Compartilhar

Anos antes

Autor: Ivi Santiago
last update Data de publicação: 2024-11-01 02:00:08

Narrado por Giovani Ferreti

A escuridão era total — densa, sufocante, como se o próprio tempo tivesse se esquecido daquele lugar. A única luz que ousava entrar vinha por frestas minúsculas nas paredes espessas, e mesmo essas pareciam pedir desculpas por invadir o silêncio.

O ar era espesso, impregnado de umidade, como se décadas de dor tivessem se entranhado nas pedras, nos metais, nas memórias.

Ali, o esquecimento tinha endereço. E era feito de ferro.

Grades enferrujadas dividiam o ambiente em compartimentos estreitos, sufocantes, como se cada pedaço do espaço tivesse sido feito para aprisionar uma alma. Correntes se arrastavam pelo chão de concreto frio, serpenteando como relíquias de um passado que se recusava a morrer.

Em uma dessas correntes, preso como um animal quebrado, estava ele. Nu. Sem dignidade. Sem escapatória.

Seu corpo pendia do teto pelos tornozelos, os cabelos negros voltados para o chão, o sangue escorrendo em fios secos pelas coxas, pelos braços, pelo peito. As marcas púrpuras e vermelhas se espalhavam pela pele como uma tapeçaria cruel.

Cada leve oscilação arrancava um gemido abafado, cada toque do ferro na carne era uma nova tortura. A dor já não era apenas física — ela era uma presença viva, constante, faminta.

Giovani Ferreti.

Filho único do temido Don Giussepe. Herdeiro legítimo da Cosa Nostra di Velenza.

Um título que parecia pesar mais que qualquer corrente.

As lembranças vinham como fragmentos partidos: vozes distantes, risadas apagadas, rostos que um dia aqueceram seu peito. Mas tudo aquilo se diluía diante dos trinta e seis dias de horror. De humilhação. De silêncio.

O que era pior: os longos períodos de abandono, nos quais seu corpo gritava sozinho na escuridão, ou os mergulhos forçados nos tanques de água, onde lhe roubavam o ar e perguntavam, entre t***s e choques, sobre os negócios da família?

Ele ainda era uma criança.

Apenas onze anos.

Aos olhos do pai, contudo, ser jovem não era desculpa. Desde cedo, deveria ter sido preparado. Treinado. Moldado para ser impiedoso. Mas Giussepe Ferreti nunca o olhou como um sucessor. Mal o olhou, sequer como filho.

No início, Giovani achava que era desatenção. Depois, entendeu: era rejeição.

Mesmo após sucessivos sequestros — oito ao todo — o Don se tornava cada vez mais frio. Como se cada ataque ao filho fosse uma prova de sua fraqueza.

Ser Don não era apenas herdar. Era resistir. Era sobreviver.

E Giovani sobreviveu. Fugiu.

Com o corpo esfolado, a alma em frangalhos e o medo colado na pele, ele correu pela mata, guiado por instinto. Cada galho parecia um obstáculo final. Cada pedra, um julgamento.

Ele não pensava. Apenas fugia.

Fugir era viver.

Chegou em casa com o coração aos pulos. Esperava braços abertos, o desespero da mãe, talvez — só talvez — um gesto de reconhecimento do pai.

Mas o que recebeu foi o silêncio.

E depois, o tapa.

Seco. Frio. Violento.

Sangue desceu da boca, mas não foi isso que doeu.

Covarde! Caspita! — rugiu Giussepe, o rosto distorcido pelo desprezo.

As palavras feriram mais que os punhos. Que as correntes. Que os mergulhos.

Aos olhos do pai, ele não era digno.

Não era homem.

Não era Ferreti.

A vergonha era imperdoável. E por isso, a sentença foi rápida, cruel, sem apelação:

Exílio.

Sem choro. Sem despedida. Sem honra.

Giovani seria mandado para o exterior. Longe da terra, longe da máfia, longe do próprio nome.
Expurgado como um erro.

Naquele dia, deixou de ser o herdeiro da Cosa Nostra. E tornou-se apenas o menino que fracassou.

