadas para passar pelo buraco.Eu estava sentada no tapete da sala, rindo enquanto Nico tentava comer o pé da mesa e Vittoria puxava a orelha de um urso de pelúcia.- Eles vão destruir a casa antes de completarem um ano. - Elisa comentou, passando com uma pilha d
Valentina Acordar não foi como acender uma luz. Foi como emergir de um oceano profundo e escuro. Primeiro veio o som: o bipe rítmico, a respiração pesada de alguém ao meu lado. Depois veio o toque: uma mão grande, áspera e quente segurando a minha. E por último, a dor. Não era a dor aguda do tiro. Era uma dor surda, de corpo esquecido, de músculos atrofiados. Tentei engolir e senti um bloqueio estranho na garganta. Algo plástico. Algo errado. Levei a mão ao pescoço, os dedos trêmulos tocando o curativo, o tubo pequeno. - Calma, Tina. - A voz de Chiara veio do outro lado, profissional, mas embargada de alívio. - Não tente falar. Você está com uma traqueostomia. Vai incomodar um pouco, mas é o que te ajudou a respirar. Abri os olhos completamente. A luz do abajur era fraca, dourada. Dante estava ajoelhado ao meu lado. O rosto dele... meu Deus. Ele estava barbudo, com olheiras profundas, mas o sorriso que ele me deu foi a coisa mais bonita que já vi na vida. - Você voltou. - ele s
Dante Dois meses. Sessenta e um dias. Mil, quatrocentas e sessenta e quatro horas. Eu aprendi a contar o tempo não por relógios ou prazos de carregamentos, mas pelos bipes de um monitor cardíaco e pelas mamadas de duas crianças que não entendem por que a mãe não vem quando elas choram. Transformei a ala leste da mansão em um hospital de ponta. A Doutora Chiara praticamente mora aqui. Três enfermeiras se revezavam em turnos de oito horas. O quarto onde Valentina dormia cheirava a antisséptico e lavanda, o cheiro dela lutando contra o cheiro da medicina. A ferida no peito dela estava fechada. A cicatriz, uma linha rosada e furiosa, era a marca da bala que deveria ter me matado, não ela. O corpo estava curado. Os ossos, colados. Mas a mente... a mente dela decidiu vagar por lugares onde eu não podia entrar. Desci as escadas com a camisa social desabotoada, manchas de leite no ombro esquerdo e olheiras que nenhum dinheiro no mundo podia apagar. Na sala de estar, o caos habitual da
Dante O mundo era barulho. Sirenes. Gritos. O som do monitor cardíaco falhando. Mas dentro da minha cabeça, havia apenas um silêncio branco. Eu estava dentro da ambulância. Minhas mãos ainda pressionavam a gaze sobre o peito dela, embora o paramédico tivesse tentado me afastar duas vezes. - O senhor precisa soltar! - ele gritou. - Se eu soltar, ela sangra! - rosnei, e ele viu nos meus olhos que eu mataria qualquer um que me impedisse de tentar salvá-la. - Dirija essa merda mais rápido! Eu olhava para o rosto dela. Pálido. Cinza. A máscara de oxigênio embaçava ritmicamente, cada vez mais fraca. - Não ouse. - sussurrei perto do ouvido dela, ignorando o caos ao redor. - Você não tem permissão para ir, Valentina. Eu não autorizei. Você me ouviu? Eu não autorizei! A ambulância parou no hospital com um solavanco. As portas se abriram. O mundo virou um borrão de luzes fluorescentes e jalecos brancos. - Ferimento por arma de fogo no tórax! Perda massiva de sangue! Pressão 6 por 4! Prep







