FAZER LOGINSerena e Pedro-50PEDROCheguei em casa quase as sete da noite.Durante todo o caminho, uma sensação estranha havia me acompanhado. Não sabia explicar exatamente o que era. Talvez fosse apenas cansaço. Ou talvez alguma coisa dentro de mim já soubesse que, quando eu atravessasse aquelas portas, encontraria algo diferente.Estacionei o carro diante da mansão e entrei. Caminhei pela sala que estava vazia, passei pela biblioteca e subi as escadas. O silêncio daquela casa me pareceu estranho.Entrei no quarto e vi o vestido vermelho de Serena amassado sobre a cama. Aproximei-me da varanda e vi a mesa posta. Por alguns minutos pensei que ela estivesse escondida em algum lugar no quarto, para me fazer uma surpresa, mas esse pensamento logo desapareceu quando percebi a porta do closet entreaberta. Caminhei até lá e vi que alguns espaços onde antes estavam as roupas dela estavam vazios. Abri as gavetas e também estavam vazias. Os objetos pessoais dela haviam sumido. E naquele momento, senti al
Serena e Pedro-49Eu estava no terraço da suíte, quando ouvi o toque de um celular. O som vinha de dentro do quarto, mas não era o toque do meu aparelho. Era o toque do celular antigo de Pedro, o que ele achava ter perdido.Deixei a varanda, entrei no quarto e segui o toque até o closet. Abri a porta e o som ficou mais próximo. Comecei a procurar entre as coisas de Pedro. Foi então que encontrei o celular no meio de algumas caixas de sapato. E naquele momento eu pensei:“Pedro esqueceu o celular no meio dos sapatos e pensou que tivesse perdido.”Estendi a mão e peguei o aparelho, com a tela acesa. O nome de Mayneth apareceu e meu coração quase parou. Por que ela estava ligando para Pedro? Fiquei olhando para a foto do perfil dela toda sorridente e não atendi.A ligação terminou. Poucos segundos depois, Mayneth ligou novamente. Meu dedo permaneceu suspenso sobre a tela. Eu poderia simplesmente guardar o celular. Poderia esperar Pedro chegar. Poderia esquecer aquilo. Mas alguma coisa
Serena e Pedro-48Na manhã seguinte, acordei no sitio da vovó no meu antigo quarto, com uma sensação diferente. Pela primeira vez em muitos dias, não havia aquela angústia pesada pressionando meu peito.Eu estava tranquila. Talvez fosse porque finalmente havia tomado a decisão de continuar com a gravidez. Sabia dos riscos que a doutora Bárbara havia explicado. Sabia que meu corpo precisaria de cuidados especiais e acompanhamento contínuo. Sabia que não seria uma gestação simples. Mas eu havia escolhido meu filho. E isso era suficiente para me fazer feliz.Levantei cedo, tomei banho e me arrumei para ir à escola. Enquanto dirigia, percebi que meus pensamentos estavam diferentes. Naquela manhã, eu pensava no futuro. Conseguia até imaginar os três juntos. Eu, Pedro e nosso bebê.Cheguei à escola como de costume. Cumprimentei os funcionários, passei pela secretaria e segui para minha sala. O dia transcorreu tranquilamente: aulas; reuniões, professores entrando e saindo, alunos correndo pe
Serena e Pedro-47Meus dedos tocaram o teclado e eu digitei: “Pedro, eu estou grávida”.Era tão simples escrever, mas tão difícil enviar. Imaginei o rosto dele ao ler aquilo. Imaginei o silêncio, as perguntas. Talvez a felicidade, talvez o medo. Talvez uma mistura de tudo.Mas eu não tive coragem de enviar e apaguei a frase toda. Ainda não era o momento certo. Eu precisava de mais tempo. Precisava organizar meus pensamentos antes de colocar aquela verdade diante dele.Voltei à conversa e digitei outra coisa:"Estou na casa da minha avó. Vou dormir aqui."Fiquei olhando para a frase durante alguns segundos. Então enviei. A resposta de Pedro veio pouco depois."Mas você está bem?"Digitei:"Estou."Alguns segundos depois, apareceu a resposta."Ok."Guardei o celular dentro da bolsa.[***]Quando sai do banho, a noite já havia tomado conta do sítio. Eu estava sentada à mesa com Vó Moema quando senti o cheiro maravilhoso vindo do forno. Era o bolo de milho de Tia Jaci.— Está pronto! — E
Serena e Pedro-46Naquele momento, uma onda de pânico subiu pelo meu peito. E algo dentro de mim dizia: “Não faça isso! Não mate o seu filho!”Eu me sentei na maca e a enfermeira se virou imediatamente.— Senhora?Eu olhei para ela com a respiração curta, o peito parecia pequeno demais para o ar que eu precisava. Olhei novamente para a seringa, depois para a porta, sentindo que precisava urgentemente sair dali. Então pulei da maca no chão.— Senhora, está tudo bem? — A enfermeira perguntou.Balancei a cabeça, enquanto puxava o acesso do meu braço. A enfermeira deu um passo na minha direção, eu me afastei.— Eu preciso sair daqui. — Falei ofegante.— Calma! Tenha calma! — Ela disse.— Eu preciso sair! Por favor... eu tenho que sair daqui!Minha voz estava trêmula. Eu sentia como se as paredes estivessem se aproximando e fossem me esmagar. Como se aquele lugar estivesse me sufocando, tirando o meu ar.— Eu quero sair daqui agora.A enfermeira me encarou. Por um instante, pensei que ela
Serena e Pedro-45Naquela noite, eu permanecia sentada no sofá do terraço privativo da suíte, envolvida pelo silêncio da casa. O céu parecia mais escuro do que de costume, salpicado por algumas estrelas. Ao longe, eu podia ouvir apenas os sons noturnos da propriedade. Normalmente, aquele silêncio me dava paz. Naquela noite, porém, ele parecia aumentar o barulho dentro da minha alma.Eu mantinha os braços cruzados sobre o corpo, sentindo o ar fresco tocar meu rosto. Não queria pensar. Era exatamente isso que eu vinha tentando fazer desde que havia tomado minha decisão.Eu estava totalmente distraída quando naquele momento ouvi passos dentro do quarto. Não precisei me virar para saber que era Pedro quem havia chegado. Mesmo assim levantei os olhos. Poucos segundos depois, ele apareceu na porta que dava acesso ao terraço. Parou por um instante, observando-me. — Oi — ele disse.— Oi — respondi.— Você está com algum problema, Serena? — Ele perguntou.Respirei fundo antes de responder.—







