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Capítulo 7

Auteur: Clara Jardim
Sem pestanejar, Alice bloqueou Augusto.

Menos de um minuto depois, o telefone voltou a tocar. Era um número desconhecido.

Nem precisava pensar muito para saber que devia ser algum colega ou amigo dele.

Nesta vida, Alice jamais voltaria a ser a trouxa de antes. Se conseguissem arrancar dela um único grão de comida, ela consideraria aquilo uma derrota.

Ela desligou o celular.

Quando ergueu os olhos, viu que Mimi havia adormecido no sofá. A pequena dormia encolhida, como se até nos sonhos permanecesse inquieta e insegura.

Alice mediu sua temperatura, a febre havia baixado para 38 °C.

Sua riqueza não podia ser exibida. Com Mimi ali, ela não podia continuar preparando pratos elaborados. Então sentou-se para comer o macarrão, que já estava empapado, e, mesmo assim, achou incrivelmente saboroso.

A varanda possuía apenas uma janela como saída de emergência. Todo o restante dos vidros havia sido coberto com película fosca. A luz continuava entrando normalmente, mas ninguém do lado de fora conseguia enxergar o interior do apartamento.

Alice pegou vasos, terra para cultivo e alguns quilos de batatas. Cortou as batatas em pedaços, deixando pelo menos um broto em cada um. Depois cobriu os cortes com cinzas vegetais para evitar o apodrecimento antes de plantá-los. Havia preparado cerca de vinte vasos, e todos foram levados para a varanda do espaço dimensional.

Em seguida, plantou alho, cebolinha, alface, couve, acelga, espinafre e outras hortaliças.

Também instalou suportes metálicos vazados para pendurar os vasos nas grades da varanda.

Se cuidasse bem delas, nunca mais lhe faltariam verduras frescas.

Ela ainda nem havia lavado as mãos quando alguém começou a bater forte na porta.

— Alice! Alice! — A voz era desconhecida.

Se não estivesse enganada, devia ser algum colega de Augusto.

Ela soltou uma risada fria.

Pelo visto, a fome realmente tinha apertado.

— Alice, você sempre gosta de cozinhar. Será que pode dividir um pouco de comida com a gente?

— A gente compra, se preferir! Pagamos o dobro... não, cinco vezes o preço!

— Aceita meu pedido de amizade. Faço a transferência agora mesmo.

— Ei, somos todos amigos. Vamos continuar nos encontrando no futuro. Precisa mesmo ser tão cruel? — Mesmo separadas por duas pesadas portas de aço inoxidável, as vozes ainda podiam ser ouvidas.

Logo os insultos começaram, e a pessoa deu um chute na porta.

Alice pegou imediatamente o cutelo que estava na cozinha e abriu a porta de repente.

— Quem foi que chutou a minha porta?! — Ergueu a lâmina e desceu com força na direção deles.

Do lado de fora estavam três rapazes que, ao ouvirem a porta abrir, seus rostos chegaram a se iluminar.

Todos sabiam que Alice era completamente apaixonada por Augusto. Ela podia deixar qualquer pessoa passar fome, mas jamais deixaria o "amado" dela sofrer, certo?

Os salgadinhos tinham acabado na noite anterior, eles passaram o café da manhã e o almoço sem comer. Já não aguentavam mais. Restavam apenas algumas garrafas de cerveja, que só aumentavam mais ainda a fome.

Augusto sempre dizia que Alice era uma pessoa estranha e tinha mania de estocar alimentos. Comprava tanta coisa que parte acabava vencendo antes mesmo de ser consumida, parecia uma idosa acumuladora.

Costumavam zombar dela pelas costas inúmeras vezes. Mas quem diria que agora essa excentricidade acabaria salvando suas vidas?

Antes mesmo que conseguissem dizer qualquer palavra, o cutelo veio cortando o ar, fazendo os três se jogarem para o lado, assustados.

— Alice, você enlouqueceu?! — Um deles, enfurecido, gritou.

— Caiam fora. Eu não tenho filhos, muito menos sem-vergonha como vocês. — Ela permaneceu bloqueando a entrada, com um olhar frio e ameaçador.

Os três ficaram completamente atônitos por um momento.

— Alice! Que porra é essa?! — Um deles gritou.

— Se eu não sou a mãe de vocês, por que teria obrigação de alimentar marmanjos? — A ferocidade de Alice era palpável enquanto erguia o cutelo. — Chutem minha porta de novo e vejam se eu não pico vocês para servir de petisco.

Ela tinha sobrevivido três anos no apocalipse. Havia lutado, matado, testemunhado o pior lado da natureza humana.

Ao verem sua aura assassina, ficaram chocados e sentiram um arrepio na espinha.

— V-você... Somos todos amigos. E não é como se não fôssemos te pagar!

— Mesmo que eu tivesse comida, preferiria dar tudo para os cachorros de rua antes de dar para vocês. Acham que eu não sei como vivem falando de mim pelas costas? — Ela os encarou. — Já que me desprezam tanto, tenham um pouco de orgulho e não venham bater na minha porta. Ou foi só ficar duas refeições sem comer que viraram covardes?

Os rostos dos três ficaram vermelhos de raiva, seus corpos tremiam.

— Digam ao Augusto para parar de me implorar por comida, enquanto abraça Eloísa. Vive às custas dos outros e ainda posa de orgulhoso. Que descarado! Se voltarem a me importunar, conto tudo no fórum da universidade e no grupo do condomínio. Quero ver se ele ainda tem um pingo de vergonha!

