FAZER LOGINMagno caminhou pelo corredor em silêncio após deixar Teresa na pequena sala próxima à escada. O som abafado dos próprios passos ecoava contra o piso polido, mas ele mal percebia. A melodia que ouvira ainda vibrava em algum lugar dentro dele, como um eco que se recusava a desaparecer.
Ao entrar no quarto, fechou a porta com cuidado, apoiando a mão na madeira por alguns segundos, como se precisasse daquele contato para se manter presente. O cômodo permanecia praticamente intacto, mesmo após tantos anos. Os móveis continuavam nos mesmos lugares, as cortinas do mesmo tom suave escolhido por Cecília, e sobre a cômoda repousava uma fotografia emoldurada. Ele evitava olhar para ela. Naquela noite, não conseguiu. Magno caminhou lentamente até o móvel e pegou o porta-retrato. Cecília sorria na imagem, com o cabelo solto e o olhar luminoso, segurando Theo ainda bebê nos braços. Ele se lembrava exatamente daquele dia. Lembrava da risada dela ecoando pela casa, da facilidade com que transformava qualquer instante comum em algo especial. A lembrança veio sem aviso. Cecília sentada na poltrona próxima à janela, a luz da tarde desenhando contornos dourados ao redor dela. Theo, com poucos meses de vida, aninhado contra o peito da mãe enquanto ela cantava uma canção suave, repetindo a melodia como se embalasse o próprio tempo. Magno estava encostado no batente da porta, observando, encantado com a forma como Theo relaxava ao som da voz dela. — Você vai estragar nosso filho desse jeito — ele provocou, sorrindo. Cecília ergueu os olhos, divertida. — Estou só ensinando ele que o mundo pode ser um lugar gentil. A memória mudou, avançando sem que ele pudesse impedir. Cecília estava grávida de Bella. Sentada na cama, segurava o próprio ventre com carinho enquanto cantarolava a mesma música, agora em tom ainda mais baixo. Ele estava ao lado dela, com a mão apoiada sobre a barriga, sentindo os pequenos movimentos da filha que ainda nem conhecia. — Ela também precisa ouvir — Cecília dissera, com um sorriso sereno. — Para saber que já é amada antes mesmo de nascer. O aperto no peito de Magno veio forte demais. Ele piscou várias vezes, tentando afastar as imagens, mas elas pareciam gravadas na própria pele. Colocou o porta-retrato de volta no lugar e passou as mãos pelo rosto, respirando fundo. A música daquela noite… não era a mesma. Mas carregava a mesma delicadeza. A mesma sensação de abrigo que ele julgava ter perdido para sempre. Magno caminhou até a janela, observando a escuridão que cobria os jardins. Não gostava de admitir, nem para si mesmo, mas algo naquela voz desconhecida havia despertado memórias que ele mantinha cuidadosamente trancadas. E isso o incomodava. No andar inferior, Lívia desceu as escadas com passos cautelosos. O silêncio da casa à noite parecia diferente — menos pesado do que quando chegara, mas ainda carregado de uma quietude respeitosa. Teresa a aguardava próxima à sala de jantar. — Estava mesmo esperando você — disse a governanta, com naturalidade. — Venha. Vou apresentá-la ao restante da equipe. Lívia assentiu, sentindo o nervosismo retornar discretamente. A cozinha era ampla e iluminada, com cheiro acolhedor de comida recém-preparada. Três pessoas estavam organizando os últimos detalhes do jantar. — Pessoal, esta é a Lívia, a nova babá — anunciou Teresa. Uma mulher de expressão gentil e avental impecável aproximou-se primeiro. — Prazer, querida. Sou Helena, cozinheira da casa. — Prazer — respondeu Lívia, sorrindo. — Eu sou Jorge — disse um homem de meia-idade, limpando as mãos em um pano antes de cumprimentá-la. — Cuido da manutenção e dos jardins. — E eu sou Rosa — completou uma mulher mais jovem, com postura tímida. — Auxiliar da limpeza. Lívia cumprimentou todos com educação, sentindo-se surpreendentemente acolhida. Havia uma familiaridade simples naquele ambiente que a fez lembrar, por um instante, das funcionárias do orfanato que cuidavam das crianças com carinho. — A rotina da casa costuma ser tranquila — explicou Teresa. — Mas todos aqui trabalham em harmonia. Qualquer dúvida, você pode procurar qualquer um deles. — Obrigada… de verdade. Helena serviu o jantar em pratos simples, porém bem apresentados. Lívia sentou-se um pouco afastada, ainda tentando entender qual era exatamente seu lugar naquele novo universo. A conversa entre os funcionários fluía com naturalidade, entre comentários sobre compras, manutenção da casa e pequenos acontecimentos do dia. Era uma convivência respeitosa, quase