FAZER LOGINNOITE DE LEILÃO
SEBASTIAN Conforme a noite avança implacavelmente, a mansão enche-se até o limite de convidados abastados. — O elegante e requintado salão, decorado com lustres de cristal maciço que brilham suavemente, está repleto de homens ricos e bem vestidos, adornados com gravatas de grife feitas de pura seda e abotoaduras cintilantes de ouro, que trocam palavras em tons sussurrados, como se compartilhassem segredos preciosos de um cartel. As paredes, revestidas com tapetes finos e antigos, parecem sussurrar histórias de celebrações passadas e decadência, enquanto os aromas sofisticados que emanam da cozinha prometem delícias capazes não apenas de satisfazer o paladar, mas de criar memórias hedonistas. Embora a elegância fria do ambiente faça parte da minha rotina corporativa na Europa, sinto que a atmosfera desta noite está impregnada de uma expectativa densa, exatamente como quando se aguarda o início de uma grande apresentação teatral em que cada detalhe parece pronunciar um espetáculo extraordinário e imoral. — As risadas leves misturam-se ao tilintar constante de taças de cristal com champanhe caro, criando uma sinfonia de alegria superficial e antecipação predatória que preenche cada metro quadrado do espaço. Às nove horas em ponto, Madame Edith faz a sua entrada triunfal no alto dos degraus, capturando instantaneamente a atenção de todos os presentes com uma confiança inata que irradia de sua postura imponente e do modo altivo como atravessa o salão, parecendo uma rainha tirana que adentra o seu reino particular. — Assim que ela começa a falar, o murmúrio geral cessa de imediato como se um feitiço de silêncio tivesse sido lançado, e dezenas de olhares masculinos famintos fixam-se nela, pendendo de cada palavra proferida. Com um gesto teatral e exagerado, ela proclama que a noite será memorável, prometendo uma experiência exclusiva que transcende o ordinário, e então apresenta ao público a novata Nina, descrevendo-a de forma marqueteira como uma figura intrigante que possui um "corpo de pecado e rosto de anjo". — Essas palavras calculadas, que evocam um equilíbrio perfeito entre o desejo carnal e a inocência corrompida, acendem instantaneamente a cobiça e a curiosidade dos convidados, lembrando o magnetismo magnético de uma obra de arte viva, com suas feições etéreas e aura cativante. O ar ao redor parece ficar eletrizado, como se a própria essência trágica de Nina fosse capaz de despertar inspirações ocultas e desejos animalescos adormecidos, deixando a plateia pronta para mergulhar em um mundo onde o ordinário se torna subversivo. Com um estalo de dedos estrepitoso que ecoa no salão como um sinal mecânico, as cortinas de veludo se abrem de supetão, revelando Nina em toda a sua glória vulnerável, exposta como uma estátua de mármore para apreciação e disputa. Ela usa saltos altos vermelhos que lhe conferem uma postura altiva e poderosa, embora desajeitada pela tensão, com cada passo ecoando como batidas secas no silêncio reverente da plateia. — As meias pretas, adornadas com uma cinta-liga vermelha chamativa, apertam suas coxas e realçam suas curvas voluptuosas, como se cada peça do figurino tivesse sido escolhida para destacar o contraste entre sua juventude e a perversão do leilão, transformando-a em uma musa contemporânea à venda. Sua camisola transparente desliza suavemente sobre a pele clara, criando uma imagem quase miragem, um vislumbre de algo altamente desejado, mas terrivelmente inalcançável. — Os cabelos longos e pretos, soltos até a cintura e meticulosamente estilizados, ocultam parcialmente seu rosto e conferem um ar artificial de mistério à sua persona; enquanto uma venda vermelha cobre rigidamente seus olhos, sem conseguir disfarçar o pavor absoluto que a deixa rígida como uma estátua petrificada em cima do pedestal. É como se ela estivesse fisicamente presente ali, mas sua alma recusasse pertencer àquela cena extravagante, evocando a figura trágica de uma deusa tímida acorrentada em um altar, aguardando o julgamento cruel da plateia masculina, imersa em um mar de olhares avaliadores que carregam o peso do apetite e da humilhação. A atmosfera está carregada de um suspense palpável, como se o oxigênio estivesse rarefeito, enquanto pergunto a mim mesmo o que realmente se passa na mente daquela mulher cercada por um glamour ostentoso, mas esmagada por uma vulnerabilidade palpável. Eu assisto a tudo aquilo de pé, completamente atento, sem desviar o olhar nem por um segundo, plenamente consciente de detalhes microscópicos que parecem escapar aos demais bilionários ao meu redor. — Para mim, a cena não se limita à exibição barata de um corpo exposto para consumo; há