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Capítulo 6

Auteur: Clara Jardim
Alice jamais imaginou que o novo morador do apartamento 1801 seria justamente o jovem que a havia ajudado no centro de distribuição.

Ele pareceu um pouco surpreso ao vê-la, apenas assentiu com a cabeça em cumprimento e voltou ao trabalho.

Era um homem de traços bonitos, porém frios. Alto, esguio e de porte atlético. Mesmo sob a camiseta, era possível perceber o contorno dos músculos, transmitindo uma sensação de força explosiva.

Alice sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Depois de retribuir o cumprimento, voltou imediatamente para seu apartamento.

Desta vez, muitas coisas estavam diferentes. O furacão tinha chegado antes do previsto, e agora ela tinha um novo vizinho.

Que pessoa em sã consciência instalaria três portas de aço inoxidável?

O melhor seria que continuassem vivendo em paz, mas ela jamais baixaria a guarda.

Era verdade que ele havia lhe salvado a vida, mas isso tinha acontecido antes do apocalipse. Quando a moral desaparecesse e a sobrevivência se tornasse prioridade, quem poderia garantir que ele continuaria sendo a mesma pessoa?

Depois de trancar a porta, Alice escovou os dentes, tomou banho e tomou café da manhã.

O céu estava um pouco mais claro do que antes, mas continuava carregado e sombrio.

Ela foi até a varanda e observou o furacão rugir como um espírito enlouquecido, golpeando as paredes do prédio sem parar. A chuva castigava os vidros blindados, produzindo uma sequência incessante de estalos.

Em apenas uma noite, as ruas haviam desaparecido sob a água. Carros ficaram submersos por toda parte, e aqueles estacionados nas regiões mais baixas foram arrastados pela violência da enchente.

A cortina de chuva tornava impossível enxergar ao longe. O horizonte estava envolto em uma névoa cinzenta e sombria. O céu parecia cada vez mais pesado. Como se mãos invisíveis de pura escuridão pressionassem toda a cidade na palma da mão, esmagando-a lentamente.

Com um binóculo nas mãos, Alice observava tudo da varanda. As ruas da cidade eram uma vasta extensão de água, as nuvens escuras pairando cada vez mais baixo, uma enorme coluna de água rodopiante conectando o céu e a terra, girava violentamente, sugando árvores, carros e tudo o que encontrava pelo caminho, como se quisesse devorar o mundo inteiro. Um tornado.

Alice assistiu, impotente, enquanto o tornado partia um viaduto ao meio. Relâmpagos atingiram árvores e provocaram incêndios, que logo foram apagados pelas chuvas torrenciais.

Na vida anterior havia tornados?

Ela não conseguia se lembrar, mas, quanto mais observava, mais sentia que os acontecimentos estavam diferentes. E pareciam caminhar para um futuro ainda pior.

As notificações do celular não paravam de tocar. Irritada com o barulho, ela desligou a internet e voltou para a cozinha.

Passou horas lavando, cortando e preparando legumes. Preparar os miúdos de porco e de boi também dava bastante trabalho e levava bastante tempo.

Depois de tantas horas, perdeu completamente o apetite. No almoço, fez apenas uma tigela simples de macarrão.

Quando desligou o exaustor, ouviu vagamente o choro de uma criança.

Sem dar muita importância, ela recolheu o lixo, amarrou os sacos e saiu para descartá-los.

Quando estava prestes a voltar para casa, percebeu que o choro vinha do apartamento ao lado.

Ela cursava Medicina havia apenas um ano, ainda estava longe de ser uma profissional, mas sabia mais do que a maioria das pessoas. E aquele choro não parecia normal.

Depois de hesitar por alguns instantes, bateu à porta do 1801.

— Mimi.

As três portas de aço eram tão grossas que ela precisou bater várias vezes. Após um longo tempo sem resposta, quando já ia embora, ouviu o som das fechaduras sendo destrancadas. Pouco depois, as três portas se abriram, uma após a outra, revelando uma garota tímida com os olhos marejados de lágrimas, vômito ainda escorrendo pelo canto da boca e o rosto anormalmente corado.

— Mimi, por que você está chorando? — Alice tocou sua testa.

Estava escaldante e seu nariz escorria sem parar. Era um forte resfriado acompanhado de febre alta.

— Onde está seu pai?

— Meu irmão sumiu... — A menina respondeu com a voz rouca pelo choro, enxugando as lágrimas. — O meu irmão também não quer mais saber de mim...

Também?

Então ela já havia sido abandonada antes.

Alice lançou um olhar para as três pesadas portas de aço, depois acariciou delicadamente a cabeça da menina, tentando tranquilizá-la.

— Não é isso. Talvez ele só tenha saído para resolver alguma coisa. Daqui a pouco volta. Que tal esperar ele na minha casa?

