INICIAR SESIÓNEu só queria embarcar. Só isso. Uma viagem tranquila, uma fila normal, um check-in sem surpresas. Mas claro que o universo decidiu que hoje era um ótimo dia para testar minha paciência.
A fila de embarque serpenteava pelo corredor, gente suspirando, malas de rodinha travando, crianças chorando, aquele aroma inconfundível de café caro e desespero. Eu estava ali, na posição perfeita entre “estou quase entrando no avião” e “se alguém encostar essa mochila nas minhas costas de novo, eu mordo”. A funcionária do portão digitava com tanta força que o teclado parecia ter xingado a mãe dela. À minha frente, um homem reclamava ao telefone: — Como assim venderam mais passagens do que assentos? Eu paguei por isso, Regina! Eu paguei! Eu não pude evitar olhar. Superlotação? Overbooking? De novo? Ah, claro. Porque o caos me ama. Chegou minha vez. Entreguei meu bilhete com o melhor sorriso possível, tentando atrair sorte. Mas a mulher atrás do balcão franziu a testa assim que o código apareceu na tela. — Senhora… um instante, por favor. Pronto. Nunca é bom quando eles dizem isso. — Problema? — perguntei, já apertando os dedos no passaporte. Ela respirou fundo, tipo “meu Deus, isso vai render”. — O sistema… vendeu passagens demais para este voo. Parece que seu assento não está mais disponível. Eu pisquei. Uma. Duas. Três vezes. — Como assim “não está disponível”? Ele evaporou? Fugiu? Virou um Pokémon raro? Ela abriu a boca, mas antes que pudesse responder, outra funcionária correu até o balcão, murmurando “eles estão ficando agitados, precisamos resolver isso agora”. Eu olhei para trás — a fila fervia. Gente, reclamando, braços gesticulando, um homem já perguntando “cadê o gerente?”. Nada une tanto desconhecidos quanto uma injustiça coletiva. A funcionária do meu bilhete forçou um sorriso profissional, mas seus olhos gritavam “eu quero férias”. — Senhora, pode me acompanhar, por favor? Ótimo. Ou eu seria realocada para outro voo… ou deportada para o limbo dos passageiros problemáticos. Peguei minha mochila e segui pelas costas do balcão, ouvindo a intensidade da discussão aumentar. Elas me levaram até uma das mesas laterais. A nova funcionária — crachá dizendo Carla – Supervisora — assumiu o controle. — Olha, eu vou ser direta — ela disse, inclinando-se um pouco. — Tivemos um erro no sistema. Venderam mais vagas do que as disponíveis no voo. Isso está acontecendo com alguns passageiros, inclusive você. Respirei fundo. Até tentei manter a calma. — Ok… e o que vocês pretendem fazer? Carla olhou para a colega, depois para o corredor, onde um grupo começava a filmar com o celular. — Resolver isso rápido — respondeu ela, já digitando com velocidade absurda. — Antes que isso vire matéria no TikTok e a empresa receba dez processos. — Agradeço a sinceridade. — Sem rodeios — ela continuou —, você tinha passagem econômica, certo? Assenti. — Bom… não temos mais lugar na econômica. — Imagino — murmurei. — Então vamos te oferecer um upgrade para a executiva. Eu quase ri. Eu? Executiva? A pessoa que pagou tarifa promocional, levou lanche de casa e colecionou cupom para despachar mala? — Sério? — perguntei, desconfiada. — Com certeza. Assento maior, refeição completa, bebida liberada… — Ela suspirou, como se aquilo fosse um presente pessoal dela. — E… compensa toda a dor de cabeça que estamos dando. Eu mordi o lábio, tentando parecer contida. Por dentro, eu estava fazendo uma dancinha ridícula. — Certo… eu aceito. — Ótimo — disse ela, imprimindo o novo cartão de embarque como quem resolve um incêndio. — Agora corre, o embarque prioritário está abrindo. — Eu… tenho embarque prioritário agora? — Tem tudo agora — respondeu com um meio sorriso cansado. — Aproveite. E por favor… — Ela inclinou a cabeça para o corredor. — Não diga muito alto que ganhou upgrade. Ou teremos uma rebelião. Peguei o cartão e segui, lutando contra o impulso de correr e contra a vontade de cantar vitória na frente da fila revoltada. Quando cheguei à entrada da cabine, o funcionário olhou meu bilhete e imediatamente abriu espaço: — Seja