FAZER LOGINEu não podia negar: a comida estava simplesmente… perfeita.
Quando levo a primeira garfada do prato principal à boca, sinto os sabores se espalharem de forma lenta, intensa. A textura, o aroma, o tempero — tudo parece pensado nos mínimos detalhes. Sem perceber, fecho os olhos e deixo escapar um suspiro baixo, quase indecente de tão sincero. Por alguns segundos, esqueço onde estou. Esqueço contratos, exigências, helicópteros e segredos. Quando abro os olhos novamente, dou de cara com o olhar dele. Matteo me observa com atenção absoluta, os olhos verdes fixos em mim como se aquele pequeno momento tivesse mais importância do que qualquer reunião que ele já participou. Há algo diferente em sua expressão… satisfação. Não arrogante, não vaidosa. Quase pessoal. — Vejo que gostou — diz, com um leve arquejo no canto da boca. Sinto minhas bochechas esquentarem. — É… está incrível — respondo, um pouco sem jeito. — Nunca comi algo assim antes. — Fico satisfeito — ele diz, simplesmente. O tom dele deixa claro que aquilo não se refere apenas à comida. Volto a atenção ao prato, mas a sensação de estar sendo observada não desaparece. Pelo contrário, parece crescer. Como se cada gesto meu estivesse sendo avaliado, absorvido. Depois de alguns instantes, Matteo limpa os lábios com o guardanapo e apoia o antebraço sobre a mesa. — Você leu o contrato? — pergunta, direto. Meu estômago se contrai levemente. — Li — respondo. A imagem das páginas, das cláusulas frias e objetivas, surge na minha mente com clareza perturbadora. Ele inclina a cabeça de leve, os olhos ainda presos aos meus. — Tem alguma dúvida? A pergunta paira entre nós, pesada. Levo o garfo à boca mais uma vez, mais por necessidade de ocupar as mãos do que por fome. Engulo devagar, sentindo o peso da decisão que se aproxima. Dúvidas eu tenho muitas. Mas o que me assusta… é perceber que talvez eu queira ouvir as respostas. Seguro o garfo por alguns segundos a mais do que o necessário antes de pousá-lo no prato. Meu apetite diminui na mesma proporção em que o peso da pergunta cresce. — Tenho… algumas — admito, enfim. Matteo não se move. Não me apressa. Apenas me observa, com aquela calma perigosa de quem está acostumado a ter o controle da situação. Ele reclina-se levemente na cadeira, entrelaçando os dedos sobre a mesa, dando-me espaço. Permissão. — Pode falar — diz. Respiro fundo. — O contrato é muito… claro — começo, escolhendo as palavras com cuidado. — Proteção, conforto, sigilo. Tudo parece extremamente bem calculado. Mas… — hesito — o que acontece comigo fora disso? Fora das cláusulas. Ele ergue uma sobrancelha, interessado. — Explique. — Minha vida — digo. — Minha rotina. Meu trabalho. Quem eu posso ver, para onde posso ir. Eu continuo sendo eu… ou passo a ser apenas “a esposa do senhor De Luca”? O silêncio se instala por alguns segundos. Matteo me encara como se estivesse analisando não apenas a pergunta, mas o que ela revela sobre mim. — Você continuará sendo Elena — responde, por fim. — Mas Elena passará a viver em um mundo diferente. Meu peito aperta. — Um mundo perigoso? — pergunto, quase num sussurro. Os lábios dele se curvam em algo que não chega a ser um sorriso. — Um mundo poderoso. Essa palavra ecoa dentro de mim. — E a cláusula sobre… intimidade — continuo, sentindo o calor subir pelo meu pescoço. — Ela diz que não sou obrigada a nada. Isso é real? Ou é apenas algo bonito no papel? Os olhos verdes escurecem um pouco. — É real — afirma, sem hesitar. — Eu não preciso de uma esposa submissa, Elena. Preciso de uma esposa respeitada. Até por mim. Há algo na forma como ele diz isso que me desconcerta mais do que qualquer ameaça velada. — Então por que eu? — pergunto de uma vez. — Existem mulheres muito mais… adequadas. Socialmente, estrategicamente. Ele inclina o corpo para frente, diminuindo