Chapter: Isso Pertence a DanteA casa não tinha mudado.Nós, sim.Empurrei a porta com cuidado, como se ela ainda pudesse ranger e acordar fantasmas que dormiam melhor quando não eram chamados pelo nome. O cheiro veio primeiro. Madeira antiga, pedra fria, cinza velha da lareira que nunca foi totalmente limpa. Era diferente da casa onde morávamos agora. Menos prática. Mais memória.Vitória entrou atrás de mim, os passos mais lentos do que o habitual. Aos dezoito anos, ela carregava no corpo a mesma postura que Dante tinha quando precisava enfrentar algo grande demais para ser adiado. O mesmo jeito de observar os detalhes antes de tocar em qualquer coisa, como se o mundo pedisse permissão para continuar existindo.— É aqui — eu disse, mais para mim do que para ela.
Última atualização: 2026-02-01
Chapter: O que escolhemos levar O tempo passou como passam as coisas inevitáveis.Sem pedir licença. Sem avisar quando estava deixando algo para trás.Nós mudamos de casa quando percebemos que permanecer ali exigia mais força do que seguir adiante. Não foi abandono. Foi escolha. A antiga casa Montanari continuou de pé, preservada, silenciosa, como um lugar que guarda histórias demais para ser habitado todos os dias.Virou refúgio. Virou campo. Virou memória.A nova casa ficava afastada o suficiente para não carregar ecos da rua onde tudo tinha acabado. Tinha árvores antigas, vento constante e um cheiro de terra viva que entrava pelas janelas ao amanhecer. Ali, o passado não gritava. Apenas observava de longe.
Última atualização: 2026-02-01
Chapter: Onde o Amor ficou O silêncio veio depois.Depois do barulho da rua. Depois do cheiro de pólvora impregnado na pele. Depois do peso do corpo de Dante escorregando dos meus braços para o chão frio diante da casa Montanari.Quando entramos, horas mais tarde, a casa já não era a mesma.Ela reconhecia a ausência.Os sons que sempre estiveram ali se recolheram. A madeira não estalava. Os corredores pareciam mais longos. O ar tinha um gosto estranho, como se tivesse sido respirado demais e esquecido de se renovar.Vitória estava acordada.Ela nos esperava sentada na cama, os joelhos encolhidos contra o peito, os olhos grandes demais para o rosto pequeno. Não perguntou nada quando me viu. Apenas me olhou como quem já tinha entendido antes mesmo de ouvir.— Eu sei mamãe, o papai Dante morreu… — disse, baixo, sem interrogação.Eu a abracei com cuidado, sentindo o corpo dela tremer em silêncio. Não houve grito. Não houve desespero. Só aquele chor
Última atualização: 2026-02-01
Chapter: O que não se repetiu((Anna))O tempo não pediu licença para continuar.Ele avançou em meses, não em dias. As estações trocaram de lugar sem cerimônia, como se o mundo tivesse decidido seguir adiante apesar de nós. A dor não diminuiu de imediato. Ela apenas mudou de forma. Saiu do peito e foi morar no fundo do corpo, onde não se vê, mas se carrega.Foi nesse intervalo silencioso que meu corpo confirmou o que já tinha sussurrado.A gravidez não chegou como alegria expansiva. Veio contida, quase respeitosa, como se soubesse que entrava numa casa de luto. Eu a vivi em silêncio no começo, observando os sinais com a mesma cautela com que se observa algo frágil demais para ser nomeado cedo.Quando c
Última atualização: 2026-02-01
Chapter: O Grito que Rasgou a Noite O disparo cortou a noite.Eu sabia.Naquele segundo, antes mesmo de ver, eu soube.Meus pés correram antes da minha mente reagir.Atravessei corredores, terra, escuridão, fumaça. O cheiro de pólvora queimava meu nariz, mas eu só conseguia pensar em uma coisa:Dante.Meu coração batia tão rápido que doía.Quando vi a clareira iluminada por tiros, meu corpo gelou.Dante estava de pé um segundo…E no seguinte, a bala atingiu seu lado direito.— NÃO!O grito explodiu de mim antes de eu sentir meus próprios pulmões.Meu mundo inteiro se desfez diante dos meus olhos.Ele cambaleou.As pernas cederam.O corpo inclinou para trás.Eu cheguei a tempo de impedir que ele caísse no chão.— Dante, olha pra mim!
