FAZER LOGINAlejandro
Liderei o restante da reunião com uma frieza que claramente incomodou os velhos. Repassamos os relatórios das rotas de escoamento e as metas de arrecadação do mês, mas ninguém ali estava realmente prestando atenção nos números. O foco de todos estava na contagem regressiva invisible que acabava de ser ativada sobre a minha cabeça. Assim que encerrei a sessão, os conselheiros se retiraram em silêncio, deixando apenas o rastro do perfume caro e da falsidade deles para trás. Gomes foi o último a sair. Antes de passar pela porta, ele me encarou de relance, um aviso silencioso cravado nos olhos. Eu apenas sustentei o olhar até ele sumir do meu campo de visão. Quando a porta pesada de madeira finalmente se fechou, o silêncio da sala mudou de forma. Miguel caminhou até a entrada, trancou a fechadura por dentro e se virou, soltando o ar que parecia estar prendendo há horas. Erick desabotoou o paletó, caminhando até o bar de canto para servir três copos de uísque. — Puta que pariu, chefe — Miguel falou primeiro, passando a mão pelo rosto e se aproximando da mesa. — Por um segundo achei que a gente ia ter que limpar os miolos do Gomes do carpete antes do almoço. — Ele merecia — respondi, pegando o copo que Erick me estendia. Dei um gole longo, sentindo o líquido queimar a garganta e acalmar o resto da adrenalina. — Mas você teve razão em me segurar. Matar o velho ali ia dar o argumento que eles precisavam para me derrubar. — Aqueles abutres jogam sujo — Erick comentou, encostando-se na borda da mesa com o copo na mão. — Mas essa exigência do casamento... Eles foram cirúrgicos. Sabem exatamente onde pisar para te desestabilizar. Miguel soltou uma risada abafada, balançando a cabeça. — Chefe, você não quer casar. Todo mundo aqui sabe disso. Tem uma mulher diferente a cada noite na sua cama, nunca repete o prato. Como é que você vai aguentar uma esposa no seu pé cobrando relatório de onde você estava? Apoiei o copo na mesa e encarei os dois, deixando um sorriso cínico surgir nos meus lábios. — Vocês realmente acham que eu vou levar isso a sério? — perguntei, cruzando os braços. — Será um casamento de fachada, apenas para calar a boca daqueles abutres. Eu não preciso nem ver a cara dessa mulher dentro de casa. Ela vai ter o status, o dinheiro e uma ala inteira da mansão só para ela, contanto que fique de boca fechada e apareça nos jantares de negócios quando eu mandar. Erick arqueou uma sobrancelha, pensativo. — E as sugestões deles? As filhas dos conselheiros? — Nem fodend*. Se eu colocar uma filha de qualquer um daqueles velhos na minha casa, coloco uma espiã na minha cama. Vou arranjar alguém de fora. Alguém que precise de dinheiro o suficiente para assinar um contrato e sumir no cenário quando o prazo de um ano acabar. Miguel deu de ombros, parecendo convencido, mas o sorriso malicioso logo voltou ao seu rosto. — Bom, se é assim... Menos mal. Pelo menos a primeira-dama não vai ficar controlando seus horários. — E nem os meus hábitos — completei, pegando o copo de volta. — Eu não vou deixar as minhas garotas do night club. Elas são a minha distração do dia a dia, e nenhuma aliança vai mudar isso. Miguel e Erick soltaram uma gargalhada alta juntos, quebrando de vez a tensão que tinha dominado a manhã. — Justo, chefe. Seria um pecado desperdiçar o estoque — Miguel brincou, erguendo o copo em um brinde. — Chefe, chegaram duas gostosas novas lá — Miguel comentou, os olhos brilhando com aquela malícia de sempre. — Uma delas é uma ruiva deliciosa. O senhor vai amar, ela tem uma raba... e dança o pole dance como nenhuma outra que eu já vi. Girei o uísque no copo, sentindo o interesse fisgar na hora. — Uma delícia saber — respondi, guardando a informação com um sorriso de