Mag-log inCapítulo 4
André Luís Albuquerque A mansão estava em silêncio. Mas dessa vez não era o silêncio do luto. Era o silêncio do poder. Eu estava no escritório do meu avô. Agora meu escritório. O mesmo lugar onde ele passou décadas comandando homens, negócios… e mortes. E provavelmente o mesmo lugar onde ele decidiu destruir a minha paz. A seu Orlando eu devia saber que aprontaria comigo até na sua morte. Casei. Que maldição. A palavra ainda parecia absurda na minha cabeça. Eu nunca planejei casar. Nunca quis isso. Relacionamentos eram complicados demais. Mulheres queriam amor. Queriam atenção. Queriam coisas que eu nunca tive para oferecer. Então sempre mantive tudo simples. Noites. Corpos. Sexo. E nada mais. Mas agora… Agora eu tinha uma esposa. E o pior, era Amanda Salles. Soltei um riso baixo, sem humor. Se alguém tivesse me dito um mês atrás que eu terminaria casado com a neta da governanta, eu teria mandado internar essa pessoa, ou matar o que fosse mais fácil. Peguei o copo de whisky sobre a mesa e tomei um gole. Meu olhar caiu sobre a janela. A propriedade se estendia por quilômetros. Terras. Gado. Casas. Empresas. Portos. Tudo aquilo agora era meu. Mas não era apenas um império empresarial. Era algo muito maior. Algo muito mais perigoso. Porque os homens que estavam na recepção hoje não eram apenas empresários. Eles eram chefes de territórios. Aliados. Homens que matavam sem pensar duas vezes. Homens que agora respondiam a mim. Eu era o novo Don. E no meu mundo… fraqueza não era tolerada. Foi por isso que eu provoquei Amanda naquela festa. Queria ver como ela reagiria. Queria saber se ela tinha alguma força dentro dela. Mas ela fez exatamente o que eu esperava. Ela fugiu. Como sempre fez desde a infância. Encostei na cadeira. Fechei os olhos por um momento. E a imagem dela apareceu na minha cabeça. O vestido branco simples. As mãos tremendo ao assinar os papéis. Os olhos grandes e azuis marejados, tentando parecer fortes. Eu conhecia Amanda desde criança. Muito antes dela perceber eu já a olhava. Ela corria pelo jardim com o cabelo ruivo preso em uma trança torta. Sempre ajudando a avó. Sempre com aquele olhar curioso. Meu avô, bom ele adorava ela. Talvez até mais do que gostava de mim. E isso sempre me irritou. Porque eu fazia tudo que ele mandava. Tudo. Aprendi a negociar aos quinze anos. Aprendi a atirar aos dezesseis. Aprendi a matar aos dezoito. Tudo para ser digno do sobrenome Albuquerque. Mas mesmo assim… Ele olhava para aquela menina pobre como se fosse algo precioso, uma jóia única. A porta do escritório abriu. Eu não precisei olhar para saber quem era. — Já começou a festa de verdade lá embaixo — disse Bruno. Meu braço direito e melhor amigo. E o único homem em quem eu realmente confiava. Ele entrou no escritório com um sorriso torto. — Ouvi dizer que você já assustou sua esposa. Tomei outro gole de whisky. — Ela se assustou sozinha. Bruno riu. — A loira estava praticamente montada em você André. — Ela sempre faz isso. — Mas agora você é casado. — É só um contrato. Ele se encostou na mesa. — Você sabe que no nosso mundo isso não significa nada. Eu sabia. Mas também sabia outra coisa. — Agora significa. Bruno arqueou a sobrancelha. — Como assim? Olhei diretamente para ele. — Inimigos. Ele entendeu imediatamente. Porque Bruno não era burro. — Você está pensando que podem usar ela contra você. — Vão tentar. O silêncio caiu entre nós. — Então por que aceitou casar? — ele perguntou. Eu soltei um riso seco. — Porque eu não ia entregar o império do meu avô para caridade. Bruno balançou