INICIAR SESIÓNContinuação.
— O quê? — perguntei, confusa. — Qualquer um que olhe pra você vai perceber que está passando por necessidades — disse, enquanto começava a retirar a maquiagem. — Está tão na cara assim? — Está. Mas, Lis… alguém já te disse que você é linda? Ela se sentou ao meu lado. — Por que isso agora? Para de coisa. Não estou com cabeça para brincadeiras — respondi, exausta. — Não estou brincando. Você quer se formar. Quer pagar sua faculdade. E eu tenho uma proposta que pode te ajudar. Meu coração disparou. — Sério? Qual? — Não sei se você vai querer. — Não faz rodeio, Estela. Ela respirou fundo. — Acompanhante de luxo. — O quê? Está falando sério? — Muito. Eles pagam muito bem, Lis. E você é perfeita para isso. Sua beleza é surreal. Claro que com alguns ajustes… mas seu corpo, seu rosto… você ganharia muito dinheiro. — Eu não quero esse tipo de trabalho — respondi rápido. — Até porque eu nunca… Travei. Os olhos dela se arregalaram e brilharam. — Mentira… meu Deus. Uma mina de ouro na minha frente. — Para com isso! Eu não vou aceitar. — Pensa bem. Essas cartas não vão chegar mais. Basta uma vez. Você não é obrigada a entregar o que é mais precioso. É só garantir o dinheiro. Uma noite… e seus problemas acabam. O quarto ficou em silêncio. Uma noite, apenas uma noite... Eu aceitei. Não com palavras, mas com atitudes. Estela não comemorou. Apenas assentiu. — Então vamos fazer direito. Durante um mês inteiro, ela me treinou. Postura, olhar, silêncio, comportamento. Aprendi que naquele mundo não se fala demais, não se demonstra fraqueza, não se entrega tudo. — Você não vende o corpo — ela dizia. — Vende a experiência. Certa noite, ela colocou uma caixa preta sobre a mesa. Dentro, uma máscara. — Todos usam. É pra preservar a identidade. Mistério é essencial. — Vou precisar mesmo disso? — Principalmente você. Seu cliente é diferente. Foi quando ela me contou. — Ele só anda com acompanhantes de alto nível. Foi difícil conseguir ele pra você. Difícil mesmo. — Por quê? — Porque ele é exigente demais. E extremamente rico. Do tipo que não aceita erros. Meu estômago revirou. — Você vai ter que dar o seu melhor — ela concluiu. — Ele paga muito. Mas espera perfeição. Na noite marcada, com a máscara cobrindo parte do meu rosto, eu mal me reconhecia no espelho. Não era mais só a Lis desesperada. Era alguém moldada para sobreviver. Quando cheguei à suíte do hotel, meu coração quase saiu pela boca. Ele estava de costas, perto da janela. Terno escuro. Postura firme. Não perguntei nomes. Não disse nada. Assim que entrei naquele evento e o vi, senti todos os olhares se voltarem para mim. Era como se eu estivesse nua no meio do salão, mesmo usando um vestido impecável e a máscara que escondia parte do meu rosto. Do outro lado, vi Estela se afastar ao lado de outro homem, rindo baixo, segura. Sozinha outra vez. Meu estômago se revirou. Eu estava nervosa demais, mas precisava daquilo. Precisava mais do que nunca. — Rosa Negra? — ele perguntou, estendendo a mão em minha direção. Por um segundo, quase me esqueci de respirar. O pseudônimo. Estela havia me dado aquele nome. — Sim — respondi, erguendo o olhar para encontrar o dele, tentando parecer confiante… mesmo não sendo. Os olhos verdes me analisaram com atenção antes que ele virasse o corpo, sinalizando para que eu o acompanhasse. E eu fui. Por onde passávamos, os olhares nos seguiam. Curiosos. Avaliadores. Incomodados. Não sabia se era admiração ou julgamento — talvez os dois. Ele se afastava vez ou outra para conversar com alguns homens. Eu ficava onde estava, silenciosa, elegante, exatamente como Estela havia me ensinado. Postura ereta. Olhar neutro. Nenhuma emoção visível. — Com licença, aceitam uma taça de vinho? O garçom estendeu a bandeja. Peguei duas taças e, assim que ele se afastou, entreguei uma a ele, enquanto ainda conversava com outro homem. Falavam em uma língua que eu não entendia. Bebi o meu vinho em um único gole. Mas que vinho horrível é esse? Olhei de canto quando vi que ele também havia esvaziado a taça inteira. Permaneci ao seu lado. Ele não me olhava — nem por um segundo. Eu me sentia como um chaveiro esquecido, levado de um lado para o outro apenas por obrigação. Ainda assim, não deixava de chamar atenção. Todos aqueles homens que conversavam com ele faziam questão de beijar minha mão, como se eu fosse um acessório bonito… e silencioso.Lis Narrando. A volta para a mansão dos Lucchese foi carregada de emoção. Ele estava de volta, e eu sentia, finalmente, que nossa vida seria feliz e sem guerras. Os pais de Saulo o abraçaram com fervor enquanto ele retomava seu posto como líder da família. — Eu sempre soube que você era a pessoa certa — Saulo disse, enquanto eu colocava o bebê para dormir. — Você colocou nossa casa em ordem e ainda me deu dois herdeiros. — Eu sabia que você voltaria! Todas as noites eu me deitava confiando que, um dia, você cruzaria aquela porta. — Eu sei... — Ele me abraçou por trás. — Estou de volta. Três meses se passaram voando. Eu deixara o posto de braço direito dos Mendonça, e Diego assumira meu lugar. Eu sabia que ele era capaz; agora, ele estava à frente dos negócios enquanto Maria e Paulo viajavam em lua de mel. Eu me sentia, enfim, preparada para ver minha mãe. Nervosa, cheguei à mansão dos Mendonça carregando meu bebê no colo e com Matias agarrado à minha saia. Assim que entrei no ja
