FAZER LOGINO dia começou como todos os outros: com uma xícara de café amargo e uma pilha de relatórios que parecia nunca diminuir. A Benites Security não perdoava, e eu tampouco. Reuniões atrás de reuniões, clientes exigentes, funcionários que precisavam de orientação... às vezes, eu me perguntava se tudo aquilo valia a pena. Mas era minha responsabilidade, meu legado. E, no fim do dia, era tudo o que eu tinha.
— Senhor Benites, os representantes da GlobalTech estão na sala de conferências — minha secretária anunciou, interrompendo meus pensamentos. Ela era a única pessoa na empresa que ainda me tratava com um olhar carinhoso, como se soubesse que, por trás da fachada de CEO rabugento, havia um homem cansado. — Obrigado — respondi, levantando-me da mesa. — Diga a eles que estarei lá em cinco minutos. Ela acenou com a cabeça, mas antes de sair, lançou-me um olhar preocupado. — Você já almoçou, senhor Benites? — Não há tempo — respondi secamente, ajustando o nó da gravata. As reuniões se arrastaram por horas. Negociações, números, projeções... tudo parecia se misturar em uma névoa de cansaço. Quando finalmente voltei para o meu escritório, o sol já começava a se pôr, lançando tons alaranjados sobre a cidade. Sentei-me à mesa, sentindo o peso do dia sobre os ombros. Meus olhos pousaram na foto emoldurada que eu mantinha em um canto discreto da mesa: era ela, minha esposa, sorrindo como só ela sabia fazer. A saudade apertou meu peito, como sempre fazia. "Em que momento tudo deu errado?" pensei, olhando para a foto. "Quando foi que eu me tornei essa sombra do homem que ela amava?" A porta do escritório se abriu suavemente, e ela, carregando uma xícara de chá. — Pensei que você poderia precisar disso — ela disse, colocando a xícara na minha frente. O cheiro de camomila era reconfortante, mas nem mesmo isso conseguia aliviar a dor que eu carregava. — Obrigado — murmurei, segurando a xícara com as duas mãos. — Senhor Benites, a nova babá chega amanhã. Gostaria que o carro da empresa a buscasse no aeroporto? — ela perguntou, com a voz suave que sempre usava quando sabia que eu estava no limite. Eu olhei para a foto novamente, sentindo um aperto no peito. "Ela teria gostado de saber que estamos trazendo uma babá para cuidar da Giulia?" pensei, mas rapidamente afastei a ideia. Não havia espaço para sentimentalismos na minha vida. — Sim, peça que o carro a busque — respondi, com um suspiro cansado. — Talvez a Giulia queira ir ao aeroporto recebê-la — ela sugeriu, com um sorriso gentil. — É uma tradição do programa de au pair que a família receba a babá. Acho que seria bom para a pequena. Eu hesitei por um momento, mas sabia que ela estava certa. Giulia merecia um pouco de normalidade, mesmo que eu não soubesse mais como proporcionar isso. E talvez ter esse primeiro contato em público facilitassem as coisas para nós. — Está bem. Vou falar com ela hoje à noite — concordei, sentindo um peso ser tirado dos meus ombros. Dona Marta sempre sabia o que dizer. Quando cheguei em casa, o cheiro de pão fresco enchia o ar. Giulia estava na cozinha, sentada à mesa com Maria, nossa funcionária que cuidava da casa. As duas estavam rindo de algo, e o som da risada da minha filha fez meu coração apertar de uma forma que eu não conseguia explicar. — Pai! — Giulia gritou, correndo em minha direção. Ela me abraçou com toda a força que seus bracinhos pequenos conseguiam reunir, e eu me ajoelhei para ficar no nível dela. — Oi, princesa. O que você está fazendo? — perguntei, tentando disfarçar o cansaço na voz. — Estávamos fazendo um lanche! Maria me ensinou a fazer sanduíches de queijo derretido — ela respondeu, com um sorriso que iluminava o rosto. — Que delícia — eu disse, levantando-me e caminhando até a mesa. Maria me cumprimentou com um aceno, e eu agradeci com um sorriso cansado. — Pai, a nova babá chega amanhã? — Giulia perguntou, sentando-se novamente à mesa. — Sim, princesa. Ela vem do Brasil — respondi, sentando-me ao lado dela. — Pensei que talvez você queira ir ao aeroporto recebê-la. Os olhos dela brilharam de empolgação. — Podemos fazer um cartaz de boas-vindas? — ela sugeriu, com um entusiasmo que eu não via há muito tempo. Eu olhei para ela, sentindo um sorriso se formar nos meus lábios, apesar de mim mesmo. — Claro que podemos. Vamos fazer o melhor cartaz de boas-vindas que já existiu. Giulia sorriu, e por um momento, o peso do dia pareceu um pouco mais leve. Talvez, apenas talvez, eu ainda pudesse fazer algo certo. Abandonar de uma vez o vício e me concentrar apenas em minha família. Apenas no que importa de verdade. Estamos terminando de desenhar pizzas em uma cartolina rosa, quando meu telefone toca e o número da minha ex-sogra aparece. Sinto meus dedos tremerem ao me lembrar das suas duras críticas, da forma como me ameaça e como fala sobre mim na frente de Giulia. Como ela reagirá ao descobrir que estou colocando uma babá para me ajudar com a minha filha? Sem dúvidas irá enlouquecer. Olho mais uma vez para o visor e decido não enfrentar essa batalha hoje. Desligo.O reflexo no espelho me encara com olhos marejados e um sorriso que ainda não aprendi a conter. O tecido branco cai suave sobre a pele, simples, delicado — como tudo o que escolhemos para esse dia. Não há luxo, nem exageros. Só flores brancas, o perfume leve do jasmim e o som distante da música que ecoa do jardim da casa do meu avô, Miguel, em Madrid.Clara entra no quarto tropeçando no próprio vestido de daminha, os cachos dourados caindo sobre o rosto.— Mamãe! A Lourdes disse que todo mundo já tá esperando! — ela grita, animada, com o buquê de flores quase maior que ela.Sorrio, tentando conter as lágrimas.— Já vou, meu amor. Onde está a sua irmã?Ela aponta para a porta com a mesma empolgação de sempre.— Com a Lourdes! Ela não quis dormir, sabia? Tá lá fora vendo as flo
O tempo tem um jeito curioso de correr quando a vida finalmente encontra o rumo certo.Seis meses.Seis meses desde aquele dia em que o chão pareceu desaparecer sob meus pés e, ao mesmo tempo, o mundo se iluminou.Agora, enquanto observo meu reflexo no espelho do quarto — a barriga redonda e firme, denunciando os movimentos da pequena que cresce dentro de mim — percebo o quanto tudo mudou. Não sou mais a babá assustada que chegou aqui tentando apenas juntar dinheiro para pagar a faculdade. Não sou mais a garota que se escondia atrás da timidez e dos medos.Sou Serena. Noiva de Rodolfo Montenegro. Mãe da filha dele.Sorrio ao ouvir o som da risada de Clara vindo da sala. Ela e Rodolfo brincam enquanto esperam eu terminar de me arrumar para buscá-la na escola. Sim, ainda que ele insista em dirigir sempre, eu me recuso a abrir mão do ritual de ir com eles. Gosto de ver o jeito co
O tempo tem um jeito curioso de correr quando a vida finalmente encontra o rumo certo.Seis meses.Seis meses desde aquele dia em que o chão pareceu desaparecer sob meus pés e, ao mesmo tempo, o mundo se iluminou.Agora, enquanto observo meu reflexo no espelho do quarto — a barriga redonda e firme, denunciando os movimentos da pequena que cresce dentro de mim — percebo o quanto tudo mudou. Não sou mais a babá assustada que chegou aqui tentando apenas juntar dinheiro para pagar a faculdade. Não sou mais a garota que se escondia atrás da timidez e dos medos.Sou Serena. Noiva de Rodolfo Montenegro. Mãe da filha dele.Sorrio ao ouvir o som da risada de Clara vindo da sala. Ela e Rodolfo brincam enquanto esperam eu terminar de me arrumar para buscá-la na escola. Sim, ainda que ele insista em dirigir sempre, eu me recuso a abrir mão do ritual de ir com eles. Gosto de ver o jeito co
O som da porta se fechando atrás de mim foi o sinal de que o dia finalmente tinha acabado. A audiência tinha me drenado de corpo e alma, mas, pela primeira vez em muito tempo, eu me sentia leve. Clara era oficialmente minha. E essa era a única vitória que realmente importava.Quando entrei na sala, o cheiro de café fresco me recebeu, seguido pelos passos apressados de Lourdes.— Doutor Rodolfo! — ela surgiu com o avental ainda amarrado na cintura e um sorriso tão grande que quase me fez rir. — Como foi?Eu larguei a pasta sobre o sofá e soltei um suspiro demorado.— Ganhamos, Lourdes.Ela bateu palmas, emocionada.— Eu sabia! A justiça tarda, mas não falha.— Dessa vez, não falhou mesmo. — respondi, deixando o peso do casaco sobre o encosto.Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, Serena apareceu na porta da cozinha. O olhar dela me encontrou — calmo, hesitante — e bastou isso para o cansaço do dia inteiro desaparecer.— Parabéns, doutor. — ela disse, a voz baixa, com um sorriso
Fazia dias que eu estava estranha. Enjoada, tonta, o estômago revirando sem motivo. No começo, achei que fosse o café da cantina — aquele horror que chamavam de expresso —, ou talvez o nervosismo com as provas finais. Mas, naquela manhã, enquanto tentava prestar atenção na aula de Direito Penal, o simples cheiro da caneta da professora me fez querer sair correndo da sala.Quando o sinal tocou, eu fui direto para o pátio respirar um pouco. O ar fresco não ajudou muito, mas pelo menos o enjoo diminuiu. Sentei num dos bancos de cimento e fechei os olhos. O som dos alunos conversando ao redor parecia distante, abafado, como se o mundo inteiro tivesse se tornado um zumbido.— Serena? — a voz de Ana me puxou de volta.Abri os olhos devagar. Ela estava parada na minha frente, segurando dois cafés e me olhando com aquele ar de quem já sabia a resposta pra tudo.— Você está péssima — disse, sentando ao meu lado.Suspirei.— Obrigada pela gentileza.— Não estou brincando, olha pra você. Tá páli
O fórum tinha aquele cheiro de papel e nervosismo que sempre me incomodou. Gente andando apressada pelos corredores, advogados de terno escuro, o som dos saltos ecoando no piso frio. Parecia um campo de batalha silencioso, e naquele dia, era exatamente isso.Daniel me esperava perto da porta da sala de audiência, folheando algumas páginas da pasta que trazia sob o braço. Quando me viu, ergueu o olhar e me cumprimentou com um leve aceno.— Pronto? — perguntou, com o tom calmo de quem já venceu essa guerra antes.Assenti.— Pronto.Ele sorriu de canto. — Hoje é o dia em que você volta a respirar, Rodolfo.A porta da sala se abriu, e o oficial anunciou o início da audiência. Entramos. Lá dentro, o juiz já estava sentado, ajustando os óculos. Do outro lado da mesa, Marina, impecável como sempre — o cabelo preso, o semblante frio, as unhas vermelhas. E ao lado dela, o advogado que eu já sabia ser uma cobra disfarçada de terno.Sentei ao lado de Daniel. Ele colocou os documentos sobre a mes