familiar, mas com limites bem definidos. Após alguns minutos, Teresa voltou-se para ela. — Preciso avisá-la de algo importante. Lívia ergueu os olhos imediatamente. — O senhor Magno pediu para conversar com você amanhã pela manhã. O garfo parou no meio do caminho. — Comigo? — Sim. O coração de Lívia acelerou. — Eu… fiz algo errado? Teresa soltou um pequeno suspiro, quase divertido. — Não que eu saiba. O rosto de Lívia aqueceu levemente. — Imagino que ele queira conhecê-la oficialmente — continuou Teresa, com suavidade. — O senhor Magno costuma ser reservado, mas é um homem justo. Lívia assentiu, tentando controlar a ansiedade que começava a crescer no peito. — A que horas devo descer? — Após o café da manhã das crianças. Eu a aviso quando ele estiver disponível. Lívia voltou a comer, embora o sabor da comida agora passasse quase despercebido diante do turbilhão de pensamentos. A imagem que construía mentalmente do homem que comandava aquela casa parecia grande demais, distante demais da realidade que conhecia. Quando o jantar terminou, ajudou a recolher discretamente os pratos, mesmo após Helena insistir que não era necessário. — Costume — explicou, envergonhada. Helena apenas sorriu. Mais tarde, já no quarto, Lívia sentou-se na beirada da cama. O silêncio da casa parecia diferente agora. Menos vazio. Mais… atento. Ela entrelaçou as mãos, tentando controlar o nervosismo que crescia a cada minuto. Conversar com Magno Albuquerque. O dono da casa. O pai das crianças. O homem que, com poucas palavras, já tinha deixado claro que não era fácil. Lívia levantou-se e caminhou até a janela. Os jardins estavam iluminados, tranquilos demais para o turbilhão dentro dela. Ela respirou fundo. Não podia errar. Não podia perder aquela chance. Não agora. Mas, no fundo… não era só isso. Não era só medo de perder o emprego. Era algo diferente. Algo que ela ainda não sabia nomear. A lembrança dele parado na porta voltou. O olhar. O tom de voz. A forma como ele falou sobre vínculo… como se aquilo fosse perigoso. Como se sentir fosse um erro. Lívia franziu levemente o cenho. Ela conhecia aquele tipo de defesa. Já tinha visto antes. Em crianças. Em adultos. Em pessoas que já tinham perdido demais. — Ele tem medo… — murmurou, quase sem perceber. E aquilo mudou algo dentro dela. Não era mais só nervosismo. Era… curiosidade. Desafio. Determinada, afastou-se da janela. Se ele queria manter distância… ela respeitaria. Mas não deixaria de fazer o que sabia. Cuidar. Criar vínculo. Ficar. Mesmo que ele não gostasse. Ela apagou a luz e se deitou. Mas demorou a dormir. No andar de cima, Magno também não dormia. Sentado na poltrona, no escuro, ele mantinha o olhar fixo em nada. Mas a mente… estava longe dali. A música ainda ecoava. E junto dela… a imagem de Lívia ao lado da cama de Bella. Calma. Presente. Como se pertencesse àquele lugar. Ele fechou os olhos com força. — Não… — murmurou. Aquilo não podia acontecer. Não de novo. Não daquela forma. Magno se levantou abruptamente, passando a mão pelo cabelo. Já tinha cometido aquele erro antes. Já tinha permitido que alguém ocupasse espaço demais. Já tinha perdido. Não cometeria o mesmo erro outra vez. Na manhã seguinte… ele deixaria isso claro. Custe o que custar.Nem toda presença chega fazendo barulho. Algumas... simplesmente permanecem. E, quando percebemos, já se tornaram parte da rotina. Os dias na faculdade passaram a seguir um ritmo próprio. Aulas. Provas. Seminários. Plantões de observação. Lívia ainda se sentia pequena diante de tudo o que precisava aprender. Mas, isso não a assustava. A motivava. — Você já percebeu? Júlia perguntou enquanto as duas caminhavam pelo campus. — O quê? — Você sorri muito mais agora. Lívia franziu levemente a testa. — Sorrio? — Muito. Júlia respondeu sem hesitar. — Quando chegou aqui parecia carregar o mundo nas costas. Agora... parece que está aprendendo a respirar de novo. Lívia ficou em silêncio. Nunca tinha pensado nisso. — Acho que a vida resolveu me dar uma segunda chance. Júlia sorriu. — Ou você quem resolveu aceitar. A frase ficou ecoando na cabeça de Lívia pelo restante do caminho. Na saída da aula, Rafael já estava esperando. Como quase t
