Chapter: EpílogoLucieleOito anos depois…O som das guitarras ecoava pelo Bar Opinião, em Porto Alegre. As luzes coloridas piscavam, refletindo nos rostos animados da plateia. O ambiente estava lotado, como sempre, mas para mim havia algo de especial naquela noite.Eu sentia cada acorde vibrar dentro do meu peito — não só pela música, mas porque era o David quem estava lá em cima, tocando como artista convidado na banda de seus alunos da faculdade. O mesmo menino que conheci nos corredores da escola agora era um homem feito: professor universitário de música, mas ainda apaixonado pelo palco. Eventualmente aceitava esses convites para incentivar os alunos — e, no fundo, para lembrar a si mesmo que a música ainda vivia em seu coração.De vestido leve, acariciava minha barriga de seis meses. Nossa filha se mexia ao som da batida da bateria, como se já dançasse. Sorri. Ela já ama música como o pai, pensei.A vida tinha tomado rumos que eu jamais poderia prever, mas uma coisa era certa: nós sobrevivemos.
Última atualização: 2026-05-29
Chapter: Capítulo 51Carolina“You're my angelCome and make it all right”Angel - AerosmithEu nunca imaginei que a vida me colocaria diante de um tribunal, sentada na plateia, vendo os homens e mulheres que destruíram a paz da minha filha serem julgados pela justiça. Durante meses, carreguei esse peso — o medo de que nada fosse feito. Mas, naquele dia, ao entrar na sala de audiências, senti que a história estava prestes a virar uma página.As paredes brancas, o crucifixo à frente, os advogados sussurrando, os réus enfileirados… tudo tinha um peso simbólico. Era o fechamento de um ciclo de dor. No fundo, eu só queria ouvir uma palavra ecoar para cada um deles: condenado.Gabriel foi o primeiro a ouvir sua sentença. O líder do Círculo, que acreditava ser intocável, recebeu anos de prisão que mal davam conta de todo o mal que fez. Ouvi o número da pena e pensei: não importa quanto tempo seja, já é uma marca eterna no nome dele. Algum tempo depois, soube que seria transferido para o Paraná, em regime fechad
Última atualização: 2026-05-12
Chapter: Capítulo 50Luciele“Eu quero uma casa no campoDo tamanho ideal, pau-a-pique e sapéOnde eu possa plantar meus amigosMeus discos e livros e nada mais”Casa no Campo - Elis ReginaA beca já havia sido devolvida, e o vestido da festa ainda cheirava a perfume — mas a vida não esperava. Os corredores da escola estavam vazios, os professores já respiravam aliviados, e nós… nós só falávamos do que vinha a seguir: vestibular, cursos, bolsas, novos caminhos.Era como estar no topo de uma montanha, olhando para todos os lados e sabendo que não dava mais para voltar. Só havia descidas, diferentes trilhas, e cada um de nós precisava escolher a sua.David estava decidido: sua faculdade seria de Música. Podia ser Licenciatura ou Bacharelado, mas seria música.— Se for licenciatura, a sala de aula vai ser meu palco — dizia, com um sorriso tímido.Eu, depois de meses de indecisão, escolhi Arquitetura ou Psicologia. Em qualquer uma das duas áreas, eu teria projetos sociais. A Psicologia me chamava, porque eu q
Última atualização: 2026-05-05
Chapter: Capítulo 49Luciele“Você não sabe o quanto eu caminheiPra chegar até aqui”A Estrada - Cidade NegraO sábado da formatura amanheceu diferente. O sol entrava pela janela com força, iluminando cada canto do meu quarto, e eu tive a sensação de que não era apenas mais um dia — era O dia. Aquele que todos nós, mesmo entre quedas e tormentas, esperávamos alcançar.Em casa, minha mãe estava a mil, corria pela cozinha enquanto separava os documentos, ajeitava minha beca no cabide e gritava para que eu não esquecesse os sapatos novos. Minha irmã Camila chorava de emoção antes mesmo de eu me arrumar. João, que a acompanhava, ria dela.— Ainda nem começou e já tá nesse estado, Camila? — ele provocava. — Cala a boca, João! — ela retrucava entre lágrimas. — Minha irmã tá se formando!No quarto do David, em outro bairro da cidade, Carina e Lourenço também estavam em polvorosa. Ela ajeitava o terno do filho, enquanto ele, com seu jeito mais prático, verificava se a câmera estava carregada para registrar cada
Última atualização: 2026-04-30