a cabeça. — Esse velho foi cruel. — Ele sabia exatamente o que estava fazendo. Meu avô sempre soube. Sempre. Ele sabia que Amanda era a única pessoa nessa casa que eu nunca consegui ignorar completamente. Mesmo quando eu a tratava mal. Mesmo quando eu fingia desprezo. Porque havia algo nela… Algo que me irritava profundamente. Algo que me desarmava. E eu odiava isso. Bruno se afastou da mesa. — Só toma cuidado. — Com o quê? Ele sorriu. — Com a sua esposa. Franzi o cenho. — O que quer dizer? — Você sempre tratou ela como lixo. — Eu sei. — Mas agora ela está na sua cama. O silêncio voltou. Pesado. Perigoso. — Isso pode ser mais complicado do que parece. Olhei novamente pela janela. E pela primeira vez desde que tudo começou… Uma ideia desconfortável passou pela minha cabeça. Casar com Amanda poderia ser perigoso. Não apenas para ela. Mas para mim também. Porque se eu não tomasse cuidado… Talvez aqueles 365 dias não fossem apenas um contrato. Talvez fossem o suficiente para destruir a única coisa que sempre mantive intacta. Meu controle. Antes que pudéssemos continuar a conversa, algumas vozes exaltadas lá fora chamaram nossa atenção, olhei para Bruno e levantei rapidamente, indo na direção do alvoroço. Porra ela não fez isso...Capítulo 80Amanda Castellani AlbuquerqueSe alguém me dissesse meses atrás que eu pisaria em direção ao altar sorrindo de verdade… eu teria rido.Provavelmente na cara da pessoa.Porque naquele tempo minha vida parecia construída apenas de perdas.Segredos.Sangue.Dor.E despedidas.Mas ali estava eu.Vestida de branco.O coração acelerado.As mãos levemente trêmulas.E pela primeira vez em muitos anos… completamente em paz.O sol da Espanha atravessava os vitrais antigos da pequena igreja histórica onde tudo aconteceria daquela vez. Não existiam contratos escondidos sobre a mesa. Não existiam ameaças. Não existiam homens armados decidindo nosso destino.Só nós.Finalmente nós.Ajustei devagar o tecido do vestido enquanto encarava meu reflexo no espelho do quarto preparado para a cerimônia.Ainda era estranho enxergar os dois sobrenomes juntos oficialmente.Castellani Albuquerque.Meu peito aquecia toda vez que lia aquilo.Porque agora eu sabia quem era.Amanda nunca deixou de exist
Capítulo 79Amanda AlbuquerqueEu fiquei alguns minutos parada do lado de fora do quarto sem conseguir entrar.A conversa com Dona Cecília ainda parecia ecoar inteira dentro do meu peito.Branca.Lorenzo.Erick.Cada nome parecia abrir uma porta diferente dentro da minha cabeça, e eu ainda não sabia como organizar tudo aquilo sem sentir que estava me desfazendo aos poucos.Mas no meio daquele caos…Existia uma verdade simples.Eu não estava mais sozinha.Olhei pela pequena janela da porta antes de entrar.André ainda dormia.Os aparelhos continuavam monitorando cada batimento dele, cada respiração mais pesada por causa do pulmão machucado, mas pela primeira vez desde que o encontrei naquele cativeiro… ele parecia em paz.Fraco.Machucado.Mas em paz.E sentado ao lado da cama estava Erick.Os cotovelos apoiados nos joelhos, o olhar perdido em algum ponto do chão, completamente absorto nos próprios pensamentos.Talvez tentando processar a mesma avalanche que eu.Talvez tentando entende
