FAZER LOGINSelene
Um murmúrio atravessou o salão. Selene não ouviu palavras. Ouviu sangue. O próprio. Rugindo nos ouvidos. Mirella estava ao lado de Darius. No lugar que deveria ser dela. O branco de seu vestido parecia brilhar sob a lua, quase ofensivo contra a escuridão do salão. A postura dela era perfeita. O sorriso, pequeno e satisfeito. Como se a cerimônia inteira tivesse sido escrita para aquele momento. Como se Selene fosse apenas um erro de cenário, uma mancha cinzenta perto demais da luz. Darius não olhou para ela. Esse foi o primeiro golpe. Não a presença de Mirella. Não os sussurros. Não o choque atravessando os rostos de alguns poucos que ainda acreditavam na antiga lei do vínculo. Foi o fato de Darius continuar imóvel. Frio. Inteiro. Como se Selene não estivesse sangrando por dentro antes mesmo que a faca fosse erguida. O ancião Morvan hesitou, mas apenas por um segundo. Seu rosto velho se contraiu com algo que poderia ser medo, desconforto ou obediência. Talvez os três. Na alcateia Lua Sangrenta, todos aprendiam cedo que questionar um Alfa era diferente de ter coragem. Era pedir para ser esmagado. — Alfa Darius — disse ele, a voz mais baixa. — Você reconhece diante da lua a fêmea que ocupará o lugar de Luna ao seu lado? Darius ficou imóvel. Selene sentiu o vínculo dentro de si se esticar como uma corda prestes a arrebentar. Olhe para mim. Por favor. Só uma vez. Por uma fração de segundo, ela quis ser pequena o bastante para implorar sem que ninguém visse. Quis voltar a ser a menina que o observava do pátio de treino, escondida atrás das colunas, enquanto ele derrotava três guerreiros adultos sem sequer perder o fôlego. Quis acreditar que havia uma explicação. Uma ameaça. Uma estratégia. Qualquer coisa que justificasse aquela crueldade polida diante da lua. Então ele olhou. E foi pior. Não havia surpresa em seus olhos. Não havia conflito visível. Apenas uma decisão já tomada, afiada e fria como uma espada limpa depois do golpe. O coração de Selene caiu antes que ele falasse. — Eu reconheço Mirella Aster como minha escolhida. O salão explodiu em sussurros. Selene não se moveu. Talvez porque seu corpo não entendesse ainda. Talvez porque algumas dores fossem grandes demais para caber no primeiro segundo. Mirella baixou os cílios, fingindo modéstia. Mas Selene viu o canto de sua boca tremer de prazer. Viu seus dedos se fecharem delicadamente na manga de Darius, como quem toma posse de algo diante de todos. Minha escolhida. As palavras ecoaram na cabeça de Selene. Escolhida. Não companheira predestinada. Não vínculo de sangue. Escolhida. Como se destino fosse algo que se pudesse substituir por conveniência. Como se a lua tivesse voz, mas não autoridade. Como se Selene fosse tão pouca coisa que até a profecia dentro de seu corpo pudesse ser ignorada. O ancião respirou fundo. — E quanto ao vínculo de sangue? Dessa vez, o salão inteiro prendeu a respiração. Darius finalmente virou o rosto para ela. Tudo em Selene morreu e acendeu ao mesmo tempo. Ele caminhou em sua direção. Cada passo parecia esmagar algo invisível no chão entre eles. As pessoas se afastaram, abrindo passagem. Ninguém ousava tocar no Alfa. Ninguém ousava tocar na vergonha. Selene permaneceu onde estava. Não por coragem. Por orgulho. Era tudo que ainda lhe restava. Quando Darius parou diante dela, Selene teve que erguer o rosto. De perto, ele era devastador. O cheiro dele a atingiu com violência: pele quente, noite, domínio. O corpo dela reagiu antes da razão. A respiração falhou. A pele formigou sob o vestido simples. Aquela parte estúpida, traidora, faminta dentro dela ainda o reconheceu. Mesmo agora. Mesmo ali. Os