INICIAR SESIÓNPor algum motivo, o dia estava ensolarado, tão diferente da neve torrencial que despencou da tempestade noite passada. Um cheiro amadeirado subia no ar, à medida que a neve nos galhos das árvores derretia.
Eu me sentia estranhamente feliz aqui, sozinha. Raios luminosos adentraram pela janela, em um dos dias mais iluminados do ano. Ryan deixou que eu me refugiasse em seu chalé, e eu tinha roupa quentinha e comida. Pela primeira vez, poderia me ocupar com as coisas que eu queria fazer, não com o que eu precisava.
Desci até a biblioteca e peguei alguns livros para lê-los enquanto tomava uma xícara de chá e biscoitos. Com os dias contatos, eu precisava conhecer mais deste mundo, pois conhecimento era fundamental para a sobrevivência. Terrenos, topografias, mapas, fenômenos naturais, fauna, agricultura...
Quando se completava dezoito anos, ocorria o despertar do lobo, sendo também a idade de dispensa do orfanato. Uma vez lobos, os órfãos eram considerados aptos a sobreviver no mundo exterior e suportar as temperaturas congelantes, já que a forma de lobo era mais resistente ao frio do que a humana. Além disso, lobos eram muito mais fortes e hábeis, podendo sobreviver da caça.
Havia algumas categorias na hierarquia que eram definidos pelo nascimento e o sangue. O imperador, também proprietário da região central possuía o poder de decisão não só sobre o seu domínio, mas sobre todo o continente. Contudo, com sua ausência, as terras centrais estavam tão gélidas que mesmo os lobos tinham dificuldades de suportar aquela temperatura, motivo pelo qual as terras imperiais se tornaram desabitadas.
Em torno da região central, alcateias comandadas pelos alfas, os lobos mais fortes, cujo sangue lhe conferia poder de conexão com seus subordinados e controle. Os alfas eram os governantes de seus clãs, cujas terras foram demarcadas territorialmente de acordo com seu número populacional e força. Os limites territoriais alteravam de tempos em tempos, pois os líderes continuamente travavam batalhas em busca de expansão. Felizmente, a alcateia em que me encontrava, a Lua Prateada, estava em acordo de paz com seus vizinhos, após várias baixas e perdas enfrentadas no início da crise climática.
Abaixo dos alfas na hierarquia, estavam os betas, guerreiros formidáveis com lobos poderosos, aquele que estava ao lado direito do alfa para a resolução de problemas devido ao seu intelecto desenvolvido e racionalidade. O beta também era o responsável por proteger e aconselhar o líder, pelo gerenciamento financeiro do clã, aplicando medidas legais e investindo os impostos para a infraestrutura, dos projetos que eram aprovados e assinados pelo alfa.
Ao lado esquerdo do alfa e não menos importante, estava o gama, um lobo poderoso com instintos apurados, responsável por gerenciar a defesa do clã. O gama era responsável por recrutar e supervisionar o treinamento de soldados lupinos, por manter a ordem dentro do clã e também o responsável por tomar a frente em casos de guerras e conflitos, sob o comando Alfa.
Todos abaixo dessa hierarquia eram considerados ômegas, lobos que deveriam se submeter aos seus líderes e servir seu clã. Dentre estes, havia uma hierarquia à parte, com diferentes níveis de domínio.
No topo dessa hierarquia dos ômegas estavam os nobres. Eram as famílias ricas e proeminentes, aqueles cujos ancestrais carregavam medalhas e honras e cujo sobrenome transmitido possuía o poder de se fazer ser respeitado. Era uma posição de nascimento, determinada pelo sangue ou raramente alcançado a muito custo pelos mais fortes através de feitos significativos.
Abaixo, a classe média, lobos trabalhadores, fortes, mas não o suficiente para entrar em posições de destaque na guarda e subir de posição. Eram os mais numerosos e, graças ao seu trabalho duro, a alcateia ainda estava de pé.
A classe baixa eram lobos fracos, os aleijados ou mesmo os que nasceram sem sorte. Mas abaixo delas, ainda havia uma pior; os tardios e os não despertos. Aqueles que não possuíam força mágica suficiente para despertar seu lobo na idade correta geralmente nem sobreviviam para compor a baixa classe, uma vez que o mundo era extremamente cruel com eles. Sem força, sem lobo e sem apoio, desfaleciam rapidamente de frio ou de fome.
