FAZER LOGINO ônibus cheirava a suor, gasolina e desespero barato, o mesmo cheiro que carregava minha vida inteira. Encostei a testa no vidro sujo, sentindo cada solavanco da rua esburacada ecoar direto nos ossos. Meus lábios ainda formigavam.
Ainda.
Doze horas depois e meu corpo teimava em lembrar o que minha mente queria enterrar.
O calor da boca dele. A firmeza das mãos na minha cintura. O som rouco que ele fez quando eu me enrosquei contra ele. Meus dedos apertaram a alça da bolsa até as unhas ficarem brancas. Idiota. Idiota completa. Eu não era uma garota de novelas, que beijava príncipes em coberturas de hotel. Eu era Beatriz Oliveira, vinte e dois anos, camareira do Áurea, filha de um viciado e especialista em más decisões.
E uma das piores decisões da minha vida tinha gosto de chocolate e whisky caro.
O ônibus freou bruscamente, jogando-me para frente. Um homem mal-encarado resmungou quando esbarrei nele. Desci na parada da Rua do Mercado com o coração batendo feito um tambor de guerra. Cada passo em direção à minha casa era mais pesado que o anterior.
A porta estava entreaberta.
Meu estômago virou.
Empurrei e o cheiro me atingiu primeiro — álcool barato, cigarro, vômito. A sala parecia ter sido revirada por um furacão. A garrafa de cachaça vazia rolava no chão, a TV estava caída, e meu pai, José, dormia no sofá com a boca aberta, roncando como um animal ferido.
Respirei fundo. Contei até dez. Falhei no três.
— Pai.
Ele não se moveu.
— PAI!
Um olho se abriu, vermelho e injetado.
— Bia? — a voz dele era um raspar de pedra. — Cadê o dinheiro?
Não era “oi”. Não era “desculpa”. Era sempre a mesma pergunta, o mesmo buraco negro que sugava tudo o que eu tinha, até meu último real de dignidade.
— Não tenho dinheiro. Onde está minha jarra?
A jarra azul, da minha avó. Onde eu guardava o pouco que sobrava para a faculdade.
Ele evitou meus olhos, escorregando do sofá.
— Precisei, filha. Era importante.
— Importante? — minha voz subiu, afiada como vidro quebrado. — Para comprar mais pó? Mais cachaça? Olha essa casa! Parece que passou um trator aqui!
Ele se levantou, cambaleante. Seus olhos brilharam com uma luz perigosa, a mesma de sempre antes da violência.
— Você não entende! Preciso fugir!
— Fugir do quê? Das suas dívidas? Dos traficantes que você deve? De novo?
— Dessa vez é diferente — ele sussurrou, e pela primeira vez, vi medo genuíno no seu rosto. Um medo frio, que não vinha da bebida. — Mexi com gente grande, Bia. Gente que… que mata.
O ar saiu dos meus pulmões.
— O que você fez?
— Roubei. Só um pouco. Eles não vão perdoar.
Roubou. É claro que roubou. Porque o vício dele era um monstro que nunca se saciava, e agora esse monstro estava batendo na nossa porta ou pior, já estava dentro de casa. Estava cansada de tudo isso, viver sempre com medo, nunca ter paz em minha casa e ter o pouco do meu dinheiro arrancado de mim. Desde que minha mãe morreu temos vivido assim, nessa guerra.
Estou cansada.
Todo meu corpo está adormecido, tomado pelo ódio e pelo medo.
Eu senti as pernas tremendo. Não de medo por ele. De cansaço. Um cansaço tão profundo que parecia ter cavado morada nos meus ossos.
— Chega — disse, e minha voz saiu estranhamente calma. — Chega, pai. Eu vou embora.
Ele riu, um som seco e feio.
— Pra onde? Você não tem ninguém.
— Tenho a Raquel. Vou morar com ela.
O riso morreu. Seus olhos estreitaram.