a distância entre nós. Não invade meu espaço — apenas o suficiente para me obrigar a manter o olhar nele. — Porque você não faz perguntas desnecessárias — diz. — Porque sabe ouvir. Porque é discreta. Inteligente. E porque, mesmo sem saber, já provou que sabe guardar segredos. Engulo em seco. — Você me observou — constato. — Sempre observo o que é importante para mim. Meu coração acelera. — E se eu disser não? — pergunto. Por um instante, algo muda. Não ameaça. Não raiva. Apenas… verdade. — Eu respeitarei — responde. — Mas precisarei encontrar outra solução. E nem todas seriam tão… seguras quanto você. A palavra seguras pesa. O garçom aparece para retirar os pratos do principal e anunciar a sobremesa, quebrando novamente a tensão. Matteo faz um breve aceno e tudo segue como se aquela conversa não estivesse decidindo o rumo da minha vida. Quando ficamos sozinhos outra vez, olho para ele, para a cidade lá fora, para meu reflexo no vidro. — Você promete que não vai mentir para mim? — pergunto, por fim. Ele sustenta meu olhar. — Prometo não mentir sobre aquilo que posso lhe contar. Não é a resposta perfeita. Mas é honesta. E isso, estranhamente, faz meu peito apertar ainda mais. Porque começo a entender que, se eu aceitar… não será apenas um contrato que estarei assinando. Será um mergulho em um mundo sem volta. Assim que termino a sobremesa, ainda saboreando o último vestígio doce que permanece no paladar, Matteo se levanta primeiro. Ele estende a mão na minha direção, um gesto firme, seguro, como se já soubesse que eu aceitaria. — Ainda não terminamos — diz. — Quero te levar a mais um lugar. Meu coração dá um salto silencioso. Seguro sua mão e me levanto. O toque dele é quente, constante. Não é carinhoso — é protetor. Como tudo nele. Descemos até a garagem do restaurante, onde o ar muda, ficando mais frio e silencioso. Um dos carros de luxo de Matteo nos espera, negro, polido, imponente. As portas se abrem antes mesmo que eu pense em tocar nelas. Entro no banco traseiro, o couro macio envolvendo meu corpo. Matteo senta ao meu lado, e o motorista parte sem que seja necessário qualquer instrução. Enquanto o carro desliza pelas ruas, observo o reflexo das luzes nos vidros escurecidos e não consigo evitar o pensamento insistente: Como um homem consegue ter tanto? Não é apenas dinheiro. É controle. Influência. Poder que se manifesta nos mínimos detalhes — no silêncio do carro, na precisão do trajeto, na forma como tudo parece girar ao redor dele. Alguns minutos depois, o portão de uma propriedade imensa se abre diante de nós. A casa surge lentamente, revelando-se em camadas: grande demais para ser apenas uma casa, sofisticada demais para parecer acolhedora à primeira vista. Quando entro, minha respiração falha. É luxuosa, sim. Mas também é… pessoal. Cada detalhe parece pensado. Mármore, madeira escura, iluminação suave. Me aproximo de uma porta e noto algo que se repete quase como uma assinatura silenciosa: M.D.L. Nas maçanetas. Nos talheres dispostos com perfeição. Em pequenos detalhes espalhados pelos cômodos. — Gosta de deixar sua marca — murmuro, sem perceber que disse em voz alta. — Apenas onde importa — ele responde, caminhando ao meu lado. Ele me guia pelos corredores, pela sala ampla, pela biblioteca silenciosa, até finalmente subir uma escada elegante. Abre uma porta dupla. — Nosso quarto. O espaço é grande, sofisticado, com uma cama imponente no centro, lençóis impecáveis, janelas que dão vista para a cidade adormecida. Meu estômago se contrai. Antes que eu diga qualquer coisa, Matteo continua andando e abre outra porta, logo ao lado. — E este será o seu — diz. — Para os dias em que preferir ficar sozinha. O quarto é menor, mas igualmente elegante. Há algo reconfortante ali. Um espaço que ainda parece… meu. Isso me desmonta mais do que qualquer