Continuação. Outro menino, Saulo — Maria disse, com um sorriso fraco em meio ao cansaço. — Outro homenzinho forte como você. Matias agora tem um irmão. Eu olhei para o pequeno Lucchese nos braços da minha irmã. Ele era pequeno, mas o choro era vigoroso. A sensação de ver Maria ali, cuidando da minha esposa e do meu filho enquanto eu estava "morto", me deu um nó na garganta. — Obrigado, minha irmã — murmurei, tocando a mão dela por um segundo antes de olhar para Lis. — Se não fosse por você... — Não me agradeça agora — Maria me cortou, recuperando a postura firme que herdamos do nosso pai. — Lis está apenas exausta. O parto foi brutal, Saulo. Ela lutou como uma leoa. O desmaio é o corpo dela pedindo trégua, nada mais. Ela vai acordar e vai querer ver você. Eu beijei a testa de Lis, que dormia um sono pesado, e depois encostei meu dedo na mãozinha do meu novo filho. Lis Narrando. Eu estava sonhando. Pelo menos foi o que pensei quando abri os olhos lentamente. Tudo parecia
Uma semana se passou. Cada passo que eu dava era acompanhado por uma dor latente e uma claudicação persistente. Minha perna nunca mais seria a mesma; aquela era a marca eterna da minha guerra com Magnus, um lembrete físico de que o inferno tinha deixado cicatrizes. — Silas, não tem nenhum celular por aqui? Alguma forma de comunicação? — perguntei, observando o velho organizar algumas ferramentas. — Aqui no vale não pega nada, meu jovem. Só na cidade, lá no alto, onde o sinal alcança. Eu vou para lá agora buscar alguns suprimentos, se quiser, pode vir comigo. No momento da partida, vi Magnus parado perto do cercado, acenando para nós com aquele olhar vazio e pacífico. O ódio subiu pela minha garganta. Era humilhante vê-lo ali, "esquecido" de suas atrocidades, vivendo uma vida simples enquanto eu carregava o peso de tudo o que ele destruiu. Mas eu tinha uma promessa a cumprir com Elara. Virei o rosto e subi na carroça. Assim que chegamos à pequena cidade, a primeira coisa que fi
O ranger das tábuas da varanda me tirou dos meus devaneios sobre Lis. Eu não estava sozinho. Elara estava ali, envolta em um xale pesado, com os olhos refletindo a luz pálida da lua. Ela não parecia surpresa em me ver de pé, nem com o meu olhar de ódio voltado para o canto onde Magnus dormia. — Você se lembrou, não foi? — a voz dela era um sussurro quebrantado. Eu não respondi de imediato. Apenas apertei o cajado com mais força. — Meu pai... ele é um homem de muita fé, Saulo. Ele acredita na vida acima de tudo — ela continuou, aproximando-se do parapeito. — Mas eu não sou cega. Quando os tiramos do rio, vocês não tinham apenas ossos quebrados. Vocês dois tinham ferimentos de bala. Um no ombro dele, outro perto da sua costela. Parecia que tinham tentado se matar antes mesmo da queda. Ela parou ao meu lado, e vi o brilho das lágrimas escorrendo pelo seu rosto. — Eu sei que vocês eram inimigos. Sei que o que quer que tenha acontecido naquele rio foi o fim de uma guerra sangrent
O cansaço físico finalmente venceu minha guarda alta, e eu apaguei. Mas o sono não trouxe descanso, trouxe fantasmas. No sonho, o cheiro de mofo da cabana deu lugar ao perfume de jasmim que ela sempre usava. Lis estava lá, com aquele sorriso que iluminava até os meus dias mais sombrios. Ela tocava meu rosto, e o calor da sua mão parecia tão real que meu coração disparou. — Saulo... — ela sussurrou, a voz suave como a brisa de um fim de tarde. — Você precisa voltar. Eu tentava alcançá-la, mas minhas pernas pesavam como chumbo. Ela começou a se afastar, envolta em uma névoa fria, e o desespero tomou conta de mim. A saudade apertou meu peito de uma forma tão violenta que eu acordei num sobressalto, com o nome dela preso na garganta. A cabana estava silenciosa, apenas o som da respiração pesada de Magnus no canto oposto e o estalar baixo das brasas na lareira. Olhei para o teto, sentindo uma lágrima solitária escorrer. Onde ela estaria agora? Será que ela pensava que eu estava mor
Saulo.. Meus olhos estavam pesados, mas fui recobrando a consciência aos poucos. O cheiro de mofo misturava-se a um bafo de ar quente próximo a mim. Tentar abrir as pálpebras parecia um sacrifício cruel; minha cabeça latejava e a garganta estava tão seca que acabei tossindo. Quando finalmente venci a resistência e abri os olhos, senti mãos tocarem as minhas e uma voz exclamar: — Ele acordou! A primeira visão foi a de um teto simples, de madeira. Olhei ao redor e vi um senhor e uma jovem. — Quem são vocês? — perguntei, tentando me levantar no impulso. — Calma, você não pode se mexer assim. Passou muito tempo dormindo — a moça me ajudou com cuidado e logo gritou: — Pai! Ele está bem! Olhei para a porta e, para minha surpresa, Magnus apareceu atrás do velho. Fiquei alerta instantaneamente. — Pensei que você não voltaria. Passou nove meses em coma — explicou o senhor. — Além da perna quebrada, você teve uma fratura no crânio. Esse aqui também estava com você quando os achamos