Para uma criança de apenas cinco anos, doente e em um ambiente desconhecido, tudo parecia ainda mais assustador. Mas ela ainda se lembrava daquela moça à sua frente e, depois de hesitar por um instante, assentiu.

Alice levou Mimi para seu apartamento e mediu sua temperatura. Estava acima de 39 °C.

Ela encontrou um remédio infantil para gripe, que também possuía efeito antitérmico, e ajudou a menina a tomá-lo.

Com receio de que o responsável voltasse e se preocupasse, escreveu um bilhete e o colou na porta do apartamento 1801.

Enquanto ouvia o furacão rugindo do lado de fora, Alice não conseguiu evitar pensar no vizinho.

Quem sairia de casa em um tempo daqueles? Era praticamente suicídio!

Trovões e relâmpagos acompanhavam constantemente o vendaval.

A televisão já estava sem sinal. Mimi permanecia encolhida no sofá, abraçando os próprios joelhos, completamente apavorada.

Aquela cena fez Alice voltar à própria infância. Quando adoecia no orfanato, via outras crianças sendo cuidadas pelos pais, enquanto ela só podia abraçar o travesseiro e chorar sozinha na cama. Era como se tivesse sido abandonada pelo mundo inteiro.

Sem saber como cuidar de uma criança, depois de pensar um pouco, ela pegou o tablet e colocou um desenho animado que havia baixado anteriormente.

O resultado foi imediato, o desenho era atraente e Mimi finalmente pareceu um pouco mais animada. Alice sentou-se ao lado dela e começou a mexer no celular.

Vários contatos piscavam na tela, incluindo o de Augusto.

[Alice, ontem eu fui grosseiro. Não fica brava comigo]

[Eu estava realmente esperando que você viesse ao meu aniversário. Quando você não apareceu, fiquei muito decepcionado...]

Ele parecia tão confiante, mas bastou uma única noite para ceder.

Claro. Na festa de aniversário havia muita gente, provavelmente ainda restavam sete ou oito pessoas na casa dele. Tinham preparado apenas salgadinhos, cerveja e bolo.

Ele não sabia cozinhar, então onde conseguiria comida?

Mesmo que ainda tivessem alguns pacotes de macarrão instantâneo e biscoitos, não seria suficiente para alimentar tanta gente.

Ela olhou o horário. A mensagem havia sido enviada uma hora antes. Sem dúvida, ele estava com fome e queria comida.

Além das mensagens dele, havia vários pedidos de amizade. Todos enviados depois que Augusto tinha mandado mensagem. Ela ignorou todos.

Os pais de dois dos seus alunos também mandaram mensagens agradecendo pelo aviso sobre o furacão. Disseram que, graças a ela, conseguiram correr ao supermercado a tempo. Caso contrário, suas famílias teriam ficado sem comida.

Continuou lendo as mensagens dos grupos. Havia quem exibisse banquetes de frutos do mar, quem postasse fotos fazendo fondue acompanhado de uma garrafa de vinho enquanto ouvia o vento do furacão. Outros abriam os enormes refrigeradores para mostrar quanto haviam estocado.

As pessoas competiam entre si, completamente alheias às consequências que enfrentariam.

Com quinze dias de furacão e chuvas torrenciais, mesmo que o governo quisesse socorrer toda a população, as condições simplesmente não permitiriam. Quando a comida começasse a faltar, essas pessoas seriam as primeiras a se tornar alvo de saqueadores.

Mas, entre tantas exibições, também surgiam pedidos de ajuda. E não eram poucos. A maioria vinha de jovens acostumados a viver de delivery, gastavam dinheiro sem pensar e nunca cozinhavam. Em casa tinham pilhas de roupas, cosméticos e máscaras faciais. Mas, comida?

Nenhuma.

[Ontem fui ao supermercado, mas todo o macarrão instantâneo já tinha acabado. Alguém pode me ajudar?]

[Também não consegui comprar nada. Só encontrei dois pacotes de farinha, mas nem panela eu tenho]

Depois que uma pessoa começou, muitas outras fizeram o mesmo.

Chegou até a haver quem convidasse garotas bonitas para ir comer em casa. Uma pena que morassem em prédios diferentes.

Havia muito mais curiosos assistindo à conversa do que pessoas realmente dispostas a ajudar. Até que alguém sugeriu trocar um pacote com cinco máscaras faciais por um pacote de macarrão instantâneo. Pouco depois, alguém aceitou.

As mensagens eram tantas que Alice deslizava a tela rapidamente. Então, um vídeo compartilhado chamou sua atenção.

Um carro havia sido arrastado pela correnteza e bombeiros enfrentavam o furacão para realizar o resgate. No instante seguinte, uma enxurrada ainda maior engoliu todos eles.

Havia muitos vídeos semelhantes, alguns mostravam resgates bem-sucedidos, outros terminavam com total destruição.

Alice sentiu o peito apertar de tristeza. Estava prestes a desligar o celular, quando Augusto apareceu novamente na tela...

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