FAZER LOGINMaya Stone
Amarrei o último lençol na janela com mãos trêmulas, os dedos machucados pelo nó apertado.
Olhei para baixo. O mundo lá embaixo parecia tão longe... e ao mesmo tempo, era tudo o que eu queria: distância.
Fechei os olhos e me deixei cair, guiada por aquele trapo improvisado. O impacto me arrancou o ar — minhas costas bateram no chão com força. Mas não gritei. Dor era melhor que prisão.
Eu precisava fugir. Precisava ser eu.
Corri pela mata sem pensar. Galhos arranhavam minha pele, espinhos rasgavam meu vestido. O cheiro de terra molhada e folhas úmidas me preenchia, mas o que realmente me dava calafrios era o cheiro dele. Do Alfa.
Eu sabia que ele vinha. Que me seguia.
Mesmo não sendo como eles, eu podia sentir.
Era como uma âncora invisível, um fogo que queimava mesmo à distância. O tal vínculo. Ele falava como se fosse inevitável, natural. Mas nada disso era natural. Nada disso era certo.
Porque eu não era dele.
Nunca seria.Quando minhas pernas enfim cederam, caí junto ao riacho. Enfiei os pés na água gelada, mas não adiantou. O calor dele ainda me queimava por dentro.
Encolhi-me ali, chorando em silêncio, tentando sufocar a dor que não vinha só da fuga, mas também da raiva. Do desejo. Da maldita confusão que ele colocava dentro de mim.
Me agachei próximo ao lago. Como seria a minha vida se papai ainda estivesse vivo?
Com certeza seria diferente. Eu soube o que era o amor, eu tive o amor dele. E mesmo sem conhecer a minha mãe, eu sentia que era amada.
Mas havia tantas coisas que precisavam de respostas. Por exemplo, porque diabos eu não conseguia me transformar?
Bom, talvez eu nunca descobrisse.
Um barulho me tirou do transe, o estalo de um galho. Meu corpo congelou e eu me retrai para trás.
Merda.
Ele surgiu entre as árvores como uma sombra: imenso, ofegante, os olhos amarelos faiscando não só de raiva... mas de algo mais escuro. Algo que me puxava.
— COMO VOCÊ OUSA? — sua voz ecoou pela floresta.
Tentei me levantar, mas meu corpo me traiu. Ele se aproximava com passos firmes, como um predador que não via mais graça no jogo.
— Achou que poderia fugir de mim? — rosnou, agachando-se diante de mim. — Olhe para você. Ferida. Tremendo. É isso que chama de liberdade?
— Você não pode me prender aqui. — falei.
— E você precisa aprender a respeitar a hierarquia.
Tentei recuar, mas ele já segurava meu rosto com força, obrigando-me a encará-lo. Seus olhos me perfuravam como se pudesse me enxergar por dentro.
— Por que você me escolheu? — minha voz saiu falha, embargada.
Ele sorriu. Aquele maldito sorriso de canto.
— Talvez porque você me intriga. Talvez porque eu quis te quebrar. — disse, sem culpa. Sem pressa.
— Eu sei o que você quer. Um herdeiro. Uma fêmea dobrada, moldada para te servir. Eu não sou sua maldita égua de reprodução! Minha prima serve mais para esse serviço do que eu.
Ele ficou em silêncio por um segundo, e foi mais assustador que qualquer grito.
— Você não tem ideia do que está dizendo — murmurou. — Você não sabe o que foi me segurar quando te encontrei. E agora acha que vai fugir pela janela, como se fosse invisível? Você mal aguentou correr. é fraca. — ele sorriu.
— Eu sou livre! — cuspi. — Não sou sua!
Ele se inclinou. O nariz roçando meu pescoço. Um toque suave, íntimo, devastador.
— Seu corpo pensa diferente — sussurrou. — Porque mesmo agora... com medo, com raiva... você ainda sente desejo, eu sinto isso no seu cheiro. Na sua respiração.
Tentei empurrá-lo, mas ele segurou meus pulsos. E mesmo contida, eu estremeci. De ódio. Ou de algo pior.