canto. — Acho que vou lá hoje à noite. Quem topa ir junto? Miguel já ia assentir, mas Erick deu um passo à frente, cruzando os braços com aquela postura mais centrada de sempre. — Chefe... — Erick ponderou, ajeitando o terno. — Será que não vão achar ruim o senhor ir? Seu pai morreu ontem. Os velhos do conselho podem usar isso para dizer que você não respeita a memória do Ramón. Soltei um sopro de risada, totalmente sem paciência para a moralidade daquele povo. — Sim, ele morreu. E eu estou de luto, por isso preciso distrair a mente — ironizei, encarando o Erick. Os dois me olharam por um segundo, captando o sarcasmo ácido, e nós três rimos alto. O luto pelo Ramón era uma piada que nenhum de nós fingia levar a sério. Nós três estávamos juntos desde a adolescência, amarrados por um pacto que o tempo só fez endurecer. Nunca nos largamos. Era um protegendo o outro, desde a época em que éramos só garotos tentando sobreviver à sombra dos nossos coroas. Afinal, os nossos pais foram os piores monstros que já pisaram nessa terra. O que tínhamos ali não era só lealdade de negócios; era o único laço de sangue real que nos restava. — É, Erick, o chefe tem um ponto — Miguel brincou, batendo no ombro dele. — Um homem estressado não governa bem. Vamos garantir que o império continue firme. — Sendo assim, não posso deixar o meu chefe desprotegido na noite — Erick cedeu, balançando a cabeça com um sorriso de canto e virando o resto do seu uísque. — Eu dirijo. — Ótimo. À noite a gente resolve o resto — decretei, deixando o copo vazio sobre a mesa.Rosário Antes que eu pudesse rir da reação dele, Alejandro já estava de pé logo abaixo de mim, os braços firmes estendidos para me segurar caso eu despencasse. Mas eu não caí. Com um movimento controlado, desmanchei a posição e escorreguei pela barra direto para os braços dele, que me suspenderam no ar num piscar de olhos, colando meu corpo ao seu. Ele me apertou contra o peito, a respiração quente batendo no meu pescoço, o rosto marcado por uma mistura de alívio e loucura. — Você estava deliciosa, minha rainha... Você me mata do coração, sabia? — ele murmurou contra a minha pele, a voz rouca e trêmula, me carregando como se eu não pesasse nada até o sofá grande de couro. Deitei sobre ele, rindo baixinho enquanto ajustava meu corpo por cima do dele, sentindo o calor do seu tronco me envolver. Levei uma mão até o rosto dele, acariciando a barba por fazer com um sorriso vitorioso. — Eu treinei para dançar para você, meu amor. O que você achou? Ele fechou os olhos por um insta
Rosário silêncio do apartamento em Bogotá era o refúgio perfeito depois daquela maratona de viagens e despedidas. Mas o tempo, implacável e generoso, fez questão de acelerar o ponteiro. Três meses se passaram em um piscar de olhos, transformando a rotina, os ânimos e o formato do meu corpo. Agora, com sete meses de gravidez, a barriga avantajada exibia o milagre que crescia dentro de mim, me deixando com uma aura diferente, mais plena, embora a curiosidade e os caprichos típicos dessa fase estivessem a mil por hora.Numa tarde cinzenta e fria na capital colombiana, enquanto ele revisava alguns relatórios na sala de estar, decidi que a calmaria tinha durado tempo demais.— Marido — chamei, arrastando os passos até ele e me inclinando sobre o braço da poltrona. — Vamos sair. Quero ir à boate.Alejandro ergueu os olhos do papel, a expressão endurecendo na mesma hora. Ele fechou a pasta com um suspiro pesado, já sabendo exatamente de qual boate eu falava — a nossa, fechada ao público
