INICIAR SESIÓNPaula observou Susan por alguns segundos.
A amiga estava estranhamente calma. Calma demais. Susan permanecia parada no corredor, olhando para o vazio, como se ainda estivesse tentando compreender tudo o que acabara de acontecer. — Vamos embora daqui — disse Susan, guardando o celular na bolsa. Paula a acompanhou em silêncio até a saída do hospital. Já do lado de fora, antes que Susan entrasse no carro, Paula segurou delicadamente seu braço. — Susan... — Estou bem. — Não, você não está. Susan forçou um sorriso. — Estou sim. Paula respirou fundo. Seu coração acelerou. Durante todo o caminho até a saída, ela havia tentado decidir se deveria contar ou não o que descobrira. Mas mentir para Susan nunca foi uma opção. A amizade das duas havia sido construída sobre confiança. E confiança exigia verdade. Mesmo quando a verdade machucava. Paula aproximou-se um pouco mais. Sua voz saiu embargada. — Eu conversei com uma enfermeira daquele andar. Susan permaneceu imóvel. — E daí? Paula engoliu em seco. — A mulher daquele quarto foi internada com risco de perder o bebê. Os olhos de Susan piscaram lentamente. — B-bebê? — Sim. O silêncio que se seguiu pareceu interminável. — E o marido dela... — continuou Paula, quase sussurrando. — Está desesperado porque pode perder o primeiro filho. Susan sentiu algo se partir dentro dela. Não foi uma sensação física. Foi pior. Foi como se todos os anos de casamento, todas as desculpas, todas as ausências e todas as promessas quebradas tivessem se transformado em estilhaços. — O-o…, o primeiro filho... — repetiu ela. Paula assentiu. As lágrimas começaram a fluir, mas ela não permitiu que escorresse. Ela não se permitiu chorar. Não naquele momento. Apenas fechou os olhos por alguns segundos. Quando os abriu novamente, pareciam vazios. — Obrigada por me contar. — Susan... — Eu estou bem. Paula sabia que era mentira. A pior mentira que Susan já havia contado. Susan se despediu, entrou no carro e partiu. A estrada parecia interminável. A noite estava fria. Os faróis do carro iluminavam apenas alguns metros à frente. Susan dirigia mecanicamente. As lágrimas escorriam sem controle. Ela mal conseguia enxergar. A revelação de Paula ecoava sem parar em sua mente. "O primeiro filho." "O primeiro filho." "O primeiro filho." Como assim o primeiro filho? E o bebê que ela carregava? E todos aqueles anos? Todas as esperas? Todos os aniversários passados sozinha? Todas as promessas quebradas? Um aperto violento tomou conta de seu peito. Ela levou uma das mãos ao coração. A respiração ficou difícil. Curta. Irregular. — Não... não... não... Tentou inspirar profundamente. Mas não conseguiu. Outra pontada atravessou seu corpo. Dessa vez mais forte. Muito mais forte. Susan arqueou as costas. Uma expressão de dor surgiu em seu rosto. Então sentiu algo quente. Úmido. Ela olhou para baixo. Por um instante não compreendeu. Mas quando viu o vestido molhado, o sangue desapareceu de seu rosto. — Meu Deus... Sua bolsa havia estourado. O bebê estava chegando. Naquele exato momento. Sozinha. No meio da estrada. Sem ninguém. Sem ajuda. Sem Durval. Outra contração a atingiu. Violenta. Susan gritou. O carro balançou levemente. Com dificuldade, conseguiu encostar no acostamento. As mãos tremiam. O corpo inteiro tremia. Ela pegou o celular. A tela permaneceu preta. Desligado. Sem bateria. — Não... não... por favor... Procurou desesperadamente pelo carregador. Abriu a bolsa. Mexeu entre os objetos. Nada. O cabo havia ficado em casa. O pânico começou a sufocá-la. Uma nova contração veio. Mais intensa. Mais longa. Susan apertou o volante com tanta força que seus dedos ficaram brancos. Os minutos pareciam horas. Nenhum carro. Nenhuma luz. Nenhuma alma. Apenas ela. A escuridão. E a dor. Então... Ao longe, dois faróis surgiram. Susan ergueu a cabeça imediatamente. As