Última atualização: 2026-01-24
Chapter: Até o ultimo fôlego((DANTE))A noite caiu como lâmina.Quando ouvi o primeiro disparo ecoar nos arredores da mansão, meu corpo já estava em movimento. Não pensei, não hesitei — apenas corri. Corri porque sabia que ele tinha chegado.Lorenzo.E o que o acompanhava.O caos tomou forma rápido.Homens surgiram da mata, sombras armadas, vultos entre as árvores, o barulho seco de passos rompendo o mato. O perímetro leste explodiu em gritos, tiros e metal se chocando.A guerra não estava chegando.A guerra estava aqui.E eu sabia exatamente onde deveria estar:entre a minha família e o inferno.— DANTE! SETOR OESTE! — ouvi Enzo gritar à distância.— TÔ AQUI! — respondi, já avançando.O cheiro de pólvora queimou minha garganta. O ar estava pesado, cortado por
Última atualização: 2026-01-24
Chapter: 107 - A VERDADE QUE DESTRUIU MINHA VIDAVALENTINAAs palavras dele ficaram suspensas entre nós.Como se o tempo tivesse decidido parar apenas para me torturar.Meu cérebro simplesmente se recusava a processar o que meus ouvidos acabavam de ouvir.Dei um passo para trás.Depois outro.Balancei lentamente a cabeça.— Não...Minha voz saiu tão baixa que mal consegui escutá-la.Dominic permanecia sentado na beira da cama.Os olhos vermelhos.As mãos trêmulas.Nunca imaginei que veria Dominic Castellani destruído daquela forma.Mas, naquele instante...Aquilo deixou de importar.Porque o que ele acabava de dizer...Era impossível.Continuei recuando.— Não impossível...Sorri.Um sorriso completamente sem sentido.Daqueles que aparecem quando a mente tenta escapar da realidade.— Essa não teve graça.Ele não respondeu.
Última atualização: 2026-09-01
Chapter: 106 - A REVELAÇÃO MAIS DOLOROSADOMINICA primeira sensação foi a dor.Não no peito.Na cabeça.Uma dor pesada.Como se cada pensamento batesse contra o meu crânio.Abri os olhos lentamente.A luz da manhã atravessava parcialmente as cortinas.Demorei alguns segundos para reconhecer meu próprio quarto.As lembranças vinham em pedaços.O bar.Os copos.Levi.Depois...Escuridão.Passei a mão pelo rosto.Quando tentei me sentar, senti o estômago protestar.Foi então que notei o balde ao lado da cama.As toalhas espalhadas pelo chão.Uma camisa dobrada sobre a poltrona.E...Alguém dormindo ao meu lado.Meu coração parou.Valentina.Ela estava sentada, encostada na cabeceira.O corpo levemente inclinado na minha direção.Uma das mãos ainda repousava sobre meu ombro.Como se tive
Última atualização: 2026-09-01
Chapter: 105 - O HOMEM QUE PERDEU O CONTROLEVALENTINAA mansão estava silenciosa.Estranhamente silenciosa.Passei a maior parte da noite tentando terminar alguns relatórios da CV Group.Sem sucesso.Lia a mesma página três vezes.E não entendia nenhuma linha.Meu telefone vibrou.Sorri discretamente ao ver o nome de Bia."Vou dormir na casa da Ana hoje. A gente acabou colocando a conversa em dia e perdi a hora kkk. Não me espera."Respondi apenas:"Aproveita. Boa noite."Poucos segundos depois ela enviou um emoji de coração.Sorri sem perceber.Pelo menos alguém naquela casa ainda parecia feliz.Olhei o relógio.Quase duas horas.Dominic ainda não tinha voltado.Estranhei.Ele nunca chegava tão tarde.Pensei em mandar mensagem.Peguei o celular.Desisti.Não fazia sentido.Havia duas semanas...Ele mal r
Última atualização: 2026-08-31
Chapter: 104 - A CULPA QUE ME CONSOMEDOMINICDuas semanas.Dias fingindo que ainda existia alguma normalidade na minha vida.Quatorze dias acordando na mesma mansão.Trabalhando na mesma empresa.Sentando à mesma mesa de reuniões.Olhando para a mulher que eu amava...E repetindo para mim mesmo que nunca mais poderia tocá-la.Se existia algum tipo de punição pior do que aquela...Eu não queria conhecer.Naquela sexta-feira, permaneci na presidência muito depois de todos terem ido embora.O último andar da Castellani estava completamente silencioso.A cidade brilhava do lado de fora através da enorme parede de vidro do meu escritório.Bridgstone nunca dormia.Eu também não.Levantei da cadeira.Afrouxei a gravata.Caminhei até a janela.Lá embaixo...As pessoas continuavam vivendo.Entravam em restaurantes.Voltavam para casa.
