Compartilhar

A Marca Dos Destinados

Autor: FannyMotta
last update Data de publicação: 2025-06-15 08:09:47

As solas das botas de Dante ressoam contra o asfalto molhado. Ele corre como se o inferno estivesse em seu encalço — o que, pela sua concepção, está. As ruas estão vazias, o céu carregado ameaça desabar sobre a cidade a qualquer instante.

Ele não olha para trás. Não precisa.

Seus pulmões ardem, mas não pelo esforço.

Cada passo parece mais pesado, como se algo invisível o puxasse, queimando de dentro para fora.

É o sangue que começa a ferver.

É o instinto que ruge.

É o castigo reservado para os machos finalmente sendo cobrado ao Alfa fujão.

Ele dobra a esquina de um beco deserto e mergulha na escuridão como se quisesse desaparecer nela.

Mas o alivio do vento frio não vem.

Pelo contrário.

O calor que se espalha por seu corpo é insuportável. Ardente. Como se cada nervo gritasse, protestando com uma dor ainda pior do que quando duelava contra outras lycans pela defesa de seu território ou por competição.

As mãos tremem. Os olhos escurecem ainda mais, quase não dando para diferenciar as pupilas das íris. Ele crava as mãos na parede de concreto úmido e fecha os olhos, tentando se manter sobre controle, tentando rejeitar a ligação, mas é inútil.

Algo o consome, o dominando como nada antes, ainda mais forte do que a dominância de um Genuíno Alfa.

O cheiro dela ainda está em suas narinas.

Doce. Forte. Inaceitável.

Ele ofega.

— Merda... — rosna entre os dentes.

Se encosta em uma parede suja, pichada, o peito subindo e descendo com dificuldade. O suor escorre pelas têmporas, mas é quente demais, como se estivesse em chamas por dentro, evaporando antes mesmo de escorrer até seu queixo.

— Não... — rosna, cravando as unhas no próprio peito.

Kaito finalmente vira a esquina, encontrando seu o Alfa. Ele para, atordoando com o que vê.

— Alfa? — Pergunta, sem conseguir esconder a tensão na voz.

Dante cai de joelhos. Suas mãos se cravam no chão de concreto rachado. As unhas crescem, arranhando o chão com estalos secos.

Um rosnado de dor escapa de sua garganta. Ele rasga a camisa com as garras, revelando os músculos tensos e a pele marcada pelo tempo e pelas batalhas.

— Não. Não! — sua voz mistura fúria e desespero.

Seu corpo começa a tremer descontroladamente. A pele onde a marca nasce pulsa com uma luz tênue, prateada, que vai aumentando de intensidade. Ele tenta lutar. Tenta sufocar.

A dor é lancinante.

Como se ferro em brasa estivesse sendo pressionado contra a pele. Como se a alma estivesse sendo marcada junto com o corpo.

Seus músculos se contraem. Os olhos, outrora negros como o breu da noite, ficam dourados completamente. Tanto ele quanto seu lobo recebendo a marca.

Um gruindo abafado escapa de sua garganta. Dante não quer gritar, mas a dor o vence.

Kaito arregala os olhos, nunca antes havia visto pessoalmente um macho encontrando sua destinada, mas Dante o havia contado o que aconteceria quando o dia chegasse.

— O quê...? Não... — Ele se aproxima devagar. — Mas... você não disse que já teve uma companheira? Como... quem...

Kaito se sente tonto por um momento, nada fazendo sentido em sua mente. Quando era apenas um filhote, e conheceu o lycan que custou a aceitar como Alfa, Dante havia lhe contato ser um viúvo sobrevivente, que já havia passado pelo processo, então...

Por quê?

— Não... isso não é possível... — Kaito murmura, dando um passo para trás.

Dante ouve. Cada palavra.

Mas não pode responder.

Ele apenas range os dentes com tanta força que a mandíbula parece prestes a se partir.

A marca se forma devagar, como se um dedo de prata estivesse desenhando a ligação eterna sobre sua carne.

Ele cai para frente, apoiando-se nas mãos.

Dante grita. Um som primal, selvagem, cheio de fúria e dor. O eco se perde entre as paredes do beco, mas a fúria permanece. O chão frio começa a rachar ao redor dele, o concreto cedendo sob a alta temperatura que irradia de seu corpo. O suor se transforma em vapor. O cheiro é o de magia antiga, de vínculo, de laço sagrado, de carne queimada.

— Isso é... realmente é a marca dos companheiros destinados — Kaito finalmente diz em voz alta, como se precisasse ouvir para acreditar.

O silêncio se instala por um segundo.

Depois, Dante ri.

Um riso amargo. Quase insano.

Ele tenta se levantar, cambaleia, mas não desiste. O lobo dentro dele uiva, afoito para se aproximar da sua fêmea, alimenta-la, protege-la, acasalar com ela pelo restos de suas vidas.