— Você... você vai se arrepender! — Disse um deles.

Passar fome algumas vezes não era nada. Eles ainda eram homens, ainda tinham orgulho.

Além disso, Alice estava agindo como uma louca, brandindo um cutelo, parecia realmente capaz de matar alguém. Na cabeça deles, ela devia ter enlouquecido depois de descobrir o relacionamento entre Augusto e Eloísa.

— Isso não vai ficar assim!

Depois de largarem aquela ameaça, foram embora de maneira humilhante.

Alice não respondeu, apenas cravou o cutelo na parede com toda a força. O estrondo assustou tanto os três que eles saíram correndo.

Depois daquela demonstração de ferocidade, provavelmente ficariam um bom tempo sem ousar voltar.

Ela fechou a porta e então percebeu que Mimi havia acordado com toda a confusão. Lágrimas brilhavam em seus olhos, ela queria chorar, mas parecia ter medo até disso. Encolhida no sofá, tremia sem parar.

Aquela criança definitivamente carregava algum trauma profundo.

Alice deixou o cutelo na cozinha e suavizou completamente a voz.

— Não tenha medo, Mimi. Aqueles eram homens maus. Eu já mandei todos embora.

Ela tocou novamente a testa da menina, a febre havia diminuído bastante.

— Está com fome? — Ao ouvir o estômago dela roncar, perguntou.

Mimi assentiu, mas logo balançou a cabeça negativamente.

— E o meu irmão?

O morador do 1801 ainda não havia voltado, então Alice entrou na cozinha fingindo preparar alguma coisa. Na verdade, retirou do espaço dimensional uma tigela de sopa com carne magra.

Mimi estava faminta. Enquanto comia, levantava os olhos para Alice de vez em quando. Parecia receosa de que ela ficasse brava de repente.

Sensível daquele jeito, era bem provável que tivesse crescido em um ambiente familiar complicado.

Alice bagunçou delicadamente seus cabelos e lhe deu um pirulito.

— Obrigada, moça.

Mimi era extremamente comportada. Ficou quietinha, encolhida no sofá.

Alice voltou a mexer no celular. Ao abrir as mensagens mais recentes, encontrou Augusto pedindo ajuda no grupo do condomínio.

Ele era bonito, simpático, com boas notas e sempre muito sociável, bastante popular na universidade. Como muitos estudantes alugavam apartamentos naquele condomínio, assim que ele apareceu no grupo, várias garotas responderam.

[Eu tenho pão e algumas refeições congeladas. Se você precisar, pode vir buscar]

Alice abriu o perfil da garota. Ela morava no décimo segundo andar. Parecia ser estudante de Contabilidade. Baixinha, delicada e muito bonita.

Se não estava enganada, também era apaixonada por Augusto.

Um estava disposto a dar, e o outro a receber. Não havia muito o que comentar.

No entanto, provavelmente ela ainda não fazia ideia de que não seria apenas Augusto quem apareceria, e sim um grande grupo de pessoas.

Aquele grupo era como uma nuvem de gafanhotos. Por onde passava, não sobrava absolutamente nada.

Alice lembrava-se de já ter visto aquela garota voltando para casa, carregando sacolas de supermercado. Ela costumava cozinhar, devia ter uma boa quantidade de alimentos estocados.

Se fosse esperta o suficiente, perceberia que havia sido enganada e acordaria para a realidade antes que fosse tarde.

Alice pensou por um instante, então também escreveu uma mensagem no grupo dizendo que estava com fome.

Ninguém respondeu.

Em seguida, ofereceu vinte reais em troca de um pacote de macarrão instantâneo ou de pão, mas ainda assim continuou sem receber qualquer resposta.

Lá fora, o furacão rugia sem parar. As janelas antigas do prédio ao lado começaram a estourar uma após outra. O vento invadia os apartamentos, produzindo um uivo assustador. O nível da água nas ruas continuava subindo.

Agora, todos finalmente acreditavam que aquele realmente era um furacão que acontecia apenas uma vez a cada século.

O clima no grupo, tão animado pela manhã, desapareceu por completo. Muitas pessoas estavam entrando em pânico.

Mimi adormeceu novamente.

Com medo de que sentisse frio, Alice cobriu a menina com um cobertor.

Pouco depois, alguém bateu à porta várias vezes.

— Mimi.

Reconhecendo a voz do morador do 1801, Alice abriu a porta.

Ele vestia uma capa de chuva, estava completamente encharcado. Na mão, segurava o bilhete que ela havia deixado na porta.

— A Mimi está aqui?

Alice assentiu.

— Ela pegou um resfriado forte e teve febre alta. Chorou tanto que acabou vomitando e quase se engasgou. Dei remédio, a febre já baixou. É só continuar com o medicamento para gripe.

O homem demonstrou alívio, mas logo ficou surpreso.

— Você é médica?

— Sei só um pouco.

Ele entrou no apartamento e colocou a mão na testa de Mimi.

Alice imaginou que ele simplesmente a levaria embora, mas, para sua surpresa, ele disse:

— Desculpe incomodar. Meu nome é Artur Moura. Me mudei para cá ontem. Ainda não tenho praticamente nada em casa. Pelo jeito, esse furacão não vai parar tão cedo. Preciso sair para comprar algumas coisas. Será que a Mimi pode ficar aqui por enquanto? Venho buscá-la esta noite.

— Com um furacão desses, ainda é seguro sair? — Alice ficou surpresa.

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