Compartilhar

Capítulo 05

Autor: DANI VENCES
last update Data de publicação: 2025-11-17 22:20:59

— Acorde! — A voz da empregada de cabelos brancos tirou Lucy do sono. Ela abriu os olhos, ainda incrédula por estar em um castelo.

— Já é hora da escola — disse a mulher, puxando o cobertor com um sorriso tímido.

Lucy levantou-se, sorrindo. Pela primeira vez, alguém a acordava para a escola, algo que nunca tivera com Mary. Vestiu uma blusa branca e uma calça jeans, sem saber as regras do colégio, mas apostando na simplicidade. No café da manhã, a mesa estava cheia de bolos e doces, mas Mary ainda dormia.

— Cadê minha mãe? — perguntou à empregada de cabelos pretos.

— Ainda dormindo — respondeu ela, seca.

— Nem tudo mudou — murmurou Lucy, rindo para si mesma enquanto comia.

— O motorista tá te esperando — disse a empregada. — Seu material já está no armário do colégio.

— Material? Eu não comprei nada — disse Lucy, surpresa.

— Tudo foi providenciado — respondeu a mulher, deixando-a sozinha.

Lucy correu para o carro, onde Cornélio a esperava com um sorriso largo.

— Olá! Você é a pessoa mais feliz que encontrei aqui — disse ela, entrando na limusine.

— E tem como não ser? Tô diante de uma menina linda com um sorriso incrível! — respondeu Cornélio, piscando.

— Gostei do senhor! — disse Lucy, rindo. — Gosto de elogios pela manhã.

— Não fica convencida, hein? — Ele riu, acelerando.

O caminho era de tirar o fôlego, com roseiras e árvores forrando a estrada. O castelo de Lucy parecia pequeno comparado ao colégio, um castelo ainda maior, com torres altíssimas e vitrais coloridos. Quantos castelos existem aqui?, pensou Lucy.

— Só o seu e esse — respondeu Cornélio, como se lesse seus pensamentos.

Ao descer do carro, Lucy sentiu todos os olhares sobre ela. Seu estômago revirou, e ela quis voltar para a limusine, mas Cornélio já fechava a porta.

— Boa sorte! — disse ele, com um tom sério que a deixou nervosa.

Lucy respirou fundo, tentando ignorar os olhares, quando um garoto se aproximou. Ele tinha cabelos negros, olhos de safira brilhantes e um sorriso com covinhas que a deixou sem ar. Sua blusa branca marcava um corpo definido, e por um momento, Lucy esqueceu onde estava.

— Como se chama? — perguntou ele, a voz suave.

Antes que Lucy pudesse responder, uma menina o interrompeu:

— Ela é Lucy Sales — disse, com desdém. Seus olhos de safira, idênticos aos do garoto, brilhavam com desprezo. — Quem mais seria?

— Sales? — Uma mulher, levando um menino para a escola, parou, surpresa, encarando Lucy.

— A filha de Dick Sales? — perguntou um homem, com tom de ofensa.

Lucy ficou paralisada. Uma aglomeração se formou ao seu redor, murmúrios e olhares acusadores a cercando. O garoto de olhos de safira recuou, como se ela fosse contagiosa.

— Deixem-na em paz! — gritou um homem de cabelos ruivos e sardas, dispersando a multidão. — Alunos, entrem! Pais, o tempo de vocês aqui acabou.

Ele virou-se para Lucy, com um sorriso gentil.

— Vamos, menina. Vou te mostrar o colégio.

O interior era grandioso, com corredores largos e lustres brilhando, mas Lucy mal notava. Os olhares de desprezo a seguiam, como se ela fosse uma intrusa. O homem, que se apresentou como diretor, falava sem parar, mostrando salas e entregando um papel com a senha do armário e os horários. Lucy mal ouvia, o coração apertado.

— Lucy, tudo bem? — perguntou ele, notando sua expressão distante.

— O que eu fiz pra eles? — perguntou ela, a voz tremendo, segurando as lágrimas.

— Cameron é uma cidade pequena, cheia de superstições bobas — disse ele, tentando acalmá-la. — Não se preocupe.

— Que tipo de superstições? — insistiu Lucy, sentindo o colar pulsar.

Ele hesitou, mexendo nos cabelos ruivos, tão parecidos com os dela.

— As pessoas invejam os ruivos, sabia? Eu também sofri! — brincou, tentando animá-la. — Vamos conhecer sua turma?

— Sim, vamos — disse Lucy, forçando um sorriso triste.

Na sala, uma professora de meia-idade, com olhos violeta e voz rouca, olhou para Lucy com desdém.

— A nova aluna? — perguntou, como se Lucy fosse insignificante.

— Sim — respondeu o diretor. — Espero que Lucy seja bem tratada. Quero que se sinta em casa. — Seu tom era firme, quase uma ordem.

— Não se preocupe, sou profissional — disse a mulher, sem entusiasmo.

— Se precisar, me procure — disse o diretor, piscando para Lucy antes de sair.