algo profundamente perturbador ali, como um nevoeiro denso que encobre uma tragédia silenciosa. A rigidez antinatural de Nina, acompanhada por um tremor imperceptível em suas mãos atadas à frente, revela uma contenção deliberada e desesperada, como se ela estivesse segurando um grito estridente dentro do peito para não desabar na frente de todos. Seus dedos, pálidos e trêmulos, lutam contra a própria imobilidade imposta pelo figurino, enquanto o formato do seu rosto sob a venda transmite um conflito brutal entre o medo paralisante e uma determinação doentia. — É como se ela estivesse implorando por socorro em silêncio, transformando cada segundo daquela exposição em um peso insuportável de carregar. Por trás da venda, sua postura contradiz todo o ouro, as luzes e o luxo ao redor, sugerindo um abismo de desespero onde suas emoções são sufocadas por uma opressão sufocante. — Não vejo mais um simples leilão de elite; vejo um ritual sombrio, um teatro comercial de almas vendidas onde a dignidade humana se dissolve sob a pressão implacável do dinheiro. A governanta da casa se aproxima com passos firmes e começa a soltar os nós decorativos que prendem simbolicamente os pulsos e as coxas de Nina, um ato que parece mecânico para a plateia, mas que carrega um simbolismo de humilhação profunda. — O som suave dos laços se desfazendo ecoa no silêncio da sala, criando uma tensão palpável que parece atingir apenas a mim. Nesse exato instante, impulsionado por um impulso protetor que nem eu mesmo consigo racionalizar, decido dar um passo à frente, rompendo a linha dos espectadores, e estendo a minha mão na direção dela, como se estivesse oferecendo uma boia de salvamento a alguém prestes a afundar em alto-mar. Imediatamente ao tocá-la, percebo um detalhe alarmante que os outros ricaços ignoram: sua pele está absurdamente fria ao toque, como se o pavor tivesse congelado seu sangue, e há um tremor violento e visível percorrendo todo o seu corpo, manifestando-se em contrações sutis, mas inegáveis, como uma folha seca fustigada por uma ventania. — Esses sinais físicos denunciam o estado de choque em que ela se encontra, uma fragilidade exposta sob os holofotes cruéis da mansão. Sem pronunciar uma única palavra, seguro firmemente sua mão gelada e a conduzo comigo em direção à suíte Vênus, cruzando o salão em meio aos olhares surpresos dos demais convidados. — O trajeto que traçamos funciona simultaneamente como uma rota de fuga e a consumação definitiva de um acordo perigoso. Ela caminha ao meu lado em um silêncio sepulcral, carregando não apenas o peso físico daquela noite — uma mistura sufocante de angústia, nojo e desespero —, mas também o fardo invisível da escolha drástica que a obrigou a se vender, queimando a cada passo que damos juntos. Como um gesto instintivo de solidariedade humana que contradiz a minha frieza habitual, aperto levemente os dedos dela, transmitindo um sinal mudo de que, pelo menos por ora, ela não está sozinha naquele labirinto. — Enquanto a guio para longe da multidão gananciosa, refletindo sobre as consequências irreversíveis daquele leilão, percebo em sua respiração ofegante a luta de alguém que se entregou ao destino mais sombrio para salvar o que ama. — Encaro este momento não apenas como um comprador que adquiriu um lote exclusivo, mas como um homem relutante lançado à posição de protetor em meio a uma travessia por águas terrivelmente desconhecidas.Nós nos preparamos para ir embora do shopping. — A Márcia está virando de costas ao meu lado para pegar uma das sacolas quando uma voz masculina, alterada e nojenta, atravessa o barulho do corredor e surge bem atrás de nós:— Eu sabia que você não tinha ido embora de Curitiba, sua desgraçada!Eu reconheço aquela voz repugnante no mesmo instante.— É o Pedro, justo hoje ele tinha que estar aqui?.A Márcia congela no lugar, ficando completamente pálida. — Quando eu me viro rapidamente, eu vejo o Pedro avançando com tudo na nossa direção, cego de raiva e visivelmente transtornado. — Eu não espero nem meio segundo para ver o que ele pretende fazer. — Entrego o Michael imediatamente para os braços da Sabrina e me coloco com o meu corpo inteiro entre o Pedro e a Márcia, encarando o miserável de frente:— Cai fora daqui agora, cara!— Você não vai tocar um único dedo na minha mulher!O Pedro para abruptamente a dois passos de mim, surpreendido com a minha postura, e me encara enfurecido:
