FAZER LOGINSelena não dormiu naquela noite.
Permaneceu sentada ao lado da janela do quarto, observando a lua desaparecer lentamente atrás das montanhas. As lágrimas haviam secado. A dor, não. Ela ainda conseguia sentir os resquícios das emoções que atravessaram o vínculo. Desejo. Prazer. Satisfação. Sentimentos que não pertenciam a ela. Sentimentos que pertenciam ao homem que havia prometido amá-la diante da Lua Sagrada. Seu olhar foi para a cama. Aiden dormia tranquilamente. Abraçado ao pequeno lobo de pelúcia que Kael lhe dera no último aniversário. O coração dela apertou. Seu filho amava o pai. Adorava cada momento que passavam juntos. E Selena não suportava imaginar o sofrimento que uma separação poderia causar àquela criança. Ela enxugou o rosto. Precisava ser forte. Por ele. Sempre por ele. A porta do quarto se abriu pouco antes do amanhecer. Seu coração disparou. Por um instante, uma parte dela acreditou que fosse Kael. Que ele apareceria arrependido. Que explicaria tudo. Mas era apenas uma criada. — Luna Selena. A mulher abaixou a cabeça. — O Alfa convocou uma reunião para o meio-dia. — Uma reunião? — Sim. — Sobre o quê? — Não fui informada. A criada saiu. Selena ficou imóvel. Algo parecia errado. Muito errado. Nos últimos meses, reuniões do Conselho estavam se tornando cada vez mais frequentes. E quase sempre envolviam Violeta Ravencrest. A filha do Conselheiro Supremo aparecia em todos os assuntos importantes da alcateia. Como se estivesse ocupando um espaço que não lhe pertencia. Como se estivesse sendo preparada para algo. Um arrepio percorreu sua espinha. Horas depois, Selena desceu para o salão principal. Aiden corria à sua frente. O menino carregava um desenho que havia feito. — Vou mostrar para o papai! Ela sorriu. — Tenho certeza que ele vai gostar. Quando entraram no grande salão, dezenas de pessoas já estavam reunidas. Membros do Conselho. Betas. Gamas. Guerreiros. Famílias importantes. Todos estavam presentes. Kael encontrava-se na plataforma principal. Vestido com as roupas cerimoniais dos Alfas. Ao seu lado estava Violeta. Novamente. O desconforto aumentou. Aiden correu imediatamente até o pai. — Papai! Kael pegou o desenho. Um sorriso apareceu por um segundo. — Foi você que fez? — Sim! — Está muito bom. O menino abriu um sorriso enorme. Selena observou aquela cena. Era impossível reconciliar aquele pai carinhoso com o homem que havia passado a noite nos braços de outra mulher. Kael levantou o olhar. Os olhos deles se encontraram. Por um momento, Selena acreditou que ele demonstraria culpa. Mas não havia culpa. Apenas frieza. Uma expressão distante. Como se algo estivesse mudando entre eles. Como se ele já estivesse se afastando. O Conselheiro Magnus Ravencrest levantou-se. Sua voz ecoou pelo salão. — Como todos sabem, nossa alcateia atravessa um momento decisivo. Murmúrios surgiram. — O Reino do Norte deseja fortalecer a aliança entre nossas terras. Algumas pessoas assentiram. Outras trocaram olhares preocupados. — Uma união política garantirá prosperidade para as próximas gerações. Selena sentiu um aperto no estômago. Instinto. Algo dentro dela gritava que aquilo tinha relação com Violeta. Então Magnus continuou. — Minha filha Violeta será uma peça fundamental nesse acordo. A jovem sorriu. Orgulhosa. Confiante. Como se já soubesse exatamente o que estava prestes a acontecer. Selena observou Kael. Ele permaneceu em silêncio. E aquele silêncio começou a assustá-la. Muito. — Com essa união — continuou Magnus — nossa influência crescerá em todo o continente. Uma mulher levantou a mão. — Que união? O conselheiro sorriu. — A união entre o Alfa Kael Blackthorn e minha filha. O salão explodiu em murmúrios. O mundo de Selena parou. Seu coração simplesmente parou. Não. Não. Não. Ela devia ter ouvido errado. Aquilo não podia estar acontecendo. Kael já tinha uma companheira. Uma Luna. Uma família. Um filho. Todos os olhares se voltaram para ela. Piedade. Choque. Curiosidade. Humilhação. Selena sentiu as pernas fraquejarem. — O quê...? — sua voz saiu quase inaudível. Magnus fingiu surpresa. — Ah. Como se tivesse esquecido sua existência. — Naturalmente, a situação atual será resolvida. Situação atual. Era assim que chamavam sua vida. Seu casamento. Seu vínculo. Seu filho. Uma situação. Selena olhou para Kael. Esperando que ele negasse. Que encerrasse aquela loucura. Que defendesse sua família. Mas ele permaneceu