Chapter: Capítulo 48David“Dos cegos do castelo me despeço e vouA pé até encontrarUm caminho, o lugarPro que eu sou”Cegos do Castelo - Nando ReisA semana decisiva chegou trazendo uma mistura de ansiedade e alívio. Todos os resultados das últimas provas já tinham saído, e agora restava encarar o famoso provão — aquele que tirava o sono de quem ainda precisava dar um sprint final.Milena era a mais nervosa da turma. Sempre teve dificuldades em matemática, e o provão seria sua última chance. No dia da prova, ela parecia um trapo: mãos suadas, olhos arregalados e mil papéis de revisão nas mãos.— Se eu rodar, vocês prometem me visitar quando eu repetir o terceiro ano? — disse, meio desesperada.— Cala a boca, guria! — retrucou Jéssica. — Tu estudou tanto que até eu aprendi Pitágoras só de ouvir tuas lamúrias. Vai passar.E não é que passou mesmo? Quando o resultado foi colocado no mural, Milena correu até a folha, fechou os olhos e respirou fundo antes de olhar. De repente, deu um grito que ecoou pelos
Última atualização: 2026-04-28
Chapter: Capítulo 47Luciele“Se Deus está conoscoQuem pode nos deter?Se Deus está conoscoNão há o que temer”Nosso Deus - FernandinhoO clima na escola já não era o mesmo. Depois da gincana e do show, parecia que um fio de esperança corria entre os corredores. Não era só a empolgação da festa que vinha aí, mas a certeza de que o fim de uma etapa estava se aproximando. A palavra que não saía da boca de ninguém era formatura.Rodrigo, com sua inseparável pasta, fez questão de apresentar os números detalhados na reunião da comissão. Somando tudo, o caixa já passava dos R$10 mil. Os olhos de todos brilharam. Nunca imaginaríamos que conseguiríamos tanto em tão pouco tempo.— Isso já cobre o orçamento estimado — disse Rodrigo, ajustando os óculos com aquele ar de professor. — Agora é estudar e passar de ano.Charles, que raramente parecia interessado em qualquer coisa além de sua própria voz, levantou a mão:— Eu só quero garantir que vai ter salgadinho de coxinha nessa festa, porque se não tiver, vou ficar
Última atualização: 2026-04-02
Chapter: EpílogoEpílogo A CartaEu estava sentada na varanda, com uma xícara de café esfriando ao meu lado e uma folha de papel em branco sobre o colo. Ao meu redor, o jardim respirava — as margaridas amarelas balançando suavemente na brisa, as luzinhas brancas ainda penduradas nas árvores (agora tão altas que mal dava pra vê-las de perto), a pedra do Mingau coberta de flores frescas como todas as manhãs.Hoje Bernardo faz dezoito anos.Meu menino. Minha margaridinha que enganou o pai e veio ao mundo como menino. Meu filho que cresceu sem que eu percebesse, que aprendeu a andar de skate, que coloca flores na pedra do Mingau toda semana, que um dia vai sair dessa casa pra construir a própria história.Mas antes que ele saia, eu preciso contar a dele a nossa.Peguei a caneta — a mesma caneta-tinteiro que a Larissa me deu de presente anos atrás — e comecei a escrever."Meu filho,Hoje você completa dezoito anos. E eu preciso te contar uma história.É uma história antiga. Começou muito antes de você exis
Última atualização: 2026-07-23
Chapter: Capítulo 79Dez Anos DepoisO sol da manhã de outubro entrava pela janela do mesmo jeito que sempre entrou — dourado, suave, preguiçoso. Mas a casa, aquela casa que um dia foi apenas uma mansão fria habitada por um homem rico e sua filha distante, agora respirava diferente.Eu estava na cozinha, aos quarenta anos, tomando café e observando o movimento da manhã através da janela. Fazia onze anos que eu tinha caminhado pelo tapete branco daquele jardim. Onze anos desde que me tornei Sra. Rocha. Onze anos desde que escolhi ficar.E olha só o que esse "ficar" tinha construído.No corredor, ouvi passos pesados — passos de gente grande, não de criança. Era Sophia, minha filha, minha flor, agora com dezoito anos, descendo as escadas com uma pilha de livros nos braços e uma expressão de quem não tinha dormido o suficiente.— Bom dia, mãe — ela disse, jogando os livros na mesa da cozinha com um baque surdo. — Se eu tiver que ler mais uma página sobre macroeconomia, eu juro que desisto da faculdade e viro
Última atualização: 2026-07-23
