FAZER LOGINHELENA
O som persistente do celular cortou o silêncio do meu quarto às nove da manhã. Tateei o criado-mudo até encontrar o aparelho. O nome no visor me fez sorrir instantaneamente: Rafael. — Oi, amor. Bom dia... — atendi, minha voz ainda carregada de sono. — Bom dia, minha linda. Liguei só para te desejar boa sorte na prova de hoje. Você vai arrasar, tenho certeza. — A voz carinhosa dele era o meu porto seguro, o pedaço de normalidade que eu tanto buscava. — Obrigada, meu amor. Você é um fofo. Também te desejo um dia incrível. — Eu te amo, Helena. Você é a melhor coisa que já me aconteceu. — Eu também te amo, Rafa. Desliguei com o coração leve, mas a realidade bateu à porta assim que coloquei os pés fora da cama. No banho, deixei a água quente levar o resto do sono. Eu tinha um plano: faculdade, formatura, uma carreira brilhante. Vesti minha "armadura" de futura advogada — calça jeans, blusa branca, jaqueta preta e um tênis confortável. Na cozinha, o cheiro de café fresco dividia o espaço com a tensão de sempre. Meu pai, Leonardo, estava à mesa com minha mãe, Emily. — Bom dia, pai. Bom dia, mãe. — Me aproximei para pegar uma xícara. — Bom dia, minha linda! — Meu irmão entrou na cozinha como um furacão e me deu um tapa estalado na cabeça. — Deixa de ser folgado, garoto! — revidei o tapa na mesma hora, arrancando um riso da minha mãe. — Vou para a faculdade agora. Tenho uma prova importante hoje — anunciei, tentando focar no meu mundo lá de baixo. — Ah, é? E qual é a matéria dessa vez? — minha mãe perguntou, orgulhosa. — Direito Penal. Meu pai, que até então estava em silêncio, me olhou com um sorriso de canto, aquele que misturava deboche e admiração. — Vai defender bandido agora, é, minha princesa? — Não, pai. Eu quero ser advogada para fazer justiça. Para defender quem não tem voz e punir quem realmente merece. Quero mudar esse sistema corrupto em que a gente vive. O sorriso dele sumiu. Ele suspirou, deixando a xícara de lado. — Helena... eu não quero te pressionar, mas você sabe que o tempo passa. Pensou na proposta que eu te fiz? Minha mãe interveio imediatamente, a voz firme: — Leonardo! Deixa a menina! — Não, pai. Eu já disse. Não quero ser a "dona do morro". Não quero herdar o comando de nada que venha do tráfico. Meu lugar é no tribunal, não na boca. — Tudo bem... — ele murmurou, voltando o olhar para o café. Terminei minha refeição às pressas e comecei a descida. No caminho, cruzei com minha tia Amanda e minha prima Lívia. — Helena, meu amor! — tia Amanda me abraçou. — Boa sorte naquela faculdade, traz esse diploma para a gente! Continuei descendo, mas o asfalto ainda parecia longe. Foi quando o ronco de uma moto parou bem na minha frente. — E aí, minha rainha? Quer carona até lá embaixo? — TH sorriu por baixo do capacete. Ele vivia no erro, mas comigo sempre foi lealdade pura. — Te deixo antes da faculdade para não queimar teu filme, maluca. Sobe aí! — Vou aceitar só porque hoje a preguiça está maior que meu orgulho — brinquei, subindo na garupa. Ao passarmos por um dos becos principais, o clima pesou. Vi meu tio Mago conversando com ele: Arthur. Ou melhor, o Coringa. Senti um calafrio subir pela espinha. Diferente dos outros, Arthur não tinha o brilho de quem gosta da vida; ele era puro gelo. — Toma conta da minha sobrinha, hein, TH! — Mago gritou, rindo. Arthur não disse uma palavra. Ele apenas inclinou a cabeça, me encarando com aqueles olhos escuros e calculistas que pareciam ler minha alma. Corei e desviei o olhar imediatamente. Ele me intimidava de um jeito que eu não sabia explicar. — Você viu a Laura por aí? — TH perguntou, tentando disfarçar o interesse na minha prima. — Vou encontrar ela mais tarde no pagode do Jorge. Você vai? — Ih, tá