Ela entrou, sentindo todos os olhares. Alguns alunos cochichavam, outros a ignoravam. A professora apontou para uma cadeira vazia no fundo, perto da janela, atrás do garoto de olhos de safira.

— Senta ali — disse, seca.

Lucy caminhou entre os cochichos, o colar quente contra sua pele. O que há de errado com essas pessoas?, pensou, tentando não chorar.

— Eu me sinto suja só de estar perto dela — disse a menina de olhos de safira, Carolyn, alto o suficiente para Lucy ouvir.

Lucy sentou-se, abriu o caderno e fixou os olhos no quadro, decidida a segurar as lágrimas. Ela era boa nisso. Antes de conhecer Verônica, era só uma ruiva magricela e tímida, aceita apenas por ser amiga de alguém popular. Talvez, em Cameron, ela voltasse a ser aquela garota invisível.

A aula passou em um borrão, a tensão sufocante. Lucy segurou a caneta com tanta força que ela quebrou, a tinta manchando sua mão.

— Droga! — murmurou, pegando um papel para limpar.

— Algum problema? — perguntou o professor, um homem de óculos grandes e olhos negros, impaciente.

— Só a caneta — disse Lucy, mostrando a mão suja.

— Não acha melhor lavar isso? — sugeriu ele. — E leve seu material. O intervalo tá chegando.

Lucy correu para o banheiro, aliviada por escapar da sala. O lugar era magnífico, com espelhos brilhantes e azulejos impecáveis, mas ela mal notou. Trancou-se em uma cabine ao ouvir vozes.

— Você a viu? — disse uma menina.

— Não parece tão assustadora quanto a avó — respondeu outra.

— Deve ser pior. A velha tava gagá, mas essa... — disse Carolyn, com desprezo.

— Acho errado ignorarmos ela — disse a outra, com um toque de medo. — E se ela ficar com raiva?

— E daí? Ela não merece que ninguém fale com ela — retrucou Carolyn. — Viu o cabelo dela? Água de salsicha. Os Sales não merecem nossa compaixão.

Lucy sussurrou para si mesma: “Eles?” Quem eram “eles”?

— Admita, Carolyn, ela é linda. Não é qualquer um que é ruiva natural — disse a outra.

— Linda? — Carolyn riu. — Magrela, mal vestida, cabelo mal cuidado. Meu irmão até pareceu interessado, mas foi só até saber quem ela era.

— Vamos, ou perdemos o intervalo — disse a outra, apressada.

Quando as vozes sumiram, Lucy saiu da cabine, enxugando as lágrimas. Queria fugir, voltar para casa, para Verônica. Correu para fora do colégio, mas parou ao ver apenas árvores ao redor. Como vou embora?, pensou, desesperada. De repente, alguém agarrou seu braço e a virou com força. Os olhos de safira do garoto a encararam, penetrantes, e sua respiração acelerou.

Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App

Último capítulo

  • A maldição dos Sales   capitulo49

    No penhasco, o vento cortante a fazia tremer. Seu vestido preto, sujo e amassado, não protegia do frio. Lágrimas escorriam, seus cabelos vermelhos bagunçados pelo vento sombrio. Lucy olhou o livro rasgado, as folhas espalhadas ao chão, a agonia tomando seu peito. Queria fazer algo, mas estava presa. Pensou em Cedric, no seu sorriso, nos lábios dele nos seus. Fora ela quem o afastara. Seria culpada por sua morte. Odiava-se. Queria estar lá, morrendo com todos, pois a culpa era dela. Viveria para ver todos morrerem, sabendo que fora ela, e ninguém mais, quem tirara a vida de quem amava. Um uivo cortou o ar, como um animal ferido. Lucy temeu pelo bicho. Seria sua culpa também? O som diminuiu, e ela pensou que o animal morrera. Então, algo se aproximou. Um lobo, o mesmo do Prólogo, encarava-a com olhos negros. Lucy sentiu alívio. Não temia o lobo. Até sentiu gratidão, achando que ele a mataria, tirando a agonia de seu peito. — Me mate — implorou Lucy. — Por favor! O lobo abaixou a cabe

  • A maldição dos Sales   Capítulo 48

    (Horas antes do baile “Queimem as Bruxas”) Lucy estava diante do espelho, o vestido preto pronto, o coração disparado. O aroma de jasmim pairava, como se Cassandra a observasse. — Nem sei se vou conseguir — confessou Lucy, a voz tremendo. — Lucy, querida, você é uma bruxa agora. Pode tudo — disse Cassandra, num tom calmo e doce, quase maternal. — Como posso ter certeza? — perguntou Lucy, insegura. — Você me prometeu — respondeu Cassandra, os olhos verdes brilhando. — Vou lá e vou enfrentar eles — disse Lucy, determinada, cerrando os punhos. — Sim, mostre que um Sales não abaixa a cabeça — incentivou Cassandra. — Mas não vou lançar maldição nenhuma — afirmou Lucy, firme. — Eu sei — disse Cassandra, com um leve sorriso. — Cassandra, por que a “maldição da meia-noite” não sai da minha cabeça? — perguntou Lucy, franzindo a testa. — Ela quer ser usada — respondeu Cassandra. — Foi feita há tanto tempo, mas nunca foi usada. — Não vou usar — declarou Lucy, decidida. — Acredito em

