FAZER LOGINEntrei no carro e fechei a porta com um estalo seco que parecia ressoar na quietude do meu próprio universo. Manhattan rugia lá fora, a cidade de sempre, caótica, impaciente, e eu estava completamente absorto em uma única presença: Clara. Cada gesto dela, cada olhar, cada movimento calmo e calculado dentro da Maison Bianchi martelava na minha mente.
Mulheres nunca foram problema para mim. Sempre se curvaram, sempre sorriram, sempre se entregaram aos meus caprichos com uma facilidade que chegava a ser entediante. Mas Clara… Clara era diferente. Ela não se curvou, não tentou me impressionar, não cedeu ao meu charme imediato. Profissional, fria e impecavelmente contida, ela havia conseguido o que nenhuma outra mulher conseguiu: acender uma obsessão silenciosa e perigosa em mim. O carro deslizou lentamente pelo tráfego apressado da Quinta Avenida. Minha mão segurava o volante com firmeza, mas a outra não parava de mexer no celular. Não podia esperar. Não podia ignorar o que aquela mulher havia feito comigo. Ela me desafiou sem saber, e eu jamais deixaria um desafio sem resposta. Peguei o telefone e disquei o número de Matteo, meu gerente na Maison Bianchi. A voz dele soou nervosa antes mesmo de atender: — Senhor Lorenzo… — Matteo — cortei, a voz baixa, fria, carregada de autoridade — arrume o número da funcionária que me atendeu na loja agora mesmo. Houve uma pausa do outro lado. Ele pigarreou, tentando encontrar palavras, mas hesitou. — Senhor… isso não é… normal. — Matteo. — repeti, agora firme, quase impondo presença através da linha — minha palavra é uma só. Trate disso imediatamente. Matteo suspirou, mas sabia que não tinha escolha. Ele não poderia desobedecer. Minutos depois, voltou a me ligar, ainda um pouco tenso: — Senhor… já tenho o número dela. — Bom. Envie para mim imediatamente. Segurei o telefone com força, sentindo a tensão aumentar dentro do peito. Cada segundo de espera era agonizante, mas ao mesmo tempo deliciosamente doloroso. Clara havia deixado uma marca, e eu não tolerava a ideia de simplesmente esperar que o destino cruzasse nossos caminhos novamente. Eu criaria a situação. Eu faria com que ela me notasse — não como mais um cliente, mas como alguém que não poderia ser ignorado. Assim que o número de Clara surgiu na tela, estacionei o carro. O tráfego passava ao meu redor, os buzinaços, o barulho das motos, o som de Manhattan pulsando; mas nada disso me tocava. Minha atenção estava totalmente nela. Digitei a mensagem com cuidado, cada palavra escolhida para transmitir admiração, interesse e controle, mas sem transparecer qualquer desespero. > “Clara, não poderia deixar de dizer que foi um prazer ser atendido por você hoje. Sua atenção, profissionalismo e elegância foram incomparáveis. Espero que possamos nos encontrar novamente. — L.” Enviei sem hesitar. O celular em minha mão era uma extensão da minha vontade, e cada minuto que passou depois disso foi uma eternidade silenciosa. Fiquei ali, imóvel, sentindo o carro como se fosse uma cápsula separada do mundo, cada batida do meu coração ressoando mais alto do que qualquer buzina lá fora. Os minutos se arrastaram com uma lentidão irritante. Cada sinal vermelho parecia zombar de mim, cada motorista que acelerava fazia meu sangue ferver com a impaciência. Eu não costumava esperar. Nunca. Mas Clara… Clara me obrigava a isso. Ela me impunha um ritmo próprio, um controle que eu não estava disposto a ceder. Então, finalmente, o telefone vibrou. Uma notificação, uma resposta. Li com rapidez, quase sem fôlego, e o que encontrei provocou uma reação instantânea, visceral: > “Onde conseguiu meu número, senhor? Por favor, não misture as coisas. — C.” Meu corpo estremeceu com a mistura de surpresa e fúria. Cada palavra dela era um desafio lançado diretamente em meu rosto. Como ela ousava? Quem era ela para questionar meus métodos, minha autoridade, meu direito de fazer o que eu quisesse quando quisesse? Minha respiração ficou mais pesada, o peito parecia preso por um aperto invisível, e minha mão direita agarrou o volante com força suficiente para sentir os nós dos dedos ficarem brancos. Fúria. Sim, fúria controlada, mas intensa, ardente. Um tipo de raiva que só surge quando alguém se atreve a desafiar meu poder — e Clara havia feito exatamente isso. Ela não se curvou, não se dobrou diante da minha presença, e ainda assim havia me fascinado ao ponto de eu desejar mais. Queria fazê-la reconhecer que, mesmo fria e profissional, não poderia ignorar quem eu sou. Fechei os olhos por um instante, respirando fundo, tentando transformar aquela fúria em estratégia. Eu não reagiria de forma impulsiva — Clara merecia que eu jogasse o jogo com inteligência. Mas a raiva, a frustração deliciosa de ser desafiado, estava lá, queimando em cada fibra do meu corpo. Abri os olhos e encarei a rua. Cada pedestre, cada carro, parecia irrelevante. Nada importava além daquela pequena tela em minha mão, além da resposta direta e contida de Clara. Ela havia estabelecido as regras, e agora eu precisava encontrar uma maneira de quebrá-las sem destruir a elegância do momento. Minha mente começou a traçar possibilidades: uma nova visita à Maison Bianchi, um encontro casual planejado como se fosse coincidência, uma demonstração sutil de poder e controle que a obrigasse a me encarar de maneira diferente. Ela não poderia ser tratada como qualquer outra mulher. Clara era diferente, e eu precisava que essa diferença se tornasse minha obsessão consumada. Revirei os olhos, frustrado, mas também excitado. O desafio que ela representava me lembrava daquilo que eu sentia apenas quando estava realmente vivo: a caça, o jogo, o poder em movimento. Clara não era apenas uma funcionária; ela era o espelho do meu próprio desejo de controle, e agora eu estava determinado a conquistá-la, não importa quanto tempo levasse. Segurei firme o telefone, olhando novamente para a mensagem dela. As palavras, curtas e precisas, haviam acendido um fogo que não se apagaria com desculpas ou paciência. Cada ponto final dela era um lembrete de que eu não podia simplesmente fazer as coisas do meu jeito. Eu precisava ser estratégico, silencioso e letal — do mesmo jeito que sempre fui, mas agora com uma nova obsessão.Os dias na mansão seguiram seu curso natural, a casa preenchida por risadas, afeto e a presença constante da família reunida, até que finalmente chegou o dia do batizado do nosso filho.A manhã amanheceu linda e ensolarada. Nos jardins — os mesmos onde eu havia sido batizado — tudo era preparado com cuidado e reverência. Cada detalhe parecia carregar memória e significado.O padre Antônio, velho conhecido da família, era o mesmo que havia celebrado o casamento dos meus pais e realizado meu batismo ali, na mansão. A cerimônia seria reservada, apenas para familiares e amigos mais próximos, como sempre fora o desejo da nossa família.No quarto, Graziela ajudava Clara a vestir Dominic. Segui para o banho e depois me arrumei no closet. O terno cinza, de corte impecável, era sóbrio e elegante, feito sob medida, sem excessos — a imponência estava nos detalhes. Ao sair do closet, encontrei Dominic já pronto nos braços de Graziela. Ele usava um conjunto branco delicado, de tecido leve, com pe
Acordamos com o canto suave dos pássaros, que preenchia a calma serena do Joá. Dominic chorou no quarto, um som delicado, quase fragil. Clara se levantou imediatamente, pegando-o nos braços com cuidado, embalando-o junto ao peito como se fosse o tesouro mais precioso do mundo. Eu fui para o banho, e o som distante da voz dela, murmurando palavras de carinho para o nosso pequeno, me acompanhou até o banho. Quando saí, desci as escadas segurando Dominic contra meu peito. Ele era pequeno, mas já demonstrava curiosidade por tudo a sua volta, observando tudo com olhos grandes e atentos. Clara ficou se arrumando calmamente com a serenidade de sempre.Ao descer as escadas, encontrei Eugênia e pedi que preparasse a mesa do café nos jardins.— Claro, senhor, agora mesmo — respondeu, acompanhando-me.O jardim já recebia a luz dourada da manhã, e o aroma da grama fresca se misturava ao perfume do café que Eugênia organizava . Não demorou muito Clara desceu para o café. Usava um vestido branc
— Vem cá — sussurrei ao pé do seu ouvido, deixando a promessa do que viria roçar na minha voz. Levantei-me e a conduzi até o bar da mansão, a mão firme em sua cintura, fechando a porta atrás de nós. — Eu te amo tanto, mulher — confessei, o olhar preso ao dela. Segurei seu braço e a sentei sobre o balcão, aproximando meu corpo do seu sem pressa, saboreando cada segundo. — Eu também te amo — respondeu, e havia entrega no jeito como desabotoava minha camisa, os dedos quentes, seguros, provocando mais do que tocavam. Minha mão percorreu suas costas, sentindo sua respiração mudar sob meu toque, até encontrar o fecho do vestido. Abri devagar, consciente do efeito que causava, enquanto Clara se deixava ali, inteira, confiante no homem que a desejava tanto quanto a amava. Não havia urgência — apenas vontade, pulsando entre nós, pronta para incendiar tudo. Sentada sobre o balcão, os cabelos ruivos caíam livres sobre o corpo, indomáveis, e seus olhos brilhavam de desejo. Por um segundo
~Na voz de Lorenzo~Finalmente pousamos no Joá. Após aproximadamente nove horas de voo, chegamos quando a noite já se deitava sobre o mar. Ao descer do jatinho, a brisa salgada tocou meu rosto com familiaridade, e o crepitar das ondas contra as rochas soou como uma saudação silenciosa, quase íntima, por estar de volta.Dominic dormia tranquilo no bebê-conforto, os cabelos ruivos levemente arrepiados, como se o vento tivesse feito questão de deixar sua marca. Sou suspeito para falar, mas havia ali uma perfeição que não cabia em mim.A maternidade dera a Clara um brilho diferente. Não era apenas beleza — era luz. Os olhos carregavam uma profundidade serena, e a delicadeza que sempre parecera natural nela agora se revelava ainda mais evidente. Vestia um conjunto da Maison Bianchi em tons claros: calça de alfaiataria de caimento impecável, blusa de seda off-white com mangas suaves que desenhavam seus braços, e um trench coat leve, estruturado, que se movia com elegância a cada passo. Simp
E os dias seguiram, como sempre seguem, mesmo quando tudo muda. A nossa vida agora tinha outro ritmo, outro sentido. Já não éramos só nós dois. Dominic ocupava todos os espaços, mesmo quando dormia, e nada mais era como antes.Dona Victoria e o senhor Julian ficaram conosco no triplex por cerca de um mês. A presença deles era tranquila, cheia de cuidado. Gostavam de observar Dominic em silêncio, como se quisessem guardar cada detalhe. Graziela e Harry precisaram voltar para a Inglaterra um pouco antes. A despedida deixou saudade. Graziela era doce em tudo, no jeito de falar, de tocar, de amar. Não era à toa que Lorenzo era tão ligado à irmã. Eles partiram com a promessa de nos reencontrarmos no Brasil, e isso tornava a ausência um pouco mais suportável.Lorenzo se dividia entre as reuniões e as responsabilidades da Maison, mas nunca deixou de estar presente. Sempre que podia, estava ali, conosco. Ele se tornou um pai incrível, atento, cuidadoso, inteiro. Na Maison, seguia sendo o Lore
Na voz de Clara O triplex tinha ganhado uma nova vida. Não era apenas a presença de Dominic, mas a forma como cada canto parecia respirar diferente, como se as paredes também tivessem aprendido a amar. O silêncio já não era vazio — era atento. A luz parecia mais suave. Havia um cuidado novo nos gestos, nos passos, nas vozes que se mantinham baixas sem que ninguém precisasse pedir.Eu observava tudo com o coração apertado de emoção, ainda tentando compreender que aquele menininho era nosso. Que ele existia agora fora de mim, ocupando o mundo com a mesma delicadeza com que havia ocupado meu ventre. Às vezes, me pegava apenas olhando, como se temesse que tudo fosse um sonho prestes a se desfazer.Dona Victoria não se cansava de caminhar pelo apartamento com um sorriso orgulhoso. Seus olhos marejavam sempre que olhava para o neto, e havia nela uma felicidade serena, madura, de quem reconhece um ciclo que se renova. O senhor Julian permanecia mais quieto, mas bastava colocar Dominic em s