— Eu não sinto nada! — menti.
— Então por que seus olhos me procuram quando me afastam? — disse, mais baixo agora. O olhar dele queimava, mas era diferente. Quase… ferido.
Ele se levantou, a respiração pesada, a mandíbula cerrada.
— Chega. Você vai voltar para a mansão. Vai descansar. E amanhã... se quiser fugir de novo, tente. Eu não vou te parar. Mas não reclame quando o mundo te mostrar que a única coisa pior do que estar ao meu lado... é estar sozinha.
As lágrimas escorriam quentes pelo meu rosto.
— Então é isso? Vai esperar até que eu desista de resistir? Vai me sufocar até eu aceitar ser sua fêmea?
O olhar dele escureceu.
— Você já é minha Stone. Só não sabe ainda. E quanto ao filho... — ele hesitou, como se estivesse se contendo — ...isso virá com o tempo.
Meu corpo gelou.
— Você está doente.
— E você está ferida. Por dentro. Por fora. Talvez eu seja o único que consegue te consertar... ou te destruir de vez.
Então ele me puxou. Me joguei contra o peito dele com os punhos cerrados, chutando, gritando, mordendo — e ele não cedeu. Só me segurou mais firme.
Ele me carregou de volta. Como se fosse dono de mim.
Mas eu jurei, com cada fibra do meu corpo:Essa seria a última vez que ele me tocaria sem minha permissão.
Maya StoneA mansão estava em silêncio.Não o silêncio pesado de antes. Não o silêncio do medo.Era um silêncio novo. Vivo. Cheio de promessas.O sol da tarde atravessava as janelas do quarto que agora era meu, na verdade, era nosso, iluminando as caixas abertas pelo chão. Tecidos pequenos dobrados com cuidado. Cobertores claros. Roupinhas que eu nunca imaginei tocar, muito menos escolher.— Essa é grande demais. — murmurei, segurando uma camisa minúscula.— Nenhuma é grande demais para um Grant. — James respondeu, encostado na porta, braços cruzados, um sorriso orgulhoso que ele não fazia questão nenhuma de esconder.Revirei os olhos.— Você fala como se ele já estivesse correndo pela mansão.— Ele vai. — James disse. — E vai derrubar metade dela.Sorri.Meu corpo estava diferente. Mais pesado. Mais lento. Mais… presente. Cada movimento lembrava que eu não estava mais sozinha dentro de mim.James se aproximou, ajoelhou atrás de mim no tapete e apoiou o queixo na minha barriga.— Você
A mansão parecia diferente quando atravessei os portões.Não porque tivesse mudado fisicamente — os mesmos muros altos, a mesma imponência fria —, mas porque eu não era mais a mesma.Cada passo pelo corredor ecoava como se estivesse marcando território pela primeira vez.James caminhava ao meu lado, a mão firme na base das minhas costas. Não para me guiar. Para avisar ao mundo que eu não estava sozinha.Meu pai vinha logo atrás.Em silêncio.Observando tudo.— Leva ela para o quarto. — James ordenou a um dos guardas. — Ninguém entra. Ninguém incomoda.— Não. — eu disse, parando.James virou o rosto para mim.— Maya—— Chega de me esconder. — respirei fundo. — Se algo vai acontecer… acontece agora.Meu pai parou também.— Ela está certa. — Daniel disse. — Já esperamos tempo demais.James franziu o cenho.— Do que você está falando?Meu pai caminhou até a mesa central do salão principal. Abriu a mochila de couro que carregava desde que aparecera na floresta.De dentro, tirou pastas anti