Enquanto Pablo Bellini e até mesmo Irina Ferreti ainda acreditavam no retorno do garoto — o Don permaneceu firme:

Ele só volta quando eu estiver morto.

E nem isso garantiria perdão.

Um Don nunca volta atrás em sua palavra.

Mas a história que Giussepe não viu se desenrolava longe de seus olhos orgulhosos.

Em Seattle, Giovanni foi acolhido por parentes distantes, uma família que, mesmo sem a frieza e o poder da máfia, lhe deu o que jamais tivera: orientação, liberdade e espaço.

Sob a tutela de seu tio, tia e primo, Giovani cresceu em silêncio. Em fúria contida. Em ambição.

Assumiu o império Zelensky antes dos vinte. Fez dele um colosso.

Transformou-se em um homem astuto, frio, letal — mas com coração intacto.

Ali, longe do pai, forjou o próprio sobrenome.

E quando alguém o mencionava como “o filho exilado de Giussepe”, ele sorria com desprezo.

Porque Giovani Ferreti não pertencia mais ao passado.

Ele era o futuro.

Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App

Último capítulo

  • A escolhida do Don    Finais felizes para durar.

    NARRADO POR GIOVANI FERRETIA noite era sempre o único silêncio que eu conhecia.Durante o dia, era o barulho do império: reuniões, decisões, acordos que precisavam ser costurados com o sangue que ainda escorria dos últimos conflitos.Eu comandava homens, territórios, navios e fortunas.Mas o que pesava não era a responsabilidade.Era o cansaço de ter sobrevivido a tudo.Irina estava enterrada.Pablo também.Scarllet partiu.E o passado — aquele maldito passado — começava, enfim, a desbotar.Agora, era o meu nome nas paredes.Era a minha sombra que atravessava os corredores.Zelensky. Ferreti. Bellini.Tantas linhagens, tantos fantasmas.Mas o império era meu.E estava erguido com as minhas mãos.As noites, porém, me pertenciam de outro jeito.Era nelas que eu voltava a ser apenas um homem.Não o herdeiro renegado. Não o chefe. Não o luto.Um homem deitado, com a respiração misturada à de uma mulher que me queimava desde o primeiro olhar.Antonella.A única que me olhava sem medo.Est

  • A escolhida do Don    Fico aqui

    NARRADO POR ANTONELLA BELLINIO meu tornozelo doía, os punhos estavam marcados, e mesmo assim… eu não hesitei. Mal acomodei a minha mãe e a minha irmã no carro, pedi a Mason que me levasse até Giovani. Precisava vê-lo. Precisava entender o que viria depois de tudo.Mas quando cheguei, não estava preparada para o que meus olhos encontrariam.No pátio da velha propriedade dos Ferreti, homens… dezenas deles, estavam ajoelhados, inclinados diante de Giovani. Eram russos, italianos, alguns portavam anéis dourados com símbolos que eu não reconhecia, outros, tatuagens que gritavam “prisão”, “lealdade”, “sangue”.Giovani não dizia nada. Estava no centro como se sempre tivesse pertencido àquele lugar.Aquilo me fez parar.Engoli em seco.O ar pareceu rarefeito.Meu estômago se contorceu como se dissesse: “Esse homem, Antonella… ele agora é o centro de algo muito maior do que qualquer coisa que você conheça.”Mason permaneceu ao meu lado, observando a cena com os olhos analíticos de sempre, mas

  • A escolhida do Don    Amor é uma armadilha.