por fora, mandada? — TH riu. — Seu Jorge hoje foi cancelado. Teu pai passou o morro oficialmente para o Coringa. Hoje é a festa de posse lá na quadra. Todo mundo vai estar lá. Meu coração deu um solavanco. — Talvez eu apareça... — menti. Eu odiava essas festas, mas a curiosidade sobre o novo destino do morro me espetava. TH me deixou perto da faculdade e segui para a prova. As três horas de exame foram exaustivas, mas saí da sala com a sensação de dever cumprido. Às 12h, encontrei Rafael em uma lanchonete próxima. Ele parecia inquieto. — Onde você estava? — perguntei, notando o suor em sua testa. — É... meu pai ficou me prendendo em casa com uns assuntos da empresa e eu acabei me atrasando. — Ele deu um sorriso forçado. — Entendo... Fizemos nossos pedidos, mas o clima estava estranho. Rafael mal tocava na comida. — Licença, amor. Vou atender essa ligação rapidinho, é do escritório do meu pai. — Ele se afastou, o celular já no ouvido antes mesmo de eu responder. Aproveitei o momento e peguei meu celular. O grupo com minhas amigas, Vitória e Laura, estava bombando. Helena: EU ESTOU SURTANDO!!! Vitória: QUE FOI, HELENA? MATOU ALGUÉM NA PROVA? Laura: CALMA, AMIGA. RESPIRA FUNDO E CONTA TUDO. É O RAFAEL OU O MEU IRMÃO? Olhei para Rafael de longe, falando baixo ao telefone, e depois para a direção do morro, onde Arthur agora era o rei. Minha vida estava prestes a virar um caos, e eu sentia que nenhum livro de Direito poderia me defender do que estava por vir8 meses depois...Leonardo e Emily: O Porto SeguroNa varanda da casa, Leonardo observava o horizonte com um copo de vinho. Ele, que passou anos temendo pela vida da filha nos tribunais e no morro, finalmente sentia a paz de um pai que sabe que o perigo ficou para trás. Emily estava ao seu lado, com a mão em seu ombro. O casal, que quase se perdeu durante o exílio de Helena, agora vivia uma renovação. Leonardo era o consultor jurídico oculto da nova "empresa" da família, garantindo que o império fosse intocável legalmente.Amanda e Vítor : Eles cuidavam de uma horta orgânica nos fundos da propriedade. Vítor , o homem que sempre quis o filho fora do crime, via em Coringa um homem que finalmente honrava o nome da família de forma diferente. Amanda não carregava mais o terço por medo, mas por gratidão. Ela olhava para o filho e não via mais o "Rei do Morro", mas o pai que ela sempre soube que ele poderia ser.Laura e TH: O Bebê Arco-ÍrisPerto da piscina, Laura exibia um barrigão de oito
O galpão na parte baixa do morro estava imerso em uma escuridão que cheirava a mofo e ferro velho. No centro, sob a luz amarelada de uma única lâmpada pendurada por um fio, Vanessa estava amarrada a uma cadeira de metal. O rosto dela, antes cheio de arrogância e futilidade, agora era uma máscara de terror puro.A porta de ferro rangeu e a silhueta de Coringa surgiu. Ele caminhava com uma calma que era muito mais assustadora do que qualquer grito de fúria.— ... por favor... foi um erro! — Vanessa soluçou, a voz trêmula. — Eu não queria acertar o menino, eu queria ela! Ela roubou minha vida!Coringa parou a poucos centímetros dela. Ele não gritou. Ele apenas sacou a faca que carregava no cano da bota e começou a limpar as unhas, olhando para ela com uma indiferença gélida.— Você tocou no meu filho, Vanessa. Você tentou apagar a luz da única coisa pura que eu ainda tinha — ele sussurrou, a voz saindo das profundezas de sua alma sombria. — O erro não foi o tiro. O erro foi você achar qu