Rosário Chegou o grande dia da nossa partida, e o coração apertou. Eu confesso que não queria ficar longe da minha mãe. Estávamos todos nos despedindo na sala, um clima gostoso de despedida em família, embora a Andréia ainda estivesse para chegar. Como tínhamos passado os dias todos juntinhos, a saudade antecipada já batia forte. Minha mãe me abraçou forte e se despediu dizendo que ia me ver em breve, afirmando que, se precisasse, iria me visitar sozinha mesmo sem a Rosa — elas ainda estavam decidindo se a Rosa ia junto ou não.Com o peito cheio de carinho, nos abraçamos mais uma vez e começamos a caminhar em direção à saída. Quando já passávamos pelo portão, o carro do Gustavo estacionou de repente. Achávamos que seriam apenas ele e a Andréia, mas, para a nossa surpresa, a porta de trás se abriu e o Henrique desceu correndo em minha direção, me abraçando com força:— Titia, que saudade de você! Eu vou sentir muita falta.O Alejandro que caminhava ao meu lado, parou de inopino, arr
AlejandroDeixamos a casa para trás sem prolongar as despedidas e seguimos direto para o hotel no centro da cidade. Itajubá tinha aquela atmosfera de refúgio, uma calma que parecia blindar a nossa pequena suíte elegante de qualquer tempestade externa.Assim que trancamos a porta do quarto, o silêncio aconchegante nos envolveu. Ela suspirou fundo, os ombros caídos pela exaustão da viagem e das emoções do dia.— Preciso de um banho, marido... tô tão cansada — murmurou, com a voz manhosa.Me aproximei sem pressa, passei os braços ao redor da sua cintura e a puxe para perto, colando o corpo dela no meu.— Vem, eu te ajudo — falei baixinho, beijando o topo da sua cabeça.Desnudei-a com gestos lentos e cuidadosos, tirando cada peça com a devoção de quem queria apagar qualquer vestígio de cansaço daquele dia. Tirei minha roupa em seguida e a levei pela mão para o interior do box. Girei o registro e deixei a água morna cair sobre nós, lavando o mundo lá fora.Ela encostou a cabeça no meu
Alejandro Enquanto as mulheres ficavam na sala entre risadas e embrulhos de presente, chamei o Gustavo para ir até a área da piscina. Pegamos duas garrafas de cerveja gelada e fomos para o lado de fora. O ar puro e o som suave da água pareciam o cenário perfeito para aquela conversa que nós dois sabíamos que precisava acontecer.Dei um gole na cerveja, observando o reflexo do sol na água, dando espaço para que ele se sentisse à vontade. Gustavo respirou fundo, me encarou de frente e decidiu abrir o jogo, com uma honestidade que eu soube respeitar no mesmo instante.— Olha, Alejandro, eu te respeito de verdade por você tratar a minha cunhada da melhor forma. É nítido para todo mundo o quanto a Rosário está feliz ao seu lado, e eu te agradeço do fundo do coração por isso. Mas tem algo que eu preciso falar com você... É sobre o Henrique.Ele fez uma pausa, pesando as palavras, e continuou com a voz tomada pela firmeza de um protetor:— Para mim, Alejandro, o Henrique é um filho. Ele
Rosário O café da seguiu em clima de festa, entre risadas, pedaços generosos de bolo e conversas leves que pareciam apagar de vez as sombras do passado. Quando finalmente nos levantamos da mesa, o grupo naturalmente se dividiu.Enquanto os homens — Alejandro e Gustavo — seguiram para a área da piscina com garrafas de cerveja na mão para conversar longe das fofocas, nós, mulheres, nos reunimos na sala. A mesinha de centro rapidamente se transformou em um verdadeiro mostruário de amor.Comecei a desamarrar as fitas das sacolas que havíamos trazido, com os olhos brilhando de empolgação.— Gente, nós compramos várias coisinhas sem saber o sexo do bebê, então tem um pouco de tudo — fui explicando, tirando pacotinhos e caixas de dentro da bolsa.Minha mãe olhou para aquela pilha de mimos, com os olhos marejados de novo, e balançou a cabeça carinhosamente:— Ai, minha filha... não precisava de nada disso. Só de ver vocês aqui, bem e reunidas, já é o maior presente que eu podia pedir a







