FAZER LOGINElisie Charpentier
Dois corpos mortos numa sala de jantar. Dois!
Eu vejo sangue, sinto o cheiro de sangue e o gosto também. É uma sensação horrenda que não dá para descrever. O meu corpo inteiro treme por ver isso tão de perto e também por pensar que posso ser a próxima a ser morta.
Acho que não pensei direito sobre revelar tudo.
Eu poderia ter mandado as fotos de outra forma. Enviado de forma anônima, pagado alguém para entregar ou qualquer outra coisa. Deixei a pressa me dominar e deu nisso.
E gora? O que será de mim nessa noite?
Lucien limpa a mão no lenço que pega da mesa, como se tivesse apenas derramado vinho. Depois guarda a arma dentro da roupa, ajeita o terno e vira o rosto para mim. Ele não pisca, não hesita e não demonstra nada. Ele é neutro demais, camuflado demais e por isso temo por tudo.
Eu sinto minha garganta fechar e nada no meu corpo obedece.
Ele dá dois passos na minha direção.
Meu corpo reage antes da minha mente, mas a reação é apenas a tremedeira. Eu tremo inteira. Da nuca aos pés.
E mesmo assim, tento ao menos falar para me defender.
— Eu nunca… nunca traí o meu marido com ninguém. — A minha voz falha, mas eu continuo. — Eu sempre fui fiel. Aguentei tudo. — Eu pigarreio e ele me continua me olhando firme. — As ameaças, as traições dele, a solidão, a humilhação… tudo. E-eu só queria que ele pagasse pelo que fez. Mas eu… eu nunca cometi erro algum. Nunca!
Lucien para na minha frente.
— Foram os... os meus pais que decidiram sobre o casamento. E-eu não pude decidir nada e me casei depois deles morrerem. Mas, mesmo assim, eu nunca feri à aliança. — Digo a ele. — Foram... cinco anos de luta silenciosa. Mas, q-quando eu vi que a esposa do Don estava no meio, eu não... podia ficar calada. Eu sempre fiz tudo certo.
Ele me observa por longos segundos. Além de me olhar nos olhos, ele me olha toda.
Então, ele abre a boca de forma quase imperceptível.
— Eu sei. — Ele diz.
Eu pisco.
Eu não entendo.
— Como…?
— Há dias eu observava sua casa... de fora e por dentro. — Ele diz como se fosse a coisa mais banal do mundo. — Quando vi as contas em vermelho do Henri, esbanjando nos meus bordéis, consumindo tudo e agindo como dono do mundo sem pagar, eu quis saber o que ele andava fazendo. — Ele fala numa enorme calmaria. — Uma das suas empregadas é minha informante. Ela me contou que você nunca saía. — Eu abro a boca em choque. — Que nunca recebia visitas masculinas ou... qualquer outra. Que cuidava da casa. Que era… humana demais para esse verme. Que ouvia humilhações, que jamais revidava... nem tinha voz na casa. — Eu ouço em choque total. — Que ele sempre estava fora, comendo qualquer uma por aí e sei que até o drogava para ele pensar que ia pra cama com você.
Eu sinto meu estômago afundar.
Eu estava sendo vigiada. Vigiada dentro da minha própria casa!
Eu não fazia ideia.
— Pelo menos… — Eu digo, sem ar. — Pelo menos nós dois nos livramos de pessoas rüins. Eu… eu já vivi dois infernos longos, então... e-eu só quero seguir minha vida agora. E-eu... eu preciso ir e...
E então…
Ele sorri.
O primeiro sorriso que eu vejo no rosto dele. E é pior do que a frieza. É um sorriso macabrö demais, um sorriso de poder que eu não conheço.
Quando acho que não tem mais nada, penso que é melhor eu ir. Não quero ficar vendo esses corpos no chão, mortos e com esse cheiro de sangue no ar.
Eu me viro para ir embora, mas ele pigarreia de uma forma tão forte que eu paro no mesmo segundo.
— Você não vai a lugar algum, Elisie.
Eu giro de volta, confusa.
— O que… o que quer dizer?
Lucien dá um passo, me dominando pela presença, pela altura, pela autoridade que vibra no ar. Ele é muito maior do que eu. É forte demais e aposto que ele pode me matar com apenas um golpe nada elaborado.
— Você pertence a mim, agora!
Meus lábios se abrem num choque seco.
Meu coração para.
— Nós vamos nos casar! — Ele diz, firme, sem espaço para discussão. — Em alguns dias. Eu não posso ficar sem esposa e você não pode ficar viúva sem filhos... são as leis!
Eu sinto minhas pernas esvaziarem.
Lucien inclina a cabeça, analisa minha reação e chega bem mais perto do meu rosto.
— Seja bem-vinda à sua nova casa. Será uma Bellamy em breve!
Ele passa por mim, como se tivesse decidido meu destino com a mesma facilidade com que decidiu duas mortes há pouco.
E eu fico ali, paralisada.
Tentando entender se realmente ouvi… aquilo. E se eu ainda tenho vida própria, ou se, a partir de agora, eu sou só uma propriedade do Don.
Isso não pode estar acontecendo!
Elisie BellamyVoltar para casa nunca pareceu algo tão precioso.Enquanto o carro atravessa as ruas iluminadas da cidade, eu continuo com Fabian protegido em meus braços e sinto meu corpo inteiro finalmente relaxar depois da tensão da última hora. Lucien cumpriu exatamente o que prometeu.Uma hora.Foi só isso.Uma hora inteira sendo observada por dezenas de homens perigosos, chefes de famílias, aliados e membros da máfia francesa que encaravam o meu filho como o futuro chefe da organização. E agora acabou. Nós estamos indo para casa.Finalmente.Apoio a cabeça no banco enquanto observo Fabian dormindo tranquilamente enrolado na manta azul-clara. Ele sequer imagina toda a grandiosidade que existe ao redor do seu nome agora.Vincent dirige o carro pela avenida praticamente vazia e Louis está sentado no banco do passageiro, olhando distraidamente para fora da janela. Lucien está ao meu lado e uma de suas mãos permanece repousada sobre a minha coxa desde que saímos da sede.É como se ele
Lucien Bellamy – Um mês depoisO grande dia chegou.Hoje a máfia inteira irá conhecer o meu filho e reconhecer que temos um herdeiro legítimo para o comando da organização. Meu filho já tem um mês e duas semanas de vida e está a cada dia mais forte e mais perfeito. Sei que parece óbvio vindo de mim, mas é um fato incontestável.Meu menino é perfeito e a cada dia mais parecido comigo.Essas semanas sendo pai abriram os meus olhos de uma forma inexplicável e que me sinto moldado. Sou um novo homem. Me sinto diferente de tudo que já fui e hoje eu conheço de forma concreta a minha força... e a minha fraqueza. São eles. Elisie e Fabian são os responsáveis por eu ser quem eu sou hoje e não troco nada do que tenho.Nada.Minha casa se tornou um verdadeiro local blindado de todas as formas e ninguém chega perto sem a minha autorização. Tenho levado a segurança deles muito à sério e com a ajuda dos meus irmãos temos tudo sob controle. E hoje, meu filho será visto como o herdeiro supremo.Confe
Elisie BellamySer mãe é muito mais difícil do que eu imaginei.Eu achava que o maior desafio seria o parto. As dores absurdas, o medo, o desespero de sentir o corpo sendo levado ao limite. E sim… aquilo foi assustador. Eu ainda lembro da sensação das contrações esmagando meu corpo, da exaustão, do suor, da falta de forças e do medo desesperador de algo dar errado.Mas agora eu entendo que o parto é só o começo. Porque depois que o bebê nasce… nasce uma mãe também e eu estou aprendendo isso todos os dias.Já faz uma semana desde que Fabian nasceu e eu sinto como se tivesse vivido um ano inteiro nesses últimos dias. Tudo mudou. Meu corpo mudou, minha rotina mudou, meu sono praticamente desapareceu e, minha mente… vive em alerta constante.Nesse exato momento, eu estou sentada na cama enquanto observo Fabian dormindo no berço ao lado. Ele parece tão pequeno ali. Tão delicado. O peitinh0 sobe e desce devagarzinho enquanto ele dorme profundamente e eu juro… às vezes preciso levantar só pa
Lucien BellamyEu seguro o meu filho nos braços e percebo, pela primeira vez na vida, que não existe poder maior do que esse.Nada.Nem a máfia. Nem o nome Bellamy. Nem dinheiro, medo, respeito ou sangue.Nada se compara ao peso pequeno e quente desse bebê contra o meu peit0.Fabian dorme tranquilamente enquanto eu permaneço sentado na poltrona do quarto, observando cada detalhe dele como se o mundo inteiro tivesse parado só para me permitir viver esse momento. A casa inteira está silenciosa. Finalmente chegamos em casa depois de quase dois dias no hospital e, mesmo cercado de conforto e segurança, eu ainda sinto como se tudo fosse irreal.Meu filho nasceu.Meu filho está aqui e isso muda absolutamente tudo.Eu abaixo o olhar novamente para ele e sinto meus olhos marejarem outra vez. Nunca fui um homem emocional. Nunca fui o tipo que se desmonta ou demonstra demais o que sente. Mas Fabian… esse garoto destruiu qualquer muralha que existia dentro de mim sem nem abrir os olhos direito.
Elisie Bellamy – Meses depoisO quarto parece silencioso demais depois de tudo.Eu ainda sinto o corpo pesado, dolorido e estranho, como se cada músculo tivesse sido esmagado por horas sem descanso. Minha pele está quente, meu cabelo grudado na testa pelo suor e minhas pernas parecem incapazes de sustentar qualquer coisa. Estou exausta num nível que nunca conheci antes.Mas nada disso importa quando olho para os meus braços.Fabian está aqui. Meu filho.Meu bebê.Eu o seguro contra o peit0 enquanto ele chora baixinho, fazendo pequenos sons manhosos que apertam meu coração inteiro. É inacreditável pensar que ele estava dentro de mim há poucas horas. Agora está aqui… respirando, se mexendo, existindo de verdade.Eu não consigo parar de olhar.Fabian mantém os olhinhos fechados enquanto eu e Lucien tentamos acalmá-lo juntos. Minha mão treme levemente quando passo os dedos pelos cabelinhos ralos dele e sinto uma vontade absurda de chorar ainda mais.Porque eu sou mãe. Isso é real.Eu sou
Lucien BellamyEu nunca imaginei que pisaria tantas vezes em um quarto de bebê. Mas agora estou aqui, parado no meio do quarto do meu filho, olhando tudo e absorvendo cada detalhe. E percebendo, mais uma vez, que isso é real.Fabian Bellamy está chegando.Meu filho.O herdeiro da França.Mas acima disso… meu filho. Meu primeiro filho.O quarto inteiro está pronto para o receber. O berço fica no centro da parede principal, em madeira clara e detalhes em branco. Ao lado dele há uma poltrona grande de amamentação que Elisie escolheu dizendo que precisava ser confortável e, fora os outros itens que complementam o quarto. Tem também uma cama menor ao lado da parede, caso ela queira descansar aqui durante a madrugada, e um móvel cheio de gavetas já completamente organizado.Tudo nesse quarto tem a mão dela.Os desenhos de leão e girafa espalhados pela decoração deixam o ambiente bem infantil. Tem pequenos quadros nas paredes, livros infantis decorativos nas prateleiras, bonecos de animais,