imóvel. Em silêncio. Aiden olhou de um adulto para outro. Confuso. — Papai? Kael fechou os olhos por um instante. Então respondeu. — É uma decisão necessária. Aquelas palavras destruíram algo dentro dela. Necessária. Não foi um pedido de desculpas. Não foi uma explicação. Não foi arrependimento. Apenas uma justificativa. Como se ela fosse um obstáculo. Uma pedra em seu caminho. Nada mais. — Necessária? — Selena repetiu. A voz tremia. — Você está dizendo que pretende se casar com ela? — É pelo bem da alcateia. — E nossa família? O salão inteiro observava. Ninguém interferia. Ninguém a defendia. — Existem responsabilidades maiores que sentimentos. Ela sentiu vontade de rir. Ou de gritar. Talvez os dois. Porque aquele homem não parecia o mesmo que havia prometido protegê-la. O mesmo que segurou sua mão durante o nascimento de Aiden. O mesmo que jurou que ela jamais estaria sozinha. Tudo aquilo parecia uma mentira distante. — Então é verdade. Os olhos dela se encheram de lágrimas. — Você escolheu o poder. Violeta cruzou os braços. Vitoriosa. — Tome cuidado com suas palavras. Selena virou-se para ela. — Fique quieta. O salão inteiro congelou. Violeta arregalou os olhos. Ninguém costumava enfrentá-la. Mas Selena estava cansada. Cansada das provocações. Dos sorrisos falsos. Das humilhações. — Você sabia que ele tinha uma companheira. — Eu não roubei ninguém. — Não? Selena deu um passo à frente. — Então por que passou meses se enfiando nesta casa? O rosto de Violeta endureceu. — Porque sou importante para esta alcateia. — Não. Selena respondeu. — Você apenas quer o que é meu. O tapa veio rápido. Tão rápido que ninguém conseguiu impedir. O som ecoou pelo salão. Violeta levou a mão ao rosto. Chocada. Furiosa. Selena respirava com dificuldade. Talvez tivesse acabado de criar um inimigo ainda mais perigoso. Mas não se arrependia. Nem um pouco. Porque aquela mulher vinha destruindo sua vida há muito tempo. E alguém precisava dizer a verdade. — Basta! A voz de Kael trovejou pelo salão. Seu poder Alfa explodiu. A pressão atingiu todos os presentes. Aiden se encolheu assustado. Selena sentiu o coração quebrar ao ver o medo nos olhos do filho. Kael raramente perdia o controle. Mas quando acontecia, era aterrorizante. — Chega. A voz dele saiu fria. Controlada. Perigosa. Selena percebeu imediatamente. Ele estava zangado. Mas não com Violeta. Com ela. E isso doeu mais do que qualquer outra coisa. Porque naquele momento ficou claro de qual lado ele estava. E não era do lado da mulher que carregava sua marca. Era do lado da mulher que carregava sua ambição. Enquanto o salão mergulhava em silêncio, Selena compreendeu algo que vinha tentando negar havia meses. Ela estava perdendo Kael. Não para outra companheira. Não para o destino. Não para a lua. Ela o estava perdendo para a própria ganância dele. E essa era uma batalha que talvez já estivesse perdida antes mesmo de começar.Muitos anos passaram.As estações continuaram seu ciclo.As árvores cresceram.As crianças tornaram-se adultas.Outras crianças nasceram.O tempo seguiu seu caminho, como sempre fizera.O reino já não era conhecido pelas guerras que enfrentara.Os viajantes atravessavam suas fronteiras para conhecer o Bosque dos Recomeços, o Refúgio da Esperança e a Biblioteca da Origem.Mas o que mais surpreendia quem chegava não eram os lugares.Eram as pessoas.Os moradores tinham um costume curioso.Sempre que alguém enfrentava um período difícil, nunca permanecia sozinho.Vizinhos apareciam com uma refeição quente.Amigos dividiam o trabalho.Desconhecidos ofereciam companhia.As crianças aprendiam desde cedo que pedir ajuda era um ato de coragem.Ninguém sabia exatamente quando aquela tradição começara.Alguns diziam que nascera depois da Grande Guerra.Outros acreditavam que existira desde o início da Criação.Pouco importava.Ela continuava viva.O antigo castelo permanecia de pé.As muralhas
A noite já envolvia o reino quando a Festa das Duas Árvores chegou ao fim.Os últimos lampiões ainda permaneciam acesos entre os galhos.As crianças, cansadas de brincar, adormeciam nos braços dos pais.Os músicos guardavam cuidadosamente seus instrumentos.As mesas eram recolhidas aos poucos.Mesmo com o encerramento da celebração, ninguém tinha pressa de ir embora.Existiam lugares capazes de fazer as pessoas permanecerem apenas para apreciar o silêncio.A clareira das Duas Árvores havia se tornado um desses lugares.Selena caminhava lentamente entre os canteiros de flores.O perfume delicado da noite lembrava os primeiros dias depois da guerra, quando tudo ainda parecia frágil e incerto.Agora era diferente.A paz já criara raízes.Ela parou diante da Árvore da Esperança.Os galhos estavam muito maiores.As folhas douradas dançavam ao sabor do vento.Ao seu lado, a antiga Árvore do Equilíbrio permanecia majestosa.Não existia disputa entre elas.A mais velha protegia.A mais nova i
