LOGINLonge dali, na casa de Henry, a água quente escorria pelos ombros dele enquanto o vapor subia lento pelo banheiro, mas a imagem daquela fêmea de vestido branco, cabelos negros e olhos marcantes continuava nítida, queimando em sua mente.
Um sorriso involuntário, fascinado e suave, desenhou-se em seus lábios, quase sem permissão.
— Você gostou dela, não foi? — ecoou a voz grave e instintiva de Luke, seu lobo interior, ressoando fundo em sua consciência.
Henry desligou o registro, secando o rosto com uma toalha enquanto olhava para o próprio reflexo no vidro embaçado.
— Você viu o olhar dela, Luke? O quanto ela é bonita? Aquele olhar... eu me perderia naqueles olhos azuis pelo resto da vida.
— Eu sei. Eu também gostei dela. Ela é especial. — Luke fez uma pausa, e quando voltou a falar, o tom era mais sério. — A nossa alma estremeceu quando ela virou com aquele amuleto nas mãos. O seu coração bateu de um jeito diferente, nunca tinha batido assim antes, foi mais profundo.
— Eu também percebi... Só que não entendi direito o significado daquele ritual deles. Estávamos longe demais no salão para ouvir o que o Sábio dizia — murmurou Henry, franzindo a testa enquanto vestia uma calça de moletom e caminhava para o quarto.
— Por que você não vai atrás dela amanhã na cidade? — insistiu Luke, a urgência pulsando no peito de ambos. — Você sabe muito bem onde fica a mansão do líder da matilha da Asa. É só dar dois passos até lá.
Henry parou no meio do quarto, balançando a cabeça com um misto de cautela e dúvida.
— Ela acabou de fazer dezoito anos hoje, Luke. Acabou de passar pela cerimônia de maioridade. Ela deve estar confusa, procurando pelo verdadeiro companheiro de destino dela. Eu não quero forçar a barra.
— E quem disse que eu me importo com o destino escrito em runas? — retrucou o lobo, a possessividade lupina roncando na garganta de Henry. — Eu não me importo em ser o companheiro de marcação dela, se for preciso.
— Não se importa mesmo? — Henry parou, surpreso com a própria certeza vinda de dentro de si mesmo. Um sorriso de canto surgiu, sentindo o calor daquela audácia correr em suas veias.
— Não. Ela é diferente das outras fêmeas. Você também sentiu. Por ela eu posso esquecer essa ideia e não esperar mais por nenhuma loba aleatória.
— Concordo. Só com ela eu senti essa vontade de não esperar a nossa companheira de destino.
— Então vamos lá amanhã?
— Vamos... Amanhã bem cedo nós vamos lá — decidiu Henry, deitando-se na cama e cruzando os braços sob a nuca. — Mas vamos com calma, vamos observar primeiro, entender o terreno antes de falar de compromisso.
— Você de novo com essa cautela irritante...— resmungou Luke, quase rindo.
— Cala boca, Luke.
Henry fechou os olhos, mas o sono demorou a vir, sua mente continuava presa nos traços daquela loba que tinha virado seu mundo do avesso.
[...]
Enquanto isso, no quarto silencioso da mansão da matilha da Asa, Annaluz trancou a porta. Ela andava de um lado para o outro, o vestido branco farfalhando contra o assoalho, o peito arfando de uma excitação nervosa. Parou diante do espelho, tocando o anel de noivado que reluzia em seu dedo. Annaluz suspirava, o peito ainda quente de emoção.
— Mia... Você viu? — sussurrou ela para a própria reflexão, a voz trêmula de uma alegria eufórica. — Ele cumpriu a promessa. Agora somos noivos. Eu sou a noiva do Valentin!
A resposta de Mia veio mais contida, cautelosa.
— Luz... Eu sei que você quer acreditar nisso e vou aceitar ser a companheira de marcação apenas por causa das suas escolhas, — murmurou Mia, cansada e distante. — Mas você viu muito bem para onde o fio do amuleto estava indo. O nosso verdadeiro companheiro de destino estava lá na cerimônia, escondido na multidão. Isso quer dizer que ele nos conhece, que o nosso sangue o reconheceu.