Dante rosna, furioso com as intenções de seu animal interior.

Eles tinham apenas uma companheira.

Apenas uma.

E ela se foi.

— A deusa enlouqueceu... — ele murmura, balançado a cabeça de forma negativa.

Kaito se aproxima novamente.

— Alfa...

— Eu fugi — Dante rosna, Kaito recua um passo. — Eu vivi no mundo humano para fugir disso!

— Fugiu? Mas... — Kaito se cala, respirando fundo. Isso não é o mais importante no momento. — Então um lycan pode ter duas companheiras destinadas? — Ele questiona, as sobrancelhas franzidas. — Mas, havia apenas uma fêmea por quem cruzamos hoje...

O Alfa vira o rosto, as pupilas dilatadas, os músculos da mandíbula se contraindo.

— Humana — ele cospe a palavra como se tentasse repelir um veneno forçado em sua boca.

Já não bastava o Genuíno Alfa ser destinado a uma humana, que tomou como escrava através de uma aposta, agora ele também estava entrelaçado a uma?

O que diabos a deusa da lua tem em mente? — Dante se questiona, acreditando que ela está zombando dele pela segunda vez em sua vida. Ele leva a mão ao pescoço, sentindo a pele ainda quente, marcada, selada.

Kaito engole seco.

— Isso... não faz sentido, esse destino...

— Isso não é destino, Kaito, é punição.

O ômega não sabe o que dizer.

Ele apenas observa a figura do Alfa diante dele — quebrado, furioso, marcado. Não é o Dante implacável de antes. É outro. Mais perigoso. Mais instável.

A imagem da humana surge nítida na mente de Dante.

Ela parecia reconhece-lo, ela sentiu a ligação sendo formanda assim como ele?

— Essa é sua ideia de justiça, deusa? — ele murmura, os olhos fixos no céu nublado. — Foi por que eu não consegui salvar a minha companheira e os meus filhotes? Por que me deixei ser enganado? Por que fui fraco? É por isso que me está me dando uma humana? Alguém que não faz parte do nosso mundo? Não posso aceitar isso...

A chuva finalmente cai sobre eles, não começa fina, as gotas caem grossas e geladas. A chuva ficando mais densa a cada instante, revolta. Como se transmitisse os próprios sentimentos da deusa.

— Foda-seee — Dante rosna, sentindo-se como um animal encurralado.

O lobo, inquieto.

O homem, em guerra.

Dante fecha os olhos, e o rosto dela invade sua mente.

A humana.

A maldita humana.

Seus olhos, sua voz, o toque da mão sobre sua jaqueta.

Ele sente tudo de novo. O cheiro dela ainda está preso em seu nariz.

E é isso que o enlouquece.

— Precisamos encontra-la, Kaito.

— O que fará, Alfa?

— Rejeita-la.

Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App

Último capítulo

  • A Humana Leiloada do Detetive Alfa    O Fim

    Celina não consegue obter nenhum informação de Kaito sobre o que Dante havia feito com ela. No dia seguinte, mas calma, Celina conversa com Kaito e ele conta a ela verdade sobre si mesmo: 1 – ele é órfão. 2 – foi encontrado e adotado por Dante. – 3 – nunca conheceu o pai, mas sabe que fugiram.Celina é levada para a casa que Dante comprou mesmo a contragosto, ela volta para a delegacia e eles vão numa missão, ela tenta puxar conversa mais Dante é invasivo e as vezes só a ignora mesmo. Eles estão disfarçado, mas os caras no cassino tentam forçar as coisas com Celina ( ela está disfarçada de garçonete), Dante não gosta e arruma briga, tiros começam a ser disparado e ele usa o próprio corpo para protege-la. Ela se sente culpa e questiona porque ele fez isso, ele responde que é o dever no homem proteger sua parceira e sorrir.Dante se recusa a ir ao hospital e Celina o leva para casa. Lá ele se tranca no quarto com Kaito e finge gritar, para dizer que está sentindo dor.Celina não vai embo

  • A Humana Leiloada do Detetive Alfa     O Vazio

    O aroma suave de comida quente invade o quarto antes mesmo que Celina consiga abrir os olhos. É como se um fio invisível a puxasse de volta à consciência. As pálpebras pesadas protestam contra a luz que atravessa a pele, mas, lentamente, ela força um estreito feixe de visão.Tenta se erguer.O movimento é um erro.Uma onda de tontura atinge sua cabeça como um golpe súbito, fazendo suas vistas se embasarem até que tudo se torne borrões indecifráveis. Ela inspira fundo, prendendo o ar nos pulmões para não ceder à sensação de que vai desmaiar de novo.— Melhor continuar deitada por mais algum tempo — a voz de Kaito ecoa no cômodo.Ela vira o rosto na direção dele, as pálpebras pesadas demais para reagirem com rapidez, leva ainda alguns segundos para que as formas se tornem nítidas. O rapaz está sentado na beira da cama, a expressão calma demais para o incômodo que ela sente.— Eu… não morri — murmura, a voz áspera, arranhando por dentro.— Não, você não morreu — ele confirma, colocando um