Em poucos dias, eu seria classificada assim, a pior categoria possível, uma posição de desgraça e humilhação. Para a dispensa oficial do orfanato e obtenção de auxílio e oportunidades de trabalho, era necessário mostrar seu lobo para avaliação. No entanto, para um não desperto, o destino era o descarte, uma vez que o critério mínimo para ser contrato era ter um lobo. Pior que ser olhado com desdém por ser um órfão, seria ser olhado com nojo e ódio por ser um não desperto inútil. Aos descartados, cabia o abandono completo e uma morte solitária.
Se não fosse a certidão de nascimento pega erroneamente em meu abrigo anterior, todos já saberiam que já fiz dezoito há quase três semanas. Lembrava-me perfeitamente do dia em que nasci, assim como lembrava de tudo desde então. É devido a isso que eu sabia que meu verdadeiro nome não era Mia.
Mia se parecia comigo, brincávamos juntas mas ela morreu, junto com todos os funcionários e crianças do abrigo naquele grande massacre. Naquele dia, os soldados do alfa levaram o que sobrou de útil da aldeia massacrada, sendo documentos, itens de utilidade que ainda poderiam ser aproveitados e o menos importante, eu.
Eles não deram importância a coleta de documentos no abrigo, apenas identificaram pela minha aparente idade e descrição que eu deveria ser Mia. Eles não se importaram nem comigo, quanto mais em me perguntar a veracidade das informações recolhidas. Em silêncio fui recolhida, e em silêncio fui colocada no orfanato que se tornou meu inferno nos últimos treze anos.
Uma pessoa sem lobo não tinha o direito de ter companheiro, pois companheiros predestinados tinham suas almas ligadas entre si através de um vínculo mágico entre seus lobos. Ryan logo perceberia que sou uma fraude. Com isso em mente, perguntava-me se seria seguro continuar neste lugar.
Por vezes, pensava que deveria recolher o máximo de comida possível e tentar fugir o mais longe possível deste clã e dele, mas isso me causava uma dor invisível, e eu odiava sentir dor. Não sabia dizer se isso era tolice ou fraqueza, mas eu queria esperar, acreditar que ele realmente me amava e que não me deixaria.
— O que realmente devo fazer? — perguntei-me, pesando os prós e contras das minhas opções.
Eu ainda não estava preparada para uma jornada pelo mundo e trilhar o desconhecido, pois sabia que, em meu estado atual, as taxas de sobrevivência seriam mínimas. Além disso, a capacidade de rastreio de um lobo, ainda mais do calibre dele, era imbatível, sem mencionar a diferente absurda de velocidade de um lobo para um humano. Talvez, a única forma de seguir em segurança era se ele me deixasse ir.
Em menos de um segundo, meia dúzia de homens vestidos de branco invadiu a casa. Correntes envolveram os pescoços dos lobos que imobilizavam Lionel e os decapitaram no mesmo movimento. Tudo aconteceu rápido demais para que meus olhos acompanhassem. Em meio ao caos, uma presença feroz atravessou o espaço e decepou o braço de Raiden que empunhava a lâmina, arrancando dele um grito de dor.A figura então se colocou à minha frente, apontando a espada para o pescoço do inimigo. O que mais me chamou a atenção foi o símbolo do brasão imperial gravado em sua armadura.Meu coração pareceu saltar do peito quando ergui o olhar e encontrei um rosto familiar.— Que bom que cheguei a tempo, alteza — disse Vitor, examinando-me rapidamente, como se quisesse se certificar de que eu estava mesmo bem.Aquelas palavras simples trouxeram um alívio tão profundo que meu corpo pareceu, enfim, se lembrar de como respirar. Assenti em agradecimento e me apressei até Lionel, preocupada demais para pensar em qualq
Apesar de surpreso, Raiden firmou a espada em sua mão. Agora que havia chegado tão longe, não havia mais como recuar. — Ninguém me enviou. Eu vim porque quis — rebateu, encarando Lionel com ódio. — Um órfão miserável, de sangue impuro como você, recebendo tanta atenção do alfa? Você não merece. Não sei como consegue lutar assim, mas não tem chance. E não se preocupe, não vou deixar você morrer antes de ver aquela vadia despedaçada. Vai ser um prazer provar a mesma carne que o alfa provou.— Seu rato imundo — rosnou Lionel, avançando contra Raiden.Ao mesmo tempo, os lobos que antes apenas o cercavam decidiram atacar. Por mais rápido e forte que fosse, Lionel não conseguia escapar de todas as garras e golpes que vinham de todos os lados. O inimigo era implacável.Fiquei paralisada, o coração disparado enquanto minha mente buscava uma forma de ajudá-lo. Pensei em atacá-los à distância com minha magia de gelo, mas temia acertar Lionel no processo. Se congelasse o chão para desestabiliza
