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A Consequência

Author: Batistad
last update publish date: 2026-07-29 11:44:41

Selene

Os olhos de Selene arderam.

A dor era tão grande que ela poderia ter implorado. Poderia ter agarrado a camisa de Darius, pedido explicação, pedido misericórdia, pedido para ele olhar para ela não como Ômega, não como erro, mas como a mulher cujo destino tinha sido entrelaçado ao dele antes de ambos nascerem.

Mas Mirella estava atrás dele.

Os anciãos observavam.

A alcateia esperava seu colapso como se fosse entretenimento.

E Darius… Darius a encarava como se precisasse que ela terminasse aquilo rápido para que ele pudesse continuar respirando.

Então Selene fez a única coisa que ainda lhe pertencia.

Ela sorriu.

Pequeno.

Trêmulo.

Cheio de lágrimas que não caíram.

Os olhos de Darius se estreitaram. Pela primeira vez naquela noite, a frieza dele rachou.

— Selene…

O nome dela na boca dele doeu de um jeito indecente.

Como se ele ainda tivesse direito.

Como se pudesse quebrá-la em público e chamá-la com aquela voz baixa, rouca, íntima demais para um homem que acabara de negar o destino.

Selene endireitou a coluna.

Cada osso protestou.

Cada batida do coração parecia empurrar vidro por dentro de suas veias.

Mas ela ficou de pé.

— Eu aceito sua rejeição, Alfa Darius.

A voz dela saiu baixa, mas atravessou o salão como vidro quebrando.

Mirella perdeu o sorriso.

Darius ficou imóvel.

Selene sentiu o vínculo arrebentar.

Não foi como cortar uma fita.

Foi como arrancar uma raiz antiga de dentro do peito.

A dor foi tão absurda que o corpo dela tentou dobrar ao meio, mas ela cravou as unhas na palma das mãos e permaneceu de pé. Sangue quente escorreu entre seus dedos. O cheiro metálico se abriu no ar, pequeno no início, depois intenso o bastante para alguns lobos virarem o rosto.

Ela respirou.

Uma vez.

Duas.

O mundo ainda tremia.

Mas ela não caiu.

— Eu aceito — repetiu, olhando direto para ele. — E devolvo a você toda a vergonha que tentou me dar.

Um silêncio mortal caiu.

A boca de Darius se abriu um pouco, como se aquelas palavras o tivessem atingido fisicamente. Seus olhos desceram para as mãos dela, para o sangue escorrendo entre seus dedos, depois voltaram ao rosto de Selene com uma sombra que não era apenas raiva.

Era medo.

Não.

Não medo.

Reconhecimento.

Selene inclinou a cabeça, delicada como uma serva, cruel como uma rainha nascida tarde demais.

— Que sua escolhida lhe dê tudo que você merece.

Ela passou por ele.

Ou tentou.

Darius segurou seu pulso.

O toque foi fogo.

Selene congelou.

A mão dele era grande, quente, firme demais contra sua pele. O corpo dela traiu cada pedaço de dignidade que ainda tentava sustentar. A respiração ficou curta. O luto, o desejo e a dor se misturaram em uma náusea doce e terrível.

Darius sentiu também.

Ela soube pelo modo como os dedos dele apertaram por um segundo. Pelo modo como sua pupila dilatou. Pelo modo como a voz saiu mais baixa quando ele disse:

— Não faça isso.

Selene riu sem som.

— Fazer o quê? Sobreviver?

Ele não respondeu.

Talvez porque não tivesse direito.

Talvez porque o lobo dentro dele estivesse, naquele exato instante, percebendo o que o homem acabara de perder.

Selene puxou o pulso.

Ele não soltou.

O salão parecia desaparecer nas bordas. Havia apenas aquele contato. A palma dele em sua pele. O calor do vínculo morto ainda se debatendo entre ambos, como um animal ferido recusando-se a morrer. Selene sentiu o próprio corpo tremer, não de fraqueza, mas de algo novo, algo subterrâneo, algo que não pedia permissão.

Então ela olhou para a mão dele.

Depois para o rosto.

— Tire sua mão de mim, Alfa.

Foi apenas um sussurro.

Mas algo passou pelo salão.

Uma pressão.

Um estalo invisível.

O corpo de Darius obedeceu antes que o orgulho dele decidisse.

Os dedos se abriram.

Lentamente.

Como se uma força mais antiga que a autoridade dele tivesse ordenado.

Selene não entendeu.

Darius também não.

Mas os olhos dele mudaram.

Pela primeira vez, o Alfa da Lua Sangrenta olhou para ela não com desprezo, não com distância, não com culpa.

Com assombro.

Selene deu um passo para trás. O peito queimava. O sangue nas mãos pulsava. Havia um calor estranho subindo por seus braços, espalhando-se por baixo da pele como luar líquido.

Mirella gritou alguma coisa.

Talvez o nome de Darius.

Talvez uma ordem.

Talvez apenas medo.

Alguém chamou Selene.

O salão começou a girar.

As colunas negras se alongaram como árvores mortas. As fitas vermelhas tremularam sem vento. O incenso apagou de repente, deixando no ar um cheiro antigo, mineral, como pedra molhada por sangue.

Selene olhou para baixo.

Entre seus dedos ensanguentados, uma luz prateada brilhava.

Fraca no início.

Depois mais forte.

Viva.

O pânico atravessou os rostos ao redor.

Os guerreiros recuaram.

As nobres levaram as mãos à boca.

O ancião Morvan ficou branco como os ossos.

— Impossível… — ele murmurou.

Darius deu um passo em sua direção, a voz rouca, quase quebrada:

— Selene… o que você é?

Ela ergueu os olhos para ele.

A dor ainda estava lá.

A vergonha também.

O amor ferido, agonizante, sangrando como um animal no escuro.

Mas, por baixo de tudo, algo novo abriu os olhos dentro dela.

Algo antigo.

Feminino.

Furioso.

E com fome.

Selene sorriu mais uma vez.

Dessa vez, sem lágrimas.

— A consequência.

Então a luz em seu sangue explodiu.

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