O reino inteiro despertou antes do nascer do sol.As ruas do castelo estavam enfeitadas com fitas douradas e flores colhidas no Bosque dos Recomeços.Crianças corriam de um lado para o outro carregando pequenos lampiões de cristal.Os padeiros trabalhavam desde a madrugada.O aroma de pães recém-assados espalhava-se pelos corredores.Os músicos afinavam seus instrumentos enquanto artesãos organizavam longas mesas de madeira ao redor dos jardins.A Festa das Duas Árvores havia se tornado a celebração mais importante do reino.Nenhuma batalha era lembrada naquele dia.Nenhum herói recebia homenagens individuais.A comemoração existia para recordar que toda vitória verdadeira nasce quando muitas pessoas escolhem caminhar na mesma direção.Selena observava tudo da varanda do castelo.Era impossível não sorrir.Cinco anos antes, aquele mesmo lugar ainda carregava marcas profundas da guerra.Agora, o som das risadas ocupava todos os espaços.Kael aproximou-se trazendo duas canecas de chá.E
A notícia espalhou-se pelo reino antes mesmo do nascer do sol.O Bosque dos Recomeços receberia seu milésimo visitante.Aquilo já havia se tornado uma tradição.Todos os anos, pessoas de diferentes alcateias caminhavam até o antigo castelo para plantar uma árvore em homenagem a alguém que havia mudado suas vidas.Alguns dedicavam a muda aos pais.Outros aos filhos.Havia quem escolhesse um amigo, um mestre ou alguém que jamais voltaria.Ninguém era obrigado a dizer o motivo.Bastava plantar.Bastava cuidar.Com o passar dos anos, o bosque transformou-se em uma imensa floresta.As árvores cresciam saudáveis.Entre seus galhos, aves luminosas construíam ninhos.Pequenos riachos atravessavam os caminhos de pedra.As crianças brincavam entre as sombras das copas sem imaginar que aquele lugar existia por causa de uma guerra que quase destruiu o mundo.E era exatamente isso que Selena desejava.Que a nova geração conhecesse mais a paz do que o sofrimento.Naquela manhã, Selena caminhava len
Cinco anos passaram como o vento atravessando as montanhas.As cicatrizes da guerra ainda existiam.Algumas podiam ser vistas nas antigas muralhas reconstruídas.Outras permaneciam escondidas no coração de quem perdera pessoas queridas.Mas nenhuma delas impedia a vida de seguir em frente.O reino havia florescido.As antigas alcateias, que durante séculos viveram separadas por desconfiança e orgulho, agora mantinham caminhos abertos entre seus territórios.Mercadores cruzavam as florestas levando alimentos, tecidos e ervas medicinais.Curandeiros viajavam livremente para atender qualquer família que precisasse de ajuda.Os festivais voltaram a acontecer.As crianças cresciam ouvindo histórias sobre coragem, amizade e esperança, não sobre vingança.Ao redor do castelo, as pequenas mudas plantadas anos antes haviam se transformado em um bosque.Cada árvore carregava uma pequena placa de madeira.Nela não havia nomes de reis ou guerreiros.As placas registravam apenas uma frase."Planta
O caminho de volta não foi marcado por trombetas, celebrações ou grandes desfiles.A família atravessou o portal da Biblioteca da Origem em silêncio.Cada passo parecia mais leve.O Jardim Esquecido continuava belo, mas havia mudado.As raízes da Árvore do Equilíbrio brilhavam com intensidade renovada.Ao lado dela, a jovem Árvore da Esperança já exibia galhos delicados cobertos por folhas douradas. Pequenos pássaros luminosos construíam ninhos entre seus ramos, como se soubessem que aquele lugar seria o coração de uma nova era.O ancião observou as duas árvores lado a lado.— Elas crescerão juntas daqui em diante.Eron aproximou-se lentamente.Seu semblante já não carregava o peso de incontáveis séculos.Ainda existia tristeza em seus olhos, mas agora ela dividia espaço com serenidade.— Enquanto uma lembrará ao mundo o valor do equilíbrio, a outra lembrará que ninguém deve carregar a própria dor sozinho.Aiden sorriu.— Elas são como irmãs.O ancião riu.— Exatamente.Assim que deix