demonstração de poder. Descemos novamente e, ao chegarmos à sala de jantar, meu coração acelera. O contrato está sobre a mesa. Organizado. Intacto. Esperando por mim. Matteo puxa uma cadeira e se senta, mantendo os olhos em mim. — Está na hora de você decidir — diz, sem rodeios. Aproximo-me devagar. Passo os dedos pela borda das páginas, sentindo o peso de cada cláusula sem precisar reler nenhuma delas. — Vai ser assim? — pergunto, finalmente. — Sempre juntos… jantares como aquele… você sendo assim comigo? Romântico? Ele inclina a cabeça levemente, pensativo. Quando menciono a palavra românticos, algo raro acontece. Matteo abre um leve sorriso. Quase imperceptível. Quase perigoso. — Romântico… — repete, como se experimentasse o som da palavra. Levanta-se e caminha até ficar diante de mim. — Você terá toda a minha proteção — diz, com a voz baixa e firme. — Todo o meu dinheiro. Tudo o que é meu será seu. Meu peito aperta. — E se for da sua vontade — continua — você me terá também. Engulo em seco. — Mas não espere romance — completa. — Eu não fui feito para isso. Amor não faz parte do que me moldou. Seus olhos verdes permanecem presos aos meus, honestos de uma forma brutal. — O que posso te oferecer é lealdade. Segurança. Presença. Olho novamente para o contrato. Depois para ele. E entendo, com uma clareza assustadora, que essa decisão não é sobre casar ou não. É sobre aceitar caminhar ao lado de um homem que não promete amor… mas que oferece tudo o que tem. Inclusive a si mesmo — do jeito quebrado e perigoso que ele é. E mesmo ainda confusa, indecisa, não entendo onde me surgiram forças para pegar aquela caneta e assinar meu nome naquela linha. E lá está, meu nome assinado.Capítulo Extra — CasaA casa nunca foi tão silenciosa… e ao mesmo tempo tão viva.Aurora estava deitada no tapete da sala, sobre uma manta macia, mexendo as perninhas com aquela concentração séria que só bebês têm. Os olhos grandes acompanhavam cada movimento, como se o mundo fosse algo completamente novo — e, para ela, era.Matteo estava estendido no chão, de lado, apoiando a cabeça no braço, totalmente fora do seu habitat natural de poder, reuniões e decisões. Vestia uma camiseta simples, cabelos levemente bagunçados.Meu marido.Meu homem perigoso.Reduzido a um sorriso bobo.— Guarda la mia principessa… — ele murmurou em francês, esticando o dedo para Aurora.Ela agarrou o dedo dele com força.Matteo congelou.— Elena… — ele sussurrou, como se falar alto pudesse quebrar o momento. — Ela está me segurando.— Ela faz isso comigo também — respondi, rindo baixo. — Parece pequena, mas manda em todos nós.Aurora soltou um som indecifrável, algo entre um balbucio e uma reclamação, e Matt
Capítulo Extra — A pequena aurora. A dor vinha em ondas. Fortes. Profundas. Mas, estranhamente, eu não estava com medo. Segurava a mão de Matteo com tanta força que cheguei a pensar que podia machucá-lo, mas ele não reclamou. Não soltou. Não desviou o olhar nem por um segundo. — Respira comigo, mon amour… — ele dizia, a voz firme, mas os olhos denunciavam o caos dentro dele. Eu via. O homem que enfrentou armas, guerras silenciosas, decisões impossíveis… estava ali, completamente vulnerável diante de mim. — Eu estou aqui, Elena. — Ele encostou a testa na minha. — Você não está sozinha. Outra contração me fez gemer alto. Meu corpo ardia, mas meu coração… meu coração estava cheio. Respiro fundo, concentrando para conseguir trazer minha filha ao mundo. Cheio de amor. Cheio de vida. — Você está indo tão bem… — ele sussurrou, beijando meus cabelos molhados de suor. — Ela já sente você. Nossa menina. Nossa menina. Essas palavras me deram força. Matteo é um canal de