lágrimas voltaram. Ela abriu a janela. Colocou o braço para fora. Acenou desesperadamente. — Por favor... O carro se aproximou. Um sedan preto. Luxuoso. Passou lentamente ao lado dela. Por um segundo, Susan acreditou que seguiria viagem. Seu coração afundou. Mas então... As luzes vermelhas dos freios acenderam. O veículo parou alguns metros adiante. — Obrigada, meu Deus... A porta do motorista se abriu. Um senhor de cabelos grisalhos, vestindo um elegante terno preto, saiu rapidamente. Ao se aproximar da janela, encontrou Susan completamente abatida. Suada. Pálida. Em sofrimento. — Meu Deus... Ele imediatamente percebeu a gravidade da situação. Sem perder tempo, correu de volta ao carro. Poucos segundos depois retornou acompanhado de um homem mais jovem. Alto. Elegante. Na faixa dos trinta e cinco anos. O desconhecido se aproximou rapidamente. Ao ver o estado de Susan, seu semblante mudou. Então seus olhos desceram para o banco molhado. Foi o bastante. Ele entendeu tudo. Na mesma hora retirou o paletó. — Precisamos levá-la para um hospital agora. — Me ajude a tirá-la daqui — ordenou ao homem mais velho. Mas antes que pudessem tocá-la, uma contração ainda mais forte atravessou o corpo de Susan. Ela soltou um grito. Instintivamente levou as mãos ao ventre. E então sentiu. Sentiu algo diferente. Algo aterrorizante. O bebê estava descendo. Susan ergueu os olhos cheios de lágrimas. — Não... Outra onda de dor a fez gemer. — Não vai dar tempo... O homem se inclinou imediatamente. — O quê? — Não vai dar tempo... Ela respirava com dificuldade. O rosto completamente molhado de suor. — M-meu bebê... Mais uma contração. Mais um gemido. Então Susan segurou o braço dele com força. Uma força que nem sabia possuir. — E-ele… — ela puxou o ar tomando fôlego — ele está nascendo…Trevis mal havia conseguido atravessar o saguão quando chegou à entrada do hotel.Ainda estava atordoado.A imagem que acabara de ver continuava diante de seus olhos, repetindo-se de maneira cruel em sua mente.Ele precisava sair.Precisava respirar.Precisava ficar longe daquele lugar.Mas, antes que pudesse alcançar a porta, alguém entrou apressadamente no saguão.Trevis parou.O coração, que ainda estava acelerado pela dor, pareceu falhar outra vez.Susan.Ela vinha depressa, segurando uma grande bolsa de papel.Os olhos dos dois se encontraram.Trevis ficou imóvel.Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.Susan foi a primeira a perceber a expressão estranha no rosto dele.— Trevis?!Ele piscou, como se precisasse ter certeza de que ela realmente estava ali.— O que você está fazendo aqui?A pergunta saiu baixa.Trêmula.Embaraçada.Susan franziu a testa.— Aqui?— Sim, neste hotel... a essa hora?— Eu vim trazer uma coisa para a Paula.Trevis continuou olhando para ela, sem con
O primeiro drink havia sido apenas o começo.Depois de algum tempo conversando à mesa, entre provocações, risadas e algumas tentativas descaradas de Matias de impressionar Paula com seus famosos — e questionáveis — xavecos, a música mudou.O ritmo ficou mais envolvente.Matias olhou para a pista.Depois para Paula.— Dança comigo?Ela ergueu as sobrancelhas.— Você dança?! — perguntou ela surpresa. — Sei fazer algumas coisas.— Essa resposta não me tranquilizou — zombou ela estreitando os olhos e rindo levemente.— Você pode descobrir.Paula riu.— Convencido.— Interessado.Ele estendeu a mão.Ela olhou para aquela mão por alguns segundos antes de aceitá-la.— Só uma música.— Claro.Matias a conduziu até a pista.A princípio, os dois mantiveram uma distância razoável.Mas a música parecia pedir outra coisa.Aos poucos, Matias aproximou-se.Uma mão pousou delicadamente na cintura dela, enquanto a outra segurava sua mão.Paula sentiu o corpo reagir antes mesmo de conseguir pensar.—