— Você não vai a lugar nenhum. Até eu resolver isso, você fica aqui. E me dá o dinheiro que você guarda. Sei que tem.
Avancei em direção ao meu quarto, mas sua mão fechou no meu braço como uma tenaz. A dor foi instantânea — não apenas física, mas a humilhação de sempre, a sensação de ser uma coisa, não uma pessoa.
— Solta! — gritei, tentando me libertar.
— O dinheiro, Bia! Ou eles me matam!
— Então que matem! — eu vomitei as palavras, e vi o choque no rosto dele. — Eu não vou mais pagar pelos seus erros! Já chega!
Seu rosto contorceu-se de raiva. A mão livre se ergueu — a mesma mão que me acariciou o cabelo quando eu era criança, que consertou minha bicicleta, que agora estava prestes a me bater pela centésima vez.
Fechei os olhos.
O golpe nunca chegou.
Em vez disso, veio o som da porta sendo arrebentada.
Um estrondo de madeira rachando, metal torcendo. Abri os olhos e o mundo desacelerou.
Homens. Muitos homens vestidos de preto, rostos fechados, movimentos precisos como máquinas. Entraram e ocuparam a sala pequena como se ela fosse deles e naquele momento, era.
No centro deles, parado como a calmaria no olho do furacão, estava ele.
O homem responsável por todos os meus medos na Última hora.
Não estava mais de terno impecável. Vestia um casaco preto simples, calças escuras, mas era inconfundível. A postura. A maneira como o espaço ao redor parecia dobrar-se à sua presença. E seus olhos — aqueles olhos que horas antes estavam cheios de desejo no quarto de hotel — agora eram apenas pedras polidas, frias e mortas.
Eles pousaram em mim. Depois no meu pai, ainda com o braço erguido para me bater.
Não houve surpresa no olhar dele.
Houve reconhecimento.
E algo pior: satisfação.
Meu mundo desabou naquele exato segundo. Porque eu entendi, num clarão de terror perfeito, que aquilo não era uma coincidência. O italiano do hotel. O roubo do meu pai. O homem que me beijou e o homem que agora invadia minha casa.
Era a mesma pessoa.
E pelo sorriso quase imperceptível que tocou seus lábios, ele sabia que eu tinha acabado de perceber.
Saí da cobertura praticamente correndo, com os dois chocolates apertados dentro do bolso do avental e o coração batendo tão forte que parecia querer escapar pela garganta. Durante todo o caminho até o elevador, a voz daquele homem continuou ecoando na minha cabeça."Vamos nos ver de novo..."Balancei a cabeça com força, tentando afastar a lembrança.Não.Nunca mais.Assim que as portas do elevador se fecharam, apoiei a cabeça no espelho polido e soltei o ar lentamente. Eu precisava parar de pensar naquilo. Era apenas um hóspede. Um homem rico que, provavelmente, esqueceria meu rosto antes mesmo de deixar o hotel.Eu era só mais uma funcionária.Nada além disso.Quando o elevador chegou ao térreo, caminhei diretamente para a administração. Era sexta-feira. Dia de pagamento. Pela primeira vez em muitos meses, senti uma pontinha de esperança.A fila de funcionários ocupava boa parte do corredor dos fundos. Camareiras, recepcionistas, cozinheiros, garçons, todos esperando o envelope pardo
A mansão Grimaldi nunca tinha visto tanta gente. Rosetta passara três dias preparando, Marie organizara as flores, e até Massimo, que normalmente evitava multidões, apareceu no salão principal com um sorriso que eu não via nele há meses.Matteo completava sete anos. Sete anos de vida, mas parecia uma eternidade desde que ele chegara à nossa família — ou melhor, desde que eu chegara à dele.Ele estava no centro do salão, usando o terno azul-marinho que Vittorio escolhera, a pulseira de Giulia brilhando em seu pulso. Seus olhos percorriam a multidão, procurando alguém.— Ainda não chegou — eu disse, ajoelhando-me ao seu lado.— Ele prometeu.— Lorenzo cumpre promessas.Matteo mordeu o lábio, ansioso. Um ano. Um ano desde que Lorenzo partira para expandir os negócios, para encontrar seu próprio cami
