INICIAR SESIÓNMagno deixou o escritório de casa poucos minutos depois que Lívia saiu.
O silêncio voltou a ocupar o ambiente rapidamente, mas algo dentro dele parecia fora do eixo. Organizou alguns papéis sobre a mesa sem realmente prestar atenção. A imagem da jovem insistia em surgir — a postura firme, o olhar atento, a forma como parecia absorver cada detalhe enquanto ele explicava as regras da casa. Sacudiu levemente a cabeça, afastando o pensamento com impaciência. Aquilo não tinha relevância. Pegou o paletó sobre a cadeira e saiu, descendo as escadas com passos firmes. Teresa organizava flores na mesa do hall quando ele passou. — O carro já está esperando, Magno. — Obrigado, Teresa. O trajeto até a empresa aconteceu sob a calmaria do veículo. Magno observava a cidade pela janela, acompanhando o fluxo das avenidas enquanto tentava reorganizar mentalmente a agenda do dia. Reunião com o setor jurídico. Apresentação do novo projeto de licenciamento urbano. Avaliação de contratos com investidores estrangeiros. Nada fora do habitual. Ainda assim, sua concentração escapava com frequência, retornando involuntariamente para a conversa daquela manhã. Franziu o cenho, incomodado com a própria dispersão. Quando o carro parou diante do prédio espelhado da sede da empresa, ele já havia retomado a expressão controlada que o caracterizava. Funcionários o cumprimentaram com respeito discreto enquanto ele atravessava o saguão. Magno respondeu com breves acenos, seguindo até o elevador privativo. Assim que as portas se abriram no andar executivo, Valentina levantou-se imediatamente de sua mesa. O salto alto marcava presença com precisão enquanto ela se aproximava. — Bom dia, doutor Magno. Sua primeira reunião foi adiantada em quinze minutos. O setor jurídico já está na sala de conferências. Valentina vestia um conjunto elegante de alfaiataria clara, ajustado ao corpo com cortes estratégicos que valorizavam suas curvas. O decote sutil e o perfume marcante eram escolhas tão planejadas quanto sua postura impecável. Magno apenas assentiu. — Alguma pendência urgente? — Apenas os relatórios financeiros do trimestre. Já deixei sobre sua mesa. — Ótimo. Ele passou por ela sem reduzir o ritmo e entrou na sala de reuniões. A apresentação já estava em andamento quando ele se sentou na cabeceira. O projetor exibia plantas arquitetônicas e gráficos técnicos detalhando um novo empreendimento residencial. — Como podemos observar — explicava o gerente jurídico — o processo de licenciamento depende da liberação municipal para readequação da área. Existem construções antigas no terreno que precisarão ser removidas. Magno observava as imagens projetadas, captando apenas fragmentos das informações. — O projeto tem potencial para se tornar um dos mais valorizados da região — continuou o gerente. — A proposta é construir um condomínio de alto padrão com integração paisagística e área comercial planejada. Magno inclinou-se levemente para frente, analisando a planta principal. Seus olhos percorriam as linhas técnicas com atenção profissional, mas havia uma estranha sensação de familiaridade naquele espaço representado no papel. — Qual é o nome do projeto? — perguntou. — Aurora Residence. Ele assentiu, voltando-se para os dados financeiros exibidos na tela. A reunião seguiu por quase uma hora. Perguntas técnicas foram feitas, ajustes sugeridos, prazos redefinidos. Magno conduzia tudo com a precisão habitual, mas Gabriel percebeu a diferença quase imperceptível. Sentado ao lado direito dele, Gabriel observava como o amigo demorava alguns segundos a mais do que o normal antes de responder certas questões. Era um detalhe mínimo — mas suficiente. Quando a reunião terminou, Gabriel esperou que os demais executivos saíssem antes de se aproximar. — Você quer me contar o que está acontecendo… ou prefere fingir que eu não te conheço há quase dez anos? Magno manteve o olhar nos relatórios por alguns segundos antes de soltá-los sobre a mesa. — Não está acontecendo nada. Gabriel arqueou levemente a sobrancelha. — Você acabou de aprovar uma alteração de orçamento sem discutir metade dos relatórios. Isso nunca acontece. Magno passou a mão pelo rosto. — Só estou com muita coisa na cabeça. — Trabalho? Ele hesitou. — Também. O silêncio se instalou. Magno caminhou até a janela, observando a cidade lá embaixo. — A casa está