RICARDOAmanhã é o nosso casamento civil, o mês passou rápido demais entre a separação de documentos, as conversas constantes com os meus advogados, os preparativos necessários e tudo aquilo que eu preciso organizar antes da minha mudança definitiva para os Estados Unidos. — O contrato de casamento está totalmente pronto e a Márcia faz questão absoluta de deixar registrado no papel que não quer nenhum direito sobre o meu patrimônio.—' Eu até poderia discutir com ela sobre isso, mas eu sei que essa exigência é fundamental para que ela se sinta confortável com o nosso acordo.— Para a Márcia, precisa ficar totalmente claro que ela não está se casando comigo por dinheiro e que o nosso casamento tem um objetivo muito definido: dar a ela e ao Michael a oportunidade de começarem uma vida nova e digna, bem longe das garras do Pedro.Hoje é domingo e amanhã, exatamente às nove horas da manhã, nós estaremos no cartório.— Eu olho para a Márcia enquanto ela está sentada na sala brincando c
MÁRCIA Continuamos o jantar, mas minha cabeça ainda está presa ao que Ricardo me contou sobre a visita de Pedro ao escritório. — Tento imaginar como ele conseguiu descobrir quem é Ricardo, porque naquela noite não sabia sequer o nome do homem que havia me tirado da casa de Madame Edith. — Pedro ficou na parte de baixo da mansão enquanto Ricardo me levava para longe daquele lugar, portanto alguma coisa deve ter acontecido durante esses dias para que ele descobrisse sua identidade e chegasse até a empresa. — Quanto mais penso nisso, mais preocupada fico, principalmente porque começo a perceber que nem mesmo o silêncio de Pedro durante essas duas semanas significa que ele desistiu de me procurar. — Seguro os talheres por alguns instantes, olho para Ricardo e resolvo perguntar: — Ricardo, como foi que o Pedro descobriu o seu escritório? Ricardo termina de mastigar antes de responder. — Ele parece realmente cansado, e agora consigo compreender que o dia dele deve ter sido muito mai
PEDRO Eu jogo o celular sobre o sofá e me levanto pisando fundo, sentindo o peito bufando de raiva. — Até o Jean, um cara que eu conheço há anos e que devia me dar uma luz como advogado, resolveu ficar do lado daquele desgraçado. — Fica me dando lição de moral, falando de crime, de cativeiro e dizendo que a Márcia teve sorte, Sorte? Aquela mulher me deve tudo o que tem, me deve o teto onde morou durante três anos e o prato de comida que colocou para dentro. Caminho até a janela e fico olhando para a rua vazia da minha vila. — O sol da tarde b**e no asfalto quente e eu sinto a raiva se transformar numa frustração amarga. O Jean disse que eu posso ir parar na cadeia se pisar numa delegacia. —Disse que o Ricardo tem advogados, tem dinheiro, tem o nome da empresa e ainda tem a Madame Edith do lado dele para testemunhar. Eu sei como esse pessoal rico funciona. Eles pagam quem for preciso, colocam o delegado no bolso e fazem a justiça virar do lado deles em questão de minutos. Se
PEDRO Eu chego em casa ainda com o sangue fervendo nas veias e olho furioso para todos os lados daquela sala modesta. — A humilhação amarga que eu passei nas mãos daquele franguinho do Ricardo, me escorraçando da empresa dele como se eu fosse um cachorro vira-lata, não vai ficar barato de jeito nenhum. — O Ricardo pode ter rios de dinheiro, empresa multinacional, segurança na porta e aquele gigante do sócio dele para ficar me fazendo ameaças veladas, mas ele não pode simplesmente esconder a Márcia de mim e achar que eu vou aceitar essa situação de braços cruzados. Eu vou direto dar parte dele na delegacia de polícia. Eu vou dizer para o delegado que ele sequestrou a minha esposa e o meu filho. — É exatamente isso o que eu vou fazer para ferrar a vida dele. Eu começo a andar de um lado para o outro na sala, mas, quanto mais eu penso na ideia, mais eu percebo que existe um problema enorme nessa história toda. —Já faz duas semanas inteiras que a Márcia desapareceu. —Se eu
MÁRCIA Meu Deus, Michael, você viu? O Ricardo vai te dar um nome de verdade, meu filho. — Agora você vai ter um pai, um pai de verdade para te proteger. Eu olho para o meu bebê no meu colo e sinto meus olhos se encherem de lágrimas instantaneamente, mas, desta vez, não são lágrimas de medo, de vergonha ou de desespero. — Eu aperto o meu filho contra o meu peito e beijo a cabecinha macia dele, tentando compreender como a nossa vida consegue mudar de forma tão drástica e abençoada em tão pouco tempo. — Eu faço absolutamente tudo por você, meu filho sussurro para ele, com a voz embargada. — Eu faço qualquer coisa para te ver bem. — Eu vou até o inferno se for preciso para te proteger. Só existe uma parte daquela conversa com o Ricardo que ainda deixa o meu coração apertado e sobressaltado dentro do peito. — O Pedro teve a coragem e a cara de pau de ir até o escritório dele. — Depois de duas semanas do leilão, aquele homem continua atrás de mim e eu nem preciso pergunt