bem-vinda, senhora. Executiva por aqui. Meu ego deu uma esticada. Entrei. O contraste foi quase doloroso de tão bonito. Poltronas grandes, gente calminha, luz ambiente azulada, aquele perfume de riqueza que parece envolver até o ar. Sentei-me no meu assento — que, honestamente, parecia um mini sofá — e tentei não parecer uma criança entrando na casa da Barbie. A comissária sorriu, educadíssima. — Aceita uma bebida de boas-vindas? Uma bebida de boas-vindas. “Boas-vindas”. Eu estava vivendo um sonho financiado pelo erro alheio. — Água, por favor — respondi, antes que meu cérebro falasse “champanhe” e eu derrubasse tudo no meu colo. Enquanto ela se afastava, olhei pela janela. Lá fora, eu conseguia ver parte da fila que ainda discutia. A voz elevada de alguém escapava pelo vidro quando a porta se abria para passageiros atrasados. Um homem perguntava quem ia pagar a noite de hotel, outra senhora exigia voar no colo do piloto, se fosse preciso. Por um segundo, senti uma pontada de culpa. Pequena. Minúscula. Um farelo de culpa. Mas sumiu rápido, substituída pelo conforto do assento reclinável. A comissária voltou com minha água. — Deseja ajuda com o assento? Ele tem algumas configurações. Eu apertei um botão e o assento começou a descer como uma cama de hospital de luxo. — Eu acho que dou conta — respondi, já brincando com os controles. Ela sorriu e seguiu atendendo os outros passageiros. Fechei os olhos por um momento, absorvendo o silêncio suave da cabine. Nenhuma mala batendo nas minhas pernas. Nenhum bebê gritando. Nenhum senhor discutindo com o W******p da família. Nada. Apenas… paz. E tudo porque o sistema decidiu enlouquecer hoje. Quando o comandante anunciou o fechamento das portas, eu soltei o ar devagar, finalmente relaxando. Não era esse o plano para minha manhã, mas definitivamente estava melhor do que o comum. A aeronave começou a se mover. Eu dei um último olhar para o cartão de embarque brilhando no meu colo. Executiva.“Obrigada, caos”, pensei, ajeitando a manta que eu nem sabia que vinha junto. Talvez o universo nem sempre esteja contra mim. Às vezes, ele só precisa causar uma confusão enorme antes de me dar um mimo inesperado. E quer saber? Eu aceito.Vinte anos depois.Não deveria ser possível, mas era. Eu, imortal, inalterada, observando filha tornar-se mulher. Não rainha ainda — Tristan e eu ainda reínos, ainda guiamos — mas herdeira preparada. Treinada. Livre.Libby tinha vinte anos, aparência de vinte e cinco, maturidade de quem carregava consciência expandida desde nascimento. Ela não era apenas Lycan. Era… interface. Ponto de conexão entre espécies, entre formas, entre possibilidades.E ela escolhera. Não rainha, não líder. Exploradora. Embaixadora de nova era, viajando entre territórios de rede e colmeia, humanos e sobrenaturais, antigos e modernos. Construindo pontes que ninguém antes imaginara.Eu estava no estúdio, pintando. Finalmente, obra que tentara toda vida: não memórias, não visões, mas essência de conexão. Tela que mudava conforme observador, mostrando não o que era, mas o que poderia ser.Tristan entrou, silencioso como sempre, mas eu sentia. Conexão que não enfraquecera em duas décadas, em duzentos anos de hist
O primeiro aniversário de Libby coincidiu com data que não deveria existir.Trinta e cinco anos desde meu nascimento como Yara. Em todas as vidas anteriores, não havia trinta e cinco anos. Ciclo sempre fechava antes.Eu estava viva. Imortal. Mãe. Rainha. Artista que pintava novamente, não memórias de vidas passadas, mas presente que finalmente tinha tempo de saborear.A festa era pequena. Intencionalmente. Não display de poder, mas celebração de intimidade. Lupo e alcateia, representados. Adriano, elegante, trazendo presente que não abri ainda. Morgana, ensinando Libby primeiro feitiço — não mágica real, apenas jogos de luz, wonder de criança. Serafina, visitando de território de interface, embaixadora que se tornara amiga.E Tristan, sempre, meu porto, minha paixão, meu parceiro.Libby andava agora, tropeçante, determinada. Falava poucas palavras, mas com intenção que impressionava. Conexão consciente, que Morgana confirmara: não apenas Lycan, não apenas imortal. Algo novo. Evolução