olhos de Darius escureceram um pouco, como se ele também tivesse sentido. Selene viu. Ele viu que ela viu. Por um instante, nada existiu além da respiração dos dois. Nem Mirella. Nem a alcateia. Nem a lua. Só o fio invisível entre seus corpos, ainda vivo, ainda pulsando, ainda implorando por uma misericórdia que nenhum deles parecia saber dar. — Selene Aster — ele disse. A voz dele era baixa, rouca, feita para comandar batalhas e quebrar joelhos. No peito dela, porém, soou como uma carícia cruel. Ela odiou isso. Odiou desejá-lo ainda. Odiou que sua pele quisesse se aproximar da mão que vinha para destruí-la. Darius sustentou seu olhar. E, naquele silêncio, Selene compreendeu antes da alcateia. Ele não viera pedir perdão. Viera terminar o serviço. — Eu, Darius Varek, Alfa da Lua Sangrenta, rejeito você como minha companheira predestinada. As palavras não entraram. Elas rasgaram. Selene sentiu primeiro no ventre, uma contração brutal, quente, como se garras invisíveis arrancassem algo vivo de dentro dela. Depois no peito. Depois na garganta. O mundo inclinou. As colunas se dobraram. O chão pareceu longe demais. Alguém riu. Mirella, talvez. Ou a alcateia inteira. Darius deu um passo mais perto, tão perto que só ela ouviu sua próxima frase. — Aceite, Selene. Não foi um pedido. Foi uma ordem. E isso, mais do que a rejeição, quase a fez cair.A mina escolheu o instante em que compreendi que Darius me deixaria partir para mostrar o quanto eu ainda desejava ficar. O chão se abriu em círculos de prata sob nossos pés, e uma onda de calor atravessou a câmara. Kaian recuou imediatamente. Darius tentou levantar, mas a ferida sob suas costelas o obrigou a apoiar a mão na parede. Fui até ele por instinto, antes que meu orgulho pudesse protestar. Quando meus dedos tocaram seu braço, a marca lunar em meu peito acendeu com tanta violência que todos os círculos responderam. — Selene, afaste-se — ele disse, rouco. — Você está em posição de dar ordens? — Não. Estou pedindo. A diferença quase me fez sorrir. Quase. Então as paredes desapareceram, substituídas por espelhos de água suspensos no ar. Neles, vi Darius me olhando de maneiras que nunca permitira diante de outras pessoas. Não havia desprezo, nem frieza. Havia desejo, arrependimento e uma fome tão silenciosa que minha garganta apertou. Uma inscrição surgiu na pedra: TERCEIRA
Kaian apareceu diante de mim com sangue seco na camisa e a expressão de um homem que acabara de perder alguma coisa, mas ainda acreditava poder conquistar o mundo.A projeção de minha mãe havia desaparecido minutos antes, deixando na água negra três círculos incompletos. Morvan. A mina. O trono. Eu ainda sentia a voz de Liora atravessando meus ossos quando Kaian saiu do corredor lateral, sozinho, com os olhos escuros presos em Darius.Meu Alfa rejeitador estava sentado contra a parede, recuperando-se da prata ritual. A ferida permanecia aberta sob a faixa improvisada, e cada respiração exigia esforço. Mesmo assim, quando Kaian se aproximou, Darius ergueu a cabeça sem baixar os olhos.Dois Varek.Dois lobos acostumados a disputar o mesmo território.E eu, mais uma vez, tratada como se fosse a parte mais valiosa da guerra.— Precisamos conversar — Kaian disse.— Então comece explicando por que está vivo e onde deixou Mirella.Ele soltou uma risada amarga.— Sua preocupação comigo é como