  • A Humana Leiloada do Detetive Alfa    Vivos

    — Não. Vou. Ceder — Dante rosnar, finalmente terminando de retalhar as marcas dos laços do destino em seus pescoços, rompendo de uma vez o que os une.A dor vem como lâminas em brasa cortando a carne e o espírito ao mesmo tempo, subindo pela espinha, rasgando cada nervo, cada músculo. Não é só física. É como se alguém estivesse arrancando um pedaço dele com as próprias mãos. O peito arde, o coração luta para bater, e o ar não entra direito nos pulmões.ele sente cada pedaço da ligação se partindo, como tecido sendo rasgado à força. Um grito horripilante rasga a garganta de Dante, Celina tem pequenos espasmos, quase imperceptíveis por causa do Adormecida que a deixa em coma profundo, desligando quase que completamente o seu corpo.Dante cai de joelhos no chão, o som dos ossos contra o piso ecoando com o som do ultimo martelo, selando a sentença.O lobo uiva dentro dele, um som mental que ressoa como agonia pura. Ele olha para Celina, onde permanece inconsciente sobre a cama, os gritos d

  • A Humana Leiloada do Detetive Alfa    Na Pequena Matilha

    — Filho próximo da deusa da lua — a voz de Dante sai rouca, carregada de dor e autoridade, mas também imbuída de uma tristeza que ele não consegue esconder. — Eu, Dante Campbell, Alfa do território Markab, renuncio ao vínculo que me une a esta humana.As palavras soam como um feitiço quebrado, uma sentença dada, mas o ar ao redor deles parece se comprimir. Ele sente como se cada palavra fosse um peso crescente, um fardo sobre seus ombros, arrastando sua alma para um abismo do qual ele já não tem certeza se conseguirá sair. O ar fica mais denso, pesado como chumbo, e parece que a própria atmosfera se transforma, se contrai. A marca no pescoço de Celina, a ligação visível que os une, pulsa de forma quase visível sob as garras de Dante. Como se reagisse às suas palavras, como se estivesse viva, sentindo o impacto do que ele acabara de dizer.Dante, porém, não se move. Ele a encara, a força de seu olhar contradizendo a vulnerabilidade que ele sente por dentro. O lobo, o animal dentro dele,

  • A Humana Leiloada do Detetive Alfa    Contra Seu Lobo

    Dante observa a mulher escolhida pela deusa da lua se perder na névoa de seus próprios pensamentos, sem poder fazer nada. O silêncio na cama entre eles é pesado e opressor. Ela, sua companheira destinada, está ali, tão vulnerável, sem saber de tudo o que está por vir. Desde que a viu pela primeira vez, ela sempre se mostrou forte, com uma coragem que ele não imaginava encontrar em uma humana. Digna. Perfeita. Se não fosse humana, ela teria sido uma Velut Luna impecável. Ele fecha os olhos por um momento, o peso da realidade esmaga sua mente. Ele queria não a ter conhecido, não ter sido tão vulnerável a ela. Mas o destino resolve tirar com a cara dele e mostrar que é sim possível dar mais sofrimento a um ser que não deveria sentir mais nada. — Eu teria que te rejeitar de qualquer forma — ele diz em voz baixa, como se ela pudesse ouvi-lo, como se suas palavras pudessem atingir a consciência dela mesmo no sono profundo. Nada iria alterar essa realidade, ainda mais se ele não tivesse

  • A Humana Leiloada do Detetive Alfa    Vazio Escuro

    O som do chuveiro cessa, deixando o ambiente em um silêncio abafado, preenchido apenas pelo som distante de carros passando na rua e o tique-taque discreto do relógio de parede. Minutos depois, a porta do banheiro se abre com um rangido suave. Celina surge no quarto desajeitadamente prendendo seus cabelos no rabo de cavalo alto, alguns fios rebeldes escapam, caindo soltos por seu rosto. A pele brilha com o calor do banho recente, o rosto corado, e o uniforme azul da delegacia está apenas parcialmente abotoadoEla mal dá dois passos para dentro do quarto quando Dante se aproxima com passos silenciosos. Não há palavras, não há um aviso prévio. Apenas ação.Ele a envolve em um abraço apertado, o corpo grande, quente e sólido como uma muralha de proteção. O calor dele a engole por completo, e por um instante ela se sente pequena dentro daquele abraço. Pequena... e estranhamente vulnerável.— Ei… — ela diz, surpresa, a voz baixa, quase um riso nervoso, mas não tenta se afastar. As mãos dela

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status