FAZER LOGINMarcel Ferraz e Verônica Luz são rivais. No mundo da tecnologia, seus sobrenomes sempre foram sinônimos de disputa, provocações e um ódio que parecia nunca ter fim. Mas quando um inimigo em comum ameaça destruir os dois impérios, Verônica não vê saída: propõe uma fusão e um noivado de fachada. Marcel aceita. Não para salvá-la, mas para se vingar. Ele quer vê-la assinar cada cláusula, se dobrar a cada provação e, no fim, perder. Só não esperava que a convivência forçada acendesse um desejo impossível de controlar. Agora, entre contratos, mentiras e toques proibidos, os dois vão descobrir que o perigo nunca foi o acordo. É o que sentem um pelo outro. Amar ou destruir. Às vezes, dá no mesmo.
Ver maisSão Paulo, dias atuais.
A chuva fustigava os vidros da torre envidraçada como se quisesse invadir o escritório e roçar a pele dela. Verônica Luz não se lembrava da última vez que sentira frio de verdade, daquele que começa na base da espinha, sobe devagar pela coluna e se espalha pela nuca, arrepiando a pele como um toque indesejado, mas sentia agora. O relógio marcava 21h48 quando o e-mail se abriu diante dos seus olhos e o mundo, por um instante, pareceu suspender o fôlego. Projeto Atlas transferido. Prioridade vendida. Se prepare, V. A mensagem era curta, anônima, vinda de um servidor descartável. No entanto a dor que ela carregava era precisa, afiada, pessoal e ainda assim, no fundo da garganta, um calor estranho se misturava à raiva. O Projeto Atlas — a inteligência artificial que a Luz Tecnologia vinha desenvolvendo há dois anos — era a menina dos olhos de Verônica. A última cartada para recolocar a empresa no topo. O projeto que faria a Ferraz Tech engolir o próprio veneno, agora não existia mais. Não era roubo cibernético. Era coisa de dentro. Traição com cheiro de casa. Ela sabia de onde vinha. Brasília, 2011. Na faculdade, os sobrenomes Ferraz e Luz sempre foram mencionados juntos, mas não como Romeu e Julieta. Eram os rivais mais quentes do campus, os dois lados da mesma moeda: ele, o gênio carismático que entrava em qualquer sala e roubava a atenção como se o ar pertencesse a ele. Ela, a estrategista fria que fazia o silêncio pesar e os olhares se demorarem demais. Onde um entrava, o outro chegava logo atrás. Onde um vencia, o outro estreava a derrota com a cabeça erguida e o olhar desafiador, a tensão entre os corpos quase palpável. Marcel Ferraz era o cara que todos queriam por perto. Verônica Luz era a mulher que todos temiam e desejavam em segredo. Durante um semestre, chegaram perigosamente perto de ser outra coisa. Foi na maratona de robótica. Um projeto conjunto que poderia ter mudado tudo. Marcel virou noites, obcecado, o corpo tenso sobre a bancada, a camisa grudada nas costas, o maxilar travado de concentração. Verônica revisava cálculos e códigos ao lado dele, os dedos precisos, a respiração controlada, o perfume sutil dela se misturando ao cheiro de café e suor e no fim, o projeto foi desclassificado por um erro que ninguém do grupo reconheceu. Marcel perdeu a bolsa. Nunca soube o que realmente aconteceu, mas a versão plantada por terceiros era a que ele queria ouvir: Verônica Luz sabotou você porque queria o prêmio. Ele nunca a perdoou. Ela nunca se rebaixou a explicar. E a distância entre eles virou uma muralha invisível. Intransponível. Alimentada por boatos, negócios perdidos e a indústria inteira assistindo de camarote, esperando o próximo round e o dia em que aquele ódio finalmente explodisse em outra coisa. São Paulo, agora... Verônica fechou o notebook com força. O pai provavelmente já sabia. A família Luz tinha um lema silencioso: não se criam filhos preferidos, criam-se ativos lucrativos. Apesar do Sobrenome, a família não emanava afeto, somente a obrigação de brilhar. Falhas não eram admitidas. Aline, a caçula, sempre esteve um passo atrás. Nunca venceu Verônica em nada e estava cansada de ser a única a falhar, a ser cobrada, a ser invisível. Por isso, fez o que fez. Vendeu o Atlas para Orlando Reis, dono da Reis Innovations, o terceiro grande player do mercado, que vinha crescendo à custa de apunhalar as duas famílias e agora, com o projeto em mãos, Orlando tinha a arma que faltava para engolir de vez os Ferraz e os Luz. Verônica sentiu o gosto amargo na boca. Queria chorar. Queria quebrar a mesa. Mas se levantou, alisou a saia justa com