Bloqueadores gama, um tipo de tecnologia cuja existência eu desconhecia até pouco tempo atrás. Minha primeira percepção desse recurso ocorreu no hotel da ilha onde os Lobos do Inverno operam. A maioria dos hotéis de lá os possuía, impedindo qualquer conexão telepática nas proximidades. Eu só descobri isso há poucos dias, mas, como vinha tendo bastante tempo para conversar com Lionel durante os treinos, acabei saciando minha curiosidade sobre muitas coisas.Tudo o que aconteceu naquela ilha passou a fazer sentido depois que soube disso. O mais intrigante era que esse tipo de recurso era comercializado exclusivamente pela companhia Lobos do Inverno. Provavelmente importado, aquele objeto estava longe do alcance de pessoas comuns. Isso só podia significar que os atacantes tinham grande influência ou alguém poderoso agindo por trás deles.Quando Lionel ordenou que eu fosse para o esconderijo, não retruquei. Se permanecesse por perto, limitaria seus movimentos e acabaria atrapalhando. Se q
Mesmo com as lágrimas embaçando minha visão, procurei o olhar dele e encontrei não fúria, mas desespero. Seu semblante, quase sempre frio comigo, realmente vacilou. Sua respiração estava intensa, e seus lábios se moviam ligeiramente, como se quisesse dizer algo.— Não vou me arrepender de ter te afastado — declarou.Em seguida, tirou a mão da minha boca e apoiou ambas na parede atrás de mim. Seu rosto estava tão próximo ao meu que eu podia sentir sua respiração tocar minha pele. Mesmo afirmando que não se arrependia, havia um traço de culpa em seu semblante. Como era possível alguém se culpar e, ainda assim, não se arrepender? O que ele escondia de mim?— Você pode me odiar, e tem todo o direito, mas jamais vai se livrar de mim enquanto viver. Como sente tanta repulsa por mim e sempre me acusa de te forçar, a partir de hoje não vou te obrigar a fazer aquilo se não quiser. Em troca, deverá acatar minhas regras com obediência, ou retirarei essa promessa. Em algum momento, você ainda se
O primeiro dia no que podia ser chamado de uma prisão aberta foi como um raio de sol depois de uma tempestade. Após verificarmos as condições da casa e dos arredores, percebemos que, embora estivesse situada em zona urbana, era relativamente isolada, cercada por outras construções menores e abandonadas. Era difícil entender por que Oliver escolhera justamente aquele lugar, mas o fato é que aquilo nos concedia muito mais liberdade sem que parecesse estarmos fazendo algo suspeito.Depois de conversar com Lionel sobre como encenaríamos aquele teatro e sobre o que ele poderia dizer a Oliver, fiz um pedido sério. Eu não podia mais permanecer ociosa, e livros não me ajudariam a sobreviver naquela situação.— Por favor, quero que me treine.Sentia que precisava melhorar meu condicionamento físico e adquirir habilidades práticas reais. Sem minha loba e tendo de esconder meus poderes, tudo o que me restava era apostar no aprimoramento das minhas habilidades medíocres, algo que eu estava determ
Dito isso, Lionel sacou uma chave velha e abriu a porta daquela casa, deixando-me surpresa.— A casa é sua? — perguntei, espiando o interior antes de entrar.Embora a fachada externa fosse desleixada, a parte interna estava limpa e tinha um aspecto aconchegante. Diferente da mansão de Oliver, não havia luxos e extravagâncias, mas todo o essencial para se ter o conforto mínimo podia ser visto.— Não, essa casa pertence ao alfa — respondeu, fechando a porta logo após adentrarmos. Olhei-o, desconcertada, esperando por respostas.— Isso faz parte da conversa que tive com ele. Imagino que ele a tenha adquirido recentemente, já que não houve tempo de reformar. Quanto ao que há aqui dentro, ainda não conheço. Temos que descobrir juntos, mas vejo isso como algo bom — disse ele, soltando um riso divertido. — Você é realmente genial, alteza.— Sou, é? — perguntei, animada. Parecia que notícias boas vinham por aí.— Sim. Oliver ficou encurralado por sua causa. Quando entrei para conversar com el