diferente… desde que a nova babá chegou — disse por fim, num tom baixo. Gabriel permaneceu quieto, aguardando. — As crianças estão reagindo melhor do que eu esperava. Bella voltou a rir com facilidade… Theo está menos fechado, mesmo que não admita. Tudo em tão pouco tempo. Ele respirou fundo. — E isso deveria ser só gratificante. — Mas... — observou Gabriel com cuidado. Magno apertou o maxilar. — Ela é muito jovem… dedicada… e… — interrompeu-se, visivelmente irritado consigo mesmo. — Isso é um absurdo. Gabriel descruzou os braços, adotando um tom mais neutro. — Você se sente culpado por notar que ela é uma mulher bonita. Magno fechou os olhos por um instante. — Só faz pouco mais de cinco anos, Gabriel. — Eu sei. — Eu não deveria nem cogitar esse tipo de pensamento. Gabriel suspirou levemente. — Você perdeu a mulher que amava. Não deixou de ser homem. Fez uma breve pausa antes de continuar: — Você pode não demonstrar… mas ainda existe vida aí dentro. E em algum momento ela ia te lembrar disso. É natural um homem se interessar por uma mulher, ainda mais, sendo bonita. Não significa que você está traindo a memória da Cecília . Magno permaneceu imóvel, observando o horizonte urbano. — Não é sobre interesse — murmurou. — É sobre perder o controle daquilo que eu mantive estável por anos. Gabriel assentiu devagar. — Controle demais também quebra estruturas. Você sabe disso melhor do que ninguém. No corredor externo, Valentina caminhava com passos silenciosos, carregando uma pasta de documentos. Ao se aproximar da porta parcialmente aberta, ouviu parte da conversa. "...desde que a nova babá chegou." Ela diminuiu discretamente o ritmo. "...uma mulher bonita." Valentina manteve a expressão neutra, mas seus olhos ganharam um brilho calculado. Ajustou a postura antes de seguir andando, como se não tivesse escutado nada. Ao retornar para sua mesa, abriu a agenda eletrônica e digitou algumas anotações rápidas. Nova babá. Ainda não sabia quem era… mas saberia. Dentro da sala, Gabriel recolheu alguns relatórios e caminhou até a porta. — Só toma cuidado para não tentar carregar tudo sozinho, Magno. Ele parou antes de sair. — Algumas estruturas precisam ser flexíveis para não desmoronarem. Magno observou a porta se fechar atrás dele. Ficou sozinho novamente. Seus olhos voltaram para a planta do projeto Aurora Residence ainda aberta sobre a mesa. Linhas perfeitas. Medidas exatas. Planejamento rigoroso. Tudo sólido. Tudo previsível. Ainda assim, uma sensação incômoda persistia — como se algumas estruturas, por mais bem calculadas que fossem, pudessem ruir quando construídas sobre terrenos que ninguém havia realmente investigado. Ele fechou a pasta com firmeza, afastando o pensamento. O trabalho exigia precisão. Controle. Objetividade. E era exatamente isso que ele pretendia manter. Mesmo que, silenciosamente, algumas bases dentro de sua própria vida começassem a apresentar fissuras que ele ainda não estava disposto a enxergar.Nem toda presença chega fazendo barulho. Algumas... simplesmente permanecem. E, quando percebemos, já se tornaram parte da rotina. Os dias na faculdade passaram a seguir um ritmo próprio. Aulas. Provas. Seminários. Plantões de observação. Lívia ainda se sentia pequena diante de tudo o que precisava aprender. Mas, isso não a assustava. A motivava. — Você já percebeu? Júlia perguntou enquanto as duas caminhavam pelo campus. — O quê? — Você sorri muito mais agora. Lívia franziu levemente a testa. — Sorrio? — Muito. Júlia respondeu sem hesitar. — Quando chegou aqui parecia carregar o mundo nas costas. Agora... parece que está aprendendo a respirar de novo. Lívia ficou em silêncio. Nunca tinha pensado nisso. — Acho que a vida resolveu me dar uma segunda chance. Júlia sorriu. — Ou você quem resolveu aceitar. A frase ficou ecoando na cabeça de Lívia pelo restante do caminho. Na saída da aula, Rafael já estava esperando. Como quase t