A mão de Kaian ainda tremia quando se afastou do meu pescoço, e eu compreendi que um homem podia desejar uma mulher desesperadamente sem jamais escolher ficar ao lado dela.A marca de Seraphine ardia no chão da cela, espalhando veios vermelhos pela pedra azul. Minha garganta conservava o calor dos dedos dele. Não havia marcas, mas a lembrança daquele gesto me enojava mais do que qualquer ferimento. Kaian estivera perto demais de atravessar uma fronteira sem retorno. O pior era saber que uma parte de mim ainda queria a boca dele. Desejo, descobri, não tinha a menor obrigação de possuir dignidade.— Afaste-se — ordenei.Ele obedeceu.O gesto deveria ter me satisfeito. Em vez disso, deixou entre nós um vazio quente, quase ofensivo.Seraphine se apoiou na parede da cela, respirando com dificuldade.— Se terminaram de tentar destruir um ao outro, Morvan continua ouvindo.A voz dele respondeu das pedras:— E aprendendo.A marca vermelha avançou pelo chão. Kaian encontrou uma fenda na parede
MirellaMorvan disse que agora sabia exatamente onde cortar, e Kaian olhou para mim como se eu tivesse acabado de entregar a lâmina.A cela de Seraphine tremia atrás da grade, metade aberta, metade faminta. As correntes caídas nos pulsos dela ainda fumegavam, mas a marca no chão continuava segurando seu corpo como raiz de ferro. O ar cheirava a prata queimada, sangue Varek e minha própria pele ferida. Meus dedos ardiam onde eu tocara o fecho. A dor era limpa demais para me assustar. O olhar de Kaian, não.Ele estava parado a um passo de mim, uma mão na própria ferida, a outra fechada com tanta força que os nós dos dedos haviam perdido a cor. O homem que segundos antes pediu permissão para ficar atrás de mim agora voltava a ser algo mais antigo. Mais treinado. O filho de Aldar Ren Varek, criado para esmagar qualquer coisa que parecesse fraqueza antes que o mundo usasse contra ele.— Você abriu uma porta para Morvan — ele disse.A voz veio baixa.Perigosa.— Eu abri uma corrente.— Você
MirellaSeraphine me pediu ajuda com a mão estendida através da grade, e eu senti a parte mais feia de mim procurar vantagem antes de encontrar compaixão.Foi rápido. Quase imperceptível. Um cálculo antigo, elegante, treinado em salões onde sobreviver significava sorrir enquanto alguém decidia meu valor. A irmã secreta de Kaian era uma chave. Uma garantia de sangue. Uma arma contra Morvan, contra Aldar, contra a Coroa Partida e, talvez, contra o próprio homem que me olhava como se eu fosse o erro mais bonito e perigoso de sua vida. Se eu a libertasse, poderia negociar. Poderia cobrar. Poderia fazer Kaian ajoelhar, pedir, sangrar orgulho diante de mim.A velha Mirella teria amado essa ideia.A nova, se é que eu podia chamar aquela rachadura de novidade, olhou para a menina acorrentada e viu outra peça usada por homens que escreviam destinos com tinta de sangue feminino.Aquilo me enojou.Principalmente porque reconheci o tabuleiro.— Não toque nela — Kaian disse.O tom dele era baixo,
MirellaA irmã morta de Kaian respirava atrás de uma parede de prata lunar, e eu odiei perceber que a primeira coisa que senti não foi medo.Foi reconhecimento.Seraphine Varek estava sentada no chão de uma cela estreita, os joelhos dobrados, os pulsos marcados por correntes finas que desapareciam dentro da pedra azul. Tinha os olhos de Kaian, aquela mesma escuridão arrogante de quem nasceu perto demais do poder, mas nela a arrogância havia sido raspada até sobrar osso. Era jovem. Jovem demais para carregar aquele silêncio nos ombros. A marca da Coroa Partida no pulso brilhava fraca, como brasa sufocada. Uma moeda de sangue, pensei, e senti o pergaminho escondido contra meu peito pesar como uma segunda pele suja.Kaian deu um passo em direção à cela.— Seraphine.A menina sorriu sem doçura.— Ainda lembra meu nome. Que tocante. Pai teria ficado desapontado.A voz dela era seca, fina de desuso, mas havia uma lâmina ali. Família Varek, sem dúvida. Até quebrados, eles encontravam um mod