Chapter: Capítulo 78Foi numa manhã de terça-feira, enquanto eu amamentava Bernardo na varanda, que Arthur desceu as escadas com uma pasta debaixo do braço e aquele brilho nos olhos que eu já tinha aprendido a reconhecer — o brilho de quem está prestes a anunciar algo importante.— Amor — ele começou, sentando-se ao meu lado no banco de madeira. — A gente precisa conversar sobre a fundação.— A fundação? — perguntei, ajeitando Bernardo no meu colo. — A gente já tá conversando sobre isso há meses. Os documentos tão prontos, o prédio tá reformado e a equipe está contratada. O que mais tem para conversar?— O nome — ele respondeu, abrindo a pasta. — A gente ainda não decidiu o nome oficial.— Eu pensei que já tivesse decidido — respondi, confusa. — Fundação Rocha, né?— Não — ele disse, balançando a cabeça. — Fundação Rocha-Alves.Senti meu coração acelerar.— Rocha-Alves? — repeti, a voz embargada. — Arthur... Alves é o meu sobrenome de solteira.— É — ele confirmou, segurando minha mão. — Porque a fundação
Última atualização: 2026-07-22
Chapter: Capítulo 77Foi numa manhã de sábado, três meses depois da visita a Isabela, que tudo começou com um telefonema histérico.— MAUREN! — Mirielen gritou do outro lado da linha, às sete da manhã. — O GUSTAVO TÁ MALUCO!— Bom dia pra você também, Mi — respondi, bocejando e ajeitando Bernardo no meu colo. — O que o Gustavo fez?— ELE PLANEJOU ALGUMA COISA! — ela continuou, ofegante. — ELE DISSE QUE TINHA UMA SURPRESA PRA HOJE! E ELE TÁ COM UMA PASTA! UMA PASTA, MAUREN! GUSTAVO SÓ USA PASTA PRA COISA SÉRIA!— Mi, calma...— EU NÃO TÔ CALMA! — ela gritou. — E ELE MANDOU EU VESTIR UM VESTIDO BRANCO! BRANCO, MAUREN! QUEM MANDA MULHER VESTIR BRANCO SEM SER PRA CASAMENTO?!Senti meu coração acelerar.— Mi... você tem certeza que ele mandou você vestir branco?— TENHO! — ela respondeu. — E ele disse que era "casual"! Desde quando branco é casual?!— Mi... — comecei, tentando conter o riso. — Acho que...Mas ela já tinha desligado.Duas horas depois, Mirielen apareceu na minha porta, vestindo um vestido branc
Última atualização: 2026-07-21
Chapter: Capítulo 76Foi numa tarde de domingo, enquanto eu amamentava Bernardo na varanda, que Sophia apareceu com aquele olhar que eu já tinha aprendido a reconhecer — o olhar de quem está prestes a pedir algo importante.— Mãe Mauren — ela começou, sentando-se ao meu lado no banco de madeira. — Eu preciso te pedir uma coisa.— Pede, flor — respondi, ajeitando Bernardo no meu colo.Ela ficou em silêncio por um momento, brincando com a barra do vestido amarelo.— Eu quero visitar a minha mãe biológica — ela disse, finalmente. — A Isabela.Minha mão parou no meio do movimento. Bernardo, sentindo minha tensão, começou a resmungar.— Calma, pequeno — sussurrei, mudando ele de posição. — Sophia... por que você quer isso?Ela deu de ombros, mas seus olhos estavam sérios.— Porque eu tenho oito anos agora — ela respondeu. — E eu quero entender. Eu quero saber quem ela é. Eu quero saber por que ela fez o que fez. E... eu acho que eu quero perdoar ela.Senti um aperto no peito. Não de medo. Não de mágoa. Mas de o
Última atualização: 2026-07-16
Chapter: Capítulo 75O domingo amanheceu com um céu azul tão perfeito que parecia ter sido encomendado especialmente para aquele dia.Bernardo tinha completado três meses. E hoje, no nosso jardim de margaridas, ele seria apresentado ao Senhor.Eu tinha crescido ouvindo histórias da minha avó sobre a igreja do bairro, sobre o pastor que batizava pessoas no rio, sobre a fé simples e verdadeira que sustentava as pessoas nos momentos difíceis. Quando conheci Arthur, confesso que a religião ficou em segundo plano — a vida era corrida, os desafios eram muitos, e a fé, às vezes, parecia distante.Mas quando Bernardo nasceu, algo mudou dentro de mim.Uma necessidade antiga, adormecida, despertou. Não era sobre ritual. Era sobre gratidão. Era sobre dizer "obrigado" por tudo o que tínhamos conquistado. Era sobre entregar nosso filho àquele que, eu acreditava, tinha nos guiado até ali.— Você tem certeza? — Arthur me perguntou, numa noite, enquanto eu amamentava Bernardo. — Você quer uma cerimônia religiosa?— Quero
Última atualização: 2026-07-15