Última atualização: 2026-08-31
Chapter: 103 - AS APARÊNCIAS PRECISAVAM VENCERVALENTINADuas semanas, foram necessários para eu entender que o silêncio também podia machucar.Ele não gritava.Não discutia.Não quebrava nada.Mas destruía aos poucos.A rotina voltou exatamente ao que era antes das montanhas.Reuniões.Contratos.Assinaturas.Almoços de negócios.Eventos.Coletivas.E Dominic...Sempre a poucos metros de mim.Tão perto.E completamente inacessível.Era estranho perceber como duas pessoas podiam dividir praticamente todos os dias de trabalho e, ainda assim, parecerem desconhecidas.Nas reuniões ele falava comigo apenas o necessário.Chamava meu nome.Ouvia minhas opiniões.Concordava ou discordava.Tudo com absoluta educação.Tudo absolutamente profissional.Nem uma palavra além daquilo.Nem um olhar que demorasse um segundo a mais.E, aos poucos...Eu comecei a fazer exatamente a mesma coisa.Se ele queria distância...Eu lhe daria distância.No começo doeu.Depois...Virou defesa....Naquela manhã desci para o café mais cedo do que de costume.
Última atualização: 2026-08-31
Chapter: 102 - O HOMEM QUE EU ACREDITEIValentinaDepois da coletiva que fomos forçados a fazer na biblioteca da mansão depois do evento com investidores.Ficamos apenas Eu, Dominic e Levi na sala.Levi fechou a porta, ficou ao lado como um cão de guarda.Até ele parecia diferente.Permaneci parada, em pé em frente a Dominic.Olhei pra ele e observei alguns segundos.— Então era isso...Ele levanta os olhos.— O quê?Dei uma risada amarga.— O homem das montanhas morreu mesmo.Ele apertou a mandíbula.Não respondeu.Aquilo me machucava de um jeito, que não precisava.Continuei.— Sabe qual é a pior parte?Ele permaneceu em silêncio.— Eu tentei resistir Dominic.Minha voz falhou.— Desde o primeiro beijo. Desde o hotel. Desde aquela primeira noite. Eu dizia que era errado. Que tínhamos um contrato. Que precisávamos parar. Quem sempre avançava...Era você.Ver a culpa atravessar os olhos dele.Mas ele continuar calado.Aquilo me destruia.— Minha mãe chegou a dizer...Dei uma pequena risada sem humor.— "Faz um novo contrato
Última atualização: 2026-08-31
Chapter: 93 - O Amor que FicaNaquela noite, quando todos já estavam em seus quartos, o silêncio do hotel parecia um convite para nós dois. Edward me puxou pela mão até nosso quarto, fechando a porta atrás de si com suavidade. O quarto estava com a varanda aberta, permitindo que a brisa fresca da noite invadisse o espaço e embalasse o momento que, sabíamos, seria mais do que apenas físico, era um encontro de almas, naquele mesmo quarto onde tudo começou. Ele me abraçou por trás, as mãos repousando sobre a curva da minha barriga ainda discreta. — Nossa família está crescendo — sussurrou, com um sorriso emocionado. Virei-me para ele, encarando aqueles olhos que sempre foram meu porto seguro, e acariciei seu rosto. — E vai crescer com amor, com a nossa força. Edward me beijou então, com uma intensidade que falava sobre tudo o que vivemos até aqui, as dores, os medos, os
Última atualização: 2025-05-26
Chapter: 92 - Laços EternosO jantar daquela noite foi preparado ao ar livre, com as luzes penduradas entre as árvores formando um céu de estrelas artificiais que competia com o verdadeiro, limpo e brilhante céu acima de nós.As risadas ecoavam pela varanda do hotel, misturadas ao som suave de uma música ao fundo e ao tilintar dos talheres.Eu observava cada rosto à minha volta e sentia uma gratidão tão profunda que mal conseguia conter as lágrimas.Sophia e Marcelo estavam abraçados, os dedos entrelaçados como se quisessem selar, de forma silenciosa, aquele compromisso que logo ganharia um altar.Joyce e Tom brindavam com suco, já que Joyce, sempre cuidadosa, tinha abolido o vinho para se preparar para a nova fase da vida.Carol acariciava a barriga enquanto Rodrigo, com um olhar terno, conversava com Dona Maria sobre as expectativas da paternidade.— Parece que essa família não para de crescer — Dona Maria comentou, sorrindo com aquele olhar calmo e sábio
Última atualização: 2025-05-26