As primeiras semanas de aula passaram mais rápido do que Lívia imaginava.O ritmo era intenso.Leituras intermináveis.Novos professores.Laboratórios.Nomes difíceis de decorar.E uma rotina completamente diferente de tudo o que já tinha vivido.Pela primeira vez em muito tempo, ela tinha um objetivo que pertencia apenas a ela.Não era sobre sobrenomes.Nem sobre o passado.Era sobre o futuro.— Você vai acabar dormindo em cima desses livros.A voz fez Lívia levantar os olhos.Uma jovem colocou uma bandeja sobre a mesa da biblioteca e sorriu.— Posso?Lívia fechou um dos livros.— Claro.— Júlia.Ela estendeu a mão.— Lívia.— Eu sei.Júlia respondeu, divertida.— Você faz perguntas durante as aulas que ninguém tem coragem de fazer.Lívia riu, sem jeito.— Achei que estava incomodando.— Muito pelo contrário.Você salva metade da turma.As duas riram.A conversa fluiu com uma facilidade inesperada.Descobriram que moravam perto.Tinham professores favoritos parecidos.E dividiam o me
O tempo não apaga as feridas. Mas ensina a caminhar mesmo com elas. Seis meses haviam passado desde a noite em que Lívia deixou a mansão Albuquerque ao lado de Rafael. Aurora continuava a mesma cidade. As mesmas ruas. Os mesmos sobrenomes importantes. As mesmas aparências. Mas, por trás delas... muita coisa havia mudado. — Tem certeza? Eduardo perguntou enquanto observava a filha assinar o último documento. Lívia sorriu. Dessa vez sem hesitar. — Tenho. Ana apertou discretamente a mão do marido. Era impossível esconder o orgulho. O sonho que, durante tantos anos, parecia distante agora começava a ganhar forma. Lívia acabava de concluir sua matrícula no curso de Medicina. Ao devolver a caneta para a atendente, respirou fundo. Parecia simples. Mas aquele gesto representava uma vida inteira. — Eu ainda não acredito. Ela confessou baixinho. Eduardo sorriu. — Eu acredito. Desde o dia em que descobri que você era minha filha. Os olhos dela marejaram. Ainda se emoci
O caminho até o apartamento dos Alcântara foi silencioso outra vez. Mas agora… pesado. Muito mais do que antes. Lívia estava virada para a janela desde que entrou no carro. Os braços cruzados com força demais. O olhar perdido nas luzes da cidade passando rápido do lado de fora. Rafael dirigia. Mas claramente irritado. Ela percebia na forma como ele apertava o volante. No maxilar travado. Na respiração contida. — Você não precisava ter ficado lá ouvindo aquilo. A frase veio depois de vários minutos. Controlada. Mas carregada. Lívia fechou os olhos por um instante. Cansada. — O Theo estava mal. — E isso dá direito pra ele falar daquele jeito com você? Agora veio mais duro. Ela não respondeu imediatamente. Porque uma parte dela ainda estava tentando organizar tudo o que tinha sentido naquela casa. A discussão. O olhar do Magno. A mágoa do Theo. A sensação sufocante de ainda ser afetada por alguém que já tinha feito sua escolha. Rafael soltou o ar devagar. Tentan
Fernando de Noronha deveria ser a última parada da viagem. Três dias. Descanso. Silêncio. Distância suficiente para que Magno voltasse ao Brasil com tudo reorganizado dentro da própria cabeça. Mas nada estava funcionando como deveria. Nem a viagem. Nem o casamento. Nem ele. O celular vibrou sobre a mesa do café da manhã pouco depois das oito. Magno olhou o visor. Teresa. Aquilo bastou para fazê-lo atender na mesma hora. — Aconteceu alguma coisa? Do outro lado, Teresa hesitou por um segundo antes de responder. — Desculpa incomodar sua lua de mel. A voz veio calma. Mas cansada. — Mas o Theo não está bem. Magno imediatamente endireitou a postura na cadeira. — O que aconteceu? — Ele está diferente desde que voltou da escola ontem. Uma pausa breve. — Muito fechado. Irritado. Não quis jantar direito. E praticamente não saiu do quarto. Magno passou a mão pelo rosto devagar. Cansado. Mais do que deveria. — Ele falou alguma coisa? Teresa
— Acho que essa conversa já passou do limite. Grave. Controlada. Mas carregando tensão suficiente para mudar completamente o ar do quarto. Lívia congelou. Theo virou o rosto imediatamente. E Magno estava ali. Parado na entrada. Recém retornado da sua lua de mel. Mas o olhar preso nela. Por um segundo longo demais. Silencioso demais. Lívia sentiu o corpo inteiro travar. Porque fazia dias. Mas parecia muito mais. Theo foi o primeiro a reagir. — Eu mandei mensagem pra ela. A defesa veio rápida. Instintiva. Como se já esperasse conflito. Magno desviou o olhar para o filho. — Eu imaginei. A resposta saiu calma. Até demais. E isso preocupou mais. Lívia se levantou devagar da cama. Tentando recuperar o controle do próprio corpo. Da própria respiração. — Ele parecia mal. Magno voltou a olhar para ela. E aquilo ainda mexia. Mesmo depois de tudo. Mesmo depois da escolha dele. Porque ela ainda conhecia aquele olhar. Só não sabia