Três anos se passaram desde aquela noite em que aceitei ser, de verdade, a esposa de Matteo De Luca.E às vezes ainda me pego pensando em tudo o que mudou… e em tudo o que permaneceu exatamente igual.A vida ao lado de Matteo nunca foi simples — e eu aprendi rápido que simplicidade nunca faria parte do nosso vocabulário. Mas, ao contrário do que temi no início, ela também nunca foi vazia. Foi intensa. Viva. Cheia de escolhas difíceis e promessas cumpridas.Nesses três anos, Matteo transformou o império que herdou. Não foi da noite para o dia. Houve resistência, traições silenciosas, noites em claro e decisões que pesaram mais do que qualquer arma que ele já segurou. Mas ele fez. Uma a uma, as rotas sujas foram fechadas. Pessoas foram libertadas. Organizações foram desmontadas.Ele nunca me contou tudo — e eu aprendi a respeitar isso — mas vi o suficiente para saber que ele cumpriu o que me prometeu: fazer diferente.Londres continuou sendo nossa base, mas Paris virou refúgio. Às vezes
O portão da casa de acolhimento se abre com um rangido baixo. O lugar é silencioso, limpo demais, calmo demais — aquele tipo de calma que não tranquiliza, apenas pesa. O jardim é bem cuidado, flores claras, bancos de madeira espalhados sob árvores antigas. Ainda assim, sinto um nó se formar no meu estômago. Matteo segura minha mão com força. Não é possessivo. É… vulnerável. — Ela gosta de sentar perto da janela — ele diz, a voz mais baixa do que o normal. — Diz que a luz ajuda a lembrar das coisas boas. Assinto, sem saber exatamente o que responder. Entramos. O cheiro é de chá, remédio e algo levemente adocicado. Uma enfermeira nos cumprimenta com um sorriso gentil e nos guia pelo corredor. Matteo caminha rígido, como se cada passo exigisse controle. Esse homem que enfrenta o mundo inteiro sem piscar… aqui parece um menino. Paramos diante de uma porta entreaberta. — Maman… — ele chama, em francês, antes mesmo de entrar. Ela está sentada em uma poltrona, perto da janela, como e
O carro avança pela estrada como se o mundo tivesse finalmente nos dado passagem.As luzes da cidade ficam para trás, e à nossa frente só existe o escuro pontilhado por estrelas. Matteo dirige com uma mão firme no volante e a outra entrelaçada à minha. Ainda uso o vestido da festa, agora mais simples, mas continuo me sentindo a mulher mais importante do mundo.— Para onde estamos indo? — pergunto, apoiando o queixo em seu ombro.Ele sorri de lado, aquele sorriso calmo que só aparece quando não há estratégia envolvida.— Um lugar onde ninguém nos conhece. Onde você pode respirar sem medo. Onde eu posso ser só… seu marido.O avião nos leva para longe. Quando acordo, já é manhã. O sol entra pelas janelas amplas de uma casa à beira-mar. O som das ondas é constante, quase hipnótico. Madeira clara, tecidos leves, flores frescas. Tudo ali parece pensado para descanso — e para nós.Matteo me observa enquanto caminho descalça pelo lugar, como se estivesse memorizando cada passo.— Você está fe
A igreja está em silêncio quando as portas se fecham atrás de mim. Não é um silêncio vazio — é um silêncio cheio de expectativa, de respiração contida, de corações atentos. A luz entra pelos vitrais altos, pintando o chão de tons dourados e azuis, como se o céu tivesse decidido testemunhar aquele momento. Dou o primeiro passo pelo corredor central com as mãos levemente trêmulas. Cada passo ecoa no mármore, e sinto o peso — não do vestido, mas da escolha. Ainda assim, meu coração não hesita. Quando ergo os olhos, eu o vejo. Matteo está à minha espera diante do altar. Não como o homem temido, não como o don, não como o CEO intocável. Ele está ali como um homem que escolheu amar. O terno perfeitamente ajustado não consegue esconder a emoção em seus olhos. Quando nossos olhares se encontram, algo dentro de mim se aquieta. É aqui. É com ele. Chego ao altar, e ele estende a mão. Quando nossos dedos se entrelaçam, sinto um aperto suave — não de posse, mas de certeza. O padre pigarrei