As primeiras semanas de aula passaram mais rápido do que Lívia imaginava.O ritmo era intenso.Leituras intermináveis.Novos professores.Laboratórios.Nomes difíceis de decorar.E uma rotina completamente diferente de tudo o que já tinha vivido.Pela primeira vez em muito tempo, ela tinha um objetivo que pertencia apenas a ela.Não era sobre sobrenomes.Nem sobre o passado.Era sobre o futuro.— Você vai acabar dormindo em cima desses livros.A voz fez Lívia levantar os olhos.Uma jovem colocou uma bandeja sobre a mesa da biblioteca e sorriu.— Posso?Lívia fechou um dos livros.— Claro.— Júlia.Ela estendeu a mão.— Lívia.— Eu sei.Júlia respondeu, divertida.— Você faz perguntas durante as aulas que ninguém tem coragem de fazer.Lívia riu, sem jeito.— Achei que estava incomodando.— Muito pelo contrário.Você salva metade da turma.As duas riram.A conversa fluiu com uma facilidade inesperada.Descobriram que moravam perto.Tinham professores favoritos parecidos.E dividiam o me
O tempo não apaga as feridas. Mas ensina a caminhar mesmo com elas. Seis meses haviam passado desde a noite em que Lívia deixou a mansão Albuquerque ao lado de Rafael. Aurora continuava a mesma cidade. As mesmas ruas. Os mesmos sobrenomes importantes. As mesmas aparências. Mas, por trás delas... muita coisa havia mudado. — Tem certeza? Eduardo perguntou enquanto observava a filha assinar o último documento. Lívia sorriu. Dessa vez sem hesitar. — Tenho. Ana apertou discretamente a mão do marido. Era impossível esconder o orgulho. O sonho que, durante tantos anos, parecia distante agora começava a ganhar forma. Lívia acabava de concluir sua matrícula no curso de Medicina. Ao devolver a caneta para a atendente, respirou fundo. Parecia simples. Mas aquele gesto representava uma vida inteira. — Eu ainda não acredito. Ela confessou baixinho. Eduardo sorriu. — Eu acredito. Desde o dia em que descobri que você era minha filha. Os olhos dela marejaram. Ainda se emoci
O caminho até o apartamento dos Alcântara foi silencioso outra vez. Mas agora… pesado. Muito mais do que antes. Lívia estava virada para a janela desde que entrou no carro. Os braços cruzados com força demais. O olhar perdido nas luzes da cidade passando rápido do lado de fora. Rafael dirigia. Mas claramente irritado. Ela percebia na forma como ele apertava o volante. No maxilar travado. Na respiração contida. — Você não precisava ter ficado lá ouvindo aquilo. A frase veio depois de vários minutos. Controlada. Mas carregada. Lívia fechou os olhos por um instante. Cansada. — O Theo estava mal. — E isso dá direito pra ele falar daquele jeito com você? Agora veio mais duro. Ela não respondeu imediatamente. Porque uma parte dela ainda estava tentando organizar tudo o que tinha sentido naquela casa. A discussão. O olhar do Magno. A mágoa do Theo. A sensação sufocante de ainda ser afetada por alguém que já tinha feito sua escolha. Rafael soltou o ar devagar. Tentan
Fernando de Noronha deveria ser a última parada da viagem. Três dias. Descanso. Silêncio. Distância suficiente para que Magno voltasse ao Brasil com tudo reorganizado dentro da própria cabeça. Mas nada estava funcionando como deveria. Nem a viagem. Nem o casamento. Nem ele. O celular vibrou sobre a mesa do café da manhã pouco depois das oito. Magno olhou o visor. Teresa. Aquilo bastou para fazê-lo atender na mesma hora. — Aconteceu alguma coisa? Do outro lado, Teresa hesitou por um segundo antes de responder. — Desculpa incomodar sua lua de mel. A voz veio calma. Mas cansada. — Mas o Theo não está bem. Magno imediatamente endireitou a postura na cadeira. — O que aconteceu? — Ele está diferente desde que voltou da escola ontem. Uma pausa breve. — Muito fechado. Irritado. Não quis jantar direito. E praticamente não saiu do quarto. Magno passou a mão pelo rosto devagar. Cansado. Mais do que deveria. — Ele falou alguma coisa? Teresa
— Acho que essa conversa já passou do limite. Grave. Controlada. Mas carregando tensão suficiente para mudar completamente o ar do quarto. Lívia congelou. Theo virou o rosto imediatamente. E Magno estava ali. Parado na entrada. Recém retornado da sua lua de mel. Mas o olhar preso nela. Por um segundo longo demais. Silencioso demais. Lívia sentiu o corpo inteiro travar. Porque fazia dias. Mas parecia muito mais. Theo foi o primeiro a reagir. — Eu mandei mensagem pra ela. A defesa veio rápida. Instintiva. Como se já esperasse conflito. Magno desviou o olhar para o filho. — Eu imaginei. A resposta saiu calma. Até demais. E isso preocupou mais. Lívia se levantou devagar da cama. Tentando recuperar o controle do próprio corpo. Da própria respiração. — Ele parecia mal. Magno voltou a olhar para ela. E aquilo ainda mexia. Mesmo depois de tudo. Mesmo depois da escolha dele. Porque ela ainda conhecia aquele olhar. Só não sabia