Capítulo 78Amanda AlbuquerqueAlgumas verdades não chegam como explosões.Chegam como velórios.Silenciosas.Pesadas.Lentas o suficiente para você sentir cada pedaço da própria vida desmoronando enquanto ainda tenta permanecer de pé.Dona Cecília estava sentada diante de mim com as mãos apertadas sobre a bolsa pequena no colo. Os olhos vermelhos denunciavam que ela já vinha chorando antes mesmo de entrar naquele quarto.A fotografia ainda estava entre meus dedos.Minha.Da família que eu nunca conheci.Da vida que arrancaram de mim antes que eu tivesse idade suficiente para lembrar.O quarto estava silencioso demais.Só o som distante dos aparelhos vindos do corredor e a chuva fina batendo contra a janela do hospital preenchiam o espaço entre nós.Ela continuava olhando para a foto.Não para mim.Como se estivesse encarando fantasmas.Então respirou fundo.Devagar.— Eu sabia que esse dia chegaria — disse baixo.Minha garganta queimou imediatamente.— Então era verdade mesmo…Ela fi
Capítulo 77Amanda AlbuquerqueO silêncio de um hospital durante a madrugada nunca é realmente silêncio.Existem máquinas apitando ao longe.Passos contidos pelos corredores.Vozes baixas atrás de portas fechadas.Gente nascendo.Gente morrendo.Gente esperando notícias capazes de destruir uma vida inteira.E naquela madrugada… eu era um pouco de tudo isso.Fiquei parada diante do pequeno berço observando Gael dormir enquanto tentava entender em que momento minha vida deixou de parecer real.As luzes suaves refletiam no vidro diante de mim, misturando meu rosto ao dele por alguns segundos.Amanda.Isabella.Os dois nomes pareciam pertencer a mulheres diferentes.Meu corpo ainda doía pelo parto, e acho que por tudo mais. Cada movimento lembrava que eu tinha atravessado uma guerra nas últimas horas, mas honestamente… aquilo já nem importava mais.Porque existia uma dor muito maior crescendo dentro de mim.Uma dor silenciosa.Profunda.Do tipo que mexe na estrutura de quem somos.Encoste
Capítulo 76André AlbuquerqueAmanda manteve a testa encostada na minha por alguns segundos.O silêncio entre nós não era vazio.Era pesado.Carregado de tudo que tinha acontecido.Do sangue.Das perdas.Dos meses roubados.Do medo constante de não conseguirmos voltar um para o outro.Minha respiração saiu lenta enquanto eu observava nosso filho dormindo nos braços dela. Gael parecia pequeno demais para existir dentro de um mundo como o nosso. Pequeno demais para carregar o sobrenome que carregava.Talvez fosse exatamente por isso que eu precisava contar.Agora.Antes que outro inferno começasse.— Tem mais uma coisa — falei baixo.Amanda se afastou devagar.Ela percebeu imediatamente o peso daquelas palavras.Os olhos dela mudaram na hora.Atentos.Preparados.Porque ela já entendia que homens como eu nunca diziam “tem mais uma coisa” sem que aquilo destruísse alguma estrutura inteira depois.— Que coisa? — perguntou.Passei alguns segundos em silêncio.Organizando os pensamentos.Ta
Capítulo 75André AlbuquerqueA primeira coisa que senti ao acordar foi dor.Ela veio antes da consciência completa, antes mesmo de conseguir abrir os olhos ou entender onde estava. Uma pressão pesada atravessava meu peito a cada tentativa de respirar, como se ainda existisse algo esmagando meus pulmões por dentro.Depois vieram os sons.O apito contínuo dos aparelhos.Passos distantes.Vozes abafadas atrás de alguma porta.Estava no Hospital.Meu corpo demorou alguns segundos para responder quando tentei me mover. A sensação era estranha, como se cada músculo tivesse sido substituído por concreto. O gosto metálico na boca, o braço preso ao acesso da medicação, a dificuldade para puxar ar sem sentir a costela protestar imediatamente… tudo aquilo trouxe a realidade de volta rápido demais.Eu estava vivo.Por pouco, provavelmente.Abri os olhos devagar, tentando me acostumar com a luz baixa do quarto. O teto branco parecia distante, desfocado por alguns segundos, até minha visão finalme