Alguns dias haviam se passado desde o sábado na mansão Kinly.A rotina de todos havia retomado seu ritmo habitual.Susan estava novamente envolvida com o trabalho, Malcollys seguia ocupando boa parte de seus dias e, de alguma maneira, ela ainda se pegava lembrando de pequenos momentos daquela tarde.O sorriso de Trevis.A maneira como ele havia brincado com o filho.A despedida na porta da mansão.Nada grandioso.Nada que pudesse ser chamado de declaração.Mas havia ficado algo.E, vez ou outra, surgia em seus pensamentos sem que ela sequer percebesse.Paula, por outro lado, parecia ter encontrado uma distração própria.Certa tarde, seu telefone tocou.Ela olhou para a tela e franziu a testa ao reconhecer o número.Matias.Demorou um tempinho para atender.Mordeu o canto do lábios inferior.Então…— Alô?— Finalmente.Paula arqueou uma sobrancelha.— Finalmente o quê?— Finalmente atendeu. Eu já estava começando a pensar que você estava evitando falar comigo.Ela sorriu.— Talvez eu e
O sábado seguia tranquilo na mansão Kinly.Depois do almoço, a movimentação ao redor da piscina havia diminuído um pouco. À mesa sob a sombra de uma grande árvore, a senhora Margareth e Isabel conversavam tranquilamente. Os outros permaneciam próximos aproveitando o ar fresco do espaço aberto.Susan estava sentada em uma das espreguiçadeiras próximas à piscina, observando Malcollys.Trevis permanecia ao lado dela, com o menino no colo.Augusto havia lhe entregado o pequeno momentos antes, depois de uma brincadeira que arrancara risadas gostosas do pequeno.Malcollys parecia completamente à vontade nos braços de Trevis.Susan observava os dois com um sorriso discreto.Era uma cena simples.Quase familiar. E talvez por isso ela não tenha percebido imediatamente o celular vibrando sobre a mesa.Foi somente na segunda chamada que Susan estendeu a mão.Ao olhar para a tela, seu sorriso desapareceu por um instante.Durval. Ela respirou fundo. Desde a ida dele para o outro país, a
O fim de semana chegou trazendo uma espécie de expectativa silenciosa para Susan.Desde que havia combinado com os pais e Paula de se encontrarem na mansão Kinly, ela vinha pensando naquele sábado mais do que gostaria de admitir.Não havia nada de extraordinário no programa.Um churrasco.Família.Amigos.Uma tarde tranquila. Ainda assim, havia alguma coisa naquela visita que fazia Susan se sentir ligeiramente diferente.Talvez porque, depois de um tempinho, voltaria àquela casa sem estar fugindo de alguma coisa que acertasse seu peito.Na manhã de sábado, ela acordou cedo.Malcollys também não demorou a despertar, obrigando a mãe a abandonar qualquer tentativa de permanecer mais alguns minutos na cama.Depois de levantar-se, fazer sua higiene, seguiu pelo corredor ouvindo o burburinho do filho em seu quarto.— Bom dia, meu amor — disse ao entrar. Malcollys estava de pé tentando escalar a grade. Ela se aproximou do berço, sorrindo com as travessuras dele.— Além de acordar cedo, j
Três dias haviam se passado.A rotina de Paula continuava puxada.Plantões longos, poucas horas de sono e uma quantidade cada vez maior de material para estudar.Naquela noite, depois de mais um plantão no hospital, tudo o que ela queria era chegar em casa, tomar um banho demorado e dormir.Só isso.Sem conversa.Sem telefone.Sem ninguém buzinando nada em seu ouvido.Apenas sua cama e ela.Paula dirigia pela estrada enquanto bocejava, mantendo os olhos atentos à pista.Foi então que ouviu um barulho seco.— Não acredito nisso.Mais que droga!O carro puxou levemente para o lado.Ela segurou o volante com firmeza e reduziu a velocidade até conseguir parar em um trecho seguro do acostamento.Olhou para frente.Depois para o painel.— Não… — socou o volante em fúria.Desligou o motor, pegou o celular e desceu.Bastou caminhar até a dianteira do carro para confirmar o problema.O pneu dianteiro direito estava completamente vazio.Paula fechou os olhos.— Perfeito. Era tudo o que faltava







