INICIAR SESIÓN— Abre logo isso, mulher! — Giulia insistia, sentada na ponta do sofá com os cotovelos nos joelhos, olhos arregalados de curiosidade.— Tô com medo. — respondi, rindo nervosa, com o teste ainda fechado nas mãos. — E se for negativo?— A gente chora e tenta de novo. Mas se for positivo… ai, meu Deus, se for positivo! — ela bateu palmas e puxou a almofada contra o peito. — Anda logo, Serena! Eu tô grávida ou não tô? Porque se você estiver, eu tô grávida junto.— Isso é chantagem emocional — murmurei, me levantando e andando em círculos pelo tapete claro da sala.Estávamos na casa dela. Aurora brincava no quintal com dois cachorros enormes e completamente mimados por Salvatore. Ele estava na cozinha, jurando que sabia fazer lasanha. Mentira. Mas ninguém tinha coragem de impedir.— Tá. Respira. Abre. — falei sozinha.Entrei no banheiro com o coração batendo no pescoço.O silêncio do corredor foi substituído por um grito estrangulado quando vi as duas listras surgirem como se sempre tivess
Um ano depois Narração: SerenaNunca pensei que usaria branco. Nunca pensei que veria minha própria imagem no espelho e me sentiria… inteira.O vestido caía suave sobre meus ombros, com rendas delicadas que desciam até os pulsos. Não era um vestido de princesa. Era meu. Forte, simples e bonito — como eu aprendi a ser.— Está linda, meu amor — disse Giulia, entrando no quarto com um sorriso emocionado. Os olhos dela já estavam molhados, e ela segurava um lenço amassado como quem já havia desistido de parecer composta.— Se você começar a chorar agora, eu não vou conseguir parar — respondi, rindo entre lágrimas.Ela veio até mim e me abraçou com força.— Um ano atrás… — começou, mas a voz falhou. — Um ano atrás eu achei que te perderia.— Eu também.Nos olhamos. Cúmplices. Sobreviventes.— Mas agora… você vai se casar com o homem mais leal e mais turrão da face da Terra.— E mais doce também, quando ninguém tá olhando — completei, sorrindo.Ela riu.— A Aurora tá que não se aguenta. Di
A luz suave da manhã atravessava as cortinas grossas do quarto, desenhando faixas douradas no chão de madeira.Meus olhos se abriram devagar. O corpo ainda pesado pela vigília, mas o coração… o coração acelerou assim que percebi.Os braços dela estavam em volta da minha cintura.Serena.Ela estava acordada. Deitada ao meu lado, o rosto enterrado contra meu abdômen, como se buscasse abrigo no próprio calor do meu corpo. Os ombros tremiam. E demorou um segundo até que eu percebesse o que era aquilo.Ela estava chorando.Lentamente, passei a mão por entre os fios do cabelo dela, com um cuidado quase reverente.— Serena? — chamei baixinho, com medo de quebrá-la mais uma vez. — Ei… sou eu. Tá tudo bem agora.Ela não respondeu. Apenas apertou mais forte o abraço. As lágrimas molhavam minha camiseta. E eu deixei. Que chorasse. Que desabasse tudo ali.— Você voltou… — sussurrou, a voz trêmula e abafada. — Eu achei que… que ia morrer lá. Que ninguém vinha. Que… que você tinha me deixado.— Nun
Corremos pelo túnel, os pés espirrando água suja, a respiração presa na garganta. A dor de Salvatore era visível — sangue manchava sua lateral, o ombro ferido estava rígido — mas ele não parava. Nem eu.A luz no fim do túnel era fraca, quase imperceptível, mas sabíamos onde levava: o cais velho. Morozov estava tentando escapar. O som de um motor ao longe confirmou isso.— Ele tem um barco — murmurei.— Não vai sair dali — Salvatore respondeu, num tom baixo, rouco, carregado de ódio.A silhueta dele surgiu na saída. Morozov corria em direção ao píer, mancando, o braço ensanguentado pressionando o abdômen. Um barco pequeno estava à espera, com dois homens russos armando os motores. Ele gritou algo em russo, apontando para trás.Eles viraram as armas na nossa direção.— COBERTURA! — gritei, me jogando atrás de um dos pilares de concreto. Salvatore se abaixou atrás de uma caixa enferrujada.Tiros estouraram. Madeira, pedra e faíscas voaram.Respirei fundo. Olhei para Salvatore.— Eu vou p
No dia seguinte, o salão principal da mansão Mancini estava lotado. Capos de todas as famílias aliadas e neutras haviam sido convocados. O som grave das vozes, o tilintar dos copos, os olhares carregados de tensão formavam uma atmosfera densa — como um trovão prestes a cair.Salvatore Mancini entrou por último.Não sorriu, não cumprimentou. Só caminhou até o centro da sala, parou diante da lareira apagada, e ergueu um envelope vermelho.— Este é o sangue de um de vocês.Silêncio absoluto.— Não literalmente, claro. Mas emocionalmente. Porque quando alguém leva uma mulher inocente, ligada a um dos meus homens… está dizendo para todos aqui que nossas famílias são vulneráveis. Que nossas mulheres podem ser moeda.Ele ergue os olhos. E ali, naquele segundo, não havia o marido de Giulia, o pai de Aurora, nem mesmo o amigo. Havia o Don.— Isso não é mais sobre Giovanni. É sobre todos nós. Hoje foi Serena. Amanhã será a filha de outro. A irmã. A esposa. Por isso, quem não se mover comigo... e
Descemos do carro em uma clareira longe da estrada principal. O céu já estava completamente azul, mas para mim, tudo parecia tingido de cinza.Salvatore veio até mim, o rosto coberto de fuligem, as mãos cerradas em punhos.— Você viu o carro? — ele perguntou, direto.— Vi a explosão. Vi fumaça. E ouvi o rádio. Ele não estava morto. Ele sumiu.Salvatore chutou uma pedra, os olhos faiscando de ódio.— Eu devia ter cortado a garganta dele quando tivemos a chance. Essa clemência vai nos custar caro. — Ele não escapou sozinho. — cruzei os braços, tentando controlar a raiva. — Alguém avisou. Alguém muito perto.Marco se aproximou, respirando com dificuldade.— Temos quatro mortos. Dois desaparecidos. Um dos motoristas está gravemente ferido… perdeu a perna na explosão.— E o resto? — perguntei.— Os que sobraram estão na rota B, recuando para o ponto de apoio. Mas estão assustados. Acham que a guerra voltou de vez.— Não acho. — Salvatore murmurou. — A guerra nunca foi embora. Só estávam