Chapter: 91 - Aurora do AmorOs meses passaram como uma brisa mansa, soprando mudanças, amadurecimentos e muita alegria sobre nossas vidas. O Espaço Aurora, antes um sonho tímido, agora era um projeto consolidado, próspero e inspirador.Eu e Sophia nos dividíamos entre a gestão do Espaço Aurora e do hotel na cidade vizinha, que também seguia firme, com ocupação sempre alta e hóspedes encantados.As oficinas artesanais iam tão bem que, entre reuniões e conversas com nossa equipe, começamos a cogitar a possibilidade de abrir uma nova unidade, em outra cidade, levando nossa proposta ainda mais longe.— Parece ontem que a gente começou com aquele espaço vazio — Sophia comentou, certa tarde, enquanto tomávamos um café no escritório.— E agora, talvez a gente precise de outra casa de acolhimento — completei, rindo, enquanto ela assentia com aquele olhar decidido que sempre me fez admirar sua força.A nossa rotina era puxada, mas equilibrada com uma dose generosa de amor e
Última atualização: 2025-05-26
Chapter: 90 - Aurora de esperançaSophia e eu passávamos praticamente todos os dias juntas ali. Criamos uma rotina intensa, mas prazerosa, começávamos cedo com reuniões de alinhamento, organizávamos as demandas das oficinas, acompanhávamos o andamento dos atendimentos psicológicos e jurídicos, e sempre tirávamos um tempo para circular pelo espaço, conversar com as mulheres, ouvir suas histórias e pensar juntas em novas formas de ampliar o projeto.— Acredita que já estamos com lista de espera? — disse Sophia, certa manhã, entrando na minha sala com um café nas mãos.— Sério? Em tão pouco tempo.— Sim! E precisamos pensar em como ampliar nossa capacidade de acolhimento sem comprometer a qualidade do atendimento.— Concordo. Talvez seja o momento de buscarmos novos parceiros, mais financiamento.— E quem sabe um novo espaço, no futuro?Rimos juntas, com aquele brilho no olhar de quem, apesar do cansaço, sabia que estava construindo algo muito maior do que si mesma.
Última atualização: 2025-05-25
Chapter: 89 - Espaço AuroraAs semanas passaram como um sopro, cheias de movimento, cores e novas histórias sendo escritas a cada dia. O Espaço Aurora, que antes era apenas um sonho rabiscado em folhas de caderno, agora estava ali, diante dos meus olhos, com suas paredes claras e acolhedoras, repletas de vida.A inauguração foi emocionante. Eu e Sophia estávamos lado a lado, segurando firme uma na mão da outra enquanto o público se reunia em frente ao portão principal, onde a placa brilhava: "Espaço Aurora – acolher, transformar, florescer".Edward estava ao meu lado, com Luiz Eduardo no colo, balançando a mãozinha como se soubesse que aquele era um dia especial para a nossa família. Meus olhos se encheram de lágrimas quando Sophia pegou o microfone para fazer o discurso de abertura.— Este espaço nasceu da dor, mas floresceu no amor — disse ela, com a voz firme, mas carregada de emoção.— É um lugar para mulheres que, assim como nós, precisaram de um recomeço, e encontraram
Última atualização: 2025-05-25
Chapter: 88 - Florescer do inesperadoOs dias seguintes ao casamento de Carol e Rodrigo passaram como uma brisa suave, carregando consigo a leveza de um amor selado e a expectativa pelos próximos capítulos de nossas vidas. O casal recém-casado havia viajado para a tão sonhada lua de mel, eu e Edward, como padrinhos, demos a lua a viagem de lua de mel, para o nosso hotel, aquele lugar que sempre seria o marco inicial da minha história com Edward, o espaço onde nos conhecemos profundamente e onde a nossa história de amor começou de forma inesperada e avassaladora.Recebemos fotos deles aproveitando cada detalhe das acomodações, dos jantares românticos no restaurante do hotel, das caminhadas pela praia e do pôr do sol visto do terraço onde, meses antes, Edward e eu tínhamos comemorado mais um aniversário do nosso amor. Era impossível não sorrir ao ver aquelas imagens e perceber que aquele espaço seguia sendo cenário para novas histórias de amor, como havia sido para nós.Enquanto isso, minha vida seguia s
Última atualização: 2025-05-24