Annaluz fechou os olhos com força, balançando a cabeça em negação, tentando abafar a própria intuição.
— Bobagem, Mia! O fio parou em Valentin, todo mundo viu no salão! Foi nele que a luz ancorou. Ele é o nosso companheiro de destino, sim.
No recôndito de sua mente, a voz de sua loba interior soou fria, cortando a euforia com a precisão de uma lâmina.
— Eu não sei... — insistiu a loba, a voz carregada de uma tristeza profunda, quase hesitante. — O meu instinto está vazio. Eu não sinto a conexão sagrada de destino com o Valentin. O peito dele estava frio quando nos abraçamos.
Annaluz suspirou, sentando na beirada da cama, os dedos brincando distraidamente com o anel que o pai tinha dado mais cedo.
— Chega, Mia! Vá descansar — cortou Annaluz, elevando a voz num sussurro áspero, tentando estancar a brecha de dúvida que rasgava seu peito. — Amanhã ele vem jantar aqui em casa para fecharmos os preparativos do casamento. Valentin quer casar rápido, quer tudo pronto antes da próxima lua. É isso o que importa.
Ela se deitou, os olhos fixos no teto, o coração ainda acelerado pela noite, mas em algum canto silencioso da mente, a dúvida de Mia insistia em ecoar, mesmo que ela se recusasse a escutar.
Um silêncio pesado instalou-se na mente de Annaluz, até que a loba respondeu, resignada e distante.
— Boa noite, Annaluz.
— Boa noite, Mia — murmurou ela para o vazio do quarto, abraçando o próprio corpo, sentindo o frio do anel de noivado congelar contra a sua pele enquanto a noite caía de vez sobre a capital.
— Pronto. Agora que tudo foi resolvido com a Marta, já podemos ir embora em paz — disse Henry, respirando um pouco mais aliviado ao se aproximarem de onde Liam e Oscar esperavam.Annaluz parou de repente, cruzando os braços com firmeza.— Ir embora para onde, Henry?— Para a nossa casa, é claro. Onde mais seria?— Eu não vou para a sua casa. Vou passar na minha antiga casa primeiro — retrucou ela, irredutível.Henry arregalou os olhos, sentindo o sangue gelar-lhe nas veias.— O quê?! Você perdeu o juízo, Annaluz?! Ir para a sua casa agora é extremamente arriscado, a Marta disse que aquilo está cercado! Você sabe perfeitamente disso.— Eu preciso ir buscar o meu material pessoal de parteira, além de um conjunto de ervas medicinais específicas que não existem em lugar nenhum da vila — eu já me informei — argumentou ela, com o olhar teimoso.— Mesmo assim...— Mesmo assim o quê, Henry?! Se quiser ir embora, pode ir sozinho! Se decidir ficar e vir comigo, me faz o favor de não me encher o
Annaluz chegou ofegante ao portão da casa de Marta, sentindo a marca em seu ombro latejar como brasa viva sob a jaqueta. Girou nos calcanhares e cravou os olhos azuis em Henry, que havia estacionado a poucos metros de distância.— Você vai continuar me seguindo?Henry não recuou um centímetro. Parou de frente para ela, a postura inabalável de um verdadeiro protetor.— Vou. Eu não vou sair do seu lado.Annaluz revirou os olhos, soltando um suspiro longo.— Você é um chato, sabia?— Eu sei. Já me disseram isso algumas vezes — ele rebateu, sem alterar o tom, a voz grave soando firme na rua deserta. — E, mesmo assim, você não vai a lugar nenhum sem eu estar por perto. Acostume-se.Ela estreitou os olhos, avaliando a teimosia irredutível do lobo à sua frente. Sabia que não ganharia aquela discussão, e o tempo corria contra ela.— Tá. Se vai ser minha sombra, então preste bem atenção e fique calado. Não pergunta nada, não questiona nada e, se possível, nem respira. Entendido?Um sorriso de