as palmas das mãos, o tecido deslizando sobre a pele das coxas. Encarou a própria imagem refletida na janela encharcada. O vestido preto marcava cada curva, os seios subiam e desciam com a respiração controlada. — Você não pode cair agora. Não com ele assistindo. Ela precisava de um plano e o plano tinha nome de inimigo. .Marcel ficou alguns minutos no corredor antes de se mover. A porta do quarto estava entreaberta, um fio de abajur cortando o piso. Empurrou com cuidado. O quarto estava em penumbra. Verônica dormia de lado, o corpo ainda meio encolhido por cima da coberta, a blusa social amassada, o cabelo preto espalhado no travesseiro. Mesmo dormindo, havia tensão residual nos ombros, como se o dia não tivesse liberado o músculo por completo. Marcel aproximou-se sem acender a luz. Sentou na beira da cama com uma lentidão quase cerimonial. Não tocou o rosto dela de imediato. Só ficou ali, ouvindo a respiração. Quando, enfim, ergueu a mão, limitou-se a puxar a coberta um pouco mais para cima do ombro dela — um gesto pequeno, doméstico, destituído de estratégia. Verônica mexeu-se. Os olhos abriram só um pouco, turvos de sono e cansaço. — Rafael falou com você — murmurou, não como pergunta. — Falou. Ela estudou o rosto dele na meia-luz, procurando o gume antigo da acusação. Não encontrou. E
Cobertura de Verônica, 20h31Marcel não tinha conseguido deitar.Permaneceu sentado na beira da cama do quarto de hóspedes, a camisa aberta no colarinho, os antebraços apoiados nas coxas, os olhos fixos no ponto em que o piso mudava de tom. A imagem do corredor insistia com uma precisão cruel: Verônica encolhida, a cabeça no colo de Rafael, o caminho seco de uma lágrima atravessando o rosto dela. Ele passara em silêncio. Agora o silêncio devolvia o peso.Bateram na porta. Uma vez só.— Sou eu — disse Rafael.Marcel fechou os olhos por um instante.— Entra.Rafael atravessou o vão com cuidado, como se o cômodo inteiro pudesse rachar com qualquer movimento em excesso. Sem blazer. Sem a postura impecável de quem organiza crise alheia. Só o celular na mão e uma cansaço antigo colado ao olhar.— Não vim brigar.— Ainda bem — respondeu Marcel, sem se levantar. — Porque eu também não tenho energia para a briga errada.Rafael aproximou-se até uma distância respeitosa. Desbloqueou a tela, mas
São Paulo, fim da tarde Rafael não foi para a assessoria depois do conselho. Ficou andando sem destino por duas quadras, o vento batendo no rosto, a frase de Verônica ainda presa na cabeça como farpa: eu fico na técnica, ele fica no front. Ela se oferecendo de novo. Sempre se oferecendo. Sempre calculando o próprio corpo como peça sacrificável para manter o tabuleiro de pé. Ele parou numa esquina, tirou o celular e abriu a galeria privada. Não a pasta do trabalho. A outra. A primeira imagem que subiu não era dos três. Era só dos dois. Igor Oliveira de frente, a boca no canto da boca de Rafael, a mão na nuca dele, o apartamento pequeno ao fundo. Na seguinte, os dois no sofá, pernas enroscadas, a cabeça de Igor no peito de Rafael, a TV ligada em qualquer coisa. Noutra, um espelho de banheiro embaciado, os dois sem camisa, Igor rindo com a escova de dente na mão, Rafael beijando o ombro dele sem olhar para a câmera. Casal. Simples. Real. Indisfarçável. A dor veio antiga e inteir
São Paulo, 8h03A sala do conselho estava cheia demais para o tamanho da paciência de Verônica.Vidro, madeira escura, café mal bebido e a tela da parede ainda repetindo, em silêncio, recortes da noite anterior: o Atlas de Orlando, as fotos de Ilhabela, o trio da faculdade, a palavra “triângulo” aparecendo com a naturalidade suja de quem já tinha vendido a manchete antes de apurar qualquer coisa.Marcel chegou dois minutos antes dela. Terno escuro, rosto fechado, a mesma contenção da mensagem da noite. Quando Verônica entrou, os dois trocaram só um olhar. Não havia carinho ali. Havia alinhamento.Ele abriu a reunião como prometeu.— A fusão não vai discutir vida pessoal nesta mesa — disse, a voz baixa e firme. — Vamos discutir origem, cronologia e continuidade operacional. O resto é ruído.Ruído, no entanto, era exatamente o que alguns acionistas tinham vindo buscar.O primeiro a falar foi direto:— Ruído que está derrubando percepção de valor. O mercado lê instabilidade societária. L


















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