FAZER LOGINAs palavras de Alistair ficaram ecoando na mente de Hunter por um bom tempo. O silêncio na sala era tão grande que ele conseguia ouvir a própria respiração pesada. Ele olhou para o irmão, vendo o cansaço estampado no rosto dele, e sentiu uma pontada de vergonha. Alistair estava carregando tudo nas costas enquanto ele se afogava em uísque.
— Você tem razão, irmão — Hunter disse, com a voz rouca e falha. — Eu... eu vou. Amanhã eu vou visitar a Lily no hospital. Alistair soltou um longo suspiro, como se um peso enorme tivesse saído de seus ombros. Ele não queria brigar, só queria que o irmão voltasse à vida. Eles conversaram por mais alguns minutos, Alistair dando detalhes técnicos sobre a recuperação física de Lily e tentando, sem sucesso, convencer Hunter a comer algo sólido e logo Alistair se despediu. Quando a porta se fechou, Hunter se sentiu sozinho de novo naquela casa enorme. Ele subiu as escadas devagar, sentindo cada músculo do corpo doer. Entrar no quarto que dividia com Clara era como levar um soco no peito toda vez. Era insuportável ver o lado dela da cama vazio, as almofadas que ela gostava de usar arrumadas de um jeito que agora parecia não fazer sentido nenhum. A percepção de que o "nós" havia sido brutalmente podado para um solitário "eu" era uma agonia constante. Hunter caminhou até o closet e abriu as portas. O aroma de Clara veio com tudo — uma mistura de flores de laranjeira e baunilha — flutuou em sua direção, envolvendo-o como um abraço. Ele deslizou as mãos pelas sedas e algodões, parando ao encontrar uma camisola de cetim champanhe que ele adorava vê-la usar. Ele a puxou do cabide e a pressionou contra o rosto, fechando os olhos com força e por um segundo, pareceu que ela ainda estava ali. Naquele instante, as memórias o inundaram: o dia em que se conheceram em um café em Boston, as risadas sob a chuva, o brilho nos olhos dela quando descobriram que seriam pais. Ele ficou ali, no escuro do closet, chorando baixinho e segurando aquele pedaço de pano como se fosse sua única âncora no mundo. No dia seguinte, o som estridente do celular rompeu o sono pesado e sem sonhos de Hunter. Ele tateou o criado-mudo, derrubando um copo vazio antes de encontrar o aparelho. — Porra, Alistair! Isso são horas de me ligar? — ele resmungou, sem sequer abrir os olhos. — Sabe que horas são, Hunter? — a voz do irmão veio do outro lado, firme e impaciente. — São dez horas da manhã. Hunter piscou, tentando focar a visão no relógio digital. O brilho dos números confirmou o que Alistair dizia. Ele havia perdido completamente a noção do tempo. — Estou no hospital e aguardando você — continuou Alistair. — Para quê? — Hunter perguntou, a mente ainda nublada. Houve uma pausa do outro lado da linha, seguida por um suspiro exasperado. — Hunter, você prometeu que vinha visitar a Lily, ou já esqueceu? Hunter sentiu uma pontada de culpa. A imagem da filha, pequena e ferida em uma cama de hospital, surgiu em sua mente. — Droga! Esqueci. Eu... eu posso ir à tarde? — Pode sim. Mas agora eu espero que você venha mesmo, Hunter. Sua filha não para de perguntar por você. Ela precisa ver o pai dela para entender que não foi abandonada. — Eu vou, Alistair. Eu prometo. Depois de encerrar a ligação, Hunter jogou o celular de lado e sentou-se na beira da cama, apoiando os cotovelos nos joelhos. Ele tomou um banho longo e frio, tentando expulsar o cheiro de uísque e estagnação de seus poros. Quando finalmente desceu e olhou ao redor, o impacto da sua fúria dos dias anteriores tornou-se evidente. O cenário era triste. A sala estava destruída: móveis quebrados, vasos de cristal estilhaçados, quadros tortos ou no chão, garrafas vazias espalhadas. Seu escritório, então, parecia ter sido atingido por um furacão, papéis para todos os lados, cadeira tombada. — Não dá para viver assim. Preciso providenciar alguém para fazer uma faxina nesta casa — Hunter falou sozinho, sua voz ecoando no vazio. — E para cuidar das coisas... eu não dou conta disso.Sete anos se passaram como um sopro de vento, transformando a mansão Blackwood em um cenário de movimento constante. Onde antes reinava o silêncio do luto, agora ecoavam as batidas de música pop, os gritos de Thomas correndo pelos corredores e, mais recentemente, as longas conversas ao telefone de uma adolescente que descobria o mundo. A festa de 15 anos de Lily não era apenas um evento; era o baile do ano. Hunter não poupou recursos. O salão principal da cidade estava decorado como um jardim de inverno encantado, com cristais pendendo do teto e milhares de rosas brancas. °°° Elena terminou de ajustar o colar de pérolas em Lily e deu um passo para trás, emocionada. A menina retraída de oito anos havia dado lugar a uma jovem deslumbrante. Lily usava um vestido de baile azul-claro que realçava seus olhos, e seu sorriso tinha uma confiança que Elena ajudara a cultivar dia após dia. — Você está maravilho