    NARRADO POR GIOVANI FERRETIApós a guerra, sempre vem o luto. Silencioso, pesado… às vezes mais cruel do que a própria guerra. Naquela noite, perdemos apenas um homem. Mas Pablo Bellini não era qualquer homem — era o pai de duas mulheres que choravam como meninas sem chão, e marido de uma viúva que nem sabia mais gritar de tanto que já havia gritado por dentro.Antonella seguia com o tornozelo torcido, partes do corpo quebrada, danificada, arroxeada. Simon me disse que se responsabilizaria por Scarllet. Ele disse com convicção, como quem acredita estar fazendo o certo. Mas eu não quis me meter. Não seria eu a repetir os erros do velho Bellini — empurrar filhas como peças num jogo de xadrez que só homens acham que entendem.A madrugada foi longa. Tensa.Irina… minha mãe… estava no meio do salão, usando um vestido vermelho como uma estrela cadente caída do céu errado. Abraçada a Scarllet, que chorava sem parar. Antonella apoiava a mãe, mas os olhos dela — aqueles olhos — estavam cheios

  • A escolhida do Don    O conheço bem

    NARRADO POR ANTONELLA BELLINIA noite mergulhou em completo silêncio após retirarem o corpo, Irina sair do quarto. — Tem certeza que não era ele. — Abri os olhos visando a escuridão em que somente o sapato dourado de Scarllet reluzia. — Tenho. — Respondi sentindo o meu corpo reclamar. — E como tem? — A minha irmã insistiu. — O conheço, sei cada linha daquele de cor, cada tatuagem, cada cicatriz, é como um mapa seja nas palmas da minha mão e na minha mente. — Respondi com a voz baixa, completamente dolorida. O silencio ecoou, o nosso pai estava quieto. — Papai? — O chamei por medo. — Estou aqui. — Ele nunca me deixou toca-lo, eu tive dois anos para conquista-lo, como eu ia fazer isso, se ele nem me olhava. — O Giovani perdeu uma irmã, como você, ele odeia pedófilos, pessoas que gostam de mulheres e crianças infantilizadas, nunca te tocaria, a menos se você amadurecesse. — Esse casamento nunca daria certo, a Irina te transformou em tudo que o proprio filho não gosta. — Constatou

  • A escolhida do Don    Residência simples

    NARRADO POR GIOVANI FERRETIAinda me incomodava ter Simon e os homens dele ao nosso lado. A presença deles, a postura calculada, o cheiro de poder emprestado. Mas era necessário. O sangue corria de todos os lados, e aliança, às vezes, era questão de sobrevivência.Quando ele sugeriu forjar meu corpo — simular minha morte —, falou com convicção de que isso encerraria a guerra.Irina teria o que tanto queria: poder.Ava continuaria segura nas montanhas, protegida por Antoni.Pablito nos braços dela.E os homens de Seattle cruzavam a fronteira naquela noite. Precisavámos de reforços, todos o que me serviram com exceção de Matteo estavam do outro lado. Tudo parecia caminhar para o fim. Mas o inferno não fecha as portas com promessas.E então, ao amanhecer, ela entrou.Scarllet.Entrou. Mas não saiu.Foi ali que entendi: cada dia que passava, o tempo se tornava um carrasco.Ela estava lá.Antonella.E eu sentia… que estava sofrendo.Eu sabia.Não há silêncio que tape esse tipo de dor.Naq

  • A escolhida do Don    Reunião em familia.

    NARRADO POR ANTONELLA BELLINIO cheiro de ferrugem, mofo e urina seca me acompanhou desde que me jogaram no porta-malas daquele carro escuro. Somente de calça jeans, blusa vermelha de mangas compridas, e botas, tinha sido o look escolhido aquela manhã para ir ao esconderijo com Ava e Pablito.Não sabia onde estava. Só sabia que era frio. E russo, notei pelo idioma. Fui tirada de lá com mãos ásperas me puxando pelos cabelos. Gritos numa língua que não compreendia, eu os odiava, desde que chegaram a San Marino, desde o idioma não tem humor. Quando me penduraram de ponta cabeça no meio de um galpão escuro, a única coisa que fiz foi morder a língua e calar.— Onde está o garoto?— Que garoto?A primeira surra veio com gosto, socos no estômago, tapas, choques nas costelas.Não respondi.Continuei com a história que criei, mas a minha mente ainda seguia aquele caminho, uma parte de mim ainda estava atrás daquela mulher loira, correndo com os meus filhos nos braços, chorando assustado, eu

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status