INICIAR SESIÓNA dor pulsava atrás dos meus olhos antes mesmo de eu despertá-los por completo, uma pressão ritmada e irritante que parecia acompanhar cada batida do meu coração. Permaneci imóvel por alguns segundos, encarando o teto alto da suíte enquanto tentava reunir os fragmentos da noite anterior — o brilho exagerado dos lustres do restaurante, o tilintar insistente de copos que nunca ficavam vazios, a voz grave de Massimo brindando pela terceira vez e Lorenzo observando tudo com aquela calma cirúrgica de quem jamais perde o controle.
Eu raramente bebia além do necessário, mas o noivado do meu primo exigia uma demonstração pública de união, e na nossa família até a felicidade era tratada como estratégia.
O celular começou a vibrar sobre o criado-mudo, o som seco cortando o silêncio da manhã. Não precisei olhar para saber que não era uma ligação trivial; ninguém que me conhecia se atreveria a telefonar naquele horário sem um motivo sólido. Atendi ainda com a voz rouca.
— Fale.
— Temos um problema — disse Massimo do outro lado, direto como sempre, sem desperdício de palavras.
Aquela frase tinha o poder de eliminar qualquer resquício de sono. Sentei-me na cama, passando a mão pelo rosto.
— Onde você está?
— Lá embaixo. Lorenzo também. Cinco minutos.
Desliguei antes que ele acrescentasse algo. Se havia um problema, eu já estava atrasado.
Levantei-me e caminhei até o banheiro, ignorando o leve protesto dos músculos. Disciplina sempre foi mais útil que conforto. Girei o registro do chuveiro e deixei a água fria cair sem piedade sobre minha cabeça, sentindo o choque atravessar minha pele e expulsar o torpor do álcool. Apoiei uma das mãos na parede de mármore e fechei os olhos, permitindo que apenas o som contínuo da água ocupasse o espaço da minha mente.
Não funcionou.
Ela apareceu.
Não como uma lembrança distante, mas com uma nitidez quase irritante — os olhos grandes sustentando os meus sem submissão, o corpo tenso contra o meu, a forma como sua respiração falhou quando a beijei. Beatrice tinha gosto de surpresa, de algo não planejado, e talvez fosse exatamente isso que ainda me incomodava. Mulheres geralmente sabiam o que esperar de mim; havia sempre uma negociação silenciosa, um entendimento implícito. Com ela, não. Houve hesitação, conflito… e depois uma entrega que não parecia ensaiada.
E então, o mais absurdo de tudo: ela foi embora.
Soltou-se de mim como se pudesse, como se homens como eu fossem opcionais.
Ninguém simplesmente me dava as costas.
Senti a mandíbula se contrair enquanto a água escorria pelo meu rosto. Não era desejo o que me perturbava — era a quebra de um padrão que sempre funcionara. Eu estava acostumado a controlar finais, não a ser abandonado no meio deles.
Girei o registro com força.
Assunto encerrado.
Problemas reais exigiam espaço, e não havia lugar para pensamentos inúteis.
Quando atravessei o saguão do hotel, já vestido e completamente desperto, notei discretamente como as conversas diminuíam de volume à minha passagem. Não era algo que me esforçasse para provocar; respeito, quando construído corretamente, se tornava um hábito nas outras pessoas. O carro nos aguardava na entrada, motor ligado, como se também soubesse que atrasos não eram tolerados.
Massimo fumava ao lado da porta, a impaciência evidente na forma como seu maxilar se movia. Lorenzo já estava no banco traseiro, digitando algo no celular com a concentração de um cirurgião.
Entrei sem dizer nada. O carro arrancou quase imediatamente.
— Santos — disse Lorenzo, guardando o aparelho. — Um dos nossos armazéns foi comprometido esta madrugada.
O resto ele não precisou explicar.
Meses de logística. Rotas compradas. Autoridades silenciosamente pagas. Um único erro podia custar milhões — mas, pior do que o dinheiro, era a mensagem que aquilo enviava. Fraqueza atraía predadores.
— Quanto levaram? — perguntei.
— Ainda estamos calculando. Não foi tudo… mas foi o suficiente para alguém achar que podia tentar.
Massimo soltou a fumaça pela fresta da janela.
— Amadores — murmurou. — Ou suicidas.
A estrada começou a se alongar diante de nós enquanto o motorista aumentava a velocidade, o Rio desaparecendo lentamente pelo retrovisor. O céu ainda tinha aquele tom pálido das primeiras horas da manhã, mas dentro do carro o clima já era de guerra contida.
— Quero nomes — falei. — E quero entender como chegaram perto o suficiente.
— Um soldado distraiu-se — respondeu Lorenzo. — Negligência, ao que tudo indica.
Negligência.
A palavra soava pior que traição.
Traidores ao menos faziam uma escolha; negligentes apenas provavam que eram fracos demais para carregar responsabilidade.
O restante da viagem foi consumido por cenários possíveis, rotas alternativas, medidas de contenção. Quando finalmente cruzamos os portões do porto, o cheiro de sal e metal tomou o ar, misturado ao diesel dos cargueiros. Homens trabalhavam em silêncio excessivo — outro sinal de que o medo já havia chegado antes de nós.
Nosso representante local veio ao nosso encontro com passos rápidos demais para parecerem naturais. O suor na testa não combinava com a brisa marítima.
Ele começou a explicar antes mesmo de pararmos completamente.
— Foi um descuido, senhor. Alguns viciados da região aproveitaram uma troca de turno… levaram parte da carga antes que percebessem.
Massimo nem esperou que ele terminasse.
— Chame o soldado responsável.
O homem hesitou por menos de um segundo — tempo suficiente para selar o próprio destino profissional — e fez um gesto para que trouxessem o rapaz. Ele parecia jovem demais para aquele tipo de trabalho, os olhos saltando de um rosto ao outro como um animal acuado.
— Senhor, eu só me afastei por um instante… — começou, a voz falhando.
O tiro ecoou seco.
Gaivotas levantaram voo num sobressalto branco.
O corpo caiu antes que o som morresse completamente no ar.
Massimo abaixou a arma com tranquilidade quase entediante.
— É assim que as coisas funcionam na Itália — disse ao representante, que agora parecia lutar para continuar respirando. — Está na hora de aprenderem que aqui não será diferente.
Observei a cena sem interferir. Liderança não era sobre apertar o gatilho todas as vezes — era sobre garantir que, quando alguém o fizesse, todos entendessem o motivo.
Voltei-me para o homem.
— O que temos sobre os ladrões?
Ele engoliu em seco e estendeu uma pasta. Dentro, algumas fotos granuladas, endereços rabiscados, informações colhidas às pressas.
— Dois já foram encontrados. Estamos interrogando. O terceiro ainda não… mas conseguimos localizá-lo esta manhã.
Peguei a fotografia.
Um rosto comum. Esquecível. Exatamente o tipo de homem que acredita que pequenos roubos passam despercebidos.
Ao lado, um endereço.
Senti algo dentro de mim se alinhar — aquela clareza fria que sempre antecedia uma decisão.
Fechei a pasta.
— Eu mesmo vou resolver isso.
Massimo sorriu de leve; Lorenzo apenas assentiu, como se já esperasse minha escolha.
Entrei novamente no carro e informei o destino ao motorista. O motor rugiu, e logo o porto ficou para trás.
Enquanto avançávamos pelas ruas cada vez mais estreitas da cidade, observei as casas se multiplicarem nas encostas, a tinta descascada, os fios elétricos emaranhados como cicatrizes no céu. Lugares assim costumavam produzir homens desesperados — e homens desesperados eram perigosos porque confundiam imprudência com coragem.
Apoiei o cotovelo na janela.
O carro desacelerou.
— É aqui, senhor.
Ergui os olhos para a casa simples atrás do portão gasto, completamente alheio ao fato de que, naquele exato momento, o destino fazia um movimento silencioso daqueles que mudam tudo antes mesmo que alguém perceba.
Desci, ajustei meu paletó, meus irmãos olharam para a casa, descendo do outro carro.
Ajustei a arma na cintura e sem pensar, dei a ordem para meus soldados entrarem.
Saí da cobertura praticamente correndo, com os dois chocolates apertados dentro do bolso do avental e o coração batendo tão forte que parecia querer escapar pela garganta. Durante todo o caminho até o elevador, a voz daquele homem continuou ecoando na minha cabeça."Vamos nos ver de novo..."Balancei a cabeça com força, tentando afastar a lembrança.Não.Nunca mais.Assim que as portas do elevador se fecharam, apoiei a cabeça no espelho polido e soltei o ar lentamente. Eu precisava parar de pensar naquilo. Era apenas um hóspede. Um homem rico que, provavelmente, esqueceria meu rosto antes mesmo de deixar o hotel.Eu era só mais uma funcionária.Nada além disso.Quando o elevador chegou ao térreo, caminhei diretamente para a administração. Era sexta-feira. Dia de pagamento. Pela primeira vez em muitos meses, senti uma pontinha de esperança.A fila de funcionários ocupava boa parte do corredor dos fundos. Camareiras, recepcionistas, cozinheiros, garçons, todos esperando o envelope pardo
A mansão Grimaldi nunca tinha visto tanta gente. Rosetta passara três dias preparando, Marie organizara as flores, e até Massimo, que normalmente evitava multidões, apareceu no salão principal com um sorriso que eu não via nele há meses.Matteo completava sete anos. Sete anos de vida, mas parecia uma eternidade desde que ele chegara à nossa família — ou melhor, desde que eu chegara à dele.Ele estava no centro do salão, usando o terno azul-marinho que Vittorio escolhera, a pulseira de Giulia brilhando em seu pulso. Seus olhos percorriam a multidão, procurando alguém.— Ainda não chegou — eu disse, ajoelhando-me ao seu lado.— Ele prometeu.— Lorenzo cumpre promessas.Matteo mordeu o lábio, ansioso. Um ano. Um ano desde que Lorenzo partira para expandir os negócios, para encontrar seu próprio cami
O quarto estava silencioso. Giulia dormia no berço ao lado da cama, seus cabelos escuros espalhados no travesseiro como um leque de seda. Matteo já estava em seu quarto, exausto depois de um dia inteiro brincando com a irmã, ensinando-lhe palavras novas, mostrando-lhe o mundo.Vittorio estava no escritório, resolvendo os últimos detalhes do programa de bolsas. Eu deveria estar dormindo, mas havia algo que precisava fazer.Sentei-me à escrivaninha perto da janela, peguei uma caneta e um papel. O mar lá fora estava calmo, pintado de prata pela lua. Comecei a escrever.*Querida Giulia,**Você ainda é muito pequena para entender estas palavras. Talvez quando as ler, já seja uma mulher. Talvez o mundo tenha mudado. Talvez não. Mas quero que saiba, desde sempre, de onde veio. Quem era sua mãe antes de ser sua mãe. Quem era seu pai antes de ser seu pai.**Eu nasci no
O sol da tarde entrava pelas janelas da sala de estar, pintando o chão de ouro. Matteo estava no tapete persa, cercado por blocos de madeira coloridos, tentando construir uma torre que rivalizasse com as que via nos livros de histórias. Ao seu lado, Giulia, agora com pouco mais de um ano, batia palmas sempre que um bloco era colocado, sua risada um som que preenchia a casa como música.— Não, Giulia — Matteo dizia, paciente. — Esse é azul. O vermelho vai ali.Ela ignorava, como sempre, e pegava o bloco vermelho, colocando-o no topo da torre com uma precisão que surpreendia. Matteo suspirou, mas sorriu.— Tá bom. Vermelho também pode.Beatrice estava ao meu lado no sofá, um livro de contabilidade aberto no colo, mas seus olhos estavam fixos nas crianças. Seu cabelo, mais longo agora, caía sobre os ombros, e havia nela uma paz que eu nunca vira antes.
O sol da manhã entrava pelas janelas da sala de brinquedos, pintando o chão de ouro. Matteo e eu estávamos no tapete, cercados por lápis de cor e papéis espalhados. Ele desenhava um sol enorme, daqueles que só crianças sabem fazer — redondo, amarelo, com raios que pareciam braços abertos para abraçar o mundo.— Bia — disse ele, concentrado —, o sol do bebê vai ser igual ao meu?— Vai ser o sol que você ensinar.Ele sorriu, satisfeito, e continuou colorindo.Foi quando senti a primeira contração.Não foi como as cólicas que vinham tendo nas últimas semanas. Era mais forte, mais profunda, como se meu corpo inteiro se contraísse em uma onda que vinha do centro da terra. Fechei os olhos, respirei fundo, esperei passar.— Bia? — Matteo ergueu os olhos.— Tudo bem, amor. S&oacut
A manhã amanheceu cinzenta sobre a Calábria, nuvens baixas pairando sobre o mar como um presságio. Encontrei Lorenzo no escritório antes do amanhecer, como tantas vezes ao longo dos anos. Mas hoje era diferente. Hoje, ele estava arrumando os últimos documentos, fechando pastas, organizando o que ficaria e o que levaria.— Já decidiu? — perguntei da porta.Ele ergueu os olhos, um sorriso cansado nos lábios.— Já.Entrei, fechando a porta atrás de mim. O escritório parecia maior sem a presença dele, mais vazio. Como se parte da alma do lugar fosse embora com ele.— Para onde?— Primeiro, Nápoles. Depois, Roma. Talvez Milão. — Ele fechou a última pasta. — Precisamos expandir. Novos mercados, novas alianças. Ficar só na Calábria é morrer devagar.— Você est&aacu