O quarto estava silencioso. Giulia dormia no berço ao lado da cama, seus cabelos escuros espalhados no travesseiro como um leque de seda. Matteo já estava em seu quarto, exausto depois de um dia inteiro brincando com a irmã, ensinando-lhe palavras novas, mostrando-lhe o mundo.Vittorio estava no escritório, resolvendo os últimos detalhes do programa de bolsas. Eu deveria estar dormindo, mas havia algo que precisava fazer.Sentei-me à escrivaninha perto da janela, peguei uma caneta e um papel. O mar lá fora estava calmo, pintado de prata pela lua. Comecei a escrever.*Querida Giulia,**Você ainda é muito pequena para entender estas palavras. Talvez quando as ler, já seja uma mulher. Talvez o mundo tenha mudado. Talvez não. Mas quero que saiba, desde sempre, de onde veio. Quem era sua mãe antes de ser sua mãe. Quem era seu pai antes de ser seu pai.**Eu nasci no
O sol da tarde entrava pelas janelas da sala de estar, pintando o chão de ouro. Matteo estava no tapete persa, cercado por blocos de madeira coloridos, tentando construir uma torre que rivalizasse com as que via nos livros de histórias. Ao seu lado, Giulia, agora com pouco mais de um ano, batia palmas sempre que um bloco era colocado, sua risada um som que preenchia a casa como música.— Não, Giulia — Matteo dizia, paciente. — Esse é azul. O vermelho vai ali.Ela ignorava, como sempre, e pegava o bloco vermelho, colocando-o no topo da torre com uma precisão que surpreendia. Matteo suspirou, mas sorriu.— Tá bom. Vermelho também pode.Beatrice estava ao meu lado no sofá, um livro de contabilidade aberto no colo, mas seus olhos estavam fixos nas crianças. Seu cabelo, mais longo agora, caía sobre os ombros, e havia nela uma paz que eu nunca vira antes.
O sol da manhã entrava pelas janelas da sala de brinquedos, pintando o chão de ouro. Matteo e eu estávamos no tapete, cercados por lápis de cor e papéis espalhados. Ele desenhava um sol enorme, daqueles que só crianças sabem fazer — redondo, amarelo, com raios que pareciam braços abertos para abraçar o mundo.— Bia — disse ele, concentrado —, o sol do bebê vai ser igual ao meu?— Vai ser o sol que você ensinar.Ele sorriu, satisfeito, e continuou colorindo.Foi quando senti a primeira contração.Não foi como as cólicas que vinham tendo nas últimas semanas. Era mais forte, mais profunda, como se meu corpo inteiro se contraísse em uma onda que vinha do centro da terra. Fechei os olhos, respirei fundo, esperei passar.— Bia? — Matteo ergueu os olhos.— Tudo bem, amor. S&oacut
A manhã amanheceu cinzenta sobre a Calábria, nuvens baixas pairando sobre o mar como um presságio. Encontrei Lorenzo no escritório antes do amanhecer, como tantas vezes ao longo dos anos. Mas hoje era diferente. Hoje, ele estava arrumando os últimos documentos, fechando pastas, organizando o que ficaria e o que levaria.— Já decidiu? — perguntei da porta.Ele ergueu os olhos, um sorriso cansado nos lábios.— Já.Entrei, fechando a porta atrás de mim. O escritório parecia maior sem a presença dele, mais vazio. Como se parte da alma do lugar fosse embora com ele.— Para onde?— Primeiro, Nápoles. Depois, Roma. Talvez Milão. — Ele fechou a última pasta. — Precisamos expandir. Novos mercados, novas alianças. Ficar só na Calábria é morrer devagar.— Você est&aacu