JAMES GRANTQuando ouvi aqueles gritos, eu não respirei.Não foi medo.Foi instinto.O tipo de instinto que arranca o ar do peito antes mesmo que a mente consiga acompanhar.— De novo. — rosnei. — Grita de novo.Ethan parou no meio do corredor, o rosto pálido demais para um homem acostumado à guerra.— Senhor… — a voz dele falhou. — Veio do lado leste. Da ala antiga.Meu corpo já estava em movimento antes que ele terminasse a frase.— ABRAM CAMINHO. — ordenei.Os guardas se afastaram imediatamente. O cheiro no ar mudou à medida que eu avançava — ferro, sangue, dor. Não era batalha. Era punição.— Quem autorizou isso? — perguntei, a voz baixa demais.Ninguém respondeu.As portas de pedra do salão inferior estavam entreabertas. Uma fresta. O suficiente para o som escapar.O grito veio de novo.Feminino.Rasgando.Meu lobo avançou dentro de mim com violência.— NÃO. — rosnei.Empurrei a porta com força suficiente para rachar a pedra.O que vi ali dentro não era um julgamento.Era um esp
Maya StoneEu dormia tão profundamente que, por alguns segundos, achei que tinha voltado no tempo.A cama macia. O cheiro de pinho e couro. O calor que ainda parecia grudado na minha pele por causa do que tinha acontecido no carro… por causa do que James tinha dito, do jeito que ele tinha me segurado como se eu fosse a única coisa real no mundo.Mas então…Um pano foi pressionado contra a minha boca.Meu corpo reagiu no instinto, tentando lutar, mas um braço forte me prendeu contra o colchão.— Shhh… — uma voz masculina murmurou. — Não grita, Maya.Eu tentei, mas o ar não entrava direito.O cheiro do pano era forte, químico, amargo. Meu coração disparou.Eu me debati, as mãos arranhando o braço que me segurava, e vi um rosto que fez minha garganta fechar de pavor.William.O irmão de James.Ele estava inclinado sobre mim, olhos frios, expressão controlada, como se eu fosse um problema administrativo.— W-William…? — minha voz saiu abafada no tecido.— É pro bem da alcateia. — ele diss
James GrantEla dormia.E era justamente isso que me destruía.Maya estava deitada na minha cama, coberta até o peito, o cabelo espalhado pelo travesseiro como se o mundo fosse simples outra vez. A respiração calma. O rosto sereno demais para alguém que carregava uma guerra inteira no ventre.Eu fiquei parado à porta por longos segundos.— Não encosta nela. — Ethan murmurou atrás de mim.— Eu sei. — respondi baixo.Mesmo assim, caminhei até a beira da cama. Não toquei. Não ousei. Só observei.Grávida.A palavra ainda parecia irreal. Pesada. Poderosa.— O Conselho já sabe. — Ethan continuou. — Sentiram o cheiro diferente na ala leste. Não deu pra esconder por muito tempo.— Quanto tempo? — perguntei.— Poucas horas.Respirei fundo.— Então eles vão chamar.Como se invocado pelas minhas palavras, um dos guardas surgiu à porta.— Supremo… o Conselho exige sua presença. Agora.Ethan fechou os olhos.— Leva mais alguém? — perguntou.Olhei para Maya mais uma vez.— Não. — respondi. — Isso é
Maya StoneO ronco do motor cortou o silêncio do estacionamento como uma lâmina. James não olhou para trás. Nem para os lados. Só para a frente, as mãos grandes e marcadas cravadas no volante, os nós dos dedos brancos de tanta força. Eu me encolhi no banco do passageiro, os braços envolvendo o corpo como se pudesse proteger o que já estava ali dentro de mim.Grávida.A palavra batia na minha cabeça como um tambor de guerra. Não era só um diagnóstico. Era uma sentença. Uma corrente. Uma promessa que eu não sabia se queria cumprir.O asfalto passava rápido demais lá fora. O mundo inteiro parecia borrado.— Você não disse nada desde que saímos — ele falou depois de longos minutos, voz baixa, controlada. Perigosa.— Porque se eu abrir a boca agora… — minha voz saiu rouca — eu não sei se grito, se choro ou se te bato.Ele soltou o ar devagar pelo nariz. Não respondeu. Só apertou mais o volante.O silêncio voltou, mas era vivo. Pesado. Cheirava a couro caro, a ele — aquele cheiro de pinho q