  • A maldição dos Sales   Capítulo 47

    No castelo, Lucy subiu ao quarto, secando as lágrimas. Pegou o diário de Cassandra e abriu na última página, onde lia-se, em letras firmes:Hoje faço deles meus escravos. Sou Cassandra Sales, a bruxa mais poderosa que já pisou neste solo. Sou eu que eles temem, a bruxa que virará lenda, que colocará medo nas crianças antes de dormir. Sou eu que fará todos pagarem caro pelo que me fizeram. Hoje, posso andar onde quero, e são eles que abaixam a cabeça quando passo. Fiz muitas coisas, mas não consegui transformar a cidade em cinzas, como sempre sonhei. Sei que isso ainda pode acontecer. Deixarei que meus descendentes limpem nosso nome. Escrevo na última folha deste diário o único feito que nunca realizei. Espero que você, meu descendente, possa realizá-lo e libertar nossa família da vergonha que Anastácia nos trouxe. A maldição da meia-noite… Lucy fechou o diário, o coração disparado. A “maldição da meia-noite” ecoava em sua mente, um mistério que a chamava.(Duas semanas depois)

  • A maldição dos Sales   Capítulo 46

    Cassandra sorriu, os olhos verdes brilhando com triunfo. Lucy se viu em um círculo perfeito, formado por seus antepassados, suas figuras etéreas iluminadas por uma luz prateada. O aroma de jasmim impregnava o ar, denso e sufocante. — Eu disse que ela ia nos honrar — declarou Cassandra, sua voz ecoando, voltada para todos. — Minha doce criança, pensei que a magia morreria — disse uma mulher de cabelos brancos, encarando Lucy com olhos gentis, mas penetrantes. — Mas ela está aqui. A última Sales vai honrar nosso nome — afirmou um homem que Lucy reconheceu como o irmão de Anastácia, sua voz carregada de orgulho. — Lucy, você não sabe os princípios básicos da magia. Vou te contar — disse a mulher de cabelos brancos, pegando a mão de Lucy e conduzindo-a ao centro do círculo. — Sim — respondeu Lucy, hesitante, sentindo o peso dos olhares. — A magia vem de nós, da sua família — explicou a mulher. — Mas saiba que a magia, em si, é sua. Porém, tem que ter cuidado. Tudo que é precio

  • A maldição dos Sales   Capítulo 45

    Cedric chegou em casa, o rosto pálido, ainda atordoado pela rejeição de Lucy. Seus passos ecoavam no silêncio do hall, o peso da conversa com ela esmagando seu peito.— Correu atrás dela, não foi? — perguntou Carolyn, aparecendo na sala, a voz carregada de raiva.— Sim — respondeu Cedric, seco, evitando o olhar da irmã.— O que mais é preciso pra você se afastar dela? — exclamou Carolyn, cruzando os braços. — Ela me machucou, Cedric!— Me deixa, Carol! — retrucou ele, a voz cansada, subindo as escadas.— Você não vê como ela nos afasta, como ela te faz mal? — insistiu Carolyn, seguindo-o até o corrimão.— Não se preocupa — disse Cedric, parando, os olhos opacos. — Ela não vai me fazer mal algum.— O que tá dizendo? — perguntou Carolyn, franzindo a testa.— Lucy não quer ficar comigo — confessou Cedric, a voz quase um sussurro, carregada de dor.— Não quer? — Carolyn estranhou, um brilho de surpresa nos olhos.— Não — confirmou ele, o rosto fechado.— E por que isso agora? — perguntou

  • A maldição dos Sales   Capítulo 44

    Lucy entrou no quarto, jogou-se na cama e quis esquecer aquele dia. O aroma de jasmim pairava, sutil, como se Cassandra a observasse. Minutos depois, Catherine entrou. — Quer comer alguma coisa? — perguntou, preocupada. — Não — respondeu Lucy, seca. — Tem que se alimentar — insistiu Catherine. — Tô sem fome — disse Lucy, olhando para o teto. — Lucy… — começou Catherine, hesitando. — Diga — pediu Lucy, sem ânimo. — Tá pensando em aceitar? — perguntou Catherine, séria. — Aceitar o quê? — retrucou Lucy, sabendo exatamente do que ela falava. — Sei que, de alguma forma, você tá considerando — disse Catherine. — Tenho que dizer: sua avó não aprovaria. — Não aprovaria? — exclamou Lucy, sentando-se na cama, irritada. — Então me diz por que me prendeu aqui? — Não posso dizer — respondeu Catherine, desviando o olhar. — Segredos — disse Lucy, amarga. — Não sei em quem confiar, quem mente pra mim. Tô sozinha nisso. — Não tá — afirmou Catherine, com firmeza. — Sabe, Catherine, às vez

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status