O jardim da mansão Blackwood estava diferente de qualquer outra celebração que já havia passado por ali. Não havia a rigidez dos eventos corporativos, nem a sombra do luto que pairou por tanto tempo. Hoje, o ar estava preenchido pelo som de risadas infantis, pelo aroma de pipoca e pelo brilho de balões em tons de azul e dourado que flutuavam sob o céu claro de domingo. Thomas completava seu primeiro ano de vida. Elena observava a cena da varanda, sentindo um calor no peito que nenhuma palavra conseguiria descrever. Ela estava radiante, com os cabelos soltos e um vestido leve. Ao seu lado, Hunter se aproximou, envolvendo sua cintura com um braço e depositando um beijo em seu ombro. Ele parecia anos mais jovem; as linhas de tensão em seu rosto tinham sido substituídas por uma serenidade profunda. — Olhe para isso — Hunter sussurrou, apontando para o gramado. — Quem diria que esta casa voltaria a ter tanta vi
Dias depois... A madrugada estava silenciosa na mansão Blackwood quando o mundo de Elena mudou. Não houve um grande alarde, apenas uma sensação estranha e úmida que a fez despertar de um sono leve. Ao se sentar na cama, sentiu a primeira contração — uma pressão forte e ritmada que a fez prender o fôlego. — Hunter… — ela chamou, tocando o ombro do marido. Ele, que andava dormindo em alerta máximo, despertou no mesmo instante. Bastou um olhar para a expressão de Elena para que o "General" assumisse o controle, mas desta vez com um brilho de ansiedade nos olhos que ele não conseguia esconder. — Está na hora? — ele perguntou, já se levantando e pegando o telefone. — Está na hora. Enquanto Hunter ligava para o Dr. Aris e para Steve, Elena tentava manter a calma, respirando fundo como havia praticado. Sônia que ultimamente estava dormindo na mansão foi acordada para ficar com Lily, que ainda dormia o
A festa finalmente tinha acabado. O silêncio da casa era gostoso, quebrado apenas pelo som distante do vento lá fora. No quarto, a luz estava baixinha, deixando tudo com um clima acolhedor e calmo. Hunter fechou a porta devagar e caminhou até Elena, ele parou a milímetros dela, encostando a testa na sua. Eles ficaram ali por um momento, apenas respirando o mesmo ar, sentindo o alívio de que, agora, eram oficialmente um só. — Sra. Blackwood... — ele murmurou. A voz de Hunter, geralmente um comando de autoridade nos campos e nas salas de reunião, saiu como um segredo sagrado, carregado de uma reverência que fez os olhos de Elena arderem. Elena sorriu, sentindo um friozinho bom na barriga ao ouvir o nome. Aquele nome não era apenas um sobrenome; era o símbolo da sua vitória sobre a infertilidade, sobre a solidão e sobre as mentiras de Vanessa. — Soa bem, não soa? — ela respondeu em um sussurro, passando os dedos pela nuca dele, sentindo a te
O jardim estava mergulhado em um silêncio reverente. O vento soprava suave, agitando as pétalas de lírios, enquanto o sol dourava o rosto dos convidados. Hunter e Elena estavam frente a frente, as mãos entrelaçadas sobre o ventre dela, onde Thomas parecia inquieto, como se soubesse da importância daquele instante. O celebrante fez um sinal, e Hunter deu um passo à frente. Ele não precisava de papel; as palavras estavam gravadas em sua alma. — Elena... — a voz de Hunter falhou por um milésimo de segundo, revelando a vulnerabilidade que apenas ela conhecia. — Há onze meses, eu achava que o meu coração tinha se tornado um lugar onde ninguém mais poderia morar. Eu vivia entre as sombras, acreditando que a felicidade era algo que eu só veria no espelho retrovisor. Mas aí, você chegou. Você não pediu licença; você simplesmente trouxe sua luz para a minha escuridão. Ele apertou as mãos dela, os olhos escuros brilhando com uma intensidade avassal
Três semanas depois... A mansão Blackwood amanheceu envolta em uma aura mágica. O jardim, que antes carregava o peso da solidão de Hunter, fora transformado em um cenário etéreo. Arcos de flores brancas e lírios do campo — a flor favorita de Elena — adornavam o caminho até o altar, enquanto cadeiras de madeira rústica esperavam pelos poucos e seletos convidados. No andar de cima, o quarto estava mergulhado em um caos organizado. Elena observava seu reflexo no espelho, sentindo uma emoção que transbordava. Ela já estava com quase oito meses de gestação, e sua barriga era uma curva majestosa sob o vestido de noiva. Sarah, a esposa de Steve, ajudava a ajustar os últimos detalhes. O vestido era uma obra-prima de seda fluida, em um tom de pérola que iluminava a pele de Elena. O corte império, logo abaixo dos seios, permitia que o tecido caísse com leveza sobre o ventre, conferindo-lhe uma elegância serena e materna. Seu cabelo estava preso em