As contrações começaram ao amanhecer.Não emergência — Lycans não trabalhavam como humanos. Processo era longo, controlado, quase… meditativo. Mas intenso. Transformador.Eu estava no quarto que preparamos, luz suave, música que escolhi, presenças que solicitei. Morgana, como conselheira mágica. Healer Lycan de confiança. E Tristan, sempre, ancoragem constante.— Rede está… vibrando — Morgana observou, surpresa. — Não apenas você. Todos os conectados. Sentem. Respondem.Eu fechei os olhos, confirmando. Sim, havia algo. Conexão amplificada, não por magia, por… evento. Nascimento que era mais que físico. Era símbolo, promessa cumprida, futuro declarado.— Ela está conectando — eu disse, entre contrações. — Antes mesmo de nascer. Sentindo rede. Buscando… pertencimento.Tristan segurou minha mão, força que não machucava, apenas sustentava.— Como você — ele disse. — Na primeira vida. Buscando, sempre.Eu ri, apesar de dor crescente.— E encontrando — eu completei. — Sempre encontrando voc
O conselho se reuniu em formato novo.Não bunker, não sala de guerra. Jardim da villa, sob árvores que Tristan plantara com próprias mãos. Cadeiras em círculo desigual, não protocolar. Crianças permitidas — filhos de Lycans, filhotes de bruxas, jovens vampiros aprendendo controle, crianças humanas que cresciam sabendo.Eu estava visivelmente grávida agora, seis meses, barriga que não escondia mais. E não queria esconder. Era declaração, símbolo, promessa.— A colmeia solicitou expansão de território de interface — Adriano relatou, elegância habitual mas relaxada. — Áreas onde espécies podem coexistir, aprender uma com outra. Não conversão, não dominação. Experimentação.— E nós? — Lupo perguntou, filhote ao colo, instintos protetores evidentes.— Concordamos — eu respondi. — Com limites. Com supervisão. Com voluntariedade absoluta.Morgana assentiu, anciã que finalmente parecia… contente.— Serafina negocia bem — ela admitiu. — Melhor do que esperávamos. Eles a respeitam, de certa for
Eu acordei sabendo qual era o dia.Trinta e quatro anos desde meu nascimento como Yara. Sete vidas anteriores, cada uma terminando nesta data exata. Ciclo que Despina criara, maldição que se tornara bênção, finalmente… quebrado.Tristan dormia ao meu lado, respiração profunda, confiança absoluta mesmo em vulnerabilidade. Eu observei-o, mão descansando sobre barriga que crescia — quatro meses agora, nossa primeira filha, primeira herdeira de dois mundos.Eu deveria estar morta.Em vez disso, estava viva. Mais que viva — imortal. Lycan, como ele. Rainha, como ele. Mãe, como nunca antes.Levantei devagar, não acordando-o. Precisava deste momento sozinha. Confrontar fantasmas que apenas eu podia ver.O terraço da nova casa — não mansão imponente, mas villa restaurada nas colinas de Roma, espaço que escolhemos juntos — recebeu-me com luz da manhã. Outono, novamente. Ciclos da natureza continuando, indiferentes aos meus dramas pessoais.Eu toquei pedra fria do parapeito, ancorando-me no pre
Serafina voltou. Não resgatada. Não convertida de volta. Simplesmente... apareceu. No centro de Roma, em praça pública, em pleno dia. Esperando. Eu senti antes de ver. Fio que pensara cortado, pulsando novamente. Diferente. Alterado. Mas genuinamente ela. Tristan não queria que eu fosse. Adriano aconselhava contra. Até Morgana, usualmente pragmática, via armadilha. Eu fui. Sozinha. Sem rede amplificando, sem proteção de lycans ou magia. Apenas eu, caminhando para o que poderia ser minha destruição. Ela estava diferente. Mesmo físicamente. Postura mais ereta, olhos mais... múltiplos. Não literalmente, mas sensação de ver através dela, não apenas para ela. — Você veio — ela disse. Não acusação. Constatação. — Você sabia que viria — eu respondi. Não pergunta. — Sabia. Porque você é quem é. Quem escolheu ser. Confiar, mesmo quando insensato. Eu esperei. Não perguntei o que queria. Não exigi explicação. Apenas... presença. — Eles me mostraram — ela disse finalmente. —