Annaluz chegou à capital com o coração acelerado, sentindo a marca no ombro pulsar em brasa viva. Seguiu por um caminho mais discreto, evitando as ruas principais, até finalmente avistar a casa de Marta ao longe.Ao chegar à esquina da rua onde ficava a residência de Marta, Annaluz reduziu a velocidade e desligou o motor da moto a alguma distância, guiando-a silenciosamente até escondê-la atrás de uma frondosa árvore. Ali parada na penumbra, ela permaneceu em absoluto silêncio, observando a fachada da casa e tentando regular a respiração ofegante. No entanto, o alívio durou poucos segundos. Um cheiro inconfundível e marcante de hortelã fresca cortou a brisa da noite, o aroma de Henry.Um calafrio percorreu a espinha. Percebendo que tinha sido alcançada com uma rapidez assustadora, Annaluz deu meia-volta de imediato e começou a caminhar a passos largos e apressados pela calçada, na esperança de o despistar antes que ele a visse. Mas, antes mesmo que pudesse dar mais do que alguns passo
A noite já havia caído por completo, vestindo a floresta e a casa com um manto de sombras densas e silenciosas quando os faróis do carro de Henry iluminaram a entrada da propriedade. Ele regressava exausto, com o peso de um dia inteiro passado em voltas e frustrações, mas com uma prioridade clara na mente, encontrar Annaluz.Assim que entrou em casa, subiu as escadas a passos firmes e parou em frente à porta do quarto dela. Bateu de leve com os dedos na madeira, esperando alguns segundos até ouvir o som arrastado de passos lá dentro. A porta abriu-se lentamente, revelando Annaluz com um semblante fechado, distante e revestido de uma muralha de gelo.— Annaluz... — começou ele, a voz carregada de genuína preocupação. — Como você está? Precisa de alguma coisa? Conseguiu comer algo enquanto eu estive fora?Ela desviou o olhar por um segundo, mantendo os braços cruzados defensivamente contra o peito.— Está tudo bem comigo. Não preciso de nada, obrigada.Ele franziu a testa, notando a man
Henry saiu de casa logo após o café da manhã, tomado por uma determinação férrea. Ele precisava falar com o pai o mais rápido possível para traçarem o plano de viagem e levarem Annaluz até a capital para encontrar Marta. Antes de pegar as chaves do carro, ele aproximou-se dela na sala, segurou de leve nos ombros dela e disse com o olhar firme. — Annaluz, eu sei que nós temos uma conversa pendente e séria para terminar, mas agora a nossa prioridade é resolver a questão da sua marca e salvar a sua vida. Depois disso, vamos ter nossa conversa definitiva. Pode ser? Annaluz fitou-o, sentindo o peito aquecer com o desespero protetor dele, e assentiu com um meio sorriso. — Está bem... Combinado. — Ótimo. Eu vou falar com o meu pai agora mesmo, e assim que tiver uma resposta concreta sobre a segurança da estrada, eu aviso você — prometeu Henry. Inclinando-se rapidamente antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa, ele depositou um beijo carinhoso no rosto dela e saiu apressado, batendo
Quando a luz clara da manhã começou a banhar a casa através das frestas das cortinas, Henry despertou. Ao abrir os olhos, percebeu que o lado da cama estava vazio, Annaluz já tinha acordado e saído. Ele levantou-se com calma, seguiu em direção ao banheiro para fazer a sua higiene pessoal e, ao passar pelo corredor, deu uma espiada rápida no quarto dela, constatando que o aposento estava vazio. Desceu as escadas em direção ao piso inferior e, ao aproximar-se da cozinha, encontrou-a ali. Annaluz movia-se com cuidado, organizando os pratos e as xícaras sobre a mesa para o café da manhã. — Bom dia, vida — ele disse, o sorriso surgindo naturalmente ao aproximar-se dela. Annaluz sobressaltou-se levemente, desviando o olhar com um rubor evidente nas bochechas. — Bom... Bom dia, Henry. — a voz dela saiu baixa, meio envergonhada. Observando a postura contida dela, Henry franziu a testa de leve. — Está tudo bem com você? Conseguiu descansar depois de tudo o que aconteceu esta madrugada? E