O hospital do morro se transformou em uma zona de guerra silenciosa. Enquanto médicos lutavam pela vida de Matteo lá dentro, o exército de Coringa cercava o prédio, transformando cada esquina em uma barreira de fuzis. Helena não saiu da porta do centro cirúrgico; ela parecia uma estátua de mármore, as mãos ainda manchadas com o sangue seco do filho. Após seis horas de agonia, o cirurgião saiu, retirando a máscara com um suspiro que parecia carregar o peso do mundo. Coringa levantou-se num salto, os olhos vermelhos de quem não chorava, mas queimava por dentro. — A bala perfurou o pulmão e passou a milímetros do coração — explicou o médico, a voz cansada. — Houve uma hemorragia massiva, e ele parou na mesa por dois minutos. Mas ele voltou. É um milagre. O menino lutou como um gigante. Ele está estável. Helena desabou na cadeira, as lágrimas finalmente correndo, lavando o rosto que estava endurecido pelo ódio. Coringa caiu de joelhos ao lado dela, escondendo o rosto nas mãos da esposa
No dia seguinte... A manhã na praia foi um refúgio surreal. Ver Coringa — o homem que fazia o asfalto tremer — carregando boias coloridas e correndo atrás de Matteo na areia branca era uma imagem que Helena guardaria na alma. Por algumas horas, eles não eram a "Patroa" e o "Rei"; eram apenas um pai, uma mãe e um filho sob o sol, longe da fumaça dos fuzis. — Ele está feliz. — Helena comentou, ajustando os óculos escuros enquanto observava Matteo gargalhar ao ser atingido por uma onda pequena. — Ele merece isso, Helena. E eu vou garantir que ele tenha muito mais — Coringa respondeu, a voz carregada de uma promessa que ele pretendia cumprir. A volta para o morro foi tranquila, com o carro blindado subindo as ladeiras sob o pôr do sol alaranjado. Matteo, exausto de tanto brincar, começou a pedir pela avó. — Pai, quero dormir na vovó Amanda hoje! — o menino insistia, com a voz sonolenta. Helena e Coringa se olharam. A casa de Dona amanda ficava em uma área de transição, um pouco mais
O café da manhã seguia em um silêncio cortante, interrompido apenas pelos talheres de prata contra a porcelana. Matteo comia sua fruta, alheio ao campo minado que a mesa tinha se tornado. Coringa observava Helena, tentando ler em seu rosto o que ela planejava, mas ela era uma esfinge de seda branca.Helena pousou a xícara de café com uma lentidão deliberada. Ela olhou para Matteo e fez um sinal para JJ.— Leve o Matteo para casa de Amanda, TjO segurança obedeceu instantaneamente, retirando a criança do cômodo. Quando a porta se fechou, Helena se inclinou para frente. O clima mudou: a mulher que tinha se entregado a ele na noite anterior havia dado lugar à estrategista fria.As Exigências da Patroa— Acabou o tempo de sermos uma facção que se sustenta apenas pelo medo e pelo sangue — Helena começou, a voz cortante. — Eu passei dois meses fora. Eu vi como o mundo lá fora funciona. Dinheiro no morro agora só entra de forma limpa, ou minimamente invisível.Coringa tentou interromper, mas
O vidro da varanda, gelado e rígido, contrastava com o calor abrasador que irradiava dos corpos colados. O morro, lá embaixo, continuava sua rotina de violência e música, alheio ao que acontecia no topo da fortaleza.Coringa a virou com uma brusquidão possessiva, forçando-a a se apoiar contra o vidro que separava o quarto do abismo noturno. Ele a pegou por trás, as mãos grandes e calejadas segurando os quadris dela com uma firmeza que beirava a dor. Helena arqueou as costas, a cabeça tombando para trás, deixando que a renda preta da lingerie fosse quase rasgada pela tensão dos movimentos dele.Cada estocada era um lembrete do poder que ele ainda tentava reivindicar, uma tentativa desesperada de marcar território em uma mulher que, na sua mente, ele estava perdendo. A respiração de Coringa era um rosnado constante no ouvido dela, uma súplica misturada a uma ordem.— Você é minha — ele sussurrou, a voz carregada de um desejo sombrio, quase violento, enquanto a